| Galeno | |
|---|---|
| Γαληνός | |
Gravura de Georg P. Busch, do século XVII. | |
| Conhecido(a) por | Anatomia, medicina e filosofia |
| Nascimento | setembro de 129 Pérgamo, Ásia romana |
| Morte | c. 216, aos c. 87 anos |
| Ocupação | Médico, cirurgião e filósofo |
Cláudio Galeno ou Élio Galeno (em grego, Γαληνός; setembro de 129 – c. 216), mais conhecido como Galeno ou Galeno de Pérgamo, foi um médico, cirurgião e filósofo greco-romano. Sua atividade de investigação médica na Antiguidade abrangeu anatomia, fisiologia, patologia, farmacologia e neurologia, além de filosofia e lógica.
Filho de Nicon, um arquiteto grego abastado e interessado em estudos, Galeno recebeu uma formação ampla para exercer a medicina e a filosofia. Nascido na antiga Pérgamo, atual Bergama, na Turquia, viajou por muitos lugares e conheceu diferentes teorias e descobertas médicas antes de se estabelecer em Roma, onde atendeu membros da sociedade romana e se tornou médico pessoal de imperadores.
Sua compreensão da anatomia e da medicina recebeu forte influência da teoria dos quatro humores, bile negra, bile amarela, sangue e fleuma, apresentada pelo autor de Sobre a natureza do homem, obra do corpus hipocrático. Suas ideias orientaram a medicina ocidental por mais de 1.300 anos. Seus relatos anatômicos basearam-se principalmente na dissecação de macacos-de-gibraltar. Herófilo e Erasístrato haviam realizado dissecações humanas em Alexandria no século III a.C.; a vivissecção humana também lhes foi atribuída por autores antigos. Na época de Galeno, a dissecação sistemática de cadáveres humanos não integrava o ensino médico romano, embora haja relatos de observações ocasionais de restos humanos. A suposta lei romana que teria proibido a prática em 150 a.C. não tem fundamento documental. Galeno dissecou principalmente macacos-de-gibraltar, além de outros animais, como porcos. Aristóteles já havia estudado a anatomia e a fisiologia de porcos séculos antes. Galeno e outros estudiosos entendiam que havia correspondências entre a anatomia animal e a humana. Ele incentivava os alunos a observar gladiadores mortos e corpos trazidos pela água para conhecer melhor o corpo humano.
Um ponto central de sua teoria sobre a fisiologia do sistema circulatório foi contestado por volta de 1242, quando Ibn al-Nafis expôs a circulação pulmonar em Sharh tashrih al-qanun li' Ibn Sina, comentário anatômico ao Cânone de Avicena. Na Europa do século XVI, Andreas Vesalius reviu seus relatos anatômicos à luz de dissecações humanas, publicadas em 1543 em De humani corporis fabrica. A teoria fisiológica de Galeno foi então acomodada a essas observações.
Galeno defendeu que o melhor médico deveria estudar filosofia, como expôs no tratado Que o melhor médico também é filósofo. Interessava-se pela disputa entre as escolas médicas racionalista e empirista. Sua combinação de observação direta, dissecação e vivissecção ocupava uma posição entre os extremos das duas escolas. Muitas de suas obras foram preservadas no original grego ou em traduções, enquanto outras se perderam e algumas das que lhe são atribuídas parecem ser espúrias. A data de sua morte é discutida, mas ele tinha pelo menos setenta anos quando morreu.
O nome grego de Galeno, Γαληνός (Galēnós), vem do adjetivo γαληνός (galēnós), "sereno". As formas latinas Élio e Cláudio são atribuídas a Galeno, mas sua documentação antiga é discutida. A identificação de seu pai com um arquiteto chamado Élio Nicon, conhecido por uma inscrição de Pérgamo, não é segura; por isso, a cidadania romana de Galeno não pode ser demonstrada apenas por esses nomes.

Galeno contou seus primeiros anos em Sobre as afecções da alma. Nasceu em setembro de 129. Seu pai, Nicon, era um arquiteto e construtor abastado, interessado em filosofia, matemática, lógica, astronomia, agricultura e literatura. Galeno o chamou de "homem muito afável, justo, bom e benevolente". Pérgamo, atual Bergama, era um centro cultural e intelectual conhecido pela biblioteca, tida como inferior apenas à de Alexandria, e por seu grande templo de cura dedicado a Asclépio. Filósofos estoicos e platônicos visitavam a cidade, e Galeno teve contato com eles aos catorze anos. Estudou os sistemas filosóficos de sua época, entre eles o aristotelismo e o epicurismo. Nicon pretendia encaminhá-lo à filosofia ou à política e lhe proporcionou uma formação literária e filosófica. Galeno contou que, por volta de 145, Asclépio apareceu em sonho a seu pai e ordenou que o filho estudasse medicina.

Depois de seus estudos iniciais, Galeno começou, aos dezesseis anos, a estudar no Asclepeion local. Passou quatro anos no templo como θεραπευτής (therapeutes), um auxiliar de atendimento, e recebeu a orientação de homens como Escrião de Pérgamo, Estratônico e Sátiro. Os asclepeions funcionavam como locais de cura, onde os doentes procuravam o auxílio dos sacerdotes. Romanos frequentavam o templo de Pérgamo em busca de alívio para suas enfermidades. Também o visitavam o historiador Cláudio Cárace, o orador Élio Aristides, o sofista Pólemon e o cônsul Cúspio Rufino.
Nicon morreu por volta de 148 ou 149 e deixou Galeno, então com cerca de dezenove anos, financeiramente independente. Seguindo uma recomendação que encontrou nos ensinamentos de Hipócrates, Galeno viajou e estudou em Esmirna (atual İzmir), Corinto, Creta, Cilícia (região que abrangia parte da atual Çukurova), Chipre e, por fim, na escola de medicina de Alexandria, onde conheceu diferentes correntes médicas. Em 157, aos 28 anos, voltou a Pérgamo como médico dos gladiadores do sumo sacerdote da Ásia, um homem rico e poderoso. Galeno contou que foi escolhido depois de abrir o abdome de um macaco e desafiar outros médicos a reparar o ferimento. Diante da recusa deles, operou o animal e conquistou a confiança do sacerdote. Nos quatro anos em que ocupou o cargo, aprendeu a atender fraturas e traumatismos graves e a observar a anatomia de pessoas vivas. As feridas dos gladiadores lhe permitiam observar a anatomia humana; também passou a dar atenção à dieta, ao exercício, à higiene e à prevenção. Segundo seu próprio relato, cinco gladiadores morreram sob seus cuidados, contra sessenta no período de seu antecessor. Prosseguiu, ao mesmo tempo, seus estudos de medicina teórica e filosofia.

Galeno foi para Roma em 162 e passou a atuar como médico. Suas demonstrações públicas e sua impaciência com opiniões médicas diferentes provocaram conflitos com outros profissionais da cidade. Quando o filósofo peripatético Eudemo adoeceu de febre quartã, Galeno sentiu que devia tratá-lo, "pois ele era meu professor e eu morava perto". Escreveu que Eudemo sofrera três acessos graves da febre e que os outros médicos haviam desistido dele em pleno inverno. Outros médicos discordaram de seu prognóstico para Eudemo e alguns associaram suas previsões à adivinhação. Galeno, por sua vez, sustentou que diagnosticava e previa o curso da doença pela observação e pelo raciocínio. Era assim que criticava os médicos que procediam alogos e askeptos, sem raciocínio nem exame.
Segundo o relato de Galeno, Eudemo o advertiu de que os conflitos poderiam terminar em assassinato. Ele teria contado que os rivais de Galeno poderiam recorrer ao envenenamento e mencionado um jovem que, cerca de dez anos antes, demonstrara publicamente sua arte em Roma e fora envenenado com dois criados. Galeno afirmou que deixou a cidade por temer o exílio ou o envenenamento à medida que a hostilidade aumentava.

O império entrou em guerra com os partas em 161. Lúcio Vero, coimperador e irmão adotivo de Marco Aurélio, participou da campanha no Oriente. Em 168, ambos se dirigiram à fronteira danubiana para enfrentar povos como os marcomanos. No fim de 168, quando os imperadores estavam em Aquileia, a peste antonina atingiu as tropas romanas. Sua identificação com a varíola, proposta por estudiosos do século XX, permanece discutida. Marco Aurélio convocou Galeno de Pérgamo a Aquileia e ordenou que acompanhasse os imperadores como médico da corte. Segundo Galeno, Marco o dispensou depois que ele relatou um sonho no qual Asclépio se opunha à viagem. Galeno ficou como médico do herdeiro, Cômodo, e escreveu numerosos textos médicos durante sua permanência na corte. Lúcio Vero morreu em 169, após deixar Aquileia, e Marco Aurélio em 180. A atribuição de ambas as mortes à epidemia não está estabelecida.
Galeno tratou Cômodo durante boa parte da vida do imperador, inclusive de doenças comuns. Dião Cássio escreveu que uma peste matou, no auge, 2.000 pessoas por dia em Roma por volta de 189, durante o reinado de Cômodo. É possível que fosse outra manifestação da peste antonina, cuja causa não foi identificada com segurança. Galeno também foi médico de Septímio Severo em Roma. Elogiou Severo e Caracala por manterem medicamentos à disposição de seus amigos e mencionou três ocasiões em que eles foram úteis, em 198.
A peste antonina recebeu esse nome da família de Marco Aurélio, os Antoninos, e também foi chamada de peste de Galeno. Ele presenciou a doença em Roma em 166 e um surto entre as tropas em Aquileia no inverno de 168–169. Considerava a epidemia prolongada e descreveu sintomas e tratamentos em passagens breves e dispersas. Interessava-se mais pelos efeitos da doença e por seu tratamento do que por deixar uma descrição para que gerações futuras a reconhecessem. Ao escrever sobre um jovem enfermo, por exemplo, concentrou-se no tratamento das ulcerações internas e externas.
Partindo da hipótese de que a doença fosse varíola, Littman e Littman propuseram uma mortalidade de 7% a 10% e entre 3,5 milhões e 5 milhões de mortes entre 165 e 168. Estimativas históricas ainda maiores, como a de Otto Seeck, que supunha a perda de mais da metade da população imperial, contrastam com a avaliação de J. F. Gilliam de que o impacto demográfico foi exagerado. A identificação retrospectiva do agente e a escala das perdas permanecem debatidas: uma modelagem publicada em 2025 não identificou um patógeno provável e encontrou, para Roma, aumento máximo de 7% na mortalidade nos cenários examinados. Um esqueleto da Britânia dos séculos III ou IV, com lesões compatíveis com varíola, reforçou para seus pesquisadores a hipótese de que a doença já circulasse no mundo romano; esse achado posterior não determina, por si só, a causa da epidemia do século II.
Galeno escreveu que o exantema cobria o corpo inteiro, geralmente com coloração negra. Onde não havia ulcerações, a erupção ficava áspera e formava crostas. Os sobreviventes, afirmou, desenvolviam esse exantema escuro, que ele atribuía a resíduos de sangue putrefato nas pústulas febris. Também descreveu bolhas elevadas, em geral como uma erupção vesicular, semelhante à relatada por Tucídides. A diarreia e o aspecto das fezes lhe serviam para acompanhar os sintomas intestinais: fezes muito escuras indicavam morte, e sua quantidade variava conforme a gravidade das lesões. Nos casos em que as fezes não escureciam, aparecia o exantema negro. Galeno registrou ainda febre, vômitos, hálito fétido, catarro, tosse e ulcerações na laringe e na traqueia.

Galeno continuou a trabalhar e a escrever, concluindo tratados sobre medicamentos e remédios e um compêndio de diagnóstico e terapêutica que seria utilizado como texto médico na Idade Média latina e no mundo islâmico medieval.
O léxico Suda, do século XI, diz que Galeno morreu aos setenta anos, por volta de 199. Uma passagem de Sobre a teríaca para Pisão, tratado cuja autoria é discutida, menciona acontecimentos de 204. Fontes árabes afirmam que ele morreu na Sicília aos 87 anos, depois de estudar medicina por dezessete anos e de praticá-la por setenta, o que situaria a morte por volta de 216. Essas fontes também dizem que seu túmulo em Palermo ainda estava bem conservado no século X. Vivian Nutton aceita a autenticidade do tratado e os relatos árabes e considera que a Suda confundiu os setenta anos de exercício profissional com a duração de sua vida. Véronique Boudon-Millot concorda em linhas gerais e prefere a data de 216. Uma cronologia publicada no Oxford Handbook of Galen em 2024 também adota aproximadamente 216, observando que as datas do fim da vida são estimativas.
Galeno trabalhou extensamente com a patologia e relacionou diferenças de constituição física e de caráter às misturas dos humores: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. Sua obra contribuiu para a tradição dos quatro temperamentos, sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático. No entanto, ele fez poucas descrições específicas de caráter, e os traços psicológicos mais tarde atribuídos a cada categoria não correspondem diretamente às suas descrições.

Galeno também operava pacientes humanos. Alguns de seus procedimentos, inclusive intervenções no cérebro e nos olhos, só voltariam a ser usados séculos depois. Em seus experimentos cirúrgicos, ligava artérias de animais vivos. Embora historiadores do século XX tenham afirmado que ele situava o cristalino exatamente no centro do olho, Galeno entendia que o cristalino se encontrava na parte anterior do olho humano.
Galeno defendeu e empregou amplamente a venopunção como forma de sangria, prática já conhecida em Roma antes de sua chegada. Entrou em conflito com seguidores de Erasístrato, que em geral preferiam outros tratamentos à abertura das veias. Galeno defendeu a venopunção em três livros, em demonstrações e em debates públicos. Seus estudos anatômicos pouco foram contestados na Europa até o século XVI, quando Andreas Vesalius dissecou cadáveres humanos e refutou partes de suas teorias.
No tratado De sanitate tuenda, Galeno tratou do regime de vida como um meio de preservar a saúde. O termo abrangia alimentos e bebidas, mas também exercício, repouso, sono, banhos, massagens e atividade sexual. O médico deveria considerar as condições de cada pessoa ao recomendar essas práticas.
Galeno distinguiu remédios simples, obtidos de plantas, minerais e animais, de preparados compostos. Em De simplicium medicamentorum temperamentis et facultatibus, relacionou o efeito dos remédios simples a qualidades como quente, frio, seco e úmido, no âmbito da teoria humoral. Também reuniu receitas de medicamentos compostos e escreveu sobre antídotos e triaga. Em sua prática, combinava o raciocínio sobre as propriedades dos ingredientes com a observação de seus efeitos.

Galeno baseou a maior parte de suas descrições anatômicas em animais. A dissecação humana sistemática era incomum no mundo romano, mas a alegação de uma proibição geral promulgada em 150 a.C. resulta de uma leitura equivocada das fontes. Ele dissecava animais mortos e praticava vivissecção, com atenção especial aos primatas. Acreditava que a anatomia deles era muito próxima da humana. Descreveu a traqueia e demonstrou que a laringe produz a voz. Em uma experiência, insuflou os pulmões de um animal morto com foles. Seus estudos fisiológicos receberam influência de Platão, Aristóteles e Hipócrates. Galeno usou experimentos na investigação médica, o que lhe permitiu examinar partes do corpo e suas funções.
Seus estudos do sistema circulatório o levaram a distinguir o sangue venoso, escuro, do sangue arterial, mais claro. Formulou também uma explicação para a origem e o percurso do sangue. Seguindo Hipócrates, acreditava que o fígado transformava os nutrientes dos alimentos em sangue. Esse sangue seguiria pela grande veia até o ventrículo direito do coração. Galeno propôs que a chamada artéria venosa conduzia ar dos pulmões ao ventrículo esquerdo, onde o ar se misturava ao sangue produzido pelo fígado. Ela também devolveria aos pulmões substâncias eliminadas do sangue. Para que o sangue do ventrículo direito chegasse ao esquerdo, ele supôs que pequenos poros atravessavam o septo entre os dois lados do coração. Seus experimentos com animais ampliaram a descrição dos sistemas circulatório, nervoso e respiratório, mas também o levaram a conclusões equivocadas. Para Galeno, não havia um circuito fechado: o sangue venoso se originava no fígado e era consumido pelos órgãos, enquanto o sangue arterial chegava a eles a partir do coração. O sangue seria continuamente regenerado no fígado ou no coração. Ele ainda descreveu uma rete mirabile na base do cérebro humano, estrutura observada em certos animais, mas ausente em seres humanos. A compreensão posterior da circulação, a começar pelos trabalhos de Ibn al-Nafis por volta de 1242, mostrou que essas teorias estavam erradas.

As dissecações e vivissecções de animais também lhe permitiram descrever a coluna vertebral, a medula espinhal e os nervos que dela emergem. Estudou os efeitos de seccionar a medula em diferentes níveis. Cortava total ou parcialmente nervos de porcos e observava as consequências, além de estudar doenças dos nervos e da medula. Em De motu musculorum, distinguiu nervos motores de nervos sensoriais, examinou o tônus muscular e diferenciou os músculos agonistas dos antagonistas.
O uso de animais também produziu erros na descrição do útero humano, influenciada pela anatomia de outros mamíferos. Galeno comparou os ovários aos testículos masculinos e defendeu que mulheres e homens produziam uma contribuição seminal à geração, tema debatido em sua época.
Com a vivissecção, Galeno mostrou que o cérebro comandava a voz. Em sua demonstração pública do porco que guinchava, abria o animal e ligava o nervo laríngeo recorrente enquanto ele emitia sons, mostrando o papel desse nervo na vocalização. Ligava ainda os ureteres para investigar o funcionamento dos rins e da bexiga. Galeno concebia três sistemas interligados: cérebro e nervos, responsáveis pelo pensamento e pelas sensações; coração e artérias, que forneceriam energia vital; fígado e veias, encarregados da nutrição e do crescimento. Atribuía ao fígado a produção do sangue venoso.

Em Sobre as doutrinas de Hipócrates e Platão, Galeno procurou conciliar as ideias dos dois autores. Com elas e com as de Aristóteles, formulou uma alma dividida em três partes. Empregou os termos de Platão: racional, irascível e apetitiva. Localizou a parte racional no cérebro, a irascível no coração e a apetitiva no fígado. Seu conhecimento médico também lhe permitiu defender experimentalmente a hipótese cefalocêntrica contra o cardiocentrismo estoico. Essa atribuição de funções a regiões do corpo recebe o nome de localização das funções. Seu argumento anatômico e experimental em favor do cérebro como sede da parte racional influenciou teorias posteriores da localização funcional.
Para Galeno, cada parte da alma controlava determinadas atividades, e a alma inteira mantinha a saúde ao fortalecer a "capacidade natural de funcionamento" dos órgãos. A parte racional governava funções cognitivas como escolher e perceber o mundo. Ele lhe atribuía também imaginação, memória, recordação, conhecimento, pensamento, ponderação, movimento voluntário e sensação. A parte irascível, situada no coração, relacionava-se a reações emocionais como a ira; a parte apetitiva, situada no fígado, ligava-se à nutrição, ao crescimento e à reprodução, além dos desejos. Galeno julgava que o prazer excessivo conduzia à "incontinência" e à "licenciosidade", quando já não se conseguia interrompê-lo voluntariamente.
Para explicar como a alma agia nos órgãos e como estes se comunicavam, Galeno adaptou a teoria do pneuma. Distinguiu o pneuma vital das artérias do pneuma psíquico do cérebro e dos nervos. Situou o primeiro no coração e o segundo, chamado spiritus animalis, no cérebro. Estudou a passagem de um ao outro por meio de dissecações de animais, entre eles um boi. Mesmo criticado por transferir conclusões da anatomia animal para a humana, considerava que conhecia suficientemente as duas para fazer essa comparação. Em Sobre a utilidade das partes do corpo, argumentou que a adequação de cada órgão a sua função apontava para um criador inteligente. Os exemplos anatômicos de Sócrates e Empédocles antecipavam essa concepção de criação.

Além da medicina, da anatomia e da fisiologia, Galeno escreveu sobre lógica e filosofia. Leu autores gregos e romanos anteriores, entre eles Platão, Aristóteles, os estoicos e os pirrônicos. Em Que o melhor médico também é filósofo, combinou ideias dessas correntes com as suas e defendeu uma medicina praticada com teoria, observação e experimentação. Considerava que o bom médico precisava conhecer os três ramos da filosofia então reconhecidos: lógica, física e ética.
Galeno aproximou o que observava nas dissecações da teoria platônica da alma. Platão distinguia o corpo da alma, em oposição à posição estoica, e afirmava que a alma era imortal, existindo antes do nascimento. Galeno retomou a divisão platônica da alma em três partes e relacionou suas funções ao cérebro, ao coração e ao fígado. Tratou também do pneuma e do sangue na explicação da atividade vital. A natureza precisa da alma e de sua relação com o corpo, entretanto, não recebe uma resposta única em seus escritos.
Na medicina de seu tempo havia escolas diferentes. As duas principais eram a empírica e a racionalista, também chamada dogmática ou filosófica; os metodistas formavam um grupo menor. Os empiristas valorizavam a prática e a experimentação, ou "aprendizagem ativa". Os racionalistas estudavam os ensinamentos estabelecidos para elaborar novas teorias. Os metodistas davam preferência à observação do curso das doenças, sem o mesmo interesse dos empiristas por experimentos ou dos racionalistas pela teoria. Galeno recebera ensinamentos de cinco correntes filosóficas, platônicos, peripatéticos, estoicos, epicuristas e pirrônicos, e estudara com médicos racionalistas e empiristas.
Galeno tratou de filosofia enquanto investigava a medicina e a circulação sanguínea. Seguindo Platão, dividiu a alma em três partes, razão pela qual alguns estudiosos o chamam de platônico. Sua teoria da personalidade partia de suas ideias sobre o movimento dos fluidos no corpo e atribuía uma base fisiológica aos transtornos mentais. Relacionou muitas de suas teorias ao pneuma, mas se opôs à definição estoica e ao uso estoico do termo.
Para Galeno, os estoicos não explicavam de modo convincente onde se situavam as funções da mente. Suas observações médicas o levaram a apontar o cérebro. Os estoicos concebiam uma alma única e racional, localizada no coração. Galeno adotou de Platão mais duas partes para a alma.
Também rejeitou a lógica proposicional estoica e adotou uma teoria dos silogismos hipotéticos influenciada pelos peripatéticos e por elementos da lógica aristotélica.

Galeno examinou as relações entre estados do corpo e atividades mentais, especialmente ao atribuir funções da alma ao cérebro, ao coração e ao fígado. Suas demonstrações anatômicas sustentavam a localização cerebral das funções racionais contra a tese estoica que as situava no coração. Isso não significa que tenha formulado uma teoria uniforme sobre a natureza da alma e do corpo. A relação entre alma e corpo em seus textos de psicologia ainda é discutida. No tratado Quod animi mores, ele afirma que a alma "acompanha" a composição do corpo e também que ela é uma mistura corporal. Uma interpretação materialista concilia essas afirmações ao entender que ele identificava a alma com as misturas do corpo.
Em Sobre o diagnóstico e a cura das paixões da alma, Galeno tratou da maneira de abordar problemas psicológicos. Sua reflexão ética inclui práticas de exame das próprias paixões que alguns estudiosos aproximam da psicoterapia. Galeno aconselhava buscar a crítica franca de uma pessoa confiável, capaz de apontar faltas que o amor-próprio encobria, e aprender a controlar paixões como a ira.

Galeno talvez tenha escrito mais do que qualquer outro autor da Antiguidade, em volume comparável ao de Agostinho de Hipona. Segundo uma estimativa de Vivian Nutton, seus escritos em grego correspondem a cerca de um décimo de toda a literatura grega preservada anterior a 350 d.C. Ele ditava parte de sua produção a escribas, por vezes mais de um tratado simultaneamente. Pode ter escrito até quinhentos tratados, um total de palavras difícil de calcular. Os escritos conservados somam mais de quatro milhões de palavras, mas parte de sua produção se perdeu. Um incêndio no Templo da Paz, em 191 ou, mais provavelmente, em 192, destruiu muitas obras suas, em especial tratados filosóficos. Galeno descreveu as perdas em Sobre a ausência de aflição. Considerado perdido por muitos séculos, o tratado foi identificado em 2005 num manuscrito do século XV do mosteiro de Vlatadon, em Tessalônica.
Não houve, na Antiguidade, uma tradução latina extensa das obras de Galeno. Com a desagregação do Império Romano do Ocidente, o estudo de seus textos e da medicina grega diminuiu na Europa ocidental durante a Alta Idade Média, quando poucos eruditos latinos liam grego. No Império Bizantino, a medicina grega continuou a ser estudada, e estudiosos bizantinos copiaram os manuscritos gregos de Galeno que chegaram até nós.
No período abássida, depois de 750, estudiosos árabes muçulmanos passaram a se interessar por textos científicos e médicos gregos. Alguns escritos de Galeno foram traduzidos para o árabe, muitas vezes por cristãos sírios. Por isso, certas obras só sobreviveram em árabe, e outras apenas em traduções latinas medievais feitas a partir do árabe. Onde o original grego se perdeu, houve tentativas de reconstituí-lo a partir do latim ou do árabe. Em casos como o de Herófilo, o relato de Galeno é tudo o que resta dos trabalhos de um autor antigo.
Falsificações e edições descuidadas já circulavam durante a vida de Galeno, que respondeu escrevendo Sobre os próprios livros. Obras falsas em grego, árabe ou latim continuaram a surgir até o Renascimento. Um mesmo tratado recebeu títulos diferentes, e algumas fontes encontram-se em publicações de difícil acesso. Embora tenha escrito em grego, convencionou-se citar suas obras pelo título latino, frequentemente abreviado. Não existe uma coleção única e definitiva, e a autenticidade de certos textos atribuídos a ele ainda é debatida.

Seu conjunto de escritos recebeu diferentes classificações. John Redman Coxe, em 1846, enumerou livros introdutórios seguidos de sete grupos: fisiologia, 28 volumes; higiene, doze; etiologia, dezenove; semiótica, catorze; farmácia, dez; sangria, quatro; e terapêutica, dezessete. Acrescentou quatro volumes de aforismos e obras espúrias. A compilação e tradução mais extensa foi organizada por Karl Gottlob Kühn, em Leipzig, entre 1821 e 1833. Reúne 122 tratados, com textos em grego e traduções latinas, em 20 volumes numerados, publicados em 22 tomos que ultrapassam 20 mil páginas. Muitas obras de Galeno integram o Thesaurus Linguae Graecae, biblioteca digital de literatura grega iniciada em 1972.
Entre suas obras e conjuntos de escritos estão:

Galeno já tinha grande reputação como médico e filósofo em vida. Segundo o próprio Galeno, Marco Aurélio o chamou de Primum sane medicorum esse, philosophorum autem solum, "o primeiro entre os médicos e único entre os filósofos". Teódoto de Bizâncio, Ateneu e Alexandre de Afrodísias também falaram dele. No século VII, o poeta Jorge de Pisídia chegou a chamar Cristo de um segundo Galeno, negligenciado. Os textos galênicos continuaram a orientar teoria e prática médica nos mundos bizantino, árabe e europeu até meados do século XVII. Séculos depois de Galeno, Paládio Iatrossofista resumiu a relação entre os dois médicos dizendo que Hipócrates semeou e Galeno colheu.
Galeno reuniu e reformulou trabalhos de predecessores, e foi por meio de seus textos, o chamado galenismo, que parte da medicina grega chegou a gerações posteriores. A obra de Magnus de Nísibis sobre a urina, escrita no século IV e depois traduzida para o árabe, é um exemplo dessa reinterpretação. Algumas de suas ideias só receberam maior atenção muito depois de sua morte. O volume de sua obra e a força de sua argumentação também transmitiam a impressão de que pouco restava a aprender. "Galenismo" passou a designar uma corrente que transformou a medicina da Antiguidade tardia e, ao mesmo tempo, pôde restringir investigações posteriores.
Depois da queda do Império Romano do Ocidente, o estudo de Galeno e de outros autores gregos quase desapareceu no Ocidente latino. No Oriente de língua grega, comentaristas como Oribásio, médico do imperador Juliano, compilaram e divulgaram seus textos. Nutton chamou esses autores de "refrigeradores médicos da Antiguidade". Na Antiguidade tardia, a produção médica voltou-se crescentemente à teoria. Magnus de Nísibis, João de Alexandria e Agnelo de Ravena, com suas aulas sobre De Sectis, discutiam sobretudo os textos galênicos. Até Hipócrates passou a ser lido pela interpretação de Galeno, enquanto seus adversários perderam espaço e correntes como o asclepiadismo desapareceram gradualmente.
Cristãos sírios tiveram contato com a medicina grega quando o Império Bizantino governava a Síria e a Mesopotâmia ocidental, regiões conquistadas pelos árabes no século VII. Depois de 750, começaram a traduzir Galeno para o siríaco e o árabe. Sua obra e a medicina grega foram incorporadas à cultura médica do Oriente Médio islâmico. Atribui-se a Jó de Edessa a tradução de 36 obras para o siríaco, algumas vertidas posteriormente para o árabe por Hunaine ibne Isaque.

A medicina galênica circulou amplamente no mundo islâmico. O cristão árabe Hunaine ibne Isaque foi seu primeiro grande tradutor para o árabe. Entre cerca de 830 e 870, traduziu e revisou obras de Galeno em siríaco e árabe. Seu catálogo descreve 129 obras e também registra traduções feitas por outros estudiosos; esse total não corresponde a 129 traduções suas para o árabe. Textos árabes, entre eles os de Rasis, nascido em 865 e falecido em 925, ainda permitem encontrar escritos galênicos antes desconhecidos ou pouco acessíveis. Uma tradução de Hunaine, Kitab ila Aglooqan fi Shifa al Amrad, conservada na biblioteca da Academia Ibn Sina, integra o compêndio alexandrino das obras de Galeno. O manuscrito do século X divide-se em duas partes, com descrições de febres e processos inflamatórios e mais de 150 formulações simples e compostas de origem vegetal ou animal. Seu conteúdo permite estudar medicamentos e formas de tratamento greco-romanos.

A obra Dúvidas sobre Galeno, de Resis, e a Solução das dúvidas sobre Galeno, de Abu Alalá ibne Zur, mostram que estudiosos do mundo islâmico podiam discutir criticamente suas ideias. Resis, Hali Alas, Abulcasis, Avicena, Ibne Zur e Ibn al-Nafis compararam os ensinamentos de Galeno a resultados de observações e experimentos. A descrição da circulação pulmonar por Ibn al-Nafis, por exemplo, contrariou a teoria galênica do coração.
Escritos de Galeno, inclusive a teoria dos humores, continuam presentes na medicina unani, praticada da Índia, onde tem reconhecimento oficial, ao Marrocos. Maimônides citou Galeno com frequência em seus textos médicos e o julgava o maior médico de todos os tempos. Na Índia, médicos hindus aprenderam persa e urdu para estudar a medicina galênica. Essa formação começou no século XVII e prosseguiu até o início do XX.

A partir do século XI, traduções latinas de obras médicas islâmicas circularam no Ocidente, juntamente com as ideias da Escola Médica Salernitana. Logo chegaram às universidades de Nápoles e Montpellier. O galenismo ganhou uma autoridade que raramente era questionada, e Galeno chegou a ser chamado de "papa médico da Idade Média". Constantino, o Africano traduziu Hipócrates e Galeno a partir do árabe. Também houve traduções diretamente do grego, como a versão de De complexionibus feita por Burgúndio de Pisa. Os textos anatômicos e médicos de Galeno, ao lado do Cânone da Medicina de Ibn Sina, tornaram-se centrais nos currículos universitários. A dissecação e a autópsia de cadáveres humanos passaram a integrar determinadas práticas médicas europeias pelo menos a partir do século XIII. Ainda assim, quando uma dissecação mostrava algo diferente da descrição de Galeno, médicos tentavam ajustar o achado à teoria. Mondino de Liuzzi, por exemplo, descreveu aspectos rudimentares da circulação, mas ainda sustentava que o ventrículo esquerdo continha ar. Houve quem explicasse as diferenças afirmando que a anatomia humana havia mudado desde a época de Galeno.
Niccolò di Deoprepio da Reggio dedicou anos à tradução latina das obras galênicas e trabalhou na corte angevina sob Roberto de Nápoles. Entre suas traduções há um trecho de tratado médico cujo original se perdeu.
A primeira edição das obras completas de Galeno em tradução latina foi preparada por Diomede Bonardo, de Bréscia, e impressa por Filippo Pinzi em Veneza em 1490.
O Renascimento e a Queda de Constantinopla, em 1453, trouxeram estudiosos e manuscritos gregos ao Ocidente. Passou a ser possível comparar diretamente os comentários árabes com os textos gregos de Galeno. O humanismo renascentista, em especial o trabalho de Thomas Linacre, incorporou Galeno ao ensino latino. De Naturalibus Facultatibus foi publicado em Londres em 1523. As discussões médicas reuniam uma corrente árabe mais conservadora e uma grega mais aberta a revisões. Paracelso encenou sua oposição à autoridade médica queimando simbolicamente obras de Avicena e Galeno em Basileia. Uma pintura do século XVI no refeitório da Grande Laura do Monte Atos retrata Galeno entre a sibila e Aristóteles, com sábios pagãos ao pé da Árvore de Jessé.

A contestação do galenismo reuniu a rejeição de Paracelso e as investigações anatômicas do Renascimento italiano, como as de Vesálio. Na década de 1530, Andreas Vesalius começou a traduzir textos gregos de Galeno para o latim. De humani corporis fabrica seguiu aspectos da escrita e da organização das obras galênicas, mas Vesálio examinou cadáveres humanos para testar suas descrições. Mostrou que certos detalhes relatados por Galeno pertenciam a macacos, e não a seres humanos. Fez isso por meio de livros e demonstrações, apesar da oposição de galenistas como Jacobus Sylvius. Galeno havia trabalhado sobretudo com animais e também conhecia ossos e ferimentos humanos. Vesálio pôde apresentar as próprias dissecações como aplicação da exigência galênica de observar diretamente o corpo. Para Galeno, bastava dissecar macacos e comparar suas estruturas com ferimentos humanos, em vez de estudar a anatomia apenas por feridas de pacientes, como faziam alunos da escola empírica. Vesálio também refutou explicações de Aristóteles e de Mondino de Liuzzi. Na primeira edição de De humani corporis fabrica (1543), Vesálio expressou dúvidas sobre os supostos poros do septo interventricular; na segunda (1555), negou sua existência de modo explícito. Entre as duas edições, Miguel Servet também rejeitou a passagem de sangue por poros no septo em Christianismi restitutio (1553). Apenas três exemplares do livro sobreviveram, porém, e permaneceram escondidos durante décadas; os demais foram queimados após a publicação, em meio à perseguição religiosa contra Servet.
As edições renascentistas das obras de Galeno incluíram a primeira edição grega, impressa pela Aldina em Veneza em 1525, e numerosas edições latinas. Entre 1490 e 1625 foram publicadas 22 edições latinas das Opera omnia, inclusive as de Giunta e as impressas em Lyon. No mesmo período saíram duas edições completas em grego. Miguel Servet, que usou o nome Michel de Villeneuve na França, estudou medicina em Paris na mesma época que Vesálio e conhecia a tradição galênica. A atribuição a ele de comentários em uma edição de Jean Frellon publicada em Lyon foi proposta por Francisco Javier González Echeverría.
As investigações sobre a circulação humana prosseguiram com Andrea Cesalpino, Fabricio de Acquapendente e William Harvey. Algumas práticas galênicas, como a sangria para tratar muitas doenças, permaneceram em uso até o século XIX.

O estudo da obra de Galeno permanece ativo. A enciclopédia alemã Realencyclopädie der Classischen Altertumswissenschaft estimulou pesquisas sobre seus escritos.
Traduções de obras suas feitas por Robert M. Green estão guardadas na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, em Bethesda, Maryland.
Em 2018, a Universidade de Basileia identificou um papiro grego da coleção de Basilius Amerbach, professor de direito na universidade no século XVI, escrito dos dois lados em escrita especular. O texto, antes desconhecido, pode ser uma obra médica de Galeno ou um comentário sobre ela. Trata da "apneia histérica".