| Avicena Ibn Sina | |
|---|---|
Retrato moderno de Avicena (1952), da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos; sua obra abrangeu medicina e filosofia. | |
| Nome completo | Abū ʿAlī al-Ḥusayn bin ʿAbdallāh bin al-Ḥasan bin ʿAlī bin Sīnā al-Balkhī al-Bukhārī |
| Nascimento | c. 970 Afshana, Transoxiana, Império Samânida |
| Morte | 1037 Hamadã, Império Cacuída |
| Obra filosófica | |
| Era | Idade de Ouro Islâmica |
| Escola | Aristotelismo; avicenismo |
| Principais interesses | Medicina, filosofia, lógica, calâm, ciência e poesia |
| Trabalhos notáveis | O Livro da Cura; O Cânone da Medicina |
Ibn Sina (c. 970 – 1037), conhecido no Ocidente como Avicena, foi um filósofo e médico persa do mundo islâmico. Viveu durante a Idade de Ouro Islâmica e trabalhou nas cortes de governantes iranianos. Seus escritos influenciaram a medicina europeia medieval e o pensamento escolástico.
Avicena escreveu O Livro da Cura, uma enciclopédia filosófica e científica, e O Cânone da Medicina, uma enciclopédia médica usada no ensino médico europeu até o século XVII.
Sua obra também abrange astronomia, alquimia, geografia, geologia, psicologia, teologia islâmica, lógica, matemática, física e poesia islâmica. Sua filosofia pertence à tradição peripatética derivada do aristotelismo. Escreveu a maior parte dos trabalhos filosóficos e científicos em árabe, além de obras em persa, e compôs poemas nos dois idiomas. Inventários antigos atribuem-lhe centenas de títulos; uma avaliação crítica recente considera autênticas menos de cem obras, embora a autoria de outras ainda esteja em estudo. Seus escritos médicos, sobretudo o Cânone, combinam observação empírica, raciocínio filosófico e análise lógica.
Avicenna, forma latina que deu origem ao português Avicena, deriva do patronímico árabe ibn Sīnā (ابن سينا). O nome indica descendência de um homem chamado Sina, de quem Avicena era trineto. Também recebeu os nomes Sharaf al-Mulk (شرف الملك), Hujjat al-Haq (حجة الحق), al-Sheikh al-Ra'is (الشيخ الرئيس) e Bu Alī Sīnā (بو علی سینا). Seu nome formal completo era Abū ʿAlī al-Ḥusayn bin ʿAbdallāh bin al-Ḥasan bin ʿAlī bin Sīnā al-Balkhī al-Bukhārī (أبو علي الحسين بن عبد الله بن الحسن بن علي بن سينا البلخي البخاري).

Avicena escreveu durante a Idade de Ouro Islâmica, quando traduções de textos bizantinos, greco-romanos, da literatura em persa médio e indianos eram amplamente estudadas. Intelectuais do mundo islâmico comentaram e desenvolveram as obras do platonismo médio, do neoplatonismo e do aristotelismo traduzidas pela escola de Alquindi, recorrendo também à matemática e à astronomia persas e indianas, à álgebra, à trigonometria e à medicina iraniana antiga.
O Império Samânida, no leste da Pérsia, no Grande Coração e na Ásia Central, e a dinastia buída, no oeste da Pérsia e no Iraque, deram condições para o desenvolvimento intelectual e cultural. Sob os samânidas, Bucara rivalizava com Bagdá como centro cultural do mundo islâmico. Avicena teve acesso às bibliotecas de Balque, Corásmia, Gurgã, Rai, Ispaã e Hamadã.
Textos como o ʿAhd dirigido a Bamaniar mostram seus debates filosóficos com estudiosos de sua época. Em Gurganje, conviveu com um meio intelectual do qual participavam o astrônomo Albiruni, o matemático Abu Nácer Mançor, o filósofo Abu Sal ibne Iáia Almacii e o médico Ibne Alcamar. O estudo do Alcorão e dos hádices também florescia. Avicena e seus interlocutores desenvolveram a filosofia islâmica, o fiqh, ou jurisprudência, e o calâm, ou teologia especulativa.

Avicena nasceu provavelmente na década de 970 na aldeia de Afexana, na Transoxiana, em uma família persa. A data é incerta: embora 980 seja o ano tradicionalmente indicado, uma análise da autobiografia admite um nascimento já em 964. A aldeia ficava perto de Bucara, capital samânida e cidade natal de sua mãe. Seu pai, Abedalá, era de Balque, na Báctria, e trabalhava na administração samânida. Durante o reinado de Nu II (r. 976–997), governou Harmaitã, uma aldeia das propriedades reais próxima de Bucara. Avicena tinha um irmão mais novo. Alguns anos depois, a família se estabeleceu em Bucara, centro de estudos que atraía numerosos eruditos. Foi ali que Avicena recebeu sua formação, inicialmente, ao que parece, sob a orientação do pai. O pai e o irmão aderiram ao ismaelismo, mas Avicena não os acompanhou. Seguiu a escola hanafita do islamismo sunita, também seguida pelos samânidas. Seus pais contrataram mestres de árabe e estudos islâmicos para educá-lo.
Estudou primeiro o Alcorão e a literatura e, aos dez anos, havia memorizado o texto inteiro. Um vendedor indiano de verduras lhe ensinou aritmética. Depois estudou fiqh com o jurista hanafita Ismail al-Zahid. Seu pai convidou o médico e filósofo Anatili para instruí-lo. Juntos estudaram a Isagoge de Porfírio e talvez as Categorias de Aristóteles. Após Avicena ler o Almagesto de Ptolemeu e os Elementos de Euclides, Anatili aconselhou que continuasse os estudos por conta própria. Aos 18 anos, já conhecia bem as ciências gregas. Embora só cite Anatili como mestre em sua autobiografia, provavelmente estudou também com os médicos Cunri e Abu Sal Almacii. Aos 17 anos, Avicena tornou-se médico de Nu II. Depois da morte do pai, quando tinha pelo menos 21 anos, recebeu um cargo administrativo, possivelmente como sucessor dele em Harmaitã. Mudou-se para Gurganje, capital da Corásmia, por "necessidade", como escreveu. A data da mudança é incerta. Ele afirmou ter servido ao xá corásmio Abu Alhaçane Ali, da dinastia mamúnida, que reinou de 997 a 1009.[carece de fontes] É possível que tenha partido em 999, ano da queda do Império Samânida, quando o Canato Caracânida tomou Bucara e aprisionou o emir Abalmaleque II (r. 999). Sua posição na corte poderia tê-lo deixado vulnerável após a derrota dos samânidas. Avicena ingressou a serviço de Abu Alhaçane Ali por intermédio do ministro Abu Alhaçane Assai, patrono das ciências gregas. Sob os mamúnidas, Gurganje atraiu estudiosos como Avicena, seu antigo mestre Abu Sal Almacii, o matemático Abu Nácer Mançor, o médico Ibne Alcamar e o filólogo Ataalibi.

Em 1012, Avicena voltou a viajar por "necessidade", desta vez para o oeste, passando por Nasa, Abivard, Tus, Samangan e Jajarm, na região do Coração. Pretendia visitar Cabus, governante ziárida de Gurgã, patrono das letras cuja corte atraía poetas e estudiosos. Quando chegou, soube que Qabus morrera no inverno de 1013. Partiu para Dihistan, mas, após adoecer, regressou a Gurgã. Lá conheceu Abu Ubaide Aljusjani (morto em 1070), que se tornou seu discípulo e companheiro. Permaneceu pouco tempo na cidade e teria servido a Manuchir, filho e sucessor de Cabus, hospedando-se na casa de um patrono.

Por volta de 1014, Avicena foi para Rai e entrou a serviço do emir buída Májede Adaulá e de sua mãe, Saida Xirim, governante de facto. Como médico da corte, tratou Májede Adaulá de melancolia. Mais tarde teria administrado negócios de Saida Xirim em Gasvim e Hamadã, embora os detalhes dessa atividade sejam incertos. Nesse período, continuou a redigir O Cânone da Medicina e começou O Livro da Cura. Em Hamadã, em 1015, participou de um debate público, costume da região para os estudiosos recém-chegados. Seu oponente foi Abu Alcácime Alquirmani, membro da escola filosófica de Bagdá. A discussão se acirrou. Avicena acusou o adversário de desconhecer princípios elementares de lógica, e Abu Alcácime o chamou de grosseiro. Depois do debate, Avicena escreveu aos peripatéticos de Bagdá para perguntar se Abu Alcácime de fato compartilhava das opiniões deles. Este respondeu com uma carta a um destinatário desconhecido, fazendo acusações que levaram Avicena a pedir uma investigação a Abu Sade, representante de Májede Adaulá. Pode ter sido a mesma acusação feita antes em Hamadã, de imitar o estilo do Alcorão nos Sermões sobre a unidade divina. O historiador Peter Adamson observa que a acusação tinha consequências graves naquele meio cultural.
Pouco depois, Avicena passou a servir Xemece Adaulá, irmão mais novo de Májede Adaulá. Adamson aventa que a mudança se deva ao fato de Abu Alcácime também trabalhar para Saida Xirim. Xemece Adaulá o chamou para tratá-lo e, após uma campanha contra seu antigo aliado anázida Abu Xauque, obrigou Avicena a assumir o cargo de vizir. Apesar de conflitos ocasionais com as tropas de Shams al-Dawla, Avicena permaneceu vizir até a morte do emir por cólica em 1021. O sucessor, Sama Adaulá, pediu que continuasse no cargo, mas Avicena se escondeu na casa de seu patrono Abu Galibe Alatar enquanto procurava outras oportunidades. Nessa época, manteve contato secreto com Alá Adaulá Maomé, governante cacuída de Ispaã e tio de Saida Shirin. Na casa de Alatar, escreveu uma parte extensa de O Livro da Cura, segundo o relato de que produzia cerca de cinquenta páginas por dia. A corte buída de Hamadã, especialmente o vizir curdo Taje Almulque, suspeitou que ele se correspondesse com Alá Adaulá. A residência de Alatar foi revistada e Avicena, preso na fortaleza de Fardajã, perto de Hamadã. Aljusjani culpou um informante por sua captura. Ficou encarcerado por quatro meses, até Alá Adaulá tomar Hamadã e encerrar o reinado de Sama Adaulá.
Depois de libertado, Avicena foi para Ispaã, onde Alá Adaulá o recebeu. Acompanhou o governante em campanhas e viagens como conselheiro, possivelmente também como vizir. Concluiu em Ispaã O Livro da Cura. Dedicou a Alá Adaulá duas obras em persa, o tratado filosófico Danish-nama-yi Ala'i ("Livro da Ciência para Ala") e um tratado médico sobre o pulso. Durante a breve ocupação de Ispaã pelos gasnévidas, em janeiro de 1030, Avicena e Alá Adaulá se refugiaram no Cuzistão, onde permaneceram até a morte de Mamude de Gásni, dois meses depois. Após regressar, Avicena parece ter começado a escrever Indicações e advertências. Em 1037, ao acompanhar Alá Adaulá para uma batalha perto de Ispaã, sofreu uma crise grave de cólica, problema que o afetara durante a vida. Morreu pouco depois em Hamadã, onde foi sepultado.
Avicena escreveu extensamente sobre a filosofia islâmica, sobretudo lógica, ética e metafísica, inclusive tratados intitulados Lógica e Metafísica. A maior parte das obras está em árabe, língua da ciência no mundo islâmico daquela época, e algumas em persa novo inicial. Entre os livros em persa, o Danishnama conserva interesse também por sua importância linguística. Seus comentários a Aristóteles frequentemente criticavam o filósofo e alimentavam debates no espírito do ijtihad.
Seu esquema neoplatônico de emanação passou a integrar o calâm no século XII. O Livro da Cura chegou à Europa em tradução latina parcial cerca de cinquenta anos depois de escrito, sob o título Sufficientia. Alguns autores falam em "avicenismo latino" paralelo ao averroísmo latino, e a recepção de suas ideias suscitou debates na escolástica europeia. A psicologia e a teoria do conhecimento de Avicena influenciaram Guilherme de Auvérnia e Alberto Magno, enquanto sua metafísica chegou ao pensamento de Tomás de Aquino.
Na filosofia islâmica inicial, a metafísica distinguia essência e existência com mais nitidez que o aristotelismo. A existência pertencia ao domínio do contingente e do acidental, enquanto a essência permanecia no ser para além dos acidentes. A metafísica de Avicena deve muito a Alfarábi, e sua obra também contém uma busca por uma filosofia islâmica distinta do ocasionalismo.
Seguindo Alfarábi, Avicena investigou o ser e separou a essência (māhiya, ماهية) da existência (wujūd, وجود). Para ele, a existência de uma coisa não poderia ser deduzida de sua essência. Matéria e forma, por si sós, não produziriam a interação que origina o movimento do universo ou a atualização progressiva dos seres. Uma causa agente deveria conferir a existência à essência, existindo ao mesmo tempo que seu efeito. Essa é sua concepção da causa eficiente, aquilo que dá existência a algo distinto de si. Deus serve como exemplo dessa relação causal.
A análise das modalidades do ser distingue o impossível, o contingente e o necessário. O impossível não pode existir. O contingente por si (mumkin bi-dhatihi) pode existir ou não, sem contradição. Quando se atualiza, torna-se "necessário por outro" (wajib al-wujud bi-ghayrihi), pois depende de uma causa externa. O contingente possui, assim, uma existência potencial que outra causa pode realizar. Já o ser necessário por si (wajib al-wujud bi-dhatihi) existe por si mesmo, sem tomar a existência de outro ser. Avicena distingue as estruturas metafísicas desses dois casos: o necessário é verdadeiro em si; o contingente, considerado isoladamente, é "falso em si" e só se torna "verdadeiro por outro". O ser necessário é a fonte da própria existência e é aquilo que existe sempre.
Para Avicena, o ser necessário por si não possui quididade além de sua existência e é uno (wahid ahad). Se houvesse dois seres necessários por si, uma diferença específica (fasl) teria de distingui-los. Isso os faria depender, ao mesmo tempo, de si e de algo externo, o que seria contraditório. Esse ser não tem gênero (jins), definição (hadd), equivalente (nadd) ou contrário (did). Também não está sujeito a matéria (madda), qualidade (kayf), quantidade (kam), lugar (ayn), posição (wad) ou tempo (waqt).
A teologia metafísica de Avicena (ilāhiyyāt) recebeu críticas de Algazali, Ibne Taimia e Ibne Alcaime Aljauzia. Em Al-Munqidh min ad-Dalal ("A libertação do erro"), Algazali escreveu sobre os filósofos gregos e seus seguidores muçulmanos:
"Os filósofos gregos devem ser acusados de incredulidade, assim como seus seguidores entre os filósofos muçulmanos, entre eles Avicena e Alfarábi. [...] O que tomamos por autêntica filosofia de Aristóteles, transmitida por Alfarábi e Avicena, divide-se em três partes: uma que deve ser tida como incredulidade, outra como inovação e uma terceira que não precisa ser rejeitada."
Avicena formulou o argumento conhecido como burhān al-ṣiddīqīn, ou "prova dos verídicos". Sustentou que deveria haver um ente que não pudesse deixar de existir e, numa sequência de argumentos, identificou-o com Deus. O historiador da filosofia Peter Adamson chama essa prova de um dos argumentos medievais mais influentes para a existência de Deus e da maior contribuição de Avicena à história da filosofia.
Avicena, seu discípulo Ahmad ibn ʿAli al-Maʿsumi e Albiruni trocaram cartas sobre a filosofia natural aristotélica. Albiruni apresentou dezoito perguntas, dez das quais criticavam o tratado Sobre o Céu, de Aristóteles.
Avicena procurou conciliar filosofia racional e teologia islâmica. Tentou demonstrar por meio da razão e da lógica a existência de Deus e a dependência eterna do mundo em relação a ele: em sua metafísica, o mundo é criado sem que haja um começo temporal. Suas ideias integraram o ensino em escolas religiosas islâmicas até o século XIX. Escreveu tratados sobre os profetas do Islã, que via como "filósofos inspirados", e sobre interpretações filosóficas do Alcorão, entre elas a relação entre a cosmologia corânica e seu próprio sistema. Também tratou da vida após a morte do corpo.
Passagens breves de suas obras mais longas dão a entender que via na filosofia um meio de distinguir a profecia verdadeira da ilusão. A possibilidade de pôr em dúvida uma profecia tinha implicações políticas, e seus textos mais curtos se concentravam nas teorias filosóficas e teológicas, sem se deter nessas questões epistemológicas.
As leituras posteriores de Avicena seguiram caminhos distintos. Naceradim de Tus aplicou sua filosofia à interpretação de acontecimentos políticos e descobertas científicas. Facradim Arrazi examinou os textos teológicos separadamente da filosofia. Algazali recorreu seletivamente a partes da obra para desenvolver sua busca espiritual por meios místicos. A interpretação teológica defendida por al-Razi predominou nas madraças.
Avicena memorizou o Alcorão aos dez anos e, adulto, escreveu cinco tratados de comentário a suratas. Em Prova das Profecias, comentou versículos e afirmou a superioridade dos profetas islâmicos sobre os filósofos. Sua filiação costuma ser situada na escola hanafita sunita. Estudou direito hanafita, teve mestres juristas dessa escola e serviu à corte hanafita de Ali ibn Mamun. Ainda jovem, disse não ter se convencido com as tentativas de conversão feitas por missionários ismaelitas. O historiador medieval Ẓahīr al-dīn al-Bayhaqī, por sua vez, acreditava que Avicena seguia os Irmãos da Pureza.
Enquanto esteve preso em Fardajan, Avicena escreveu o experimento mental do "homem voador", também chamado de "homem flutuante" ou, literalmente, "homem que cai". Com ele, buscou demonstrar a autoconsciência humana e a natureza imaterial da alma. Pediu ao leitor que imaginasse uma pessoa criada de uma só vez e suspensa no ar, sem qualquer sensação, inclusive do próprio corpo. Mesmo assim, sustentou, ela teria consciência de existir. A alma seria, portanto, independente do corpo e uma substância imaterial. Avicena também tratou do intelecto agente, pelo qual Deus comunicaria a verdade à mente humana e daria inteligibilidade à natureza. O argumento foi apresentado assim:
"Imagine-se que um de nós tenha sido criado de uma só vez, perfeito e completo, mas com a visão encoberta, incapaz de perceber o que lhe é externo. Teria sido criado caindo pelo ar ou no vazio, sem que a resistência do ar o obrigasse a senti-lo, e com os membros separados, sem que se tocassem. Pergunte-se, então: ele teria certeza da própria existência? Não duvidaria de que existe, embora não afirmasse a existência de nenhum membro externo, órgão interno, coração, cérebro ou objeto exterior. Poderia afirmar a própria existência sem atribuir extensão espacial a esse eu. Mesmo que lhe fosse possível imaginar uma mão ou outro membro, não o imaginaria como parte de si nem como condição de sua existência. O que se afirma difere do que não se afirma, assim como o que se infere difere do que não se infere. O eu cuja existência se afirmou distingue-se do corpo e dos membros, cuja existência não se constatou. Quem afirma esse eu pode, portanto, reconhecer que a alma é algo diferente do corpo, algo incorpóreo. Ele o sabe e deveria compreendê-lo por intuição, mesmo que, distraído, precisasse ser despertado para isso."
Avicena situava no cérebro a interação entre a razão e as sensações. Estas preparariam a alma para receber conceitos racionais do intelecto agente universal. O primeiro conhecimento da pessoa suspensa seria "eu existo", afirmação de uma essência que não poderia ser o corpo, pois dele não há sensação. Para Avicena, o conhecimento de si não depende logicamente de nenhum objeto físico. A alma é um dado primário e a perfeição do corpo, mas, em si mesma, é uma substância imaterial.
Avicena começou a escrever a enciclopédia médica O Cânone da Medicina (al-Qānūn fī l-ṭibb, القانون في الطب) em Gurgã, prosseguiu em Rai e a concluiu em Hamadã. A obra é organizada em cinco livros. O primeiro expõe os princípios gerais da medicina; o segundo reúne cerca de 800 medicamentos simples e suas propriedades; o terceiro trata das doenças de órgãos específicos; o quarto aborda afecções que atingem o corpo como um todo, como as febres; e o quinto apresenta cerca de 650 fórmulas de medicamentos compostos.
No segundo livro, as substâncias simples são dispostas em ordem alfabética, precedidas de uma discussão de suas propriedades gerais e de regras para avaliar os efeitos de medicamentos por experimentação.
No Cânone, Avicena discutiu doenças contagiosas, inclusive a tuberculose, no quadro das explicações médicas de sua época para a transmissão de doenças. O livro foi usado no ensino médico no mundo islâmico e, na Europa, até o século XVII. Ainda integra a medicina unani.
Avicena indagou se alterações raras tinham causas naturais. Usou a polidactilia como exemplo de uma ocorrência incomum que ainda assim teria uma causa natural.

Avicena começou a redigir O Livro da Cura durante sua passagem por Rai e Hamadã e o concluiu em Ispaã, na década de 1020. Seu propósito era "curar" a ignorância da alma por meio da ciência e da filosofia. O título não se refere à medicina, assunto de O Cânone da Medicina.
O livro se divide em lógica, ciências naturais, matemática e metafísica. A parte matemática abrange aritmética, geometria e astronomia. Avicena dialogou com Aristóteles e Ptolemeu, além de estudiosos da tradição científica e filosófica islâmica e da ciência persa, como Alquindi, Alfarábi e Albiruni.
Avicena tratou da geologia no Livro da Cura. Sobre a formação das montanhas, escreveu:
"Ou elas resultam de soerguimentos da crosta terrestre, como os que podem ocorrer durante um terremoto violento, ou da ação da água que, ao abrir um novo caminho, escavou os vales, atravessando camadas de tipos diferentes, algumas macias e outras duras. [...] Todas essas mudanças exigiriam muito tempo, durante o qual as próprias montanhas poderiam diminuir de tamanho."
Na seção Al-Burhan ("Sobre a demonstração"), Avicena examinou os métodos da investigação científica e discutiu os Analíticos Posteriores de Aristóteles, dos quais divergiu em pontos centrais. Perguntou como se chega aos primeiros princípios de uma ciência dedutiva sem extraí-los de premissas anteriores. Para ele, o caso ideal seria apreender uma relação entre os termos capaz de oferecer certeza universal. Além da indução aristotélica (istiqra), propôs o exame e a experimentação (tajriba). Criticou a indução por não fornecer a certeza absoluta que prometia e desenvolveu a experimentação como método de investigação.
Avicena estudou uma das primeiras formulações da lógica temporal. Embora não tenha formulado uma teoria completa das proposições temporais, examinou a relação entre o tempo e a implicação. Najemadim Alcatibi desenvolveu suas ideias, que dominaram a lógica islâmica até a época moderna. Elas também chegaram a lógicos europeus como Alberto Magno e Guilherme de Ockham. Avicena defendia o princípio da não contradição de Aristóteles: algo não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Escreveu que quem negasse esse princípio deveria "ser espancado e queimado até admitir que ser espancado não é o mesmo que não ser espancado, e ser queimado não é o mesmo que não ser queimado".
No Livro da Cura, Avicena distinguiu a inclinação para o movimento (mayl) da força exercida sobre um projétil. A inclinação transmitida pelo lançador manteria o projétil em movimento, que não cessaria no vácuo. Seu efeito se dissiparia por forças externas, como a resistência do ar. A teoria pode ter recebido influência de João Filopono, estudioso alexandrino do século VI. É uma variante menos elaborada da teoria do ímpeto desenvolvida por Jean Buridan no século XIV. Não se sabe se Buridan chegou a essa ideia por Avicena ou diretamente por Filopono.
Em óptica, Avicena argumentou que a luz teria velocidade finita caso sua percepção dependesse da emissão de partículas por uma fonte luminosa. Sua explicação do arco-íris, porém, estava incorreta. O historiador Carl Benjamin Boyer resumiu sua hipótese:
"A observação independente lhe mostrara que o arco não se formava na nuvem escura, mas numa névoa muito fina entre a nuvem e o Sol ou o observador. A nuvem, pensava ele, servia de fundo para essa substância fina, como a camada de mercúrio colocada atrás do vidro de um espelho. Ibn Sina deslocava não só a posição do arco, mas também a formação das cores, tomando a iridescência como uma sensação subjetiva no olho."
Um texto latino de 1253, Speculum Tripartitum, atribuiu-lhe a afirmação de que "o calor é gerado pelo movimento das coisas externas".
A psicologia de Avicena aparece sobretudo nas partes intituladas Kitab al-nafs de O Livro da Cura e de Kitab al-najat ("Livro da salvação"). No Livro da Cura, o argumento do homem voador sustenta que a alma não tem extensão quantitativa, em comparação posterior com o cogito de René Descartes e a epoché da fenomenologia.
Nessa concepção, o vínculo entre corpo e alma deve permitir a individualidade da alma sem impedir sua imortalidade. A percepção começa nos sentidos externos, que recebem características de um objeto. Os sentidos internos reúnem essas informações numa experiência consciente. O corpo percebe coisas materiais, enquanto a alma imaterial apreende formas universais. A abstração do universal a partir de objetos particulares constitui, assim, um ponto de encontro entre ambos.
A alma realiza o pensamento ao receber formas abstraídas da matéria. O intelecto agente, descrito como uma "luz divina", põe em contato o particular material e o universal inteligível. Ele tornaria perceptíveis os universais ocultos nas coisas, assim como a luz solar permite ver as cores.
Avicena também recorreu a métodos psicológicos no tratamento de pacientes. Segundo uma anedota, um príncipe persa desnutrido e melancólico acreditava ser uma vaca. Recusava alimento, mugia e dizia: "Matem-me, para que façam um bom ensopado com minha carne". Avicena enviou-lhe um recado anunciando a chegada do açougueiro, o que deixou o príncipe satisfeito. Em seguida, apareceu com uma faca e perguntou onde estava a vaca. O paciente mugiu para se identificar e, por ordem do suposto açougueiro, deitou-se no chão para o abate. Avicena, porém, declarou: "A vaca está magra demais e ainda não pode ser abatida. Precisa ser bem alimentada; vou matá-la quando estiver saudável e gorda". O príncipe então recebeu comida, que aceitou prontamente. Aos poucos recuperou as forças e, segundo o relato, abandonou a crença de que era uma vaca.
No tratado Missiva contra os defensores do domínio das estrelas (رسالة في ابطال احكم النجوم), Avicena citou passagens do Alcorão para contestar a capacidade da astrologia de prever o futuro. Admitia alguma ação dos planetas clássicos sobre a Terra, mas rejeitava as práticas astrológicas correntes.

Seus textos astronômicos influenciaram autores posteriores, embora fossem, em geral, menos desenvolvidos que os de Alhazém ou Albiruni. Avicena separava a astronomia matemática da astrologia. Discordou da ideia aristotélica de que as estrelas recebem luz do Sol: para ele, eram luminosas por si, assim como os planetas. Afirmou ter observado um trânsito de Vênus. Houve um trânsito em 24 de maio de 1032, mas ele não datou a observação, e pesquisadores questionam se seria possível observá-lo de onde estava. Pode ter confundido uma mancha solar com Vênus. Sua suposta observação apoiava sua posição de que, no geocentrismo, a esfera de Vênus estaria ao menos às vezes entre a Terra e o Sol.
Escreveu ainda um Resumo do Almagesto, baseado em Ptolemeu, acompanhado de um tratado que buscava conciliar o texto com a filosofia natural. Nele examinou, por exemplo, o movimento do ápside solar, que Ptolemeu considerava fixo. Em um trecho de O Livro da Cura, descreveu uma estrela transitória que permaneceu visível por cerca de três meses. Neuhäuser, Ehrig-Eggert e Kunitzsch identificaram esse relato como uma descrição da SN 1006, a supernova observada em 1006.
| Parte da série sobre |
| Avicena Ibn Sina |
|---|
| Obras |
| Pensamento |
| Discípulos |
| Homenagens |
Em sua discussão sobre os metais, Avicena contestou a possibilidade de os alquimistas transformarem uma espécie de substância em outra. Sua posição foi expressa na seguinte passagem:
"Os praticantes da arte química sabem bem que não se pode transformar uma espécie de substância em outra, embora se possa produzir a aparência dessa transformação."
Quatro obras de alquimia atribuídas a Avicena foram traduzidas para o latim:
O De Anima circulou amplamente entre químicos e alquimistas medievais como Vicente de Beauvais, mas Georges Anawati, seguindo Julius Ruska, o atribuiu a um autor espanhol. A Declaratio também parece não ser de Avicena. A terceira obra, Livro dos Minerais, é uma adaptação autêntica do Kitab al-Shifa. Nela, os minerais são classificados como pedras, substâncias fusíveis, enxofres e sais, a partir de Aristóteles e Jabir. A Epistola de Re recta é menos cética em relação à alquimia. Anawati a considera uma obra de Avicena escrita quando ele ainda não havia decidido que a transmutação era impossível.
Avicena tratou a música como uma das ciências matemáticas em O Livro da Cura, Kitab al-Najat e Danishnama. Seus capítulos sobre o assunto examinam os sons, os intervalos musicais e suas proporções matemáticas, além dos ritmos. A análise mais extensa aparece em O Livro da Cura, que também discute instrumentos musicais e modos melódicos; sua exposição é predominantemente teórica e não constitui uma descrição direta da prática musical de sua época.

Avicena compôs poemas em árabe; versos em persa lhe são atribuídos em antologias, mas sua autoria não está demonstrada. O poema didático Al-Urjuzah fi al-Tibb reúne 1.326 versos sobre medicina e circulou como instrumento de ensino, inclusive em tradução latina na Europa medieval. Edward Granville Browne atribuiu a Ibn Sina estes versos persas frequentemente creditados a Omar Caiam, embora a autoria de seus poemas persas permaneça incerta:
از قعر گل سیاه تا اوج زحل
کردم همه مشکلات گیتی را حل
بیرون جستم زقید هر مکر و حیل
هر بند گشاده شد مگر بند اجل
"Das profundezas da terra negra ao apogeu de Saturno,
resolvi todos os problemas do universo.
Escapei às armadilhas e aos enganos,
desatei todos os nós, menos o nó da morte."
Para o pesquisador Robert Wisnovsky, Avicena ocupou uma posição central na história das ciências racionais do Islã, sobretudo na metafísica, na lógica e na medicina. Partes de suas obras foram lidas, ensinadas, copiadas e comentadas por filósofos, médicos e matemáticos, mas também por estudiosos de teologia racional, filosofia natural, teoria do conhecimento, usūl al-fiqh (princípios da jurisprudência islâmica) e filosofia da linguagem.
Dante Alighieri incluiu Avicena no Limbo da Divina Comédia, ao lado de pensadores não cristãos como Virgílio, Averróis, Homero, Horácio, Ovídio, Lucano, Sócrates, Platão e Saladino. Johannes Kepler citou uma opinião de Avicena ao discutir as causas dos movimentos planetários no segundo capítulo de Astronomia Nova.
Seus escritos médicos circularam amplamente na Europa.

Ao lado de Razes, Abulcasis, Ibn al-Nafis e al-Ibadi, Avicena reuniu e organizou conhecimentos médicos do mundo islâmico. Quando Galeno e Aristóteles divergiam sobre questões como a anatomia, costumava preferir Aristóteles, ajustando suas posições à anatomia posterior. A combinação dos escritos médicos de Galeno com a filosofia aristotélica no Cânone ajudou a difundir sua obra na Europa. Na Universidade de Coimbra do século XVI, as teses médicas tomavam as doutrinas de Galeno e Avicena como pontos de partida. Entre o começo do século XIV e meados do XVI, era citado ao lado de Hipócrates e Galeno como uma das autoridades médicas e recebia o título latino de princeps medicorum, "príncipe dos médicos".
Avicena estudou o pulso e procurou rever concepções de Galeno e de outras tradições médicas antigas. O terceiro livro do Cânone descreveu um sintoma de síncope vasovagal ligado à hipersensibilidade do seio carotídeo. Avicena relacionou ainda sentimentos íntimos à frequência do pulso, no episódio conhecido como "doença do amor". Discutiu a transmissão da tuberculose, a propagação de doenças pela água e pelo solo e as relações entre estado psíquico e saúde física. Escreveu também al-Adwiyat al-Qalbia, sobre fármacos para o coração.

O nome de Avicena foi dado a instituições como o Mausoléu de Avicena, a Universidade Bu-Ali Sina, o Instituto de Pesquisa Avicena e a Academia Ibn Sina de Medicina e Ciências Medievais. Uma cratera lunar também recebeu seu nome.
Criado em 2003, o Prêmio Avicena é concedido a cada dois anos pela UNESCO a pessoas e grupos por trabalhos na ética da ciência.

Os Avicenna Directories, lançados em 2008, catalogavam instituições de formação em medicina, saúde pública e farmácia. Seus dados foram incorporados ao World Directory of Medical Schools, lançado em 2014, e a descontinuação do antigo diretório estava prevista para 2015. A equipe do projeto explicou a escolha do nome pela combinação, na obra de Avicena, de conhecimentos orientais e ocidentais e pelo alcance de seus escritos médicos. Em junho de 2009, o Irã doou o "Pavilhão dos Sábios Persas" ao Escritório das Nações Unidas em Viena. A obra fica no Centro Internacional de Viena.
O filme soviético Youth of Genius (Yunost geniya, Юность гения), dirigido por Elyor Ishmukhamedov em 1982, narra a juventude de Avicena em Bucara na passagem do primeiro para o segundo milênio. No romance histórico The Walking Drum, publicado por Louis L'Amour em 1985, Kerbouchard estuda e discute o Cânone da Medicina.
Em O Físico (1988), Noah Gordon conta a viagem de um aprendiz inglês de medicina que se disfarça de judeu para chegar à Pérsia e estudar com Avicena. A adaptação cinematográfica O Físico estreou em 2013, com Ben Kingsley no papel do médico. Avicena também aparece como Grande Personalidade da civilização abássida no jogo Civilization VII, lançado em 2025. No jogo, pode construir um hospital que concede dois pontos adicionais de alimento.

Os tratados de Avicena chegaram a pensadores muçulmanos posteriores nas áreas de teologia, filologia, matemática, astronomia, física e música. Catálogos antigos lhe atribuíram centenas de títulos, mas o inventário crítico de Dimitri Gutas identifica menos de cem obras autênticas; a autoria de outros escritos permanece em investigação. As mais conhecidas são O Livro da Cura e O Cânone da Medicina.
Escreveu pelo menos um tratado sobre alquimia, mas outros textos do gênero lhe foram atribuídos indevidamente. Lógica, Metafísica, Física e De Caelo apresentam panoramas do pensamento aristotélico, embora a Metafísica se afaste do neoplatonismo frequentemente identificado com Aristóteles em sua época. A Metafísica foi reimpressa em Veneza em 1493, 1495 e 1546. Alguns ensaios breves sobre medicina e lógica estão em versos. Schmoelders publicou o poema sobre lógica em 1836.
Al-Shifa ("A cura"), ou Sanatio em latim, chegou quase completo em manuscritos à Biblioteca Bodleiana e a outros acervos. Sua seção sobre a alma apareceu em Pavia em 1490 sob o título Liber Sextus Naturalium. A longa exposição da filosofia de Avicena feita por Axarastani reproduz e analisa partes da obra. An-najat (Liberatio) é uma versão mais curta. Uma Philosophia Orientalis, mencionada por Roger Bacon, perdeu-se em grande parte. Averróis lhe atribuía um tom panteísta.
Entre seus escritos figuram:
O Danishnama (دانشنامه علائی, "Livro do conhecimento") é uma das principais obras persas de Avicena. Para escrevê-la, ele criou termos científicos que ainda não existiam em persa. O texto trata de lógica, metafísica, ciências naturais e matemática, inclusive teoria musical. A seção original de matemática se perdeu ainda durante a vida de Avicena; o texto preservado foi recomposto por seu discípulo al-Juzjani a partir de monografias do mestre traduzidas para o persa. Parviz Morewedge traduziu para o inglês a seção de metafísica em 1973.
Andar Dānish-i Rag (اندر دانش رگ, "Sobre a ciência do pulso") tem nove capítulos e condensa suas ideias sobre o pulso. Seus poemas persas foram conservados em manuscritos e antologias posteriores, como Nozhat al-Majales.
يجب أن يتوهم الواحد منا كأنه خلق دفعةً وخلق كاملاً لكنه حجب بصره عن مشاهدة الخارجات وخلق يهوى في هواء أو خلاء هوياً لا يصدمه فيه قوام الهواء صدماً ما يحوج إلى أن يحس وفرق بين أعضائه فلم تتلاق ولم تتماس ثم يتأمل هل أنه يثبت وجود ذاته ولا يشكك في إثباته لذاته موجوداً ولا يثبت مع ذلك طرفاً من أعضائه ولا باطناً من أحشائه ولا قلباً ولا دماغاً ولا شيئاً من الأشياء من خارج بل كان يثبت ذاته ولا يثبت لها طولاً ولا عرضاً ولا عمقاً ولو أنه أمكنه في تلك الحالة أن يتخيل يداً أو عضواً آخر لم يتخيله جزء من ذاته ولا شرطاً في ذاته وأنت تعلم أن المثبت غير الذي لم يثبت والمقربه غير الذي لم يقربه فإذن للذات التي أثبت وجودها خاصية على أنها هو بعينه غير جسمه وأعضائه التي لم تثبت فإذن المثبت له سبيل إلى أن يثبته على وجود النفس شيئاً غير الجسم بل غير جسم وأنه عارف به مستشعر له وإن كان ذاهلاً عنه يحتاج إلى أن يقرع عصاه.— Ibn Sina, Kitab Al-Shifa, On the Soul
There was one famous Arab physician who doubted even the reality of transmutation. This was 'Abu Ali al-Husain ibn Abdallah ibn Sina (980–1037), called Avicenna in the West, the greatest physician of Islam. ... Many of his observations on chemistry are included in the Kitab al-Shifa, the "Book of the Remedy". In the physical section of this work he discusses the formation of minerals, which he classifies into stones, fusible substances, sulfurs, and salts. Mercury is classified with the fusible substances, metals