Sibauai

Sibauai (em persa: سیبویه; romaniz.: Sībawayh; em árabe: سيبويه; romaniz.: Sībawayhi), de nome completo Abu Bixer Anre ibne Otomão ibne Cambar (em árabe: أبو بشر عمرو بن عثمان بن قنبر; romaniz.: Abū Bishr ʿAmr ibn ʿUthmān ibn Qanbar; Albaida, século VIII – Irã, provavelmente 796), foi um gramático e linguista de origem iraniana, considerado uma das figuras centrais da tradição gramatical árabe. Nascido na região de Farse, mudou-se ainda jovem para Baçorá, onde inicialmente estudou hádice e posteriormente se dedicou à língua e à gramática árabes. Teve como principal mestre Alcalil ibne Amade Alfaraídi e estudou também com Iunus ibne Habibe, Alaquefaxe, o Velho, Issa ibne Omar Atacafi e outros estudiosos.

Sua reputação está fundamentalmente associada ao Kitāb ("o Livro"), a primeira gramática árabe completa que chegou até a atualidade e a única fonte contemporânea substancial para o conhecimento da gramática árabe primitiva. A obra reúne e desenvolve uma tradição linguística anterior, recorrendo ao Alcorão, à poesia e à fala dos árabes como evidências para o estudo da língua. Abrange extensamente a sintaxe, a morfologia e a fonética e preserva numerosos ensinamentos de estudiosos anteriores, particularmente Alcalil. Embora sua terminologia ainda não corresponda integralmente àquela que seria sistematizada pela tradição gramatical posterior, o Kitāb tornou-se uma referência fundamental para o desenvolvimento da disciplina.

A obra de Sibauai originou uma extensa tradição de transmissão, comentários e estudos, da qual participaram gramáticos como Alaquefaxe, o Médio, Almubarrade, Açirafi e Arrumani. Mais de oitenta trabalhos relacionados ao Kitāb são conhecidos, entre comentários e estudos especializados, e dezenas de manuscritos da obra sobreviveram. A autoridade alcançada por Sibauai tornou seu nome praticamente inseparável do Kitāb, e seu prestígio entre os gramáticos árabes foi comparado ao de Aristóteles entre os filósofos, Galeno entre os médicos e Ptolemeu entre os astrônomos.

Vida e formação

Sibauai era de origem iraniana e nasceu em Albaida, na região de Farse, embora as fontes não permitam estabelecer com segurança a data de seu nascimento. Seu nome era Abu Bixer Anre ibne Otomão ibne Cambar e aparece nas fontes como maula dos Banu Harite ibne Cabe ibne Iascur. O nome pelo qual se tornou conhecido, Sibauai (Sībawayhi), é de origem persa e tradicionalmente explicado como significando "aroma de maçã", embora outras interpretações tenham sido propostas. As informações biográficas conservadas sobre seus primeiros anos são escassas. Ainda jovem, Sibauai mudou-se para Baçorá, um dos principais centros intelectuais do Iraque, onde inicialmente se dedicou ao estudo do hádice. Segundo uma tradição biográfica, seu interesse pela gramática teria surgido depois de cometer um erro linguístico durante seus estudos de hádice e ser corrigido por seu mestre; episódios dessa natureza, contudo, pertencem à tradição posterior acerca de sua formação. Em Baçorá, passou a dedicar-se intensamente à língua e à gramática árabes e recebeu ensinamentos de alguns dos mais importantes estudiosos de sua época.

O mais importante de seus mestres foi Alcalil ibne Amade Alfaraídi, cuja influência permeia o Kitāb. A posição excepcional de Alcalil pode ser percebida na própria obra: é citado 608 vezes e Sibauai refere-se a ele simplesmente como "ele". Outro mestre de grande importância foi Iunus ibne Habibe, citado 217 vezes no Kitāb. Sibauai estudou ainda com Alaquefaxe, o Velho, Issa ibne Omar Atacafi, Abu Zaíde Alançari e outros estudiosos. A análise das autoridades mencionadas no Kitāb permite identificar sete mestres também conhecidos pela tradição biográfica e cinco ou mais mestres exclusivamente orais. A tradição associa ainda Sibauai a uma célebre controvérsia gramatical com Alquiçai, conhecida posteriormente como a "questão da vespa" (al-masʾala al-zunbūriyya). Segundo o relato tradicional, os dois gramáticos teriam debatido diante de autoridades em Baguedade, e a disputa teria terminado de maneira desfavorável a Sibauai. A historicidade e os pormenores do episódio, entretanto, são incertos, pois o relato não aparece nas fontes mais antigas. Depois de sua permanência no Iraque, Sibauai regressou ao Irã. As fontes divergem consideravelmente acerca tanto do local quanto da data de sua morte, situando-a em diferentes lugares e oferecendo cronologias que vão de 177 a 194 A.H. Entre as datas transmitidas, 180 A.H. (796) é considerada a mais plausível. As tradições divergem igualmente quanto ao lugar de sua morte, situando-a, entre outros locais, em Xiraz e Albaida. Entre os discípulos de Sibauai esteve Alaquefaxe, o Médio, que desempenhou papel importante na transmissão do Kitāb após a morte do mestre.

Kitāb

A reputação de Sibauai repousa fundamentalmente no Kitāb, obra que ocupa posição central na história da gramática árabe. Embora incorpore uma tradição de estudos linguísticos anterior e preserve opiniões de numerosos mestres, o trabalho constitui a primeira gramática árabe completa que chegou até a atualidade e a única fonte contemporânea substancial para o conhecimento da gramática árabe primitiva. Sua importância foi tamanha que passou a ser conhecido simplesmente como al-Kitāb ("o Livro"), enquanto seu autor adquiriu uma autoridade excepcional entre os gramáticos posteriores. O Kitāb não possui prefácio ou conclusão em que Sibauai exponha explicitamente seus objetivos ou a organização da obra. Inicia-se com uma breve exposição das espécies de palavras e passa à análise da estrutura das orações e das relações sintáticas. Seguem-se extensas discussões de fenômenos morfológicos e, nas partes finais, questões de fonética e articulação dos sons.

Uma característica fundamental do Kitāb é o recurso constante a exemplos linguísticos empregados como evidência. Sibauai utiliza o Alcorão, a poesia e dados recolhidos da fala dos árabes, incluindo beduínos, para estabelecer e discutir os usos da língua. Ao examinar esse material, formula julgamentos sobre diferentes construções e sua aceitabilidade. O Kitāb conserva, desse modo, grande quantidade de material linguístico e poético antigo. A terminologia empregada por Sibauai ainda não corresponde integralmente ao vocabulário técnico que se tornaria corrente na tradição gramatical posterior. Diversas palavras que mais tarde adquiriram sentidos técnicos fixos aparecem no Kitāb com significados mais próximos de seus usos ordinários. Por essa razão, a interpretação de seu pensamento exige cautela ao aplicar retrospectivamente categorias desenvolvidas pelos gramáticos posteriores. O mesmo vale para a divisão tradicional entre as chamadas escolas de Baçorá e Cufa: embora Sibauai tenha se formado no ambiente intelectual baçorano, a concepção dessas escolas como tradições claramente delimitadas e rivais é posterior e não deve ser projetada sobre o contexto em que o Kitāb foi produzido.

Concepção gramatical

Sibauai compara diferentes formas e construções e procura estabelecer as relações existentes entre elas. Em suas análises emprega também procedimentos analógicos que seriam posteriormente associados ao qiyās, embora a terminologia e as categorias da tradição gramatical posterior não devam ser projetadas diretamente sobre o Kitāb. O uso atestado da língua permanece um elemento fundamental na avaliação das construções examinadas. A obra dedica atenção especial à estrutura da oração e às relações de predicação. Sibauai examina as diferentes funções que nomes e verbos podem desempenhar, os efeitos produzidos pela presença ou ausência de determinados elementos e as circunstâncias em que componentes do enunciado podem ser omitidos. Sua análise considera não apenas a forma gramatical, mas também o sentido e as circunstâncias em que o enunciado é produzido, incluindo aquilo que já é conhecido pelo interlocutor. Além da sintaxe, uma parte considerável do Kitāb é dedicada à morfologia. Sibauai examina a formação e transformação das palavras, seus padrões e diferentes alterações fonológicas associadas às estruturas morfológicas. A seção fonética, situada na parte final da obra, apresenta uma classificação articulatória dos sons árabes e descreve seus pontos e modos de articulação, em conexão com os fenômenos morfológicos tratados nessa parte do Kitāb.

Transmissão e comentários

A história da transmissão do Kitāb está estreitamente ligada aos discípulos e às gerações imediatamente posteriores a Sibauai. Depois da morte do autor, a obra foi transmitida por Alaquefaxe, o Médio, discípulo de Sibauai. Entre os gramáticos posteriormente associados à transmissão e ao estudo do texto destacou-se Almubarrade, no século IX. O interesse pelo Kitāb deu origem a uma extensa produção de comentários e estudos especializados. São conhecidos mais de oitenta títulos relacionados diretamente à obra, abrangendo comentários integrais, explicações de passagens difíceis, tratamentos de seus exemplos poéticos e estudos dedicados a problemas gramaticais específicos. Entre os estudiosos que contribuíram para essa tradição estiveram Açirafi, autor de um comentário ao Kitāb, e Arrumani. A interpretação da obra desenvolveu-se também por meio de trabalhos dedicados a seus shawāhid, a passagens difíceis e a questões específicas de seu conteúdo. Carter registra 78 manuscritos conhecidos do Kitāb. A obra passou também por uma história de edições impressas e, a partir do século XIX, tornou-se objeto de estudos filológicos modernos.

Legado

Sibauai adquiriu posição excepcional na história da gramática árabe, e seu nome tornou-se praticamente inseparável do Kitāb. Embora a disciplina já possuísse uma história anterior e a própria obra registre os ensinamentos de numerosos mestres, o Kitāb tornou-se um dos principais pontos de referência para as gerações seguintes. A designação simples al-Kitāb, "o Livro", pela qual a obra passou a ser conhecida, reflete a autoridade que lhe foi atribuída na tradição gramatical. Essa autoridade não significou que todas as posições de Sibauai fossem aceitas sem contestação. Gramáticos posteriores discutiram suas análises e dedicaram numerosos comentários e estudos à interpretação de passagens e problemas do Kitāb. A posição alcançada por Sibauai na tradição intelectual islâmica foi comparada à de grandes autoridades de outras disciplinas: entre os gramáticos árabes, seu prestígio tornou-se comparável ao de Aristóteles entre os filósofos, Galeno entre os médicos e Ptolemeu entre os astrônomos. O Kitāb permaneceu como uma referência fundamental para a tradição gramatical árabe. Essa posição, contudo, não significa que Sibauai tenha criado isoladamente a gramática árabe. O próprio Kitāb documenta uma tradição anterior, preservando opiniões e materiais provenientes de Alcalil ibne Amade Alfaraídi, Iunus ibne Habibe e numerosos outros estudiosos, e constitui a primeira gramática árabe completa que chegou até a atualidade.

Referências

  1. ↑ Özbalıkçı 2009, p. 130.
  2. ↑ Özbalıkçı 2009, pp. 130–131.
  3. 1 2 3 Carter 1997, p. 524.
  4. ↑ Carter 1997, pp. 524–525.
  5. 1 2 Özbalıkçı 2009, p. 131.
  6. 1 2 Carter 1997, p. 529.
  7. 1 2 Carter 1997, pp. 525–526.
  8. 1 2 Özbalıkçı 2009, pp. 131–132.
  9. 1 2 Carter 1997, pp. 526–528.
  10. ↑ Carter 1997, pp. 525–527.
  11. ↑ Carter 1997, pp. 526–527.
  12. ↑ Carter 1997, pp. 528–529.
  13. 1 2 3 Carter 1997, pp. 529–530.
  14. ↑ Carter 1997, p. 530.
  15. ↑ Özbalıkçı 2009, pp. 133–134.
  16. ↑ Carter 1997, pp. 524–526.

Bibliografia