Alhutaia

Alhutaia (em árabe: الحُطَيْئَة; romaniz.: al-Ḥuṭayʾa), cognome de Abu Mulaica Jarual ibne Auce ibne Maleque Alabeci (em árabe: أبو مليكة جرول بن أوس بن مالك العبسي; romaniz.: Abū Mulayka Jarwal ibn Aws ibn Mālik al-ʿAbsī, foi um poeta árabe da geração dos mucadrames, ativo tanto na Jailia quanto nos primeiros tempos do islã. Reconhecido como um dos mais talentosos satiristas da literatura árabe, destacou-se igualmente na composição de panegíricos, elegias, poemas de exaltação pessoal e nácibe, sendo celebrado pelos críticos antigos pela perfeição formal de seus versos e pela habilidade na escolha das palavras e das rimas. De origem familiar incerta, Alhutaia tornou-se conhecido tanto por seu talento literário quanto por sua personalidade controversa. As fontes árabes o descrevem como um homem interesseiro, avarento e mordaz, cuja reputação de satirista era tão temida que muitos preferiam recompensá-lo para não se tornarem alvo de seus poemas. Após converter-se ao islã, participou dos movimentos de apostasia ocorridos durante o califado de Abu Becre (r. 632–634) e posteriormente retornou à nova religião, embora as fontes divirjam quanto à sinceridade dessa reconversão. Discípulo de Zuair ibne Abi Sulma e transmissor da poesia de Cabe ibne Zuair, Alhutaia exerceu grande influência sobre a tradição literária árabe. Seu divã, preservado por filólogos desde os primeiros séculos do islã e objeto de numerosas edições críticas, consolidou sua reputação como um dos mais importantes poetas árabes do período de transição entre a sociedade pré-islâmica e a islâmica.

Vida

Alhutaia, cujo nome era Jarual ibne Auce, nasceu provavelmente por volta de 582, cerca de quarenta anos antes da Hégira. Pertencia à geração dos mucadrames e foi contemporâneo tanto da Jailia quanto dos primeiros tempos do islã. Sua origem familiar era motivo de controvérsia. Embora por vezes reivindicasse descendência dos abecitas e, em outras ocasiões, dos dubianitas, as fontes indicam que provavelmente era filho natural de uma escrava chamada Darra, pertencente a Auce ibne Maleque, da tribo dos abecitas. Segundo a tradição preservada pela TDV, Darra, temendo as consequências de revelar a identidade do pai da criança, ocultou-a quando interrogada pela esposa de Auce ibne Maleque, e este morreu sem reconhecer oficialmente a paternidade do menino. Seu cognome "Alhutaia", que significa aproximadamente "pequeno deformado", foi-lhe atribuído em razão de sua baixa estatura, feiura e pés chatos. Discípulo e transmissor da poesia de Zuair ibne Abi Sulma, de quem também herdou parte da tradição literária, Alhutaia iniciou sua atividade poética ainda antes do advento do islã. Mais tarde tornou-se também transmissor da poesia de Cabe ibne Zuair, filho de seu antigo mestre. A maior parte de sua obra conservada, contudo, pertence ao período islâmico. As fontes divergem quanto à sinceridade de sua adesão ao islã. Segundo a tradição, após a morte de Maomé ele participou dos movimentos de apostasia ocorridos durante o califado de Abu Becre (r. 632–634), fato confirmado por alguns de seus poemas. Posteriormente voltou a professar o islã, sendo esse retorno frequentemente associado aos poemas compostos para incentivar os muçulmanos durante a Batalha de Cadésia. Apesar disso, a Enciclopédia do Islão observa que diversas tradições posteriores apresentam sua reconversão como pouco convincente, atribuindo-lhe inclusive um testamento no qual teria recusado aplicar as normas islâmicas relativas à partilha da herança entre homens e mulheres.

Durante o califado de Omar ibne Alcatabe (r. 634–644), Alhutaia protagonizou o episódio mais conhecido de sua vida. Em um ano de grande fome, enquanto seguia com a esposa e os filhos em direção ao Iraque à procura de alguém que o acolhesse, encontrou em Carcara Azibricane ibne Badre, encarregado desde o tempo de Maomé da arrecadação dos tributos da tribo de Tamime e que então se dirigia a Medina para entregá-los ao califa. Também poeta, Azibricane tomou Alhutaia sob sua proteção. A atitude desagradou à família de Anfe Anaca, rival de Azibricane, cujos principais membros — entre eles Baguide ibne Xamas — convenceram Alhutaia a transferir-se para junto deles, oferecendo-lhe proteção e recursos materiais. Quando Azibricane regressou de Medina, tentou reaver seu protegido, mas Alhutaia preferiu permanecer entre os Anfe Anaca. Embora lhes dedicasse poemas elogiosos, recusou-se inicialmente a satirizar seu antigo benfeitor. A situação mudou quando Azibricane encarregou outro poeta de compor versos contra Baguide ibne Xamas. Em resposta, Alhutaia escreveu a célebre Sīniyya, na qual atacava duramente Azibricane. Este apresentou queixa a Omar, que submeteu o poema ao julgamento de Haçane ibne Tábite. Depois de Haçane concluir que os versos constituíam efetivamente uma sátira ofensiva, Omar ordenou o encarceramento de Alhutaia em Medina.

Enquanto esteve preso, Alhutaia compôs um poema comovente que despertou a compaixão de Abederramão ibne Aufe, o qual intercedeu junto ao califa em seu favor. Omar concedeu-lhe o perdão e, segundo uma tradição, entregou-lhe ainda três mil dirrãs sob a condição de que deixasse de satirizar os muçulmanos. As fontes afirmam, contudo, que, após a morte do califa, Alhutaia voltou a dedicar-se ao gênero satírico. Depois de deixar a prisão, dirigiu-se a Haurã para encontrar o governador Alcama ibne Ulata, mas este já havia falecido quando chegou. O filho de Alcama recebeu-o generosamente, presenteando-o com cem camelos juntamente com suas crias. Durante o califado de Otomão ibne Afane (r. 644–656), estabeleceu-se por algum tempo em Cufa, retornando mais tarde a Medina. A Enciclopédia do Islão acrescenta que sua ligação com Saíde ibne Alás, governador de Medina após 41 A.H. (661), confirma a tradição segundo a qual ele sobreviveu até o reinado de Moáuia I (r. 661–680). As datas de sua morte variam nas fontes, mas a tradição mais difundida a situa por volta de 59 A.H. (678). As fontes árabes preservaram uma imagem amplamente negativa de seu caráter. Sua condição de filho de origem incerta, em uma sociedade que atribuía grande importância à genealogia, teria contribuído para sua instabilidade pessoal e para o ressentimento manifestado em alguns de seus poemas, inclusive contra a própria mãe. A tradição descreve-o como um homem extremamente interesseiro, avarento e desconfiado, incapaz de manter amizades duradouras. Sua reputação de satirista era tão temida que muitos preferiam recompensá-lo generosamente para evitar tornarem-se alvo de seus versos. Também se atribui a ele um testamento no qual recomendava que não fossem libertados escravos, que os pobres continuassem a mendigar e que os bens dos órfãos fossem consumidos, relato tradicionalmente interpretado como expressão de sua atitude de desafio às normas religiosas e morais.

Obra

Alhutaia é considerado um dos mais importantes poetas mucadrames e figura entre os principais representantes da poesia árabe do início do período islâmico. Ibne Salame Aljumai incluiu-o na segunda categoria dos poetas da Jailia, enquanto diversos críticos posteriores elogiaram a perfeição formal de seus versos e a habilidade com que cultivou diferentes gêneros poéticos. Discípulo e transmissor da poesia de Zuair ibne Abi Sulma, bem como transmissor da obra de Cabe ibne Zuair, Alhutaia assimilou a tradição poética anterior ao islã e a preservou em sua própria produção. Sua poesia abrange ampla variedade de temas. Destacam-se as descrições de mulheres, do deserto e de seus animais, o elogio da generosidade, da riqueza e da bravura, bem como a censura à avareza, à pobreza, à covardia, à fraqueza, ao desprezo pelos outros, à impaciência e à tirania. Embora tenha adquirido fama sobretudo como poeta satírico, tanto a TDV quanto a Enciclopédia do Islão observam que o número de sátiras preservadas é relativamente pequeno em comparação com o conjunto de sua produção. Compôs ainda panegíricos, poemas de exaltação pessoal (fakhr), preâmbulos amorosos (nácibe) e elegias, incluindo composições dedicadas a Omar e a outras personalidades.

Grande parte de sua atividade poética esteve ligada ao sistema de patronagem tribal. Alhutaia compunha elogios em honra de chefes generosos e, quando julgava insuficiente a recompensa recebida, respondia frequentemente com poemas satíricos dirigidos aos antigos patronos. Sua reputação de satirista era tão temida que muitas pessoas preferiam recompensá-lo antes mesmo que escrevesse contra elas. Apesar da dureza de seus ataques, a TDV observa que suas sátiras evitam, em geral, obscenidades e expressões grosseiras, distinguindo-se pela elegância formal e pelo refinamento da linguagem. Os críticos árabes ressaltaram especialmente a facilidade com que Alhutaia compunha versos, a precisão na escolha do vocabulário, a musicalidade resultante de sua dicção e a perfeição das rimas. A Enciclopédia do Islão acrescenta que sua poesia foi considerada praticamente isenta de defeitos formais e que autores posteriores o tomaram como modelo de imitação. Segundo a tradição preservada na TDV, sua preferência por poemas curtos decorria, em parte, do fato de utilizar a poesia como meio de subsistência. Ao ser questionado por uma de suas filhas sobre essa característica, respondeu que as composições breves eram mais facilmente memorizadas e, por isso, tinham maior permanência entre os ouvintes. O divã de Alhutaia reúne 106 poemas curtos e quarenta e nove cássidas longas, embora a maior parte destas últimas não tenha chegado aos tempos modernos. Ainda assim, diversas de suas composições mais extensas são consideradas modelos de unidade temática e acabamento artístico, consolidando sua reputação como um dos mais refinados poetas da literatura árabe clássica.

Legado

O divã de Alhutaia despertou o interesse de filólogos e gramáticos desde os primeiros séculos do islã. Segundo a Enciclopédia do Islão, Hamade, neto de Ibraim Almaucili, compôs uma biografia do poeta intitulada Akhbār al-Ḥuṭayʾa, atualmente perdida. Em contrapartida, sobreviveram parcial ou integralmente os trabalhos dos filólogos dos séculos VIII e IX que se dedicaram à reunião e ao estabelecimento do texto de seu divã. Entre eles destacam-se a recensão de Abu Anre Axaibani e Abu Abedalá ibne Alarabi, mais tolerante em relação aos versos de autenticidade duvidosa e às interpolações atribuídas sobretudo a Hamade Arrauia, e a de Abu Hatime Assijistani, que adotou critérios mais rigorosos na exclusão de passagens consideradas espúrias, embora sua versão tenha sobrevivido apenas de forma fragmentária. A primeira edição impressa do divã foi publicada em Istambul, em 1890. Posteriormente, a obra recebeu sucessivas edições críticas, entre as quais se destacam as organizadas por Ignaz Goldziher, Ahmad al-Shinqiti, 'Isa Sabba e Nu'man Muhammad Amin Taha. A tradição textual também foi enriquecida pela publicação da recensão e do comentário de Açucari, elaborados com base nas edições de Goldziher e de Nu'man Muhammad Amin Taha, bem como por uma antologia preparada por Fuad Afram al-Bustani. A figura e a poesia de Alhutaia continuaram a despertar interesse na crítica literária moderna. Além das edições de seu divã, foram publicados diversos estudos dedicados à sua vida e à sua produção poética, consolidando sua posição entre os maiores poetas satíricos da literatura árabe clássica. Sua habilidade na composição de sátiras, panegíricos e elegias, aliada ao domínio técnico da língua e da métrica, fez com que fosse tomado como modelo por críticos e poetas posteriores, que o consideravam um dos expoentes da tradição poética árabe.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Tüccar 1998, p. 424.
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Goldziher & Pellat 1998, p. 641.

Bibliografia