Alcainitas

Os alcainitas ou Banu Alcaine (em árabe: بنو القين; romaniz.: Banū al-Qayn), também chamados balcainitas (Balqayn) e Aicaine ibne Jacer (al-Qayn ibn Jasr), foram uma tribo árabe cuja presença é atestada desde os primeiros séculos do domínio romano no Oriente Próximo até os primórdios do período islâmico (séculos VII–VIII).

História

Segundo a tradição genealógica árabe, os alcainitas descendiam de Anumane ibne Jasre, conhecido pelo epíteto de Alcaine ("o ferreiro"). O nome da tribo deriva desse epíteto, provavelmente recebido em razão da reputação de seu ancestral na metalurgia, sendo seus descendentes conhecidos como Banu Alcaine e, por supressão do nūn, também como Balcaine. Apesar disso, todos os indícios históricos apontam para uma tribo estritamente beduína, cujos membros não exerciam atividades ligadas à metalurgia. Os alcainitas integravam a grande confederação tribal dos cudaaítas. Algumas tradições também procuraram relacionar a origem da tribo a Caim, personagem do Antigo Testamento, chegando inclusive a afirmar que o profeta Xuaibe pertencia aos alcainitas, embora tais genealogias tenham caráter tradicional. Segundo o historiador Irfan Shahîd, é "quase certo" que os alcainitas, juntamente com os judamitas e os amilaítas, atuaram como unidades militares durante o período romano, integrando a confederação nabateia. Shahîd sustenta ainda que a tribo remontava à época bíblica, representando "um elemento de continuidade etnográfica na região, desde os tempos bíblicos, passando pelos períodos bizantino e árabo-muçulmano".

Os alcainitas ocupavam uma extensa faixa que se estendia da península do Sinai até o leste da Jordânia, ao longo da fronteira síria, concentrando-se sobretudo na Balca. Inicialmente figuravam entre as tribos mais numerosas e prósperas da Síria, divididas em diversos ramos, embora sua influência tenha diminuído com o passar do tempo. Durante o período pré-islâmico dedicavam-se principalmente a incursões contra caravanas e ao comércio de escravos. Segundo a tradição islâmica, foram alcainitas que capturaram e venderam Zaíde ibne Harita, posteriormente libertado e adotado por Maomé. No século IV, os alcainitas encontravam-se estabelecidos na Transjordânia e serviam como federados (foederati) do Império Bizantino. Com a incorporação da Síria ao domínio bizantino, passaram, como outras tribos da região, à esfera de influência do império e gradualmente adotaram o cristianismo. Figuravam entre as tribos árabes federadas do império — juntamente com os calbitas, judamitas, balitas e lacmitas — que combateram os muçulmanos na Batalha de Muta, em 8 A.H. (629). Entretanto, ao menos parte dos alcainitas mantinha relações amistosas com os muçulmanos, que esperavam receber seu apoio durante a Expedição de Date Assalacil, realizada no mesmo ano.

Posteriormente, os alcainitas voltaram a combater ao lado dos bizantinos nas batalhas do Jarmuque e de Fal. Entretanto, pouco depois dessas campanhas, parte da tribo converteu-se ao islã. Maomé nomeou Anre ibne Aláqueme Alcaini como coletor de tributos (amil) entre os alcainitas, sendo relatado que ele permaneceu fiel ao islã mesmo quando alguns membros da tribo participaram das Guerras da Apostasia. Nos anos seguintes, a tribo permaneceu dividida entre muçulmanos e aliados do Império Bizantino. Assim, enquanto um guerreiro alcainita conhecido como Abu Abederramão distinguiu-se por sua bravura na Batalha de Ajenadaim, em 13 A.H. (634), contingentes da tribo ainda serviam no exército do imperador Heráclio (r. 610–641), que se dirigiu a Antioquia para coordenar pessoalmente as operações militares após a queda de Damasco diante dos muçulmanos no ano seguinte. A maior parte da tribo converteu-se ao islã após a conquista muçulmana da Síria, concluída em 17 A.H. (638). Durante a Segunda Guerra Civil Islâmica, os alcainitas apoiaram Maruane I, juntamente com outras tribos cudaaítas, como os calbitas, em sua disputa pelo califado. Em determinado momento, surgiu uma disputa territorial entre alcainitas e calbitas pelo controle de Curaquir, em Uádi Sirã, mas Abalmaleque ibne Maruane decidiu a questão em favor dos calbitas. Os alcainitas permaneceram fiéis aos omíadas durante as guerras civis do califado, circunstância que lhes valeu prestígio junto à dinastia. Entre seus membros destacou-se Tamime ibne Zaíde, elevado ao comando militar e responsável pela campanha contra Sinde.

Cerca de seiscentos guerreiros alcainitas participaram da campanha do Califado Omíada contra o rebelde carijita Balul, em 119 A.H. (737). Segundo William Montgomery Watt, a última referência histórica segura à tribo data de 176 A.H. (792), já durante o Califado Abássida, quando os alcainitas estiveram envolvidos em conflitos intertribais em Haurã. Posteriormente, dispersaram-se por diferentes regiões do mundo islâmico, estabelecendo-se inclusive na cora Raia do Alandalus. Contudo, o geógrafo do século IX Iacubi afirma que Garandal, centro administrativo do sul da Transjordânia, era habitada pelos alcainitas juntamente com os gassânidas. Entre os membros mais conhecidos da tribo figura o poeta Abu Atamane Alcaini, um dos mais célebres poetas mucadrames.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 Önkal 2022, p. 85.
  2. 1 2 3 4 5 Watt 1997, p. 820.
  3. ↑ Shahid 2002, p. 390.
  4. ↑ Shahid 2002, pp. 390–391.
  5. ↑ Shahid 2002, p. 544.
  6. ↑ Shahid 2002, p. 395.
  7. ↑ Shahid 2002, p. 347.

Bibliografia