Abdalcáder

Abdalcáder

عبد القادر
Abdalcáder
Nascimento
Morte
26 de maio de 1883 (74 anos)

NacionalidadeArgélia Argelino
OcupaçãoLíder político, militar e religioso
ReligiãoIslão

Abd al-Qadir ibn Muhyi al-Din (entre 1806 e 1808 – 26 de maio de 1883; em árabe: عبد القادر ابن محي الدين), conhecido como Emir Abdelkader ou ʿAbd al-Qadir al-Hasani al-Jazaʾiri, foi um líder religioso e militar árabe argelino que liderou uma luta contra a invasão colonial francesa de Argel de 1831 a 1847.

Como um estudioso islâmico e sufi que inesperadamente se viu liderando uma campanha militar, ele reuniu uma coalizão de tribos argelinas que resistiu a um dos exércitos mais poderosos da Europa por 17 anos. Seu tratamento com os prisioneiros e civis frequentemente foi citado como um dos primeiros exemplos de conduta humanitária na guerra, particularmente por seus oponentes cristãos.

Após sua rendição em 1847, ele foi detido na França por quase cinco anos antes de ser libertado por Napoleão III e levado para Bursa. Dois anos depois, em 1855, ele se estabeleceu em Damasco. Em 1860, sua intervenção para deter o massacre da comunidade cristã em Damasco lhe rendeu honras e prêmios de vários países. Foi também em Damasco que ele escreveu sua obra principal, o Kitab al-Mawaqif ("O Livro das Paradas").

Nome

Seu nome completo era Abdelkader Ibn Mahieddine El-Hasani.

A escolha do nome Abdelkader, comum na árvore genealógica do emir, presta homenagem a Abdul Qadir Gilani, fundador do século XI da irmandade sufi Qadiriyya em Bagdá, à qual a família de Abdelkader pertence.

Histórico familiar

Retrato de Emir Abdelkader

Abdelkader nasceu na Regência de Argel otomana entre 1806 e 1808 na aldeia de el Guetna (situada no uádi El-Hammam, cerca de 25 quilômetros a oeste de Mascara), em uma família pertencente à elite religiosa e marabuta.

Duas tradições genealógicas dentro de sua família traçam sua ancestralidade até Maomé. A primeira inclui Idris I de Marrocos (século VIII), bisneto de Alhaçane ibne Ali e fundador da Dinastia idríssida. A segunda inclui Abdul Qadir Gilani (séculos XI–XII), fundador da ordem sufi Qadiriyya.

O pai de Abdelkader, Muhieddine al-Hasani, era o muqaddam da Zauia cadirita de Oued El-Hammam. Seu conhecimento religioso e retidão fizeram dele um mediador entre a autoridade do Bei e o povo. Sua generosidade para com os pobres era bem conhecida, assim como sua integridade e imparcialidade, o que significava que ele era regularmente chamado para resolver disputas entre indivíduos, bem como entre tribos. Ele tinha boas relações com o Sultão Abd al-Rahman do Marrocos, que abriu suas fronteiras para os povos do Ocidente já em 1830. A mãe de Abdelkader, Lalla Zohra, uma mulher de letras e versada em religião, era filha de Omar Bendoukha, muqaddam de uma zawiya em Hammam Bou Hadjar. Afiliada à tribo Hachem, esta família vivia na planície de Ghriss desde que Abd el-Kadr ben Ahmed, uma figura erudita conhecida como Sidi Kada, se estabeleceu lá por volta de 1640; seu mausoléu continua sendo um dos locais religiosos mais visitados da região. Desde muito jovem, Abdelkader foi imerso em histórias sobre seus ancestrais, cuja piedade e aprendizado serviram como exemplos edificantes para ele.

Juventude

Abdelkader cresceu na zawiya do seu pai, que no início do século XIX se tornou o centro de uma comunidade próspera nas margens do Oued al-Hammam. Como as centenas de alunos sustentados pela zawiya, ele recebeu uma educação tradicional que englobava os princípios e a prática do Islã, as regras de etiqueta (adab), a prática das virtudes, leitura e escrita, gramática, exegese alcorânica (Tafsir), hádice e jurisprudência (fiqh). De acordo com relatos biográficos contemporâneos, ele já sabia ler e escrever aos cinco anos de idade. Aos 12, ele foi autorizado a comentar sobre o Alcorão e os hádices. Um aluno brilhante, ele memorizou todo o Alcorão aos 14 anos, recebendo assim o título de hafiz. Um ano depois, seu pai o enviou a Orã, sede da administração turca, para continuar sua educação. Um orador talentoso, ele capturou a atenção de seus colegas com sua poesia e oratória religiosa. Sua habilidade em domar e montar cavalos vinha desde a primeira infância.

Criado na fé, moralidade e moderação, Abdelkader achou difícil lidar com a atmosfera frouxa em Orã e voltou para El Guetna antes do fim do ano letivo. Lá ele continuou seus estudos por dois anos com seu primo Mustapha ben Thami, filho do mufti de Orã.

Em 1825, ele partiu para o Haje, a peregrinação a Meca, com seu pai. Em seguida, ele ficou em Medina, antes de viajar para Damasco e Bagdá, onde visitou os túmulos de muçulmanos notáveis, como Ibn Arabi e Abdul Qadir Gilani (chamado "al-Jilālī" na Argélia). Voltando a Meca um ano após sua primeira visita, ele fez uma segunda peregrinação. Essas experiências reforçaram seu compromisso religioso. No caminho de volta para casa, ele ficou impressionado com as reformas realizadas por Maomé Ali do Egito. Ele chegou à sua terra natal em 1827 e, no mesmo ano, casou-se com sua prima Kheira bint Boutaleb

Invasão francesa e resistência

1830–1833: Invasão francesa, eleição de Abdelkader

No início do século XIX, a Regência de Argel otomana era um estado enfraquecido. Numerosas rebeliões foram brutalmente reprimidas. As relações com a França, que por cerca de quarenta anos vinha atrasando o pagamento de uma dívida substancial devida à Regência, estavam tensas, e o incidente do golpe de leque (abril de 1827) serviu de pretexto para a marinha francesa bloquear o porto de Argel. Isso durou até junho de 1830, seguido pela invasão de Argel e o exílio de Hussein Dey (10 de julho de 1830), prelúdios da ofensiva colonial. Na França, a Revolução de Julho (27–29 de julho de 1830) pôs fim à Restauração (Carlos X), que foi substituída pela Monarquia de Julho (Luís Filipe I).

Em janeiro de 1831, o exército francês tomou Orã, a capital da Província Ocidental, e expulsou o Bei e sua guarnição. Deixadas por conta própria, as tribos do Oeste vivenciaram um período de instabilidade política: poderes rivais, conflitos intertribais recorrentes, saques e o colapso do comércio causado pela insegurança, bem como a ausência de uma tributação eficaz e administração judicial.

Em abril de 1832, o pai de Abdelkader foi convidado a liderar uma campanha de resistência contra os ocupantes. Muhieddine convocou a jihad e ele e seu filho estavam entre os envolvidos nos primeiros ataques sob as muralhas da cidade, mas sem sucesso, levando os líderes das três tribos de Orania —os Hachem, os Beni Amer e os Ghraba— a unir forças.

Em 22 de novembro de 1832, representantes dessas tribos se reuniram em Khassibia, perto de Mascara, para eleger um líder. Após a recusa de Muhieddine ao cargo alegando estar muito velho (ele morreu 7 meses depois), Abdelkader, com cerca de 25 anos, foi eleito Comandante dos Fiéis, Amir al-Mu'minin (geralmente abreviado para "Emir"), e assim líder da resistência. Abdelkader era visto como um candidato apropriado não apenas pela sua idade, mas também por seu próprio conhecimento, devoção religiosa e suposta descendência de Maomé. Apesar da relutância de algumas outras tribos, a nomeação foi confirmada cinco dias depois na grande mesquita de Mascara, e então pelo Sultão Abd al-Rahman do Marrocos, cuja preeminência Abdelkader teve o cuidado de reconhecer. Proclamação de Mascara:

'Para as comunidades de árabes e berberes: Saibam que os assuntos da autoridade principesca islâmica e a manutenção dos deveres religiosos da comunidade maometana passaram agora para as mãos do Protetor da Religião, o Senhor Abdelkeder ibn Muhy al-Din. E a declaração de lealdade foi feita a ele em reconhecimento disso, pelos 'ulama, pelos xarifes e pelos notáveis em Mascara. E ele se tornou nosso emir e fiador da manutenção dos limites da lei de Deus. Ele não segue os passos de nenhum outro, nem imita seus exemplos. Ele não pega uma sobra de riquezas para a sua própria parte, como outros podem ter feito. Ele não sobrecarrega seus súditos em nada além do que lhe é ordenado pela xaria imaculada, e não dispõe de nada senão da maneira adequada. E ele desfraldou a bandeira da jihad, e arregaçou as mangas para a tarefa, pelo bem-estar dos servos de Deus e a prosperidade da terra.'


As tribos ocidentais responderam de maneiras contrastantes ao chamado para a jihad: o vácuo de poder deixado pela captura de Argel levou algumas tribos do Makhzen e os Kouloughlis a pedir-lhe que reconhecesse a autoridade dos turcos do Constantinois; os mouros de Tremecém, privados do Mechouar ocupado pelos Kouloughlis, pediram-lhe que reconhecesse a autoridade do Sultão de Marrocos; e as tribos makhzen Douair e Smala, comandadas por Moustapha Ben Ismail, pediram-lhe que reconhecesse seu acordo com a França. Abdelkader reprimiu quaisquer tentativas de separação; após a sua entrada em Tremecém (verão de 1833), ele teve sua autoridade reconhecida, exceto pelos turcos e pelos Kouloughlis de Mechouar, que, no entanto, concordando em estabelecer relações pacíficas, ofereceram-lhe um guarda-sol de ouro, mas sem lhe abrir os portões da sua cidadela. Com o apoio dos mouros, o emir lançou o cerco do Mechouar, que falhou. (Uma nova tentativa, em 1835, também falhou e foi seguida por um apelo aos franceses pela guarnição de Kouloughli, que levou à primeira ocupação francesa da cidade (janeiro de 1836).)

Foi em nome do Islã e da jihad que o Emir reuniu e motivou as numerosas tribos e seus combatentes, e dentro de um ano, através de uma combinação de ataques contra as tribos rebeldes e uma política cautelosa, ele conseguiu unir as tribos da região e restaurar a segurança. Sua esfera de influência agora cobria toda a província de Orã, e o Exército da África o tratou como seu principal interlocutor.

1834–1835: Tratado de Desmichels, Batalha de La Macta

Tratado de Desmichels concluído em Orã em 26 de fevereiro de 1834 entre a França e Abdelkader.

Em 26 de fevereiro de 1834, o comandante francês do oeste da Argélia, o General Louis Alexis Desmichels, propôs um tratado de paz a Abdelkader, que o aceitou. O tratado reconheceu a sua soberania sobre os territórios ocidentais, com a exceção das cidades portuárias de Orã, Mostaganem e Arzew. O tratado exigia boas relações entre os franceses e os povos indígenas, respeito pelas religiões, a troca imediata de prisioneiros, liberdade de comércio e assim por diante. Para os franceses, esta era uma maneira de estabelecer a paz na região, ao mesmo tempo em que confinava Abdelkader no oeste. O seu status de signatário ajudou a fortalecer a sua posição aos olhos dos berberes e dos franceses. Para permitir que o emir subjugasse as tribos rebeldes, o general o ajudou a treinar uma força regular de infantaria e forneceu-lhe armas.

Usando este tratado como ponto de partida, o Emir impôs o seu domínio sobre as tribos do Chelif e capturou as cidades de Miliana e Médéa. O alto comando francês, descontente com o que agora viam como os termos desfavoráveis do Tratado de Desmichels, chamou de volta o General Desmichels e substituiu-o pelo General Camille Alphonse Trézel, o que causou o recomeço das hostilidades. Os guerreiros tribais de Abdelkader encontraram as forças francesas em junho de 1835 na Batalha de Macta, onde os franceses foram derrotados. A França respondeu intensificando as hostilidades, e sob novos comandantes capturou Mascara em dezembro de 1835 e Tremecém em janeiro de 1836.

1836–1837: General Bugeaud, Tratado de Tafna

Na primavera de 1836, novos reforços chegaram para reforçar o Exército da África, agora liderado pelo General Thomas Robert Bugeaud. O primeiro confronto entre os dois exércitos ocorreu em julho de 1836 nas margens do Sikkak; terminou em uma clara vitória francesa. Mas a opinião política na França estava se tornando ambivalente em relação à Argélia e, com o desejo de acabar com o conflito, o General Bugeaud foi "autorizado a usar todos os meios para induzir Abd el-Kader a fazer propostas de paz". O resultado, após negociações prolongadas, foi o Tratado de Tafna, assinado em 30 de maio de 1837. Este tratado deu ainda mais controle de partes do interior da Argélia para Abdelkader, que ganhou controle de toda a Província de Orã, da província vizinha de Titteri, e até além.

Após uma primeira tentativa fracassada em novembro de 1836, o exército francês, sob o comando do Marechal Bertrand Clauzel, capturou Constantina em outubro de 1837 —a última fortaleza otomana da Regência— forçando Ahmed Bey ao exílio. Dois anos depois, ele se rendeu aos franceses.

Tanto a sua estratégia militar como os tratados de paz cimentaram a reputação de Abdelkader, e os seus títulos de Comandante dos Fiéis e Sultão —embora contra a sua vontade— foram confirmados pelos tratados, o que fortaleceu a sua autoridade sobre os territórios sob seu controle, sem sequer ter que pagar tributo aos franceses. Em sua correspondência com o Sultão de Marrocos, ele usava apenas o título de emir para não incomodar o monarca, que o apoiava.

Tanto aliados quanto inimigos da época notavam a erudição filosófica e teológica de Abdelkader; em tempos de paz, ele nunca deixava sua biblioteca. Ele demonstrava liderança política e militar, era conhecido pelo seu espírito cavalheiresco e atuava como um administrador competente e orador persuasivo. Sua fé fervorosa nas doutrinas do Islã era inquestionável.

1837–1839: Período de paz e formação do Estado

Emirado de Abdelkader entre
1836 e 1839.

O período de paz após o Tratado de Tafna beneficiou ambos os lados, e Abdelkader aproveitou a oportunidade para consolidar o Estado sob seu controle, com capital em Tagdemt. Ele minimizava seu poder político, no entanto, recusando repetidamente o título de sultão e se esforçando para se concentrar na sua autoridade espiritual, obtendo uma fátua que lhe dava forte autoridade para convocar a jiade e tornar a evasão fiscal um "crime contra a comunidade muçulmana como um todo".[carece de fontes]? O Estado que ele criou era amplamente teocrático, e a maioria dos cargos de autoridade era ocupada por membros da aristocracia religiosa. Ele dividiu o seu território em oito regiões (khalifaliks), cada uma governada por um califa (khalifa); cada região foi dividida em distritos, chefiados por agás; cada distrito compreendia várias tribos, cada uma liderada por um qaid.

Outro aspecto de Abdelkader que o ajudou a liderar sua nação incipiente foi sua capacidade de encontrar e usar bons talentos, independentemente de sua nacionalidade ou religião. Ele empregava judeus e cristãos a caminho da construção de sua nação. Um deles foi Léon Roches, seu secretário e tradutor do final de 1837 ao final de 1839. O emir forneceu a cada khalifalik alfaiates, armeiros e seleiros, e estabeleceu uma pequena fundição de canhões em Tremecém. Ele colocou, nas cidades do interior, arsenais, oficinas e armazéns, onde guardava produtos agrícolas para serem vendidos a fim de comprar armas. Ele estabeleceu várias escolas onde as crianças aprendiam os fundamentos do Islã, bem como a ler e escrever. Ele montou tribunais de justiça e nomeou juízes (qadis). Ele cunhou sua própria moeda, a muhammadiyya (ou "boudjou de Abdelkader"), em referência ao profeta do Islã.

Emirado de Abdelkader em sua maior extensão.

Por um lado, para proteger seus recursos, seus meios de produção e a propriedade das tribos aliadas de novas agressões francesas, e por outro lado, para manter as tribos inquietas do Saara afastadas, o Emir teve fortificações construídas ao longo da extremidade sul do Tell: Sebdou, ao sul de Tremecém; Saïda, ao sul de Mascara; Tagdemt, a sudeste daquela cidade; Taza, ao sul de Miliana; Boghar, ao sul de Médéa; Bel-Kheroub, a sudeste de Argel; e Biskra, a sudoeste de Constantina.

Desde o início da jihad, a dissensão entre a população forçou o Emir ou seus representantes a intervir. Um dos principais centros de agitação foi Aïn Madhi, a fortaleza da influente irmandade Tijaniyyah. Após um cerco de seis meses, que começou em junho de 1838, as tropas de Abdelkader capturaram a cidade.

No final de 1838 —com cerca de 31 anos— o seu governo se estendia para o leste até a Cabília, e para o sul até Biskra, a porta de entrada para o deserto, e para o oeste até à fronteira com o Marrocos. Ele comandava uma força regular de 8 000 soldados de infantaria, 2 000 soldados de cavalaria e 240 artilheiros, apoiados por voluntários das tribos locais.

1839–1841: Retomada das hostilidades

A paz acabou quando o Príncipe Fernando Filipe, Duque de Orléans, filho mais velho do Rei Luís Filipe I, e o Governador-Geral Sylvain Charles Valée, ignorando os termos do Tratado de Tafna, chefiaram uma força expedicionária que rompeu os Portões de Ferro entre Constantina e Argel em 28 de outubro de 1839, e entrou no território sob a administração do Emir. Consequentemente, em 20 de novembro, instigado por seus califas, Abdelkader atacou os franceses na planície de Mitidja, parcialmente colonizada, e os derrotou. Em resposta, os franceses declararam guerra oficialmente, mas os combates estagnaram até que o General Bugeaud retornou à Argélia, desta vez como governador-geral, em fevereiro de 1841, seguido por 25 000 novos soldados, elevando a força do Exército da África para 85 000 homens. Abdelkader foi originalmente encorajado ao ouvir que Bugeaud, o promotor do Tratado de Tafna, estava retornando. Mas desta vez a estratégia de Bugeaud seria radicalmente diferente: sua abordagem era de aniquilação através de uma política de terra arrasada, com a conquista da Argélia como o objetivo final.

No começo, a luta foi a favor do Emir; no entanto, a resistência logo foi reprimida por Bugeaud, que se adaptou às táticas de guerrilha empregadas por Abdelkader, que atacava rápido e desaparecia no terreno com a infantaria leve. Os franceses aumentaram sua mobilidade. Para punir uma população devotada ao Emir, com o objetivo de forçá-la a se aliar à França por necessidade, o exército francês atacou a área, incendiou vilarejos e plantações, devastou áreas agrícolas e apreendeu gado. Em 1841, as fortificações do Emir já tinham sido quase todas destruídas, e ele foi forçado a vagar pelo interior da Província de Orã.

1842–1844: Captura da smala, retirada para o Marrocos

Em 1842, sitiado por todos os lados e com seus recursos financeiros no nível mais baixo de todos os tempos, ele viu muitos de seus seguidores forçados, muitas vezes pelo bem da sua sobrevivência, a se submeterem aos franceses. Ele perdeu o controle de Tremecém e, na sua ausência, sua capital itinerante — sua smala, consistindo em vários milhares de tendas abrigando dezenas de milhares de habitantes — foi descoberta em 16 de maio de 1843 em Taguine e saqueada pelas tropas do Duque de Aumale, o quinto filho de Luís Filipe I.

A Captura da Smala de Abd el-Kader em Taguine em 16 de maio de 1843. Horace Vernet, 1844, óleo sobre tela, 26 x 4,9 metros. Encomendado pelo Rei Luís Filipe I. Palácio de Versalhes.

Esse evento foi seguido por mais reveses significativos para o lado argelino e, no final do ano, Abdelkader retirou-se com suas tropas e apoiadores para o Marrocos, que era governado por Sultão Abd al-Rahman ben Hicham, que o apoiava. Enfurecidos em particular pelo apoio do Marrocos ao seu inimigo, os franceses bombardearam, em agosto de 1844, Tânger, depois Mogador, enquanto Bugeaud, promovido a marechal, cruzou a fronteira com 11 000 homens e derrotou o exército marroquino na Batalha de Isly (14 de agosto de 1844). Sob o Tratado de Tânger, assinado em 10 de setembro de 1844, a França forçou Abd al-Rahman a banir o Emir do seu território.

1845–1846: Crimes de guerra

Em junho de 1845, mais de 500 homens, mulheres e crianças da tribo Oulad Riah, perseguidos pela coluna do tenente-coronel Aimable Pélissier, refugiaram-se numa caverna na Cordilheira de Dahra. Depois de lhes ordenar sem sucesso que se rendessem, os soldados bloquearam a entrada com galhos, aos quais deitaram fogo, enchendo a caverna com fumaça e esgotando o oxigênio; apenas 40 deles sobreviveram. Este sufocamento com fumaça havia sido precedido um ano antes por um levado a cabo pelo Coronel Louis-Eugène Cavaignac contra membros da tribo Sbehas, que foram acusados ​​de assassinar colonos e qaids nomeados pelos franceses; caçados, refugiaram-se numa caverna onde todos pereceram. Em agosto de 1845, o Coronel Jacques Leroy de Saint-Arnaud descobriu 500 argelinos escondidos em uma caverna; como eles se recusaram a se render, ele mandou bloquear a entrada até que todos morressem.

De 23 a 25 de setembro de 1845, Abdelkader derrotou os franceses na Batalha de Sidi-Brahim, fazendo cerca de cem prisioneiros. Alguns dias depois, em Aïn Témouchent, ele capturou sem luta uma coluna francesa de 200 soldados que haviam sido chamados como reforços. Continuando a ofensiva, o Emir chegou às Hautes Plaines e pediu a um tenente para escoltar esses 300 prisioneiros à sua deira (antiga smala), sua capital móvel acampada em território marroquino às margens do Rio Moulouya, perto da fronteira da Argélia. Exposta às tropas francesas e marroquinas e com falta de comida, a deira, composta por cerca de 200 tendas, considerou esses prisioneiros como um fardo excessivo. Abdelkader fez repetidas propostas de troca, mas Bugeaud recusou, apostando numa libertação que ele acreditava que o Emir seria obrigado a conceder para aliviar as dificuldades da sua comunidade. Mas em 24 de abril de 1846, enquanto Abdelkader lutava a 300 milhas de distância, um dos seus tenentes, após consultar as outras autoridades do acampamento, ordenou a execução deles. Ele poupou 11 oficiais, confiante de que sua presença impediria represálias francesas. O Emir ouviu a notícia, mas devido aos combates, ele não retornou à sua deira até três meses depois. Ele propôs a Bugeaud que os 11 prisioneiros fossem trocados. Como essa oferta não deu em nada, ele planejou propor sua libertação em troca de um resgate, mas seus oficiais acreditavam que a segurança deles dependia da presença contínua dos reféns e só concordariam com o plano dele se o Emir assumisse a responsabilidade pelo crime. Abdelkader concordou e escreveu ao Rei Luís Filipe a esse respeito. Os prisioneiros foram devolvidos em troca de 33 000 francos. No que dizia respeito à França, o Emir tinha se desacreditado por meio deste massacre, embora certas autoridades no país, após cruzar as provas, tenham concluído que ele era inocente.

1847: Fim da resistência

Em janeiro de 1847, para expulsar os argelinos do seu território, o Sultão Abd al-Rahman ordenou que as tribos marroquinas vizinhas à deira de Abdelkader parassem de lhe vender comida, e que assediassem aqueles que tentassem obter suprimentos. Abdelkader suportou esta situação durante seis meses, e então partiu para a ofensiva, o que teve o efeito de mobilizar várias tribos marroquinas para a sua causa e facilitar o abastecimento do seu acampamento.

Após esse fracasso dos marroquinos, um assassino foi enviado para matar o Emir Abdelkader. Uma noite, enquanto ele estava lendo, um homem alto e corpulento entrou em sua tenda, com um punhal na mão. Abdelkader ergueu os olhos, e o homem imediatamente se atirou aos pés dele: "Eu ia golpear o senhor, mas a sua visão me desarmou. Achei ter visto a auréola do Profeta ao redor de sua cabeça."

Em julho de 1847, o sobrinho de Abd al-Rahman, Moulay Hashim, foi enviado junto com o governador do Rife, El Hamra, no comando de um exército marroquino para atacar o Emir e sua deira na Oued Aslaf. Os marroquinos foram derrotados, El Hamra foi morto e Moulay Hashim mal escapou com vida. O Emir então enviou seu vice, Bou Hamedi, para negociar com o sultão marroquino. Abd al-Rahman se recusou a vê-lo, o jogou na prisão, onde morreu de envenenamento.

No início de dezembro, dois dos filhos de Abd al-Rahman, comandando 50 000 soldados, foram derrotados na Batalha de Agueddin pelo exército de Abdelkader, composto de 1 200 cavaleiros e 800 soldados de infantaria. Logo depois, Abdelkader fez a escolha de se retirar do Marrocos. Enquanto ele e os seus homens repeliam um novo batalhão de soldados marroquinos enviados em sua perseguição, sua deira, compreendendo cerca de 5 000 pessoas, conseguiu atravessar com segurança o rio Kis e entrar em território francês.

No final de 1847, Abdelkader considerou a situação desesperadora e, preferindo cair nas mãos daqueles que o haviam combatido —os quais ele considerava leais— do que nas de Moulay Abd al-Rahman, que o havia traído, em 22 de dezembro ele propôs ao general Louis Juchault de Lamoricière depor as armas em troca de um salvo-conduto para Alexandria ou Acre. Sua proposta foi aceita, e no dia seguinte, sua rendição e sua contrapartida foram oficializadas pelo novo Governador-Geral, o Duque de Aumale, a quem Abdelkader entregou simbolicamente seu cavalo de guerra. O seu biógrafo britânico Charles Henry Churchill mais tarde escreveu: "A sua carreira militar tinha terminado. Até então a sua vida tinha sido dedicada a Deus e ao seu país. Daqui em diante deveria ser dedicada somente a Deus".

1848-1852: Prisão na França

Túmulo no Château d'Amboise de 25 membros da comitiva de Abdelkader que morreram durante sua prisão, incluindo uma de suas esposas, um de seus irmãos e dois de seus filhos.

O governo francês se recusou a honrar a promessa de Lamoricière e do Duque: o navio que transportava Abdelkader e sua comitiva — quase cem pessoas — seguiu para Toulon. Os argelinos ficaram mantidos ali por quatro meses no Forte Lamalgue, depois por seis meses no Castelo de Pau, antes de serem transferidos para o Castelo de Amboise em novembro de 1848. As condições de umidade no castelo levaram à deterioração da saúde, bem como da moral, no Emir e nos seus seguidores, e o seu destino tornou-se uma espécie de cause célèbre em certos círculos. Diversas figuras de alto perfil, incluindo Émile de Girardin e Victor Hugo, pediram maior esclarecimento sobre a situação do Emir; o futuro primeiro-ministro Émile Ollivier realizou uma campanha de opinião pública para aumentar a conscientização sobre o destino dele. Também houve pressão internacional. Lorde Londonderry visitou Abdelkader em Amboise e subsequentemente escreveu ao então Presidente Luís Napoleão Bonaparte (a quem ele tinha conhecido durante o exílio do último na Inglaterra) para apelar pela libertação do Emir.

Luís Napoleão Bonaparte concede a liberdade ao Emir Abd el-Kader (1852). A sua mãe, curvada pela idade, pega a mão do príncipe.
Óleo sobre tela de Ange Tissier, 1861.

Luís Napoleão Bonaparte era um presidente relativamente novo, tendo chegado ao poder na Revolução de 1848 enquanto Abdelkader já estava preso. Ele estava ansioso para romper com diversas políticas do regime anterior, e a causa de Abdelkader era uma delas. Por fim, em 16 de outubro de 1852, o Emir foi libertado pelo Presidente. Abdelkader permaneceu na França por mais dois meses. Em duas ocasiões, ele visitou Paris, onde encontrou novamente seu libertador; a primeira vez no Castelo de Saint-Cloud, onde o Emir, de sua própria vontade, fez um juramento de nunca mais instigar inquietações na Argélia; a segunda vez, em 2 de dezembro, no Palácio das Tulherias, onde Luís Napoleão foi proclamado imperador sob o nome de Napoleão III. Duas semanas depois, Abdelkader e sua comitiva estavam prestes a deixar o país para Bursa (agora na Turquia), quando o Emir avistou o seu futuro biógrafo, Alexandre Bellemare, e pediu a ele que refutasse, por escrito e por discurso, a crença ainda mantida por muitos franceses de que ele era o responsável pelo massacre dos prisioneiros franceses em 24 de abril de 1846. A França lhe concedeu uma pensão anual de 100 000 francos.

1853-1883: Exílio no Oriente Próximo

Pouco depois de se estabelecer em Bursa, Abdelkader recebeu um sabre valioso com as seguintes palavras gravadas na bainha: "O Sultão Napoleão III ao Emir Abd-el-Kader-ben-Mahhi-ed-Dīn". Como ele havia prometido em Paris, o Emir enviou ao imperador três cavalos da raça árabe. Cercado por uma população geralmente hostil aos árabes, cuja língua e costumes lhe eram estranhos, e apesar dos laços estreitos com estudiosos e líderes religiosos, a sua situação em Bursa pesava muito para ele, embora ele não ousasse informar o imperador. A oportunidade, no entanto, surgiu no início de 1855, quando um violento terremoto devastou a cidade, levando o Emir a viajar a Paris para buscar, e receber, a permissão do imperador para se estabelecer em Damasco. Antes de deixar Paris, ele visitou a Exposição de Paris e presenteou o presidente da Sociedade Asiática com o manuscrito árabe do seu Rappel à l’intelligent, avis à l’indifférent ("Lembrete ao inteligente, aviso ao indiferente"). Este manuscrito foi traduzido para o francês e publicado em 1858, e então retraduzido para o francês em 1977 sob o título Lettre aux Français ("Carta aos Franceses"). Na sua volta ao Oriente, ele se instalou em Damasco (dezembro de 1855), no Distrito de Amara, com sua família e parentes, 200 pessoas no total, enquanto 500 outros compatriotas viviam lá desde 1847, após sua submissão à França. Devido às novas chegadas, os argelinos logo formaram uma grande comunidade, incluindo mais de mil ex-soldados de infantaria e de cavalaria.

1860: Massacre de cristãos em Damasco

Em fevereiro de 1856, o Sultão do Império Otomano Abdulmecide I, sob pressão de seus aliados europeus, assinou o Hatt-i Hümayun. Este decreto aboliu o domínio dos Muçulmanos e dos Drusos sobre as populações não muçulmanas, a quem foram concedidos os mesmos direitos civis, profissionais, políticos, judiciais e militares que os muçulmanos. No Líbano, um território otomano, esta reforma alimentou rivalidades entre os Drusos e os Cristãos Maronitas, com os primeiros sentindo-se menosprezados e os últimos erguendo as cabeças com uma certa ostentação. As autoridades otomanas, sob pressão dos muçulmanos, não fizeram nada —pelo contrário— para conter o conflito nascente. O conflito atingiu o seu pico em junho de 1860, quando cerca de 10.000 cristãos foram massacrados pelos Drusos e cerca de 2 000 Drusos pelos cristãos. Entre 3 000 e 6 000 (as fontes variam) cristãos de todas as denominações buscaram refúgio em Damasco, a capital da Síria otomana.

Em Damasco, o conflito libanês havia exacerbado o sentimento anticristão. Dignitários muçulmanos, ao lado dos companheiros de Abdelkader, tentaram aliviar as tensões, enquanto o Emir alertava o cônsul francês de um risco iminente de agitação e solicitava armas, as quais lhe foram concedidas. Contra este pano de fundo agitado, um grupo de adolescentes muçulmanos cometeu atos de vandalismo dirigidos a símbolos cristãos. Presos pelos guardas otomanos, estes últimos foram atacados por um grupo de jovens fanáticos, que instigaram a multidão.

Abdelkader salvando cristãos durante o conflito druso-cristão de 1860. Pintura de Jan-Baptist Huysmans.

A partir de 9 de julho, a maioria de Drusos, mas também de milicianos curdos e outros muçulmanos —dezenas de milhares de homens no total— chegaram de todas as direções e atacaram o bairro cristão, massacrando homens, mulheres e crianças, e saqueando e incendiando casas. Os soldados do Paxá não conseguiram conter o motim; alguns até se juntaram à multidão. Abdelkader e os seus companheiros de armas varreram a vizinhança, incitando os sobreviventes a refugiarem-se na sua casa e nas de seus compatriotas, salvando assim milhares de vidas. Entre eles estavam os chefes de vários consulados estrangeiros, bem como as Filhas da Caridade e a Congregação da Missão, junto com as 400 crianças aos cuidados dessas duas ordens religiosas. Durante um período de calmaria, o Emir espalhou a notícia pela cidade de que qualquer pessoa que lhe trouxesse um cristão vivo receberia 50 piastras. A atração pelo dinheiro lhe permitiu salvar um grande número de cristãos adicionais. Todos finalmente encontraram refúgio na cidadela, que o Paxá, envergonhada com o seu papel, concordou em disponibilizar para eles. Os relatos sobre o número de mortos variam amplamente: entre 3 000 e 15 000.

Casas no bairro cristão de Damasco após os eventos de julho de 1860.

Um médico francês relata:

[Nós] estávamos consternados, todos nós bastante convencidos de que a nossa última hora havia chegado [...]. Naquela expectativa da morte, naqueles momentos indescritíveis de angústia, o céu, no entanto, enviou-nos um salvador! Abd el-Kader apareceu, cercado pelos seus argelinos, cerca de quarenta deles. Ele estava a cavalo e sem armas: a sua bela figura, calma e imponente, fazia um estranho contraste com o barulho e a desordem que reinavam em todo o lado.

— "Le Siècle", newspaper, (2 de agosto de 1869)

Os relatórios vindos da Síria, à medida que os distúrbios diminuíam, destacaram o papel proeminente de Abdelkader, e seguiu-se um considerável reconhecimento internacional. O governo francês aumentou a sua pensão para 150 000 francos e lhe presenteou com a grã-cruz da Ordem da Legião de Honra. Ele também recebeu a grã-cruz da Ordem do Redentor do Reino da Grécia, a grã-cruz da Ordem dos Santos Maurício e Lázaro do Reino da Itália, a grã-cruz da Ordem da Águia Branca do Império Russo, a medalha de cavalaria da Ordem da Águia Negra do Reino da Prússia, a Primeira Classe da Ordem de Medjidie do Império Otomano, a grã-cruz da Ordem de Pio IX do Vaticano, e uma Estrela Flamejante da obediência maçônica Grande Oriente de França. Abraham Lincoln lhe enviou um par de pistolas com incrustações de ouro e a Grã-Bretanha enviou-lhe um rifle de caça também com incrustações de ouro.

Na França, o episódio representou o ápice de uma reviravolta notável, de ser considerado como inimigo da França durante a primeira metade do século XIX, para se tornar um "amigo da França" após ter intervindo em favor dos cristãos perseguidos. "O que eu fiz", respondeu o Emir ao Imame Shamil, "eu tinha que fazer em nome do Islã e do respeito aos direitos humanos".

Últimas décadas

Abdelkader em Damasco, c. 1862

Quando não tem outros compromissos, Abdelkader dedica o dia à sua vocação religiosa e espiritual. De acordo com o seu biógrafo britânico Charles Henry Churchill, que o conheceu bem em Bursa e em Damasco, o Emir acorda duas horas antes do nascer do sol para meditar e orar em casa e na mesquita, toma o café da manhã, depois trabalha no seu escritório até ao meio-dia. Ele então vai para a mesquita para a oração do meio-dia (Dhuhr), seguida por três horas de instrução religiosa para o seu grupo de alunos. Após a oração da tarde (Asr), ele volta para casa e passa uma boa hora com os seus oito filhos. Ele janta e então volta para a mesquita para as duas últimas orações do dia, entre as quais ele ensina novamente. Em seguida, ele passa cerca de duas horas no seu escritório, antes de ir para a cama. Todos os meses ele distribui pelo menos o equivalente a 4 000 francos aos necessitados.

Em janeiro de 1863, Abdelkader partiu de Damasco para o Hejaz. Ele realizou a peregrinação a Meca, passou três meses em Taife e retornou a Meca, onde se juntou ao Xeque Darqawi Muhammad al-Fasi al-Shadhilî. Ele lá permaneceu durante oito meses e depois passou três meses em Medina.

Abdelkader fotografado em Paris porÉtienne Carjat em 1865

Em 18 de junho de 1864, após deixar Medina para retornar a Damasco, Abdelkader foi iniciado na Maçonaria pela loja "Les pyramides d’Égypte" ("As pirâmides do Egito") em Alexandria, atuando em nome da loja parisiense "Henri IV". O seu primeiro contato com a Maçonaria remonta a setembro de 1860, após o resgate dos cristãos de Damasco, quando ele foi abordado por maçons da loja Henri IV, afiliados ao Grande Oriente de França. Ansioso por forjar laços humanitários, o Emir acolheu os princípios e os ideais do GOF: a existência de Deus ("Grande Arquiteto do Universo"), a imortalidade da alma, o amor à humanidade, a prática da tolerância e a fraternidade universal. Mas logo no ano seguinte à sua iniciação — que foi confirmada na loja Henri IV em Paris em 1865 — ele observou entre os seus "irmãos" maçônicos uma erosão gradual da crença na existência de Deus e na imortalidade da alma. Incapaz de aceitar esta relativização daquilo que ele considerava imutável, ele deixou a Maçonaria.

Em 1865, ele viajou para Constantinopla, Londres e Paris. Em 1867, por ocasião da Exposição de Paris, ele retornou à França a convite de Napoleão III.

Ele foi convidado para a abertura do Canal de Suez em 17 de novembro de 1869 devido às suas ligações com o Vice-rei do Egito, Ismail Paxá, e com Ferdinand de Lesseps, o promotor e diretor do projeto do canal, de quem ele tinha sido um dos apoiadores mais ativos. Nesse mesmo ano, ainda no Egito, ele conheceu o Imame Shamil, cuja história de vida — no Cáucaso do Norte, uma região cobiçada e subsequentemente anexada pelos russos — espelhava a do Emir: um sufi, eleito líder da jihad, que se rendeu após anos de luta e foi aprisionado no país do ocupante.

Morte e sepultamento

Abdelkader faleceu em Damasco em 26 de maio de 1883. Após receber honras militares, na presença de seus "irmãos em Deus", das autoridades da cidade, dos representantes consulares e de uma vasta multidão, ele foi sepultado no mausoléu de Ibn Arabi, cujos ensinamentos ele encarnou seis séculos depois. Esta conexão espiritual entre Ibn Arabi e Abdelkader é evidente tanto nos comentários transcritos por seus ouvintes damascenos quanto naqueles escritos com o próprio punho, que formam o volumoso Kitab al-Mawaqif, "O Livro das Paradas", a obra principal do Emir que testemunha a sua visão espiritual.

Em 1965, em um esforço para fortalecer a unidade nacional, as autoridades argelinas pediram permissão aos descendentes do Emir para repatriar os seus restos mortais. A família concordou sob a condição de que o bisneto do Emir, Abder Razak Abdelkader, que estava detido pelo governo argelino, fosse libertado. Após a sua libertação e deportação para a França, os restos mortais do Emir foram transferidos em 5 de julho de 1966 de Damasco para o Cemitério de El Alia na periferia de Argel.

Legado

Desde o início de sua carreira, Abdelkader inspirou admiração não apenas dentro da Argélia, mas também dos europeus.. Segundo C.H. Churchill, "o cuidado generoso, a terna simpatia" que demonstrou pelos seus prisioneiros de guerra foi "quase inigualável nos anais da guerra".

Em 1843, o Marechal Geral Francês Soult declarou que de todos os homens de seu tempo que ele havia conhecido ou de quem havia ouvido falar, Abdelkader era um dos três maiores; os outros dois, Imame Shamil e Maomé Ali do Egito, também são muçulmanos, apontou ele.

O General Bugeaud da França considerava que:

Abdelkader era um homem genial... certamente uma das maiores figuras do nosso tempo... ele é um inimigo ativo, inteligente e rápido, que exerce influência sobre as populações árabes por meio do prestígio conferido a ele por seu gênio e a nobreza da causa que defende; ele é muito mais do que um pretendente comum; ele é um tipo de profeta; ele é a esperança de todos os muçulmanos devotos.

De acordo com o Capitão de Saint-Hyppolite da França:

O Emir é um homem notável. Ele ocupa uma posição moral desconhecida pela Europa civilizada. Ele é um homem distanciado dos assuntos mundanos, que acredita ser inspirado e a quem Deus confiou a missão de proteger seus companheiros de fé... Sua ambição não é conquistar; a glória não é o motivo de suas ações; o interesse pessoal não o guia; o amor às riquezas lhe é desconhecido; ele está apegado à terra apenas na medida em que isso se relaciona ao cumprimento da vontade do Todo-Poderoso, de quem ele é o instrumento.

Abdelkader esteve envolvido na pesquisa que resultou na terceira edição de 1911 pela Bulaq Press da obra Al-Futuhat al-Makkiyya ("Revelações de Meca") de Ibn Arabi. Esta edição foi baseada no Manuscrito de Konya, a versão revisada de Ibn Arabi do texto, e ela subsequentemente tornou-se o padrão.

A Bolsa de Estudos Abd el-Kader é um programa de bolsa de pós-doutorado nos Estados Unidos gerido pelo The Institute for Advanced Studies in Culture na Universidade da Virgínia.

Iconografia

Uma medalha com o retrato de Abdelkader foi gravada pelo medalhista franco-suíço Antoine Bovy em 1862. Uma cópia desta medalha está em exibição no Museu Carnavalet em Paris. O retrato no anverso foi inspirado na pintura de 1852 de Ange Tissier. É ladeado pela seguinte inscrição (em francês):

O reverso traz a seguinte inscrição na margem:

e no centro:

No México, uma estátua do Emir Abdelkader foi criada pelo arquiteto Luis Aguilar em maio de 2008.

Um busto de Abdelkader foi inaugurado na sede da Cruz Vermelha em Genebra, na Suíça, em 2013.

Uma escultura do Emir feita por Michel Audiard foi instalada nos jardins do Castelo de Amboise, França, em 2022.

Nomes de lugares e instituições

Mesquita Emir Abdelkader e Universidade de Ciências Islâmicas, Constantina

Na Argélia, o nome do Emir Abdelkader foi dado a:

No Marrocos, o seu nome foi dado à estação ferroviária de Mequinez, a uma rua em Casablanca e a uma avenida em Rabat.

Na Tunísia, a uma rua em Sfax.

Na França, a:

Nos Estados Unidos, o seu nome foi usado para nomear a cidade de Elkader, Iowa. Os fundadores da cidade, Timothy Davis, John Thompson e Chester Sage, ficaram impressionados com a sua luta contra o poder colonial francês e decidiram escolher o seu nome como nome para a nova povoação deles em 1846.

Na Rússia, o seu nome foi dado a uma praça em Moscou.

Parentes

O Emir Abdelkader teve dez filhos e seis filhas. No início do século XX, nove filhos viviam na Síria, além de cinco filhas, casadas com primos.

O seu filho Hachem regressou à Argélia em 1892 e morreu em Bou Saâda em 1900, deixando dois filhos, um dos quais, Khaled, desempenharia um importante papel político na Argélia. Ele começou a sua carreira nas forças armadas francesas e depois entrou na política da Argélia, onde fez campanha ativamente pela independência do país. Ele é considerado o fundador do nacionalismo argelino.

O bisneto de Abdelkader, Khaldoun Al-Hasani Al-Jazaeri, foi um estudioso islâmico, um especialista na lei Maliki, e uma das poucas pessoas a ter memorizado todas as 10 leituras do Alcorão. Ele mantinha um consultório odontológico em Damasco. Ele foi preso em 2012 pelas forças de segurança de Bashar al-Assad, sentenciado à morte por um tribunal militar sob a acusação de oposição ao regime, e aprisionado na Prisão de Saydnaya, onde foi executado em 2015.

Nos populares

Em 2013, o cineasta norte-americano Oliver Stone anunciou a futura produção de um filme biográfico chamado The Emir Abd el-Kader ("O Emir Abd el-Kader"), a ser dirigido por Charles Burnett. Até hoje o filme não foi feito.

Filmes documentários em francês:

Imagens

Ver também

Notas

  1. ↑ A maioria das fontes modernas aponta 6 de setembro de 1808, mas a data precisa não é clara. As fontes árabes mais antigas registram seu nascimento entre 1221 e 1223 da Hégira (ou seja, 1806–1808 d.C.), com trabalhos biográficos escritos por seus filhos especificando o mês de Rajab de 1222. Para uma discussão completa do problema, veja Bouyerdene 2012, p. 5.
  2. ↑ De acordo com o emir, sua smala englobava uma dúzia de tribos, cerca de 60.000 homens, mulheres e crianças, e inúmeros cavalos e rebanhos. Ela se estendia por dezenas de quilômetros de Taguine em direção a Djebel Amour. As tendas do Emir e de sua família estavam cercadas pelas de 300 a 400 soldados de infantaria, seguidos pelas dos Hachems de Ghris. Todos os ofícios necessários para a jihad estavam presentes: armeiros, seleiros, alfaiates, etc. Havia um grande mercado lá, frequentado pelos árabes da região. Quando os habitantes da smala acampados perto de Taguine viram os spahis do Duque de Aumale chegando, vestidos com seus burnous vermelhos, eles os confundiram com os cavaleiros do Emir, que também se vestiam de vermelho. A alegria de seu retorno se transformou em terror, mas já era tarde demais para se defenderem. De acordo com o Duque de Aumale, houve 300 baixas argelinas e 3.500 prisioneiros.
  3. ↑ A comunidade cristã em Damasco compreendia ortodoxos gregos, ortodoxos sírios, melquitas (católicos gregos), armênios, maronitas e outros.
  4. ↑ Em 1877, o Grande Oriente aboliu oficialmente o requisito de reconhecer a existência de Deus e a imortalidade da alma.
  5. ↑ "Para Ibn Arabi, entre cada maqam ou manzil — cada "estação" ou "morada" espiritual — e o próximo maqam ou manzil, há um mawqif (pl. mawaqif), uma "parada". O salik, o viajante que faz uma pausa neste ponto médio, recebe de Deus a orientação sobre as regras de propriedade (adab) apropriadas para o maqam que ele está prestes a alcançar e fica assim preparado para desfrutar da plenitude do conhecimento a ele associado. Por outro lado, o indivíduo que se move diretamente de uma estação para a outra sem fazer esta parada intermediária alcançará, ao atingir o maqam em questão, apenas um conhecimento geral, em vez de uma compreensão distinta das ciências específicas a essa nova "estação". O avanço do sahib al-mawaqif, explica Ibn Arabi, é o mais árduo, o mais penoso, mas também é o mais frutífero. Pelo próprio título do seu livro, Abd al-Kader sugere que este é o caminho que Deus lhe atribuiu."
  6. ↑ "Ele [Ibn `Arabî] é o nosso tesouro do qual tiramos o que escrevemos, tirando-o da sua forma espiritual (min ruhaniyyatihi) ou do que ele próprio escreveu nas suas obras."
  7. ↑ A escultura foi vandalizada em 5 de fevereiro poucas horas antes de sua inauguração. O vandalismo ocorreu em meio à campanha para as eleições presidenciais, durante as quais a imigração e o Islã têm sido questões significativas para candidatos específicos.
  8. ↑ Nos jardins do Castelo de Amboise, uma efígie do emir por Michel Audiard foi inaugurada em fevereiro de 2022.

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Bibliografia e leitura adicional

Ligações externas

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