Acatisto

O Acatisto ou Acatisto à Mãe de Deus (Teótoco) (em grego: Ἀκάθιστος ὕμνος; romaniz.: Akáthistos hymnos) é um hino composto em honra da Mãe de Jesus Cristo, entre os mais famosos da liturgia cristã. O serviço durante o qual o hino é cantado também é referido como "Saudações".

João Batista Camilotto, da PUCRS, estudioso sistemático das Letras Mortas, e mestre em Latim, Grego e Aramaico, afirma que ¨valeria a pena estudar a língua grega só para apreciar a beleza do Hino Acatisto, na língua em que foi composto¨.

Segundo Camilotto, ¨a estrutura métrica do texto original é de uma precisão que raia ao inverossímil: estâncias, versos, acentos, muitas rimas perfeitas,, assonâncias e aliterações, e um ritmo multiforme com acentos e pausas, o que torna difícil de ser transposto para outras línguas¨. Estas características induzem a crer que é obra de um grande poeta e também teólogo, porque as referências teológicas estão presente em cada verso, assim como na chamada Ladainha Lauretana.

História

Acatisto à Mãe de Deus. Detalhe do afresco. 1644, Moscou

Não há um registro fiel e definitivo sobre a autoria deste hino, nem a datação. Há várias suposições. No entanto sabe-se que o hino é de tradição das igrejas católicas orientais e que foi incluso nos Hinógrafos Eclesiásticos em 626 d.C.. Possivelmente, então, a criação e uso do Akathistos é muito anterior a esta data.

Muito se tem escrito sobre sua autoria e sobre a ocasião para que o Akathistos foi composto. Todos os estudiosos concordam que é um hino escrito em honra da Santíssima Virgem e muitos deles, enganados pelo conteúdo do Prooemium, segundo um autor, sustentam a opinião de que data do ano 626, quando o Cerco de Constantinopla pelos persas milagrosamente desmoronou e a cidade foi salva.

O Acatisto é um Contácio. Trata-se de uma forma poética de homilética pessoal, associada ao nome de Ciríaco, o Anacoreta e, acima de tudo de Romanos, que viveram no final do quinto e início do sexto século. Pode-se até chamar o contácio de sermão poético. Não temos nenhuma evidência, contudo, para determinar a data exata em que o contácio se desenvolveu e quando, pela primeira vez, o nome de contácio foi usado para designar o novo gênero poético.

O Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal informa que a palavra ¨Akathistos¨ significa ¨não sentados¨, isto porque o hino é ¨cantado de pé¨, e que é a mais bela composição mariana do rito bizantino, tendo sido composto depois do Concílio de Calcedónia (451), apresentando em forma de síntese orante, tudo o que a Igreja dos primeiros séculos acreditou e exprimiu sobre Maria em declarações do magistério e no consenso universal da fé.

Entre as ocasiões em que se pode utilizar, indica-se, de modo especial, o tempo do Advento e as solenidades de Santa Maria, Mãe de Deus (1 de Janeiro) e da Anunciação do Senhor (25 de Março).

Estrutura

O Acatisto é formado por um introito (Rei Celeste) e 24 estâncias, sendo que em cada uma delas é narrado um episódio bíblico.

O enredo se desenvolve em três partes: primeiramente (estâncias de 1 a 12), dispõe sobre nascimento e infância de Jesus Cristo (Lc 1-2; Mt 1-2), comentando a teofania, isto é, o aparecimento e a primeira revelação histórica de Deus na carne humana assumida, com os efeitos salvíficos que daí derivam. As primeiras seis estâncias do hino, são de conotação cristológica, encenam e cantam a descida do Verbo e sua manifestação às primeiras testemunhas: a Virgem Maria, São João Batista, Santa Isabel e São José. As estâncias de 6 a 12, de conotação eclesial, mostram a epifania de Deus no mundo, portadora de luz e graça para todos: os protagonistas e beneficiários os pastores, os magos, os redimidos da escravidão dos ídolos e o justo Simeão, modelo da espera de Israel. A estâncias de 13 a 24 propõem a teologia da Igreja antiga, isto é, a profissão dos Dogmas Marianos.

Assim, primeira parte (1-6; 7-12) segue o ciclo do Natal; a segunda parte (13-18; 19-24) canta o que a Igreja nos concílios de Niceia (325), Éfeso (431) e Calcedónia (451) professaram acerca da Virgem Santa Maria.

A versão do poema, a seguir, não é a única em Língua Portuguesa. O especialista na língua em que o Acatisto foi composto, por exemplo, propõe uma outra tradução.

Rei Celeste

Primeira Estância

Solista

O mais excelso dos anjos foi enviado do Céu para dizer “Ave” à Mãe de Deus. À saudação angélica, vendo-vos nela feito homem, Senhor, em êxtase permaneceu, aclamando assim a Mãe:

Assembleia

  • Ave, por vós a glória resplandece
  • Ave, por vós a dor se extingue
  • Ave, salvação de Adão decaído
  • Ave, resgate do pranto de Eva
  • Ave, meta sublime do humano entendimento
  • Ave, abismo profundo aos olhos dos anjos
  • Ave, em vós foi erguido o trono do Rei
  • Ave, vós carregais Aquele que tudo sustenta
  • Ave, estrela que ao sol antecedeis
  • Ave, seio do Deus que se encarna
  • Ave, por vós a Criação se renova
  • Ave, por vós o Criador é criança.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Segunda Estância

Solista

Maria bem sabia ser a Virgem sagrada e a Gabriel assim dizia: “A vossa singular mensagem incompreensível à minh’alma se apresenta; de seio virginal um parto predizeis, exclamando:

Assembleia

  • Aleluia!

Terceira Estância

Coro Alternado

  • Desejava a Virgem entender o Mistério e ao Núncio Divino perguntava:
  • “Poderá meu seio virginal dar à luz uma criança? Dizei-me?”
  • E Aquele, reverente, aclamando-a assim dizia:

Assembleia

  • Ave, guia ao supremo conselho
  • Ave, prova de angélico mistério
  • Ave, o primeiro prodígio de Cristo
  • Ave, compêndio de suas verdades
  • Ave, escada celeste pela qual o Eterno desce
  • Ave, ponte que conduz os homens ao Céu
  • Ave, dos coros angélicos cantado prodígio
  • Ave, da horda demoníaca execrado flagelo
  • Ave, gerastes a Luz inefável
  • Ave, o “modo” jamais revelastes
  • Ave, transcendeis a ciência dos doutos
  • Ave, resplandeceis para o coração dos fiéis.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Quarta Estância

Solista

  • A Virtude do Altíssimo cobriu e tornou Mãe a Virgem que núpcias desconhecia; aquele seio fecundado pelo alto, qual campo fecundo tornou-se para todos que querem Salvação acolher, assim cantando:

Assembleia

  • Aleluia!

Quinta Estância

Assembleia

  • Ave, sarmento de santo Rebento
  • Ave, ramo de fruto ilibado
  • Ave, cultivais o divino Agricultor
  • Ave, dais vida ao Autor da vida
  • Ave, sois campo que produzis riquíssimas graças
  • Ave, sois mesa repleta de todos os dons
  • Ave, pastagem amena fazeis brotar
  • Ave, pronto refúgio aos fiéis preparais
  • Ave, de súplicas incenso agradável
  • Ave, do mundo suave perdão
  • Ave, para o homem clemência de Deus
  • Ave, do homem confiança em Deus.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Sexta Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Sétima Estância

Assembleia

  • Ave, Mãe do Cordeiro-Pastor
  • Ave, redil de fiel rebanho
  • Ave, defendeis das feras malignas
  • Ave, abris as portas do Céu
  • Ave, por vós com a terra exultam os Céus
  • Ave, por vós com os Céus se alegra a terra
  • Ave, sois dos Apóstolos a voz perene
  • Ave, dos Mártires sois o indômito ardor
  • Ave, sustento poderoso da fé
  • Ave, estandarte esplendoroso de graça
  • Ave, por vós despojado foi o inferno
  • Ave, por vós nos vestimos de glória.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Oitava Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Nona Estância

Assembleia

  • Ave, Mãe do Astro perene
  • Ave, aurora de místico dia
  • Ave, fornalha de erro apagais
  • Ave, brilhando a Deus conduzis
  • Ave, o odioso tirano do trono derrubastes
  • Ave, vós que nos dais o clemente Senhor
  • Ave, vós que nos resgatais de cruéis rituais
  • Ave, vós que nos salvais de fétidas lamas
  • Ave, destruís o culto do fogo
  • Ave, extinguis a chama dos vícios
  • Ave, sois mestra de ciência aos fiéis
  • Ave, sois o júbilo de todas as gentes.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Décima Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Décima Primeira Estância

Assembleia

  • Ave, desforra do gênero humano
  • Ave, destruidora do reino do inferno
  • Ave, o engano e o erro esmagastes
  • Ave, dos ídolos revelais a fraude
  • Ave, mar que engoliu o grande Faraó
  • Ave, rocha da qual brotam as águas da vida
  • Ave, coluna de fogo que guiais na escuridão
  • Ave, abrigo do mundo maior do que as nuvens
  • Ave, doadora do maná celeste
  • Ave, ministra de santas delícias
  • Ave, terra mística prometida
  • Ave, mina de leite e mel.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Décima segunda Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Décima terceira Estância

Assembleia

  • Ave, flor de vida ilibada
  • Ave, coroa de casto trato
  • Ave, mostrais a sorte futura
  • Ave, revelais a vida dos anjos
  • Ave, magnífica planta que nutre os fiéis
  • Ave, árvore bela e copiosa que a todos abriga
  • Ave, carregastes no ventre o guia dos errantes
  • Ave, destes à luz ao que liberta os escravos
  • Ave, súplica ao justo Juiz
  • Ave, perdão para os transviados
  • Ave, vestis de graça os nus
  • Ave, amor que vence toda cobiça.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Décima quarta Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Décima quinta Estância

Assembleia

  • Ave, morada de Deus, o infinito;
  • Ave, porta do sagrado Mistério.
  • Ave, doutrina insegura para os ímpios;
  • Ave, dos piedosos certíssima honra.
  • Ave, trono mais santo que o trono querúbico;
  • Ave, cátedra mais bela que a cátedra seráfica.
  • Ave, vós que conjugais contrárias grandezas;
  • Ave, vós que sois uma Virgem e Mãe.
  • Ave, por vós remida a culpa;
  • Ave, por vós o paraíso foi aberto.
  • Ave, chave do Reino de Cristo;
  • Ave, esperança de eternos tesouros.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Décima Sexta Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Décima Sétima Estância

Assembleia

  • Ave, sacrário da eterna Sabedoria
  • Ave, tesouro de sua Providência
  • Ave, dos doutos a ignorância revelais
  • Ave, os retóricos ao silêncio forçais
  • Ave, para ti são estultos sutis doutores
  • Ave, para ti não importam míticos autores
  • Ave, de todos os sofistas as tramas desfazeis
  • Ave, dos pescadores as redes encheis
  • Ave, da profunda ignorância nos resgatais
  • Ave, a todos farol de ciência vos fazeis
  • Ave, barca de quem quer se salvar
  • Ave, porto de quem quer zarpar para a Vida.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Décima oitava Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Décima nona Estância

Assembleia

  • Ave, coluna de sagrada pureza
  • Ave, porta da eterna Salvação
  • Ave, início da nova geração
  • Ave, doadora de bens divinos
  • Ave, fizestes renascer os nascidos na vergonha
  • Ave, destes sabedoria aos desprovidos
  • Ave, vós que imobilizastes o grande sedutor
  • Ave, vós que dos castos nos dais o Autor
  • Ave, seio de núpcias divinas
  • Ave, que unis os fiéis ao Senhor
  • Ave, dos virgens a alma nutris
  • Ave, que as almas ao Esposo conduzis.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Vigésima Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Vigésima primeira Estância

Assembleia

  • Ave, raio-do-Sol divino
  • Ave, feixe de perene luz
  • Ave, qual relâmpago as mentes iluminais
  • Ave, qual trovão os inimigos espantais
  • Ave, dos sagrados Mistérios sois a fonte
  • Ave, sois a mina das Águas abundantes
  • Ave, em vós se representa a antiga piscina
  • Ave, as manchas limpais dos nossos pecados
  • Ave, fonte que as almas purificais
  • Ave, cálice transbordante de alegria
  • Ave, fragrância do crisma de Cristo
  • Ave, ó vida do sagrado banquete.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Vigésima segunda Estância

Assembleia

  • Aleluia!

Vigésima terceira Estância

Assembleia

  • Ave, tenda do Verbo de Deus;
  • Ave, maior que o Santo dos Santos.
  • Ave, arca pelo Espírito dourada;
  • Ave, tesouro inesgotável de vida.
  • Ave, diadema precioso dos santos soberanos;
  • Ave, dos pios sacerdotes nobre ufania.
  • Ave, sois para a Igreja qual torre poderosa;
  • Ave, sois para o Império qual forte muralha.
  • Ave, por vós erguemos troféus;
  • Ave, por vós caem vencidos os inimigos.
  • Ave, remédio de meus membros;
  • Ave, Salvação da minha alma.
  • Ave, Virgem e Esposa!

Vigésima quarta Estância

Assembleia

  • Grande e ínclita Mãe,
  • Genitora do Sumo entre os santos,
  • Santíssimo Verbo,
  • dignai-vos agora acolher o canto!
  • Preservai-nos de toda desgraça, todos!
  • Do castigo merecido, libertai-nos,
  • a nós que gritamos:
  • Aleluia!

Melodia e Harmonia

Evidente que um hino datado do século V ou VI, atravessando diversas fronteiras idiomáticas, sofreu, também, muitas alterações melódicas. Possivelmente, não tenhamos, hoje, nenhum registro da melodia original. A mais próxima, talvez, seja a do rito bizantino atual. A seguir, três versões atuais:

Bibliografia

Referências