| Victoria Mas | |
|---|---|
| Nascimento | 16 de maio de 1987 Le Chesnay, Yvelines, França |
| Nacionalidade | francesa |
| Parentesco | Jeanne Mas (mãe) |
| Alma mater | Universidade Sorbonne |
| Ocupação | Romancista |
| Prêmios | Prix Renaudot des lycéens (2019) Grand prix Stanislas du premier roman (2019) Prix Première Plume (2019) Prix Patrimoines BPE (2019) Talents Cultura (2019) |
| Magnum opus | O Baile das Loucas (2019) |
Victoria Mas (Le Chesnay, Yvelines, 16 de maio de 1987) é uma romancista francesa. É autora de O Baile das Loucas, romance ambientado no Hospital da Salpêtrière na época de Jean-Martin Charcot, vencedor do Prix Renaudot des lycéens e adaptado para o cinema por Mélanie Laurent - Le Bal des folles (2019; no Brasil, O Baile das Loucas). Sua obra gira em torno da psiquiatria do século XIX, do espiritismo, da fé e daquilo que a própria autora chama de "invisível".
Victoria Mas é filha da cantora Jeanne Mas. Passou a infância em uma aldeia do sul da França e depois viveu oito anos nos Estados Unidos, onde estudou na Califórnia.
De volta à França, obteve uma licenciatura em Línguas e Letras e um mestrado em Letras Modernas na Sorbonne. Trabalhou no cinema como assistente de produção, continuísta (scripte) e fotógrafa de cena. Também colaborou como colunista de cultura e roteirista em projetos de cinema, teatro e televisão. Publicou ainda, em inglês, um guia de expressões culinárias francesas, The Farm to Table French Phrasebook (Ulysses Press).
Seu primeiro romance, O Baile das Loucas, foi lançado pela Albin Michel em agosto de 2019, quando a autora tinha 31 anos. Antes mesmo da publicação, o livro despertou interesse na Feira do Livro de Londres e teve os direitos vendidos para editoras da Alemanha, Espanha, Itália e Reino Unido. Com tiragem inicial de cerca de 9 mil exemplares, foi reimpresso dez vezes em poucas semanas, chegando a 70 mil, e figurou nas seleções do Prêmio Renaudot e do Prêmio Femina. As vendas ultrapassaram 190 mil exemplares e o romance foi traduzido para cerca de 25 línguas.
O crítico Jérôme Garcin, da L'Obs, elogiou a prosa límpida do livro e destacou que a romancista denuncia o machismo de sua época e dá voz às mulheres silenciadas e hipnotizadas.
No Brasil, o romance foi publicado em 2021 pela editora Verus (Grupo Editorial Record) com o título O Baile das Loucas. Em Portugal e em outros países, também recebeu traduções; a versão inglesa, de Frank Wynne, saiu como The Mad Women's Ball (2021).
Em 2022 publicou Un miracle, sobre um adolescente que passa a ter visões da Virgem Maria na pequena ilha de Batz, na Bretanha. O livro tem como ponto de partida a história de Catarina Labouré e nasceu de uma visita da autora à Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, na rue du Bac, em Paris, onde ela teve a impressão de que os fiéis não duvidavam do que ali ocorrera. Questionada se havia sido criada na fé, respondeu que não. Em entrevista ao Le Pèlerin, Mas disse que a interessou sobretudo o aspecto sociológico das multidões que não duvidam e se deslocam, e que isso revela muito da relação humana com a fé, o invisível e o sagrado. Na Itália, o livro saiu como L'apparizione (Edizioni e/o, 2023) e, em inglês, como The Island of Mists and Miracles.
Seu terceiro romance, L'Orpheline du Temple, foi publicado pela Albin Michel em março de 2025. Estruturado como uma correspondência imaginária, acompanha Joseph Herbelin, jovem revolucionário de 19 anos nomeado em 1794 guarda da Torre do Templo, onde se apaixona pela prisioneira Maria Teresa, filha de Luís XVI e Maria Antonieta.
A relação entre a psiquiatria nascente do século XIX e o espiritismo é o eixo central de Le Bal des folles. O jornal Libération chegou a titular sua resenha com a pergunta «Spirite, es-tu là?» ("Espírito, estás aí?"), fórmula clássica das sessões mediúnicas.
O romance se passa em 1885 no serviço do neurologista Jean-Martin Charcot, que usava a hipnose para provocar e estudar crises de histeria diante de plateias de médicos e curiosos. O título remete a um evento real: o baile à fantasia de meados da Quaresma (mi-carême), para o qual a alta sociedade parisiense era convidada a passar uma noite em meio às internas. Segundo a imprensa, a autora pesquisou durante meses para reconstituí-lo. Mas afirmou que seu livro é ficção, mas baseado em fatos reais ocorridos com mulheres internadas na Salpêtrière, numa época em que a fronteira entre tratamento médico e voyeurismo era tênue.
Entre as figuras históricas evocadas estão o próprio Charcot, Joseph Babinski e Louise Augustine Gleizes, a paciente mais fotografada de Charcot, que serve de inspiração para a personagem Louise. A enfermeira Geneviève teria como modelo Marguerite Bottard, que chefiou a enfermaria das epilépticas e histéricas sob Charcot. Uma revista especializada em saúde mental (Santé Mentale) e o Le Quotidien du Médecin resenharam o livro, e ele se tornou objeto de estudo acadêmico sobre a história da histeria e do confinamento de mulheres.
A protagonista, Eugénie Cléry, de 19 anos, é filha de um notário parisiense e é internada à força pelo pai depois de confessar à avó que se comunica com os mortos — tem visões e ouve vozes. No romance, Eugénie procura O Livro dos Espíritos (1857), de Allan Kardec, obra fundadora da Doutrina Espírita, em busca de explicação para suas experiências. Por meio de sua mediunidade, ela passa a transmitir mensagens de Blandine, irmã falecida da enfermeira Geneviève — que, depois dessa morte na infância, havia abandonado a religião e depositado toda a sua fé em Charcot e na ciência. A transformação de Geneviève, que percebe que a ciência não explica tudo, é um dos fios condutores da narrativa. No epílogo, ambientado em 1890, Eugénie exerce discretamente seus dons mediúnicos.
O enredo coloca em confronto direto o diagnóstico psiquiátrico da época e a explicação espírita do mesmo fenômeno: aquilo que a medicina de Charcot classifica como alucinação e histeria é, na lógica do romance, mediunidade genuína. A editora brasileira resumiu o mistério de Eugénie de forma direta: ela vê espíritos. Alguns leitores críticos chegaram a considerar excessivo o espaço dado ao espiritismo no livro.
O interesse pelo sobrenatural continua em Un miracle, no qual a autora troca o espiritismo pelas aparições marianas e examina a fé coletiva, a dúvida e a histeria coletiva — sem tomar partido sobre a veracidade das visões. A própria Victoria Mas resumiu, em entrevista à rádio France Inter, que o invisível e a mudança são as duas questões que a interessam. A crítica da RCF observou que, assim como no primeiro romance ela explorou as reações humanas diante da loucura e do internamento, no segundo ela examina a reação de todos diante do surgimento do invisível.
É importante notar que as fontes disponíveis tratam esse interesse como literário e histórico: a autora não declarou publicamente ser adepta do espiritismo e afirmou não ter sido criada em nenhuma fé religiosa.
