Almubarrade

Abu Alabás Maomé ibne Iázide ibne Abede Alaquebar ibne Omair Almubarrade Alazedi Açumali (em árabe: أبو العباس محمد بن يزيد بن عبد الأكبر بن عمير المبرد الأزدي الثمالي; romaniz.: Abū al-ʿAbbās Muḥammad ibn Yazīd ibn ʿAbd al-Akbar ibn ʿUmayr al-Mubarrad al-Azdī al-Thumālī; Baçorá, 24 de março de 826 – Baguedade, 4 de janeiro de 900), mais conhecido simplesmente como Almubarrade (al-Mubarrad), foi um gramático, filólogo e homem de letras árabe do Califado Abássida. Um dos principais representantes da tradição filológica de Baçorá, destacou-se no estudo da gramática, lexicografia, poesia e adabe e tornou-se uma das grandes autoridades da língua árabe no século IX. Sua rivalidade intelectual com Abu Alabás Talabe, associado à tradição de Cufa, tornou-se emblemática da oposição posteriormente estabelecida entre as escolas gramaticais de Baçorá e Cufa.

Nascido numa família sumalita dos azeditas, Almubarrade formou-se em Baçorá, onde estudou o Kitāb de Sibauai com Abu Omar Aljarmi e Abu Otomão Almazini e frequentou alguns dos principais estudiosos de língua e literatura de sua época. Posteriormente esteve em Samarra, onde participou da vida intelectual da corte abássida e recebeu o patrocínio do califa Almotauaquil (r. 847–861) e de seu vizir Alfate ibne Cacane. Após a morte de ambos em 861, estabeleceu-se em Baguedade, onde se dedicou ao ensino e reuniu numerosos discípulos, entre os quais Nifetauai, Azajaje e Ibne Açarraje.

Cerca de sessenta obras são atribuídas a Almubarrade, embora apenas parte delas tenha sobrevivido. Sua produção mais conhecida inclui o al-Kāmil fī l-adab, uma das obras fundamentais do adabe clássico, e o al-Muqtaḍab, um dos principais tratados da tradição gramatical árabe posterior ao Kitāb de Sibauai. Escreveu também sobre retórica, poesia, léxico e genealogia árabe, além de compilar relatos históricos e tradições sobre o passado árabe. Entre suas obras preservadas encontram-se ainda o al-Fāḍil, o al-Taʿāzī wa-l-marāthī, o al-Balāgha e o Nasab ʿAdnān wa-Qaḥṭān, este último uma das mais antigas obras genealógicas árabes conservadas e posteriormente utilizado por Ibne Hasme.

Vida

Almubarrade nasceu em Baçorá em 10 de Dulrija de 210 A.H. (24 de março de 826), segundo a data considerada preferível pelas fontes, embora também sejam transmitidas datas entre dois e cinco anos anteriores. Pertencia aos sumalitas, ramo dos azeditas que havia migrado do Iêmem para o norte e se estabelecido no Hejaz Superior, e sua genealogia era remontada à Jailia. Seu pai exercia em Baçorá uma função administrativa relacionada ao registro de propriedades. Iniciou ali sua formação e, por volta dos quinze anos, começou a estudar o Kitāb de Sibauai com Abu Omar Aljarmi, completando posteriormente a leitura da obra com Abu Otomão Almazini. Ainda jovem escreveu o Masāʾil al-ghalaṭ, no qual criticava questões do Kitāb, embora posteriormente tenha abandonado parte dessas objeções. Sua formação em Baçorá abrangeu diferentes campos da língua, literatura e tradição árabes. Frequentou as lições de Abu Hatime Assijistani, estudou hádice, genealogia e relatos históricos com Ibne Aixa, e poesia e história com Maomé ibne Ubaide Alá Alutebi. Manteve contato com Aljaiz até a morte deste e transmitiu dele poesia, máximas e relatos sobre beduínos e personagens históricos. Também frequentou Abu Alfadle Arriaxi, de quem recolheu tradições linguísticas, históricas e poéticas provenientes de Alasmai. Sellheim destaca particularmente os círculos de Aljarmi e Almazini, nos quais Almubarrade aprofundou seu conhecimento do Kitāb de Sibauai, e as discussões filológicas entre Assijistani e Arriaxi acerca do Alcorão, hádice, poesia e adabe. Segundo a tradição, sua linguagem considerada pura, capacidade argumentativa, inteligência e comportamento chamaram atenção ainda nessa fase, e sua reputação em gramática e léxico ultrapassou cedo os limites de Baçorá.

Seu lacabe tornou-se objeto de diferentes explicações. Segundo uma das tradições, Almazini, impressionado com a precisão de suas respostas, teria chamado o discípulo de al-Mubarrid, termo interpretado como "aquele que afirma a verdade" ou associado metaforicamente ao efeito refrescante de suas respostas. Adversários, particularmente ligados à escola de Cufa, teriam alterado a forma para al-Mubarrad ("o resfriado"), que acabou prevalecendo, apesar de o próprio Almubarrade aparentemente não apreciar o apelido. Outras explicações para a origem do lacabe também circularam nas fontes medievais. Ainda durante sua permanência em Baçorá, Almubarrade teve contato com Atauazi e Aljaiz. Posteriormente foi chamado a Samarra. A TDV registra uma primeira estadia durante o califado de Aluatique (r. 842–847), quando trabalhou na administração financeira do vizir Fadal ibne Maruane e continuou seus estudos com eruditos da cidade. Entre eles estavam Atauazi, Ibraim ibne Sufiane Aziadi, o poeta Umara ibne Aquil, Abede Açamade ibne Muadal e Maomé ibne Hixame Açaduci, com os quais aprofundou conhecimentos de morfologia, gramática, léxico, poesia, relatos históricos e literatura. Em 244 A.H. (858) e novamente em 246 (860), foi convidado à corte do califa Almotauaquil (r. 847–861) e de seu vizir Alfate ibne Cacane, participando de debates eruditos e literários e recebendo ricos presentes em reconhecimento de seu desempenho. Nessa época conheceu poetas como Dibil, Albuturi e Abu Alambas Maomé ibne Isaque Açaimari. O próprio Almubarrade recordava ter sido chamado à corte de Samarra em 246 A.H. (860).

Após os assassinatos de Almotauaquil e Alfate ibne Cacane em 247 A.H. (861), que interromperam o patrocínio de que desfrutava em Samarra, Almubarrade mudou-se para Baguedade. Sua reputação como autoridade em ʿarabiyya, o estudo erudito da língua árabe, já estava então estabelecida, e na capital abássida passou a dedicar-se intensamente ao ensino. Foi ali que se desenvolveu sua célebre rivalidade intelectual com Abu Alabás Talabe, principal representante das tradições gramaticais associadas a Cufa. Seus debates eram realizados diante de numerosos estudantes e interessados, em mesquitas, praças e residências de emires e vizires. Almubarrade destacou-se pela eloquência, capacidade de argumentação, espírito e rapidez de resposta, e vários alunos de Talabe passaram a frequentar suas aulas; entre eles estava Azajaje, enviado inicialmente pelo próprio Talabe para confrontá-lo. Apesar da rivalidade acadêmica, as fontes não apresentam os dois estudiosos como inimigos pessoais: Almubarrade reconhecia Talabe como o mais erudito dos cufanos, e este compôs uma elegia por ocasião da morte do rival. A rivalidade entre Almubarrade e Talabe tornou-se posteriormente emblemática da oposição entre as chamadas escolas de Baçorá e Cufa. Sellheim atribui aos debates entre ambos papel importante na cristalização dessa divisão: Almubarrade, natural de Baçorá, cultivava deliberadamente as tradições filológicas locais e investigava sua história até figuras antigas como Abu Alaçuade Aduali, enquanto Talabe transmitia sobretudo as tradições de Alfarrá e Alquiçai. A própria existência de uma escola cufana coerente como doutrina viva, contudo, é tratada com cautela por Sellheim, que considera sua sistematização em oposição à tradição baçorana em grande medida produto da elaboração dos estudiosos posteriores.

Em Baguedade, Almubarrade reuniu numerosos discípulos e tornou-se uma das principais autoridades no ensino do Kitāb de Sibauai e na resolução de suas passagens difíceis. Entre os estudiosos que frequentaram suas lições estavam Nifetauai, Ibne Caiçane, Azajaje, Alaquefaxe, o Moço, Ibne Açarraje, Ibne Durustauai, Abu Becre Açuli e vários outros gramáticos e homens de letras. Gozou também do favor de emires e vizires, sobretudo do governador de Baguedade Maomé ibne Abedalá ibne Tair e de seu irmão Ubaide Alá. Almubarrade morreu em Baguedade em 28 de Dulrija de 286 A.H. (4 de janeiro de 900), embora 285 A.H. (899) também seja registrado como ano de sua morte. Foi sepultado no cemitério do bairro de Babe Alcufa. As fontes o descrevem como homem de grande inteligência e memória, espirituoso, afável e apreciador de anedotas e humor. Poetas contemporâneos como Ibne Arrumi, Albuturi, Ibne Alalafe e Amade ibne Abede Açalame compuseram panegíricos ou elegias em sua homenagem.

Obras

Cerca de sessenta livros e tratados são atribuídos a Almubarrade, sobretudo nos campos da gramática, lexicografia e literatura, embora apenas parte dessa produção tenha sobrevivido. Sellheim observa que vários dos textos menores transmitidos sob seu nome, dedicados a questões isoladas de gramática, léxico, adabe e genealogia, parecem ter se originado de anotações de suas aulas e dos majālis em que ensinava, e não necessariamente de obras concebidas desde o início como livros autônomos. A obra mais célebre de Almubarrade é o al-Kāmil fī l-adab (الكامل في الأدب), também conhecido por formas mais extensas do título que mencionam língua, gramática e morfologia. Juntamente com o al-Bayān wa-l-tabyīn, de Aljaiz, o Adab al-kātib, de Ibne Cutaiba, e o al-Amālī, de Alcali, é considerado uma das obras fundamentais do adabe clássico. O livro surgiu das atividades públicas de ensino de Almubarrade e preserva traços da interação entre mestre e alunos; sua forma transmitida deve-se em parte ao discípulo Alaquefaxe, o Moço, que organizou e acrescentou material ao texto. A obra compreende cinquenta e nove ou sessenta e um capítulos de disposição relativamente livre e reúne versículos corânicos, hádices, sermões, máximas, provérbios, narrativas históricas, anedotas, poesia antiga e explicações gramaticais e lexicográficas. Inclui ainda numerosos relatos no estilo dos Dias Árabes e extensas seções dedicadas aos carijitas, além de digressões sobre questões de gramática e retórica. A ausência frequente de cadeias de transmissão para as notícias históricas e literárias foi criticada por autores posteriores. Publicado pela primeira vez por William Wright em Leipzig entre 1864 e 1892, o al-Kāmil conheceu numerosas edições, comentários, abreviações e reorganizações posteriores; Oskar Rescher traduziu para o alemão os capítulos relativos aos carijitas em 1922.

Outra de suas principais obras é o al-Muqtaḍab (المقتضب), extenso tratado de gramática árabe dedicado sobretudo à morfologia e à sintaxe. A TDV o considera, depois do Kitāb de Sibauai, uma das obras fundamentais da gramática árabe e destaca seu esforço para expor a matéria em estilo mais compreensível e com terminologia por vezes mais concisa que a de Sibauai. A organização é pouco sistemática e conserva claramente a aparência de notas de ensino, com referências a assuntos discutidos anteriormente ou a serem retomados adiante. O Kitāb constitui sua principal referência, mas Almubarrade também o critica e procura desenvolver ou completar diversas de suas análises. A obra utiliza cerca de quinhentos versículos corânicos e mais de quinhentos excertos poéticos como exemplos gramaticais. O manuscrito mais antigo conhecido, conservado na Biblioteca Köprülü e datado de 347 A.H. (958), foi revisto pelo gramático Abuçaíde Acirafi. A edição moderna de referência foi preparada por Maomé Abedal Calique Udaima em quatro volumes. O al-Fāḍil wa-l-mafḍūl (الفاضل والمفضول), geralmente publicado sob o título abreviado al-Fāḍil, é uma obra de adabe de dimensões muito menores que o al-Kāmil. Dividida em quinze capítulos e uma seção final, reúne materiais em prosa e verso sobre temas como generosidade e avareza, juventude e velhice, gratidão, inveja, eloquência, beleza e clemência. Entre suas principais autoridades figuram Almazini, Arriaxi e Atauazi, também frequentemente utilizados no al-Kāmil. Embora parte do material ocorra nas duas obras, o al-Fāḍil apresenta organização mais deliberada e oferece comparativamente poucas digressões gramaticais ou lexicográficas. Foi editado por Abedalazize Almaimani em meados do século XX.

O al-Taʿāzī wa-l-marāthī (التعازي والمراثي), também transmitido sob um título mais extenso que inclui exortações e testamentos, reúne poemas e narrativas relacionados à consolação, ao luto e às elegias. Segundo a TDV, Almubarrade o compôs em 282 A.H. (896), por ocasião da morte de seu amigo, o cádi maliquita Ismail ibne Isaque Aljami, ampliando material já utilizado na parte final do al-Kāmil com numerosos exemplos de poetas antigos. Sellheim situa a redação mais precisamente entre o final de 282 A.H./início de 896 e 284/897 e observa que o núcleo da obra reutiliza versos, poemas e explicações históricas presentes também no al-Kāmil e no al-Fāḍil, além de incorporar tradições provenientes de autores anteriores. O texto recebeu diferentes edições modernas, entre elas as de Ramaḍān ʿAbd al-Tawwāb, Muḥammad al-Dībājī e Ibrāhīm Muḥammad Ḥasan al-Jamal. Almubarrade escreveu também o al-Balāgha (البلاغة), tratado composto em resposta a uma questão de Amade, filho do califa Aluatique, sobre a superioridade relativa da eloquência da poesia e da prosa. A TDV o considera o primeiro tratado independente dedicado à retórica árabe. O texto discute a definição da eloquência, as qualidades do discurso eloquente e o valor retórico de passagens poéticas e corânicas, comparando exemplos em prosa e verso. Sobreviveu num manuscrito completo copiado pelo célebre calígrafo Ibne Albauabe e foi editado modernamente por Gustave von Grunebaum, Ramaḍān ʿAbd al-Tawwāb e Muḫtār al-Dīn Aḥmad.

Entre os tratados menores preservados encontra-se o al-Mudhakkar wa-l-muʾannath (المذكر والمؤنث), dedicado aos gêneros masculino e feminino; o al-Qawāfī wa-mā ishtuqnat alqābuhā minhu (القوافي وما اشتقت ألقابها منه), sobre rima; o Mā ittafaqa lafẓuhu wa-khtalafa maʿnāhu min al-Qurʾān al-majīd (ما اتفق لفظه واختلف معناه من القرآن المجيد), sobre expressões corânicas de forma idêntica e sentidos distintos; e a Risāla fī aʿjāz buyūt tughnī fī l-tamthīl ʿan ṣudūrihā, coleção de finais de versos que podiam ser empregados proverbialmente independentemente de suas partes iniciais. Esses textos, assim como outros pequenos tratados atribuídos a Almubarrade, parecem ter se formado no ambiente de suas aulas e reuniões eruditas. Também se conserva o Nasab ʿAdnān wa-Qaḥṭān (نسب عدنان وقحطان), dedicado às genealogias dos grandes agrupamentos árabes tradicionalmente vinculados a Adenane e Catã. A obra figura entre os mais antigos textos genealógicos árabes preservados e foi posteriormente utilizada por Ibne Hasme na composição da Jamharat ansāb al-ʿArab. Foi publicada por ʿAbd al-ʿAzīz al-Maymanī em 1354 A.H. (1936).

Entre os textos transmitidos a partir das aulas de Almubarrade havia ainda um comentário crítico ao Kitāb de Sibauai, conhecido como Sharḥ Kitāb Sībawayh e possivelmente relacionado ao Kitāb al-Ziyāda al-muntazaʿa min Kitāb Sībawayh. A tradição bibliográfica atribui-lhe também obras hoje perdidas ou conhecidas sobretudo por citações, entre elas al-Ikhtiyār, Gharīb al-ḥadīth, al-Jinān, Ṣifāt Allāh, Qawāʿid al-shiʿr e Ṭabaqāt al-naḥwiyyīn al-Baṣriyyīn wa-akhbāruhum. Esta última reunia biografias dos gramáticos de Baçorá e remontava a história da tradição gramatical local até Abu Alaçuade Aduali e outras figuras associadas às origens da disciplina. Uma lista reunida por Ramaḍān ʿAbd al-Tawwāb chega a cinquenta e quatro títulos atribuídos a Almubarrade. Outra obra perdida, o al-Rawḍa, reunia poesia de autores contemporâneos de Almubarrade, começando por Abu Nuas, e foi consultada por ʿAbd al-ʿAzīz al-Maymanī a partir de um manuscrito não identificado em detalhes. Sellheim menciona ainda uma obra intitulada Khuṭbat tazwīj, de conteúdo desconhecido, e rejeita como provavelmente incorreta a atribuição a Almubarrade de um Sharḥ Lāmiyyat al-ʿArab, que considera antes obra de seu discípulo Alaquefaxe, o Moço.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 Sellheim 1993, p. 279.
  2. 1 2 3 Durmuş 2006, p. 430.
  3. ↑ Durmuş 2006, pp. 430–431.
  4. 1 2 3 4 5 6 Durmuş 2006, p. 431.
  5. 1 2 Sellheim 1993, pp. 279–280.
  6. 1 2 3 4 5 Sellheim 1993, p. 280.
  7. 1 2 Sellheim 1993, pp. 280–281.
  8. ↑ Durmuş 2006, pp. 431–432.
  9. 1 2 3 4 Durmuş 2006, p. 432.
  10. 1 2 3 Durmuş 2006, p. 433.
  11. 1 2 3 4 5 Sellheim 1993, p. 281.
  12. ↑ Sellheim 1993, pp. 279–282.
  13. ↑ Sellheim 1993, p. 282.

Bibliografia