| Algazali | |
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Retrato imaginado de Algazali, publicado em 1961, cerca de 850 anos após sua morte | |
| Nome completo | Abu Hamide Maomé ibne Maomé Algazali Atussi Anixaburi |
| Nascimento | c. 1056 Tus, Coração, Império Seljúcida |
| Morte | 19 de dezembro de 1111 Tus, Coração, Império Seljúcida |
| Religião | Islã sunita |
| Obra filosófica | |
| Era | Filosofia medieval |
| Escola | xafeíta, axarita |
| Principais interesses | Sufismo, calam, filosofia, psicologia, lógica, xaria, fique e cosmologia |
| Trabalhos notáveis | Revivificação das Ciências da Religião, A Incoerência dos Filósofos, O libertador do erro, A Alquimia da Felicidade e Epístola da tolerância |
| Influências | Abu Haçane Alaxari, Abu Almali Aljuaini e Avicena |
| Influenciados | Averróis, Alberto Magno, Tomás de Aquino, Maimônides, Facradim Arrazi e William Lane Craig |
Abu Hamide Maomé ibne Maomé Algazali Atussi Anixaburi, chamado Algazali ou Al-Ghazali, foi um jurista, teólogo, filósofo e mestre sufi persa que viveu entre cerca de 1056 e 1111. Ensinou em Bagdá durante o Império Seljúcida, escreveu sobretudo em árabe e também em persa e ficou conhecido no Ocidente medieval pelos nomes latinizados Algazel e Algazelus.
Ao procurar entender como a razão, a revelação, a lei religiosa e a transformação interior podem orientar uma mesma vida, Algazali estudou com cuidado a filosofia de Avicena, herdada de Aristóteles, e adotou sua lógica como instrumento de exame. Recusou, porém, teses metafísicas que julgava incompatíveis com a criação livre do mundo por Deus, a profecia e a ressurreição do corpo.
Depois de uma crise pessoal, Algazali abandonou o ensino público e a vida junto à corte, viajou, viveu em retiro e se aproximou do sufismo. Desse percurso nasceu a Revivificação das Ciências da Religião, que atravessa o culto, a convivência, a ética e a educação dos desejos para mostrar como atos exteriores e intenções interiores poderiam caminhar juntos.
Em A Incoerência dos Filósofos, Algazali submeteu as teses dos filósofos aos critérios de prova que eles próprios aceitavam. Sua discussão sobre causalidade pergunta se o fogo queima por uma necessidade própria ou porque Deus mantém uma ordem regular na natureza. A resposta deixa aberta mais de uma explicação, sem negar a observação, a lógica ou as ciências matemáticas.
Seus livros circularam em árabe, persa, latim e hebraico, provocaram a resposta de Averróis e chegaram a leitores cristãos e judeus. Por meio de traduções, manuscritos e debates recentes, novos públicos chegam às perguntas que ele formulou sobre razão e fé e sobre a formação moral. Os limites que traçou para interpretações religiosas diferentes também alimentam discussões sobre tolerância.

O jovem Almostazir, o último dos três califas do Califado Abássida sob os quais Algazali viveu, assumiu o poder em Bagdá em 487 AH, ou 1094, após a morte do pai, Almoctadi. O califado permanecia no centro formal do império, mas o governo estava fragmentado e o poder político passava para a nascente dinastia seljúcida.
Quando governantes turcos perseguiram os ulemás axaritas do Coração sob Tugril Begue, Abu Almali Aljuaini esteve entre os religiosos que partiram para o Hejaz por volta de 445 AH, ou 1053. A perseguição terminou depois da morte do sultão, em 455 AH, ou 1063. Alparslano e, mais tarde, Maleque Xá I seguiram outra política. O grão-vizir Nizame Almulque apoiou o axarismo, chamou Aljuaini de volta a Nixapur e lhe entregou a direção da Nizamia de Nixapur, fundada por iniciativa do próprio vizir. Em 1091, nomeou Algazali para a cátedra da Nizamia de Bagdá.

Nizame Almulque foi assassinado em 485 AH, ou 1092, pouco antes da morte de Maleque Xá. Disputas pela sucessão envolveram os partidários dos filhos ainda jovens, Berquiaruque e Mamude, e as mães dos dois príncipes. Berquiaruque assumiu o sultanato em 487 AH, ou 1094.
O Califado Fatímida do Cairo também contestava a autoridade de Bagdá e difundia o ismaelismo xiita por meio de missionários. Algazali chamou de batinitas os partidários de uma leitura esotérica, ou bāṭin, do Alcorão. A corrente iraniana e iraquiana havia se afastado do Cairo e iniciado uma "nova missão". Almostazir encarregou Algazali de escrever o tratado polêmico al-Mustaẓhirī contra suas doutrinas.

A teologia axarita clássica, sistematizada por Aljuaini, desenvolveu-se em resposta à escola mutazilita. O mutazilismo perdeu parte de seu apoio político no fim do século XI, em meio às políticas sunitas dos seljúcidas. Os axaritas defendiam a eternidade da palavra divina, entendendo o Alcorão como incriado, e a existência real de atributos de Deus como conhecimento, poder e vontade. Esses atributos seriam eternos e distintos da essência divina. Mutazilitas e filósofos recusavam essa separação para preservar a unidade absoluta de Deus. Em Nixapur, o ensino de Aljuaini na Nizamia aproximou essa teologia da jurisprudência xafeíta.
O sufismo se expandia como um caminho de ascese, purificação do coração e amor exclusivo a Deus. Comunidades sufis e seus locais de reunião começaram a ganhar formas estáveis no século X, sobretudo na Pérsia e no Coração. A organização em confrarias, as tariqas, ganhou força nos séculos XI e XII e prosseguiu depois da morte de Algazali.
Os falāsifa, filósofos da tradição árabe como Alfarábi, Avicena e Miskawayh, procuravam conciliar a revelação islâmica com as ciências gregas e liam o aristotelismo por meio do neoplatonismo. Alguns mutazilitas haviam incorporado conceitos filosóficos, enquanto os teólogos axaritas mantinham distância da falsafa. Aljuaini estudou teses avicenianas e as apresentou ao discípulo. Algazali incorporou à teologia islâmica a lógica formal aristotélica e partes da epistemologia de Avicena, ao mesmo tempo que rejeitou teses metafísicas dos filósofos.
A tradição medieval, apoiada nos escritos de Ibn al-Jawzi, situava o nascimento de Algazali em 450 AH, ou 1058 e 1059. A correspondência e os dados autobiográficos permitem recuá-lo para 448 AH, ou 1055 e 1056. Ele nasceu no distrito de Tus, no Coração, que abrangia os centros urbanos de Tabaran e Nuqan e as aldeias dos arredores. Seu nome completo era Abu Hamide Maomé ibne Maomé Algazali Atussi Anixaburi.
A origem de sua nisba, parte do nome que informa procedência ou vínculo, é discutida porque Alçubqui derivava al-Ghazzālī, com dois z, da profissão do pai, que seria tecelão, ou ghazzāl. Essa explicação pode ter nascido de uma associação tardia. A origem toponímica liga Al-Ghazālī a uma aldeia do distrito, embora a destruição de Tus em 1389 dificulte a identificação de um povoado chamado Ghazalah. Na região, nomes formados a partir de uma profissão não eram comuns.
Algazali e o irmão mais novo, Amade Algazali, começaram os estudos em Tus. Depois da morte prematura do pai, ficaram aos cuidados de um amigo da família que era sufi. O pai deixara uma pequena quantia para o sustento dos filhos. Quando o dinheiro acabou, o tutor os aconselhou a ingressar numa madrassa, onde teriam alojamento e alimentação. Na adolescência, Algazali estudou jurisprudência em Gurgã, perto do Mar Cáspio. Mais tarde seguiu para Nixapur e entrou na Nizamia, onde estudou com Abu Almali Aljuaini, um dos principais representantes da teologia axarita daquele século. O curso se concentrava na jurisprudência xafeíta, e Aljuaini também lhe ensinou teologia dialética, ou calam, lógica formal e conceitos filosóficos.
Depois das mortes de Aljuaini e do mestre sufi Alfarmazi em 478 AH, ou 1085, Algazali deixou Nixapur e entrou no acampamento militar e administrativo, al-muʿaskar, do grão-vizir seljúcida Nizame Almulque. O acampamento itinerante reunia o governo e o patrocínio aos estudiosos. Algazali permaneceu ali por seis anos, participou de controvérsias teológicas e ganhou espaço no aparelho do Estado. Em 484 AH, ou 1091, o vizir o nomeou professor da Nizamia de Bagdá.
O cargo fez de Algazali uma autoridade jurídica com contato direto com a corte abássida. Ele ensinava direito xafeíta a grandes grupos de estudantes, entre eles o jurista andalusino Abu Becre ibne Alárabi. Nesse período, escreveu monografias sobre direito e jurisprudência islâmica. Também estudou Alfarábi e Avicena. Maqāṣid al-falāsifa adaptou com liberdade partes do Dānishnāma-yi ʿAlāʾī de Avicena. A leitura antiga que tomava o livro como simples preparação para A Incoerência dos Filósofos perdeu apoio, pois as duas obras empregam vocabulários diferentes e guardam uma relação tênue. A introdução e o fecho que anunciam a refutação provavelmente foram acrescentados depois da publicação da Incoerência. Em 488 AH, ou 1095, renunciou aos cargos e deixou Bagdá.

Em 488 AH, ou 1095, quando ocupava uma das cátedras mais cobiçadas do império, Algazali deixou o ensino depois de uma crise espiritual que abalou sua saúde e o levou a examinar sua carreira junto à corte.
Algazali anunciou que partiria em peregrinação para evitar que o governo o impedisse de deixar o posto. Distribuiu quase toda a fortuna e reservou apenas o necessário para a família. Saiu de Bagdá rumo à Síria e ficou primeiro em Damasco. Ali seguiu uma disciplina ascética e passou períodos de retiro, ou khalwa, no minarete da Mesquita dos Omíadas. Depois foi a Jerusalém, onde fez exercícios contemplativos no Domo da Rocha.

Em Hebrom, diante do santuário que abriga o túmulo de Abraão, prometeu não procurar a corte de governantes, não receber pensões ou pagamentos do Estado e abandonar as disputas teológicas públicas, chamadas munāẓara. A promessa rompia sua relação com as madrassas estatais. No fim de 489 AH, ou 1096, fez o haje em Meca e visitou Medina.
De volta ao Coração, Algazali instalou-se em Tus, recusou cargos oficiais e empregou parte dos bens restantes na fundação de um convento sufi, ou khanqah, e de uma pequena escola particular, uma zāwiya, junto de sua casa. Ali ensinou um grupo restrito de discípulos. Em Tus escreveu Iḥyāʾ ʿulūm al-dīn, que reuniu a jurisprudência e a teologia sunitas com a ética e a espiritualidade sufis.
Onze anos depois de sair de Bagdá, o vizir seljúcida Facre Almulque, filho de Nizame Almulque, pressionou-o a voltar ao ensino público na Nizamia de Nixapur. Algazali hesitou porque teria de quebrar a promessa feita em Hebrom. Aceitou em 499 AH, ou 1106, dizendo que havia confusão religiosa e ceticismo entre a população. Perto do ano 500 AH, apresentou esse retorno como um trabalho de renovação religiosa e se viu entre os renovadores, muḥyūn, anunciados para o começo de um novo século islâmico. Um hádice dizia que Deus enviaria à comunidade muçulmana, no início de cada século, alguém que renovaria a religião.

Religiosos tradicionalistas se opuseram ao retorno e acusaram o Iḥyāʾ de introduzir na teologia conceitos aristotélicos e neoplatônicos e de confiar em excesso na experiência mística. Algazali foi chamado a se defender diante do governador seljúcida do Coração, o futuro sultão Amade Sanjar, que rejeitou a acusação de heresia e o apoiou.
Embora o pedido de Algazali para deixar a Nizamia de Nixapur fosse recusado no início, ele conseguiu se retirar e voltou à escola particular de Tus. Morreu em 14 de Jumada al-Thani de 505 AH, equivalente a 19 de dezembro de 1111, com cerca de 55 anos pela cronologia revisada. Foi sepultado nos arredores de Tabaran, perto do mausoléu do poeta Ferdusi.
O processo que levou Algazali ao sufismo começou em rajabe de 488 AH, ou julho de 1095, e durou seis meses. Ao fim desse período, ele deixou a Nizamia de Bagdá. Nos onze anos seguintes, viajou, escreveu, ensinou em grupos pequenos e reservou longos períodos à oração, à ascese e ao retiro. O relato mais extenso está em sua autobiografia intelectual, escrita anos depois. A crise também foi mencionada pelo aluno Abu Becre ibne Alárabi e pelo biógrafo contemporâneo Abdal Gafir Alfarici. A saída repentina de um dos professores mais respeitados do Império Seljúcida surpreendeu a corte e as instituições religiosas.

Algazali escreveu al-Munqidh min al-ḍalāl, "O libertador do erro", provavelmente entre 499 e 503 AH, ou 1106 e 1109, depois de voltar temporariamente ao ensino em Nixapur. Organizou ali sua trajetória em duas crises de natureza e duração distintas. A primeira, de caráter especulativo, durou cerca de dois meses. Ele buscava uma certeza que não admitisse dúvida e examinava os próprios defeitos morais e conflitos interiores.
Algazali iniciou sua investigação pela certeza absoluta, ou yaqīn, definida como um conhecimento tão claro que não permitisse dúvida, erro ou ilusão, nem mesmo como hipótese. Examinou primeiro o testemunho dos sentidos e percebeu que ele podia ser corrigido pela observação e pelo intelecto. A visão, por exemplo, mostra uma sombra aparentemente imóvel, embora ela se desloque pouco a pouco. Também faz uma estrela ou o Sol parecer do tamanho de uma moeda, enquanto os cálculos matemáticos e geométricos mostram que o astro é maior que a Terra.
Ao aceitar que a razão corrige os enganos dos sentidos, Algazali passou aos primeiros princípios racionais, como a certeza de que dez é maior que três e de que uma afirmação e sua negação não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo sobre o mesmo objeto.
Se a razão julgava falsos alguns dados sensoriais, Algazali perguntou se uma faculdade superior não poderia julgar falsos os próprios raciocínios. Usou o sonho como analogia, pois durante o sono a pessoa acredita no que vê e, ao despertar, percebe que aquelas imagens não eram reais. O estado racional de vigília poderia ser semelhante a um sonho diante de outra forma de percepção, como o êxtase dos sufis ou a própria morte.
A pergunta levou-o a cerca de dois meses de ceticismo, que chamou de safsaṭa, ou sofisma, durante os quais perdeu a confiança nos instrumentos humanos de conhecimento.
Ele disse ter saído da crise pela graça, e não pela lógica ou por provas discursivas. Deus teria lançado em seu peito uma "luz", ou nūr, que devolveu equilíbrio à alma. Essa luz permitiu que voltasse a confiar nas necessidades da razão. Restringir a descoberta do verdadeiro às provas discursivas seria, em suas palavras, estreitar a misericórdia divina. Deus fornecia o fundamento último da certeza.
A crise de 488 AH, ou 1095, tornou impossível conciliar sua posição social com as exigências espirituais que atribuía à vida futura. Ao examinar suas intenções, ou niyya, concluiu que ensinava por fama, honra e prestígio, e que precisava mudar para não se condenar.
Algazali chegou a essa conclusão enquanto estudava Almuásibi, Abu Talibe Almaqui, Junaide de Bagdá, Abu Iázide Albistami e Alxibli. Seus textos diziam que a certeza espiritual não vinha apenas do discurso, mas de um "gosto", ou dhawq, vivido interiormente e capaz de transformar a alma. Passou a entender que sua salvação exigia o desapego dos bens e a orientação do coração para Deus.

Depois de hesitar em abandonar a carreira, Algazali perdeu, em rajabe de 1095, a capacidade de falar e ensinar e teve distúrbios digestivos que dificultavam a alimentação. Os médicos da corte atribuíram o problema a uma angústia mental que não responderia a um tratamento apenas físico. Frank Griffel chamou o quadro de melancolia. Em sua interpretação posterior, Deus fechou-lhe a língua até que se entregasse ao Criador e renunciasse às honras e à riqueza. O temor de se corromper junto ao poder também o levou a considerar ilícitas as riquezas dos governantes. Em Hebrom, no fim de 1096, prometeu não frequentar suas cortes, não aceitar seu dinheiro e não voltar às disputas públicas.
A saída de Bagdá rompeu sua relação com uma elite religiosa que ele via como ocupada por disputas mundanas. Mais tarde, escreveu Revivificação das Ciências da Religião para orientar o estudo religioso à salvação e à formação moral, afastando-o do carreirismo das instituições.
Frank Griffel e Edoardo Albert consideram sincero o relato da conversão ao sufismo em O libertador do erro, embora a instabilidade do Império Seljúcida possa ter facilitado a saída ou acrescentado razões políticas à decisão.
Farid Jabre aventou que Algazali deixou Bagdá por medo de ser assassinado pelos nizaritas, ismaelitas chamados de "Assassinos". Seu protetor Nizame Almulque havia sido morto por um integrante do grupo em outubro de 1092, e Maleque Xá morreu logo depois, mergulhando a corte numa disputa sucessória. Algazali também se expusera ao escrever, a pedido de Almostazir, Faḍāʾiḥ al-Bāṭiniyya wa Faḍāʾil al-Mustaẓhiriyya, "Os vícios dos batinitas e as virtudes dos mustaziritas".
A escolha de Damasco e Jerusalém, territórios sujeitos à presença ou à ameaça do Califado Fatímida, torna improvável que Algazali tivesse partido apenas por medo dos ismaelitas. Durante o afastamento, ele ainda escreveu al-Qisṭās al-Mustaqīm, "A balança justa", contra a obediência a um imame infalível.
Outra hipótese atribui a partida a uma possível desavença com o novo sultão seljúcida, Berquiaruque, cuja autoridade foi reconhecida em Bagdá em 488 AH, ou 1095. Vencedor da guerra sucessória que se seguiu à morte de Maleque Xá, Berquiaruque foi acusado de tolerar os ismaelitas, o que poderia ter deixado Algazali numa posição difícil.
Receando ser impedido de abandonar a cátedra, Algazali ocultou o plano de viver na Síria e anunciou apenas uma peregrinação a Meca, evitando a oposição do califa e de seus colegas em Bagdá. A promessa feita em Hebrom, um ano depois, confirmou sua ruptura com o serviço a governantes e com o dinheiro deles.

Depois de examinar as teses dos batinitas, a filosofia helenística e a teologia dialética, Algazali aderiu ao caminho dos sufis. Para ele, o acesso pleno à verdade dependia da inspiração divina, além do raciocínio discursivo. A segunda crise veio dos sacrifícios exigidos por essa escolha. O obstáculo não era apenas a privação material, mas a renúncia ao prestígio, aos alunos e à posição que ocupava junto à corte em troca de anonimato, pobreza e humildade.
Algazali concluiu que havia um campo da percepção para além do intelecto, um "outro olho" capaz de contemplar o invisível e o futuro. Nesse estágio, a pessoa teria uma experiência espiritual imediata, o dhawq, que ultrapassaria o raciocínio dialético dos teólogos e a demonstração lógica dos filósofos. O intelecto seria apenas uma etapa do desenvolvimento humano. Da mesma forma que alguém restrito ao discernimento comum poderia rejeitar os objetos do intelecto, alguns intelectuais rejeitariam a revelação profética por não terem alcançado o nível suprarracional. A certeza sobre as verdades divinas e a profecia dependeria dessa intuição mística e da luz lançada por Deus no coração.

Algazali começou a escrever o Iḥyāʾ ʿulūm al-dīn, "Revivificação das Ciências da Religião", depois de deixar Bagdá. Seus quarenta livros formam quatro partes de dez. A primeira trata dos atos de culto, ʿibādāt, e a segunda dos costumes e relações sociais, ʿādāt. As duas últimas examinam os vícios que levam à perdição, muhlikāt, e as virtudes que conduzem à salvação, munjiyāt.
Algazali censurou os estudiosos que desenvolviam a teologia dialética e a jurisprudência exterior enquanto deixavam de lado a formação espiritual. Chamou os juristas movidos por riqueza, prestígio e proximidade do poder de "sábios deste mundo", ʿulamāʾ al-dunyā. Escreveu a Revivificação para reunir a prática exterior à ética interior do Islã.

Algazali chamou de ciência do desvelamento, ʿilm al-mukāshafa, o saber teórico e metafísico sobre a realidade das coisas, Deus, seus atributos e seus atos, e distinguiu-o da ciência da prática, ʿilm al-muʿāmala. A ciência do desvelamento surgiria como uma luz num coração purificado e seria a meta do fiel, embora não pudesse ser inteiramente transmitida pela fala ou pela escrita.
Dividida em dimensões exterior e interior, a ciência da prática preparava o fiel para o desvelamento e para a salvação futura. A exterior reunia os atos de culto, ʿibādāt, como a oração, e os costumes ou transações sociais, ʿādāt e muʿāmalāt, compreendendo os aspectos rituais e jurídicos da lei islâmica. A dimensão interior cuidava dos estados do coração, da conduta e da purificação da alma. O fiel deveria abandonar os vícios destruidores, muhlikāt, e cultivar as virtudes salvadoras, munjiyāt, para se aproximar de Deus.
Qawāʿid al-ʿAqāʾid, também chamado al-Risāla al-Qudsiyya fī qawāʿid al-ʿaqāʾid, "A mensagem sagrada sobre os fundamentos das crenças", começou como uma epístola escrita em Jerusalém e foi ampliado e incorporado à Revivificação das Ciências da Religião. Seus escritos teológicos abrangem a orientação espiritual e a polêmica institucional. Entre os textos contra os ismaelitas está Faḍāʾiḥ al-Bāṭiniyya wa Faḍāʾil al-Mustaẓhiriyya, ou al-Mustaẓhirī, escrito em 1094 e 1095 a pedido do califa Almostazir. A obra contestava a autoridade infalível do imame xiita e defendia a legitimidade do califado sunita.
Embora partisse do calam axarita, Algazali usou em textos voltados à ortodoxia conceitos e métodos da falsafa de Aristóteles e Avicena, sem manter uma fronteira rígida entre teologia e filosofia. Ele incorporou a lógica aristotélica à demonstração teológica, pois entendia que o raciocínio correto não contrariava a revelação.
Algazali concordava com os juristas e teólogos axaritas sobre a unidade, ou tawḥīd, e a eternidade de Deus. Deus não teria substância nem forma, nada se pareceria com ele e ele não se pareceria com nada. Seu conhecimento e poder abrangeriam todas as coisas, sem que ele estivesse submetido ao espaço, à divisão ou ao tempo. Algazali atribuía-lhe sete qualidades eternas e incriadas: vida, vontade, poder, audição, visão, conhecimento e palavra. Esses atributos pertenceriam à essência divina sem multiplicá-la.
Ao tratar da alma, Algazali afastou-se de um elemento da física axarita antiga, o atomismo. Teólogos como Albacilani afirmavam que o universo e os corpos eram compostos por átomos indivisíveis sem qualidades próprias. Deus criaria continuamente acidentes nesses átomos. Nesse modelo, a alma era um acidente dos átomos do corpo ou um "corpo sutil" transitório.

Sob a inspiração de Avicena e do neoplatonismo, Algazali sustentou que a alma humana era uma substância espiritual, imaterial e autônoma, sem composição atômica. Ela subsistiria por si, sobreviveria à morte e à corrupção do corpo e seria julgada na vida futura. Era uma tese da falsafa que não lhe parecia contrariar a revelação.
Algazali incorporou à teologia axarita uma psicologia de origem aviceniana, na qual as faculdades da alma existem em graus diferentes em cada pessoa. No profeta, três delas alcançariam força excepcional. Ele receberia conhecimento teórico sem aprendizado prévio, converteria esse saber em símbolos, parábolas e visões de acontecimentos futuros e produziria efeitos fora do próprio corpo.
Algazali situou os profetas no grau mais alto dessas faculdades, os seres humanos comuns no mais baixo e, entre ambos, os "amigos de Deus", awliyāʾ, cujas capacidades seriam muito mais fracas que as proféticas. A inspiração, ilhām, daria aos mestres sufis um conhecimento superior ao que a razão alcançaria sozinha.
Em Al-Iqtiṣād fī al-iʿtiqād, "A moderação na crença", Algazali retomou a teologia axarita de Abu Haçane Alaxari, Albacilani e Aljuaini. O tratado aborda a essência transcendente e imaterial de Deus, seus atributos eternos, suas ações na criação e seus mensageiros ou profetas.

Algazali empregou o calam para conciliar as exigências da revelação, naql ou samʿ, com as da razão. Logo no início do Iqtisād, escreveu que "a razão unida à revelação é luz sobre luz". Para ele, a lei divina e o raciocínio correto provinham da mesma fonte e ensinavam as mesmas verdades.
Algazali queria que a teologia corrigisse duas posições que via como extremas. De um lado estavam os Hashwiyya, tradicionalistas sunitas que aceitavam as crenças herdadas sem investigação racional ou lógica dos textos sagrados.
Do outro lado estavam os filósofos, como Avicena e Alfarábi, e teólogos racionalistas como os mutazilitas. Algazali os censurava por rejeitar afirmações da lei revelada que ultrapassavam o alcance de seu entendimento. O calam de Al-Iqtiṣād usa a lógica e o silogismo aristotélico para defender os dogmas islâmicos, mas reserva à revelação conhecimentos metafísicos, entre eles os relativos à vida futura, que a razão não alcançaria sozinha.

No livro 35 da Revivificação das Ciências da Religião, "A crença na unidade divina e a confiança em Deus", Algazali examina a relação entre os atos humanos e a onipotência divina numa posição próxima do determinismo. O mundo seria uma rede de conexões planejada e predeterminada no conhecimento atemporal de Deus. Deus seria o único agente e a única causa eficiente do universo, inclusive das ações humanas. Algazali rejeitava a ideia mutazilita de que o ser humano criasse os próprios atos, mas admitia que a determinação divina coexistia com a experiência de escolha e com a responsabilidade moral.
Ele distinguia as ações involuntárias, como o tremor de um doente ou o movimento de uma árvore ao vento, das ações voluntárias, que dependem de uma decisão. Escolher seria selecionar, após a deliberação, a alternativa que parece mais benéfica ou agradável.
A vontade que dá origem à ação seria determinada por motivos interiores, formados pelo conhecimento que a pessoa tem de uma situação e por seus desejos. Se o intelecto percebe que uma ação beneficia a salvação ou o corpo, esse conhecimento desperta a vontade, que aciona o poder de agir e o movimento dos membros. Deus criaria cada elo da cadeia, do conhecimento ao ato final, mas a pessoa deliberaria e decidiria conforme o que julga melhor.
Algazali resumiu a posição dizendo que o ser humano é "forçado a escolher". Ele seria livre porque a escolha ocorre nele e seus atos seguem interesses que reconhece como próprios. Avalia alternativas possíveis sem saber que a presciência e a vontade divinas já tornaram impossível a alternativa que acabará rejeitando.
Na reformulação que Algazali fez da aquisição, ou kasb, o ato humano estaria entre a coerção dos fenômenos naturais e a liberdade absoluta, exclusiva de Deus. A pessoa se apropria do ato como o lugar em que a escolha e o motivo se realizam. Sua intenção orienta a conduta e sustenta a responsabilidade moral, pela qual adquire a recompensa do Paraíso ou a punição do Inferno.
O conhecimento divino seria pré-eterno, eterno e imutável, sem mudar quando seu objeto ou o mundo mudasse. Fora das categorias humanas de passado e futuro, abrangeria numa só ciência o primeiro e o último instante da criação. Ao contrário da mente humana, que forma novas ideias ao acompanhar a realidade, a presciência divina não se dividiria em conhecimentos sucessivos produzidos no tempo.
Como início de todas as cadeias causais e criador de seus elementos, Deus seria o único agente e a única causa eficiente em sentido pleno. Algazali empregou uma expressão sufi também usada por Abu Talibe Almaqui e chamou Deus de "causador das causas", aquele que faz as causas funcionarem como causas. As outras entidades seriam instrumentos subordinados.
Em obras tardias como al-Maqṣad al-asnā e al-Arbaʿīn, Algazali usou uma clepsidra para explicar três etapas da criação.

Ao aceitar parte do modelo cosmológico de Avicena, Algazali admitiu que o ser seria transmitido primeiro por Deus à criação ontologicamente superior, muitas vezes entendida como um intelecto celeste, e alcançaria os demais seres por uma cadeia de causas eficientes secundárias.
Ele modificou o modelo ao manter Deus como única causa eficiente e único agente em sentido pleno. Os outros elementos da cadeia seriam causas intermediárias e instrumentos subordinados ao poder divino.
Ao concordar com Avicena que a criação era o melhor dos mundos possíveis, Algazali escreveu que "não há, entre os possíveis, nada mais maravilhoso do que aquilo que existe", laysa fī al-imkān abdaʿ mimmā kān. Também aceitou que um mundo perfeito conteria certa quantidade de mal e imperfeição, sem a qual a perfeição do conjunto e as vantagens do bem não se manifestariam.
Avicena entendia que o melhor mundo emanava necessariamente da essência de Deus, sem uma escolha deliberada. Algazali afirmava que Deus tinha livre-arbítrio e escolhia entre alternativas possíveis. A vontade divina não seria determinada pela essência ou natureza de Deus. Ela determinaria tudo sem ser determinada por coisa alguma. O mundo seria o melhor porque Deus escolhera livremente a melhor opção para suas criaturas.
A liberdade divina levou Algazali a recusar o emanacionismo de Alfarábi e Avicena. Se as criaturas emanassem necessariamente de Deus como consequência de sua essência, ele não seria um agente livre que escolhe entre alternativas. A emanação necessária também implicaria um mundo coeterno com sua causa. Algazali sustentou que a criação teve um começo no tempo decidido por Deus.
Algazali admitiu como compatíveis com a ação divina o ocasionalismo axarita, pelo qual Deus recriaria o mundo a cada instante sem causas inerentes às coisas, e a causalidade secundária dos filósofos. Como nenhuma seria comprovável por uma demonstração infalível, deixou a questão em aberto. Deus poderia agir sem intermediários ou empregar anjos e causas secundárias.
Na ontologia determinista de Avicena, usada por Algazali, cada acontecimento criado é contingente e "possível em si", mumkin al-wujūd bi-dhātihi, mas se torna "necessário por outro", wājib al-wujūd bi-ghayrihi, isto é, por sua causa eficiente. Algazali colocou a vontade divina no lugar que Avicena atribuía à essência como fonte última dessa necessidade. Com isso, empregou a ontologia aviceniana na formulação do determinismo teológico sunita, embora não reconhecesse expressamente o empréstimo nem usasse sempre a terminologia do filósofo.
Escrito por volta de 1095, Tahāfut al-falāsifa não rejeita a filosofia como disciplina. Algazali contesta a certeza reivindicada pelos filósofos muçulmanos de formação grega, sobretudo Alfarábi e Avicena. Emprega a lógica aristotélica para argumentar que suas teses metafísicas não atendem aos critérios de demonstração adotados pelos próprios falāsifa. Essas teses dependeriam de premissas não provadas, aceitas pela autoridade de antigos pensadores como Platão e Aristóteles.
O livro tem vinte discussões, dezesseis sobre metafísica e quatro sobre ciências naturais.
As duas primeiras discussões rejeitam a eternidade do mundo, tese que Algazali via como uma das rupturas mais graves com a revelação. Recusou a ideia aviceniana de que o mundo emanaria necessariamente de Deus, à maneira da luz que emana do Sol, e defendeu uma criação no tempo pela vontade livre de Deus.
Na terceira discussão, acusou os filósofos de chamar Deus de "criador" ou "autor" do mundo, embora a necessidade natural de seu sistema eliminasse a vontade contida nesses termos. As discussões de 4 a 12 procuram mostrar que os filósofos não conseguiam demonstrar racionalmente a existência e a unidade de Deus nem a negação de seus atributos.
Algazali defendeu a realidade dos atributos divinos contra filósofos que os reduziam à essência de Deus para preservar sua simplicidade. Também rejeitou que Deus conhecesse somente os universais, e não os particulares, pois isso contrariaria a onisciência afirmada pelo Alcorão.
Nas discussões de 14 a 16, criticou a astronomia filosófica que atribuía aos corpos celestes vida, vontade própria e conhecimento dos acontecimentos terrestres. Os planetas seriam criaturas submetidas à ordem divina.
Nas discussões de 18 a 20, dedicadas à psicologia e à escatologia, Algazali contestou que a razão sozinha pudesse provar que a alma era uma substância espiritual subsistente e independente do corpo.
Na vigésima discussão, rejeitou a negação da ressurreição corporal e sustentou que as recompensas e punições futuras não seriam apenas espirituais. As promessas das escrituras sobre prazeres e dores físicas no Paraíso e no Inferno também deveriam ser entendidas literalmente.
Ao fim do livro, Algazali formulou uma sentença jurídica, ou fátua, com dois graus de erro entre os filósofos. Dezessete teses seriam inovações censuráveis, bidʿa, muitas próximas às opiniões mutazilitas, mas não excluiriam seus autores do Islã. Três constituiriam incredulidade, kufr, por implicarem que os profetas haviam mentido.
Os filósofos que professassem publicamente essas três teses estariam sujeitos à pena de morte pelo direito religioso.

Na discussão 17, Algazali formulou sua teoria da causalidade para preservar a possibilidade racional dos milagres corânicos, como a transformação de um bastão em serpente e a sobrevivência de Abraão no fogo. Não negou que houvesse regularidades na natureza. Quis levar os filósofos a reconhecer que a ordem natural não era uma necessidade lógica capaz de limitar o poder divino. A possibilidade do milagre decorreria da revelação e da onipotência de Deus.
Algazali iniciou a discussão com uma passagem que contesta a necessidade causal:
"A ligação, iqtirān, entre aquilo que habitualmente se acredita ser uma causa e aquilo que habitualmente se acredita ser um efeito não é necessária, ḍarūrī, em nossa opinião. Entre duas coisas que não sejam idênticas nem impliquem uma à outra, não é necessário que a existência ou a inexistência de uma decorra da existência ou da inexistência da outra. Sua conexão se deve à decisão prévia, taqdīr, de Deus, que as cria lado a lado, ʿalā al-tasāwuq, e não a uma necessidade inseparável delas."
Uma explicação dos processos físicos deveria respeitar quatro condições:
A observação prova apenas a proximidade temporal, não um nexo causal necessário. Algazali escreveu que "a observação aponta para uma ocorrência junto a outra, al-ḥuṣūl ʿindahu, mas nunca para uma ocorrência combinada nem para a inexistência de outras causas".
A crença na necessidade surge da repetição constante dos acontecimentos, à qual Algazali chamou "hábito". A repetição fixa uma certeza psicológica na alma, mas não transforma uma sucessão temporal numa impossibilidade lógica de separação. Um acontecimento poderia preceder outro sem ser sua causa, deixando aberta a possibilidade de ação divina.
Numa das duas interpretações da causalidade admitidas por Algazali, Deus cria cada instante diretamente como único agente. Na outra, os corpos possuem naturezas e causas secundárias criadas por Deus, cujas leis menos comuns os seres humanos desconhecem.
Nessa segunda explicação, um milagre seria a ação muito rápida de uma causa natural desconhecida, e não uma quebra da ordem. Os milagres seriam acontecimentos extraordinários previstos desde a eternidade, não mudanças arbitrárias no costume divino. Algazali deixou a escolha entre as duas teorias em aberto. Em Iljām al-ʿawāmm, uma de suas últimas obras, disse não ser possível demonstrar se Deus agia com ou sem intermediários.
Algazali aceitava conexões factuais entre os fenômenos, mas negava que a observação estabelecesse uma necessidade lógica própria de uma causa e seu efeito. Se a ligação fosse necessária por si, a causa imediata produziria o efeito de modo autônomo e excluiria qualquer ação exterior.
Tal como um pai não é a única causa eficiente do filho, uma relação causal pode envolver muitos agentes. A causa imediata percebida seria às vezes o último elo de uma cadeia que remonta ao domínio celeste. Os "anjos", que Algazali associou aos intelectos e às almas das esferas celestes do neoplatonismo, seriam intermediários pelos quais Deus transmite existência e movimento. Deus poderia produzir um efeito diretamente ou por causas secundárias.
A comparação entre Algazali e David Hume se concentra no uso do hábito criado pela repetição para explicar uma certeza que não pode ser demonstrada. Hume fundamentou a crença na estrutura psicológica da mente, enquanto Algazali a fundamentou na vontade e no decreto de Deus.
Ernest Renan escreveu que "Hume nada disse além do que Algazali já havia dito", mas acusou o teólogo de prejudicar as ciências ao negar a necessidade das leis naturais. Frank Griffel evita uma comparação sistemática entre pensadores de quadros intelectuais tão distantes. Abderrahmane Badawi chamou de "abusivas" e "hipóteses vãs" as aproximações com Hume sobre a causalidade e com Descartes sobre a dúvida.

Ao discutir a necessidade da criação divina, Algazali criticou a ontologia de Avicena, e não a causalidade em si. Avicena seguia o modelo diacrônico de Aristóteles e associava a possibilidade de algo à sua realização no tempo.
Uma frase sem qualificação temporal, como "O fogo queima o algodão", contém de modo implícito ou explícito uma referência ao momento em que é enunciada. Se for verdadeira sempre que pronunciada, será necessariamente verdadeira. Se seu valor de verdade puder mudar no tempo, será possível. Se for falsa sempre que pronunciada, será impossível. Nas teorias modais aristotélicas, os termos modais se referiam ao único mundo histórico que existe. Para Avicena, o fogo queima necessariamente o algodão porque a frase "O fogo queima o algodão" foi, é e sempre será verdadeira.
Algazali desenvolveu sua teoria das modalidades no calam axarita em oposição ao modelo de Aristóteles e Avicena. Os axaritas aproximaram-se da compreensão moderna das modalidades como estados alternativos e simultaneamente possíveis.
Necessário seria aquilo que existe em todas as alternativas. Possível seria aquilo que existe em ao menos uma delas, e impossível aquilo que não existe em nenhum estado concebível. Aljuaini usou o exemplo de um edifício: "é uma possibilidade que se realiza, min jawāz ḥudūthihi. A pessoa sabe de modo imediato que o estado real, ḥudūth, desse edifício está entre seus estados possíveis, jāʾizāt, e que não é intelectualmente impossível que ele não tivesse sido construído".
Para avaliar a possibilidade do edifício, não é preciso acompanhar seus estados no tempo. Basta conceber uma alternativa simultânea ao edifício existente, o que define a possibilidade ou, com maior precisão, a contingência, imkān. Aljuaini escreveu: "Uma pessoa inteligente não apreende em sua mente os estados do edifício sem compará-lo ao que é contingente como ele, imkān mithlihi, ou ao que difere dele, khilāfihi".
Para Avicena, as modalidades existiam na realidade, enquanto para Algazali eram juízos da mente humana. Algazali recusou a premissa de que a possibilidade precisava de um substrato. Na formulação de Kukkonen, transferiu a presunção da existência efetiva de uma coisa, da realidade atual para a possibilidade de concebê-la.
Ao afirmar que a conexão entre causa eficiente e efeito não era necessária, Algazali dizia que ela poderia ser diferente, mesmo que nunca viesse a sê-lo. Para Avicena, o fato de a conexão nunca ter sido e nunca vir a ser diferente tornava-a necessária. Algazali não exigia uma variação real para classificá-la como não necessária.
O nexo causal é contingente, mumkin, porque a mente pode conceber outra ligação. Pode imaginar um mundo em que o fogo não queime o algodão. Alterar uma relação causal provavelmente mudaria muitas outras, produzindo um mundo distante do existente, mas ainda concebível e, por isso, possível. Deus não escolheu criar essa alternativa.
Algazali afirmou que Deus poderia ter criado um mundo com nexos causais diferentes. Avicena negava essa possibilidade porque o mundo seria o efeito necessário da natureza divina. Para Algazali, este mundo era o efeito contingente do livre-arbítrio de Deus e de sua escolha entre alternativas.
Aljuaini já havia aproximado a teologia axarita da racionalidade grega, mas Algazali estabeleceu a lógica aristotélica no calam e alterou seu método. O uso do silogismo abriu a escola dos "posteriores", ṭarīqat al-mutaʾakhkhirīn, seguida por Alxarastani e Facradim Arrazi.

Para Algazali, o conhecimento humano e intelectual usa os sentidos e a razão discursiva para alcançar o mundo visível, ʿālam al-shahāda. O conhecimento divino e espiritual alcança o mundo invisível, ʿālam al-ghayb, pela revelação e pela inspiração mística, ilhām. Em A Incoerência dos Filósofos, sustentou que a razão pura não resolvia as questões metafísicas. Ele próprio narraria esse limite na crise de 1095 em O libertador do erro.
Algazali comparou a lógica à matemática e à aritmética, pois ela verificaria a correção do raciocínio sem descobrir verdades metafísicas, e a julgou neutra diante do conteúdo da fé. Por si só, porém, ela não alcançaria o divino. A razão também deveria iluminar os textos sagrados. Quando uma demonstração irrefutável contrariasse o sentido aparente, o texto precisaria ser interpretado alegoricamente.
Na Revivificação das Ciências da Religião, Algazali classificou medicina, engenharia e aritmética entre as ciências seculares que constituíam obrigações comunitárias, farḍ kifāya, necessárias à sociedade. A maior parte das pessoas poderia limitar-se aos resultados estabelecidos pelos especialistas. As ciências religiosas voltadas à purificação da alma e ao conhecimento de Deus seriam deveres individuais de quem buscasse a salvação.
Ao levar à teologia a demonstração aristotélica, burhān, Algazali atribuiu as disputas entre teólogos sunitas à falta de familiaridade com esse método. A razão, ʿaql, operaria de forma mais precisa em argumentos demonstrativos cujas conclusões não deixassem dúvida. Uma demonstração racional válida nunca seria falsa.
Como nem a razão nem a revelação poderiam ser falsas, uma demonstração verdadeira não contrariaria a revelação. Diante de um conflito aparente, o estudioso deveria interpretar, taʾwīl, a passagem como símbolo de uma verdade mais profunda. Não seria permitido interpretar alegoricamente um trecho cujo sentido aparente não fosse refutado por uma demonstração válida.
O conhecimento pleno viria do desvelamento e exigiria uma alma transformada pela educação da mente e do corpo. Não seria transmitido pela palavra oral ou escrita, mas recebido por uma alma purificada. Seu avanço permitiria conhecer Deus e aproximar-se dele, condições da felicidade humana. A experiência assumiria a forma de inspiração ou iluminação, nūr min Allāh, "uma luz vinda de Deus".
Algazali chamou virtuosa a pessoa que renunciava a este mundo pela vida futura, preferia a solidão ao convívio, a pobreza à riqueza e a fome à saciedade. Sua conduta seria guiada pela entrega a Deus, com maior disposição para a paciência do que para a agressividade.
Algazali levou à discussão jurídica e hermenêutica a condenação das três teses filosóficas expostas no final de A Incoerência dos Filósofos. Em Faḍāʾiḥ al-Bāṭiniyya, acrescentou violações manifestas do monoteísmo islâmico e a tese de que os ensinamentos dos profetas, embora úteis à pessoa e à sociedade, não eram verdadeiros. Essas condenações protegiam a autoridade jurídica e moral da revelação contra doutrinas atribuídas aos falāsifa e aos ismaelitas.
Em Al-Iqtiṣād fī al-iʿtiqād, observou que os falāsifa liam as recompensas corporais futuras como símbolos de uma felicidade espiritual e imaterial. Considerou essa leitura incredulidade, pois ela afastaria o fiel do Alcorão e dos profetas. Uma recompensa apenas espiritual lhe parecia abstrata demais para orientar a conduta comum. A profissão de fé reuniria o monoteísmo, a profecia de Maomé e a crença no Paraíso e no Inferno, com consequências para o corpo e a alma. Ao fim de A Incoerência dos Filósofos, sua fátua prescreveu a execução de quem sustentasse aquelas três teses.
As outras dezessete teses deveriam ser toleradas e não receber condenação jurídica. As opiniões dos falāsifa sobre a unidade e os atributos divinos se aproximavam das mutazilitas, e Algazali recomendava que os mutazilitas não fossem chamados de incrédulos. Fora das três teses, caberia apenas a censura por inovação, bidʿa. O tabdīʿ, acusação de inovação, era um juízo moral sem consequência jurídica, embora pudesse provocar hostilidade da comunidade.
Para Algazali, as três doutrinas condenadas constituíam apostasia passível de morte. Griffel resumiu sua posição: "Quando a violação de um dos três elementos se torna manifesta, as autoridades do Estado têm o direito e a responsabilidade de perseguir os transgressores". Henry Corbin chamou a ofensiva de Algazali de violenta.
Algazali respondeu de modo afirmativo à pergunta sobre se os defensores das três teses mereciam a morte. Em escritos jurídicos, alguns anteriores a A Incoerência dos Filósofos, afirmou que alguém que se declarasse muçulmano e difundisse uma opinião classificada como incredulidade poderia ser morto pela lei da apostasia.
Nos primeiros séculos do Islã, a apostasia exigia uma renúncia pública à religião, como abandonar as orações ou participar de uma missa cristã. Não haveria condenação sem declaração inequívoca do acusado. Repetir a profissão de fé muçulmana, a chahada, bastava para encerrar o processo.
Algazali passou a equiparar a negação de certos princípios islâmicos à apostasia, alterando o sentido jurídico de kufr, ou incredulidade. Griffel resumiu a mudança:
"Essa compreensão difere do sentido anterior do termo. Na opinião da maior parte dos juristas muçulmanos anteriores à metade do século XI, a incredulidade, kufr, seria punida por Deus na vida futura. Neste mundo, justificaria no máximo sanções sociais. Declarar alguém incrédulo, takfīr, era usado muitas vezes para marcar e difamar um adversário teológico. Raramente implicava sanções jurídicas e, com certeza, não a pena de morte."
Sayyed Al-Qimni sustentou que não havia um crime autônomo de apostasia durante a vida de Maomé. O Alcorão menciona o abandono da fé, mas não determina uma pena terrena específica para quem deixa o Islã. A pena de morte da jurisprudência clássica foi construída principalmente a partir de hádices e da doutrina dos juristas. Al-Qimni atribuiu a formação dessa figura jurídica aos sucessores do profeta e a considerou contrária ao princípio "Não há imposição quanto à religião", do Alcorão 2:256. No século XI, a apostasia passou a abranger uma incredulidade oculta. Uma pessoa poderia ser condenada mesmo se se dissesse muçulmana, caso duvidasse de um dogma. Algazali aceitou essa definição e a aplicou à "maior parte dos filósofos".

Temendo que o uso fácil da acusação de infidelidade produzisse perseguições, Algazali escreveu Fayṣal al-tafriqa bayna al-Islām wa al-zandaqa, "O critério de distinção entre o Islã e a incredulidade", para estabelecer a fronteira da apostasia oculta. A tradução francesa recebeu o título "Epístola da tolerância". O livro abre um espaço jurídico e teológico para a tolerância, mas também define seus limites. Griffel escreveu que "os esforços de Algazali diante do movimento filosófico consistiram em definir as fronteiras da tolerância religiosa no Islã". Sherman A. Jackson chegou a uma leitura semelhante.
Richard M. Frank relacionou a obra às acusações de incredulidade levantadas contra o próprio Algazali por afastar-se de ensinamentos axaritas anteriores na Revivificação das Ciências da Religião. A defesa pessoal acompanhava o esforço de conter acusações nos debates teológicos e de definir a fronteira entre Islã e incredulidade, preocupação que já figurava na fátua ao fim de A Incoerência dos Filósofos.
Na introdução, Algazali censurou quem chamava de herege qualquer corrente diferente da sua por ignorância, sectarismo ou imitação. Ao mesmo tempo, classificou judeus e cristãos como incrédulos, junto com os grupos que chamou de brâmanes, os ismaelitas e a maior parte dos filósofos. A categoria alcançava Avicena.
Algazali admitia interpretações dos textos sagrados dentro de cinco modos de existência, sem que isso justificasse uma acusação de heresia:
Algazali aplicou esses modos numa sequência:
Como somente a demonstração da impossibilidade num nível permite passar ao seguinte, "uma interpretação depende da impossibilidade lógica de uma explicação literal do texto". Facradim Arrazi retomou o princípio. O sentido literal deve ser mantido, salvo quando uma demonstração lógica, burhān, o refute.
Duas pessoas poderiam discordar da prova de que uma leitura por existência própria fosse impossível. No hádice em que o Paraíso é mostrado numa parede, uma delas poderia manter o sentido literal e entender o Paraíso como uma realidade objetiva, em vez de uma percepção sensorial vivida pelo profeta. Outra poderia julgar impossível a percepção sensorial e interpretar a cena como representação mental. Nenhuma dessas posições seria herética. A heresia estaria fora dos cinco modos e exigiria a negação de todo sentido do texto.
Essa hermenêutica admite leituras da literal à analógica, mas exige prova para abandonar o sentido aparente. Algazali não aplicou a alegoria de modo uniforme. Manteve a criação temporal do mundo contra Avicena e, diante do hádice "No dia da ressurreição, o Deus Altíssimo descobrirá sua perna", expressão também encontrada no Alcorão 68:42, escreveu: "Abstenho-me de interpretar alegoricamente essa tradição". Essa reserva não altera sua rejeição de uma imagem corporal de Deus. Ela separa a negação do antropomorfismo da obrigação de fornecer uma explicação figurada para toda passagem. Mucatil ibne Solimão, muitas vezes acusado de antropomorfismo, também interpretou a fórmula como metáfora. Seu comentário preservado alterna leituras literais e metafóricas, por isso o rótulo isolado não resume sua exegese.
Algazali tratou a negação de um dos três princípios, Deus único, autenticidade da profecia de Maomé e caráter corporal dos prazeres e sofrimentos futuros, como apostasia oculta. Não exigia uma renúncia pública ao Islã. Mesmo alguém que se declarasse muçulmano, como Alfarábi ou Avicena, poderia ser acusado de kufr por duvidar que o Paraíso fosse literalmente um jardim com árvores e fontes. A condenação permitia a excomunhão e a pena de morte. "Essas pessoas devem ser acusadas de incredulidade, e isso abrange a maior parte dos filósofos", escreveu. O juízo alcançava também os ismaelitas e se apoiava na incredulidade como condição jurídica a ser combatida.
Ao permitir a perseguição de filósofos, a posição de Algazali ampliava a noção anterior de apostasia, que antes da metade do século XI só seria comprovada quando o acusado negasse o Islã de modo real e explícito. Corbin chamou essa ofensiva de "extremamente veemente". "Epístola da tolerância" é um título editorial francês. O árabe se traduz literalmente como "O critério de distinção entre o Islã e a incredulidade". A obra restringe acusações de kufr, mas mantém a pena para doutrinas que ultrapassam essa fronteira. Por isso, a palavra "tolerância" precisa ser entendida dentro do horizonte jurídico medieval do texto.

Na ética da Revivificação, Algazali chamou de riyāḍat al-nafs, "disciplina da alma", o trabalho de formar disposições estáveis do caráter por meio de atos repetidos. A pessoa começaria por se obrigar a praticar uma conduta louvável, até que o hábito se tornasse uma segunda natureza. A educação, a literatura, a religião e a política poderiam auxiliar esse aprendizado. Ira e desejo sexual faziam parte da natureza humana e não precisavam desaparecer, mas ficar sob o governo da razão.
Ao formular essa ética, Algazali se aproximou de Miskawayh. Mīzān al-ʿamal, "O critério da ação", guarda semelhanças com Tahdhīb al-Akhlāq, "A reforma dos costumes", sobretudo nas ideias sobre o caráter, a formação de virtudes pelo hábito e a educação da alma.

O décimo segundo livro da Revivificação examina quando o casamento ajudaria ou atrapalharia a disciplina sufi. Algazali o preferia ao celibato para quem pudesse sustentar a casa de forma lícita e conciliar a família com o culto. O cuidado com os filhos, o trabalho pelo sustento e a paciência entre os cônjuges teriam valor religioso. Para quem já dominasse os desejos e precisasse dedicar-se por inteiro ao estudo e à contemplação, permanecer solteiro poderia ser a escolha mais prudente.

Na relação conjugal hierárquica que descreveu, chamou o casamento de "uma forma de escravidão" para a esposa e exigiu que ela obedecesse ao marido, salvo quando a ordem contrariasse a lei religiosa. Ao marido atribuiu o sustento, a moderação no exercício da autoridade, o trato gentil e o dever de levar em conta o prazer sexual da esposa. Recomendou que ele não encerrasse a relação sexual antes que ela também chegasse à satisfação.
Algazali dividiu as necessidades materiais em três graus, o indispensável, o conforto e o luxo. A simples subsistência não bastaria para a maioria das pessoas, mas a riqueza também trazia riscos morais. Recomendou um caminho entre o desperdício e a avareza e tratou a pobreza voluntária como uma escolha espiritual, não como regra para toda a sociedade.
Seus textos abordam a troca, a produção, a moeda, as finanças públicas e a fiscalização dos mercados. A produção e a oferta de bens necessários seriam uma obrigação coletiva. Ele condenou o açambarcamento e a usura, e exigiu honestidade de comerciantes e artesãos.

Algazali via a sociedade como moralmente corrompida e julgava que o afastamento podia beneficiar a pessoa mais que a participação. O indivíduo teria direitos e deveres, mas pouca força diante do grupo. A ordem social seria hierárquica, com uma elite de estudiosos e governantes acima de uma população que lhes entregava o controle de seu destino.
Questões religiosas e doutrinárias caberiam aos estudiosos, enquanto os governantes cuidariam do Estado e dos assuntos terrenos. Algazali esperava obediência da população, mas não quando uma ordem contrariasse a lei religiosa. Sua teoria política também respondia à divisão de poder que conheceu: o califa abássida fornecia a legitimidade formal, enquanto o sultão seljúcida dispunha da força necessária para governar. Algazali defendeu a manutenção das duas autoridades em cooperação, pois julgava o governo necessário à ordem e à prática religiosa.

Algazali estudou fiqh com Aljuaini e pertenceu à escola sunita xafeíta. Al-Mustaṣfā fī ʿilm al-uṣūl foi um de seus últimos tratados e tornou-se uma referência na história dos princípios do direito. Averróis, apesar de suas críticas a Algazali, produziu um resumo do Mustaṣfā. Sua doutrina segue Axafii, fundador da escola e da disciplina de usul al-fiqh, os princípios da jurisprudência.
Algazali não admitia como fontes autônomas as leis reveladas anteriores ao Islã, os ditos dos companheiros de Maomé ou o istihsan, a preferência pessoal do jurista. Defendeu, no entanto, o qiyas, raciocínio por analogia, e fundamentou sua autoridade na revelação, não na razão isolada.
Ao tratar das finalidades da lei, maqāṣid al-sharīʿa, Algazali sustentou que a letra da norma não deveria ocultar seu propósito. A lei religiosa buscaria preservar cinco bens: a religião, a vida, a razão, o patrimônio e a descendência.
Chamou de interesse público, maṣlaḥa, aquilo que protege esses cinco bens e recomendou ao jurista levá-lo em conta nas decisões. O istislah recorria a esse interesse público. O interesse não podia ser definido apenas pelo benefício que as pessoas julgavam perceber. Precisava seguir as finalidades conhecidas pela revelação.

Na Revivificação das Ciências da Religião, Algazali perguntou se a música e o canto eram permitidos. Concluiu que o Alcorão e a suna não os proibiam. O prazer que produziam não bastaria para condená-los, pois o mesmo raciocínio proibiria o canto de um rouxinol.
Ele proibiu o uso de instrumentos que ligava às reuniões em que se bebia álcool, entre eles instrumentos de corda como o ʿūd, presente nos tratados de Razes e Alquindi, flautas e o tambor kūba. Como o álcool era proibido, Algazali estendeu a proibição às músicas que pudessem despertar sua lembrança e seu desejo. Reconheceu que a restrição não vinha diretamente dos textos sagrados e a obteve por analogia. Se a música e as palavras fossem adequadas, não via problema no canto dentro da mesquita.

Algazali passou a integrar as listas muçulmanas de mujaddidūn, renovadores religiosos do quinto século da Hégira. Ele próprio apresentou seu retorno ao ensino em 1106 como uma renovação prometida para o início de um novo século islâmico. Mohammad Afshin Vafaie publicou duas quadras atribuídas a Omar Caiam que lamentam a morte de Algazali. A autoria caiamiana não é segura, pois os repertórios preservados são tardios e receberam textos de atribuição duvidosa. As quadras alimentam a discussão sobre uma relação entre os dois, mas não comprovam amizade pessoal.

No Alandalus e no Magrebe, o Iḥyāʾ atraiu leitores e juristas que tentaram proibi-lo e, em 1109, juristas de Córdova apoiaram a ordem do emir Ali ibne Iúçufe para que exemplares fossem queimados diante da grande mesquita da cidade. Outros juristas se opuseram à proibição, entre eles Abu Becre ibne Alárabi, antigo aluno de Algazali, e Ali Albarji. Uma nova ordem de queima, enviada em novembro de 1143 pelo emir Taxufine ibne Ali, citava expressamente os livros de Algazali.
As crônicas almóadas atribuíram a Ibne Tumarte um encontro com Algazali no qual o teólogo teria pedido a queda dos almorávidas. A narrativa não pode ser tomada ao pé da letra. Uma de suas versões situa a conversa em 1114, três anos depois da morte de Algazali, e os relatos mudam quanto às palavras e aos participantes.

Algazali entrou na filosofia latina sobretudo por Maqāṣid al-falāsifa, traduzido em Toledo no terceiro quarto do século XII por Domingo Gundisalvo e João de Sevilha. O texto circulou como Logica et philosophia Algazelis e Summa theoricae philosophiae. Foi o único livro de Algazali traduzido durante a fase medieval de transmissão da filosofia árabe para a Europa cristã. Como a versão latina omitiu a introdução e o fecho em que o autor se afastava das doutrinas expostas, leitores tomaram "Algazel" por um seguidor de Avicena. A obra forneceu a Alberto Magno e Tomás de Aquino uma exposição da filosofia aviceniana.

As críticas de A Incoerência dos Filósofos circularam em latim dentro da resposta de Averróis, A Incoerência da Incoerência. As traduções latinas de 1328 e 1526 receberam o título Destructio destructionum e foram impressas no século XVI. O italiano Agostino Nifo escreveu um comentário latino sobre o livro de Averróis.
Dante Alighieri e David Hume estão entre os autores comparados a Algazali na recepção ocidental.
O dominicano catalão Raimundo Martí conhecia a síntese aviceniana que circulava em latim e textos nos quais Algazali expunha sua própria posição. No primeiro livro do Pugio fidei, concluído por volta de 1278, usou trechos de O libertador do erro e de A Incoerência dos Filósofos. Algumas traduções seguem de perto o árabe, enquanto outras adaptam o sentido ao argumento de Martí. No século XIV, Nicolau de Autrecourt empregou o exemplo do fogo junto ao linho ao negar que a experiência fornecesse certeza sobre a causalidade. O mesmo exemplo estava na Incoerência, e Harry Austryn Wolfson sustentou que o argumento de Algazali já era acessível aos escolásticos latinos, embora isso não prove uma leitura direta por Autrecourt.
Judá Halevi recorreu às ideias de Algazali em Cuzari. Isaac Albalag, continuador judeu de Averróis, traduziu Os objetivos dos filósofos em 1292 e acrescentou uma introdução e notas críticas. A atribuição a Albalag de um comentário sobre A Incoerência dos Filósofos é incorreta. Essa obra só recebeu tradução hebraica em 1411, e nem sempre é possível estabelecer uma dependência direta entre Algazali e os filósofos judeus que o leram.
Os objetivos dos filósofos recebeu ao menos outras duas traduções hebraicas nos cinquenta anos seguintes. São conhecidos mais de 75 manuscritos dessas versões, usadas por leitores e comentadores até o século XVI. Também chegaram ao hebraico O tabernáculo das luzes e O critério da ação.

Mohamed Nabil Nofal incluiu Maimônides entre os pensadores judeus que receberam ideias de Algazali e situou essa relação no Guia dos Perplexos. Avner Giladi propôs que o título árabe da obra, Dalālat al-ḥāʾirīn, veio da Revivificação, onde a expressão dalīl al-mutaḥayyirīn, "guia dos perplexos", ocorre ao menos duas vezes. Esses paralelos ainda receberam poucos estudos sistemáticos.
Herbert A. Davidson afirmou que quase tudo o que Maimônides atribuiu a Aristóteles em metafísica, mas que vinha de Avicena, podia ser encontrado em Os objetivos dos filósofos. Maimônides, porém, era racionalista e tentou conciliar razão e fé, como Averróis. Interpretou passagens bíblicas contrárias à filosofia para conciliá-las com Aristóteles e leu os trechos sobre a vida futura em sentido incorpóreo, aproximando-se mais de Averróis. Recomendou estudar Aristóteles com os comentários de Alexandre de Afrodísias, Temístio ou Averróis.
Tal como Averróis em Desvelamento dos métodos de demonstração, Maimônides criticou no Guia o atomismo e o ocasionalismo axaritas. Negou uma realidade dos atributos divinos separada da essência, ao contrário dos axaritas e de Algazali. Tratou o livre-arbítrio como "noção primeira", enquanto Algazali atribuiu a Deus a causa de toda ação. Também colocou lógica, matemática e física como preparação necessária à metafísica, enquanto Algazali deu prioridade às ciências islâmicas e valor prático às seculares. A proximidade do título com uma expressão da Revivificação também abriu a questão de Algazali estar entre os interlocutores criticados por Maimônides.

Na Delhi do século XVIII, Xá Ualiulá Dehlaui tratou de uma pergunta que Algazali havia desenvolvido, as razões internas dos ritos. O Iḥyāʾ organizava a purificação, a oração, a esmola, o jejum e a peregrinação por seus "segredos". No Hujjat Allāh al-bāligha, Ualiulá explicou como esses atos atenderiam a necessidades humanas e coletivas, com conclusões próprias sobre sua dimensão política.

Em 1846, George Henry Lewes comparou a dúvida do segundo capítulo de O libertador do erro ao método empregado séculos depois por René Descartes na primeira das Meditações metafísicas. Os dois questionaram os sentidos e a razão por meio do argumento do sonho antes de buscar uma base absoluta para a certeza.
A hipótese de uma dependência direta ou indireta de Descartes em relação a Algazali foi rejeitada na historiografia europeia e segue em debate entre historiadores árabes e muçulmanos da filosofia. A semelhança textual não basta para igualar as ideias dos dois autores. Descartes queria fundamentar as ciências naturais matemáticas, enquanto Algazali subordinava as ciências seculares às religiosas. Descartes reconstruiu a certeza por um percurso racional, e Algazali atribuiu a superação de sua dúvida a uma luz divina e à experiência mística. A luz natural da razão cartesiana não equivale à luz divina de Algazali. As conclusões e os movimentos céticos iniciais seguem direções diferentes. Descartes escreveu o Discurso do Método como introdução a A dióptrica, Os meteoros e A geometria, ciências às quais Algazali dedicou pouca atenção.

No Brasil, a recepção filosófica recente ganhou textos de Algazali em tradução direta. Tadeu Mazzola Verza publicou a discussão XVII de A Incoerência dos Filósofos, sobre causalidade, na revista DoisPontos, da Universidade Federal do Paraná, e a discussão II, sobre a eternidade futura do mundo, na Veritas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. A Editora PPGFIL-UFMG publicou em português, em 2024, o verbete de Frank Griffel sobre Algazali na Stanford Encyclopedia of Philosophy.
Em Portugal, a Fundação Calouste Gulbenkian lançou em 2023 a tradução integral de A Incoerência dos Filósofos, preparada por Catarina Belo diretamente do árabe e acompanhada de introdução, notas e glossário. A obra foi discutida na Feira do Livro de Lisboa em 2024 por Belo, Khalid Jamal, Fabrizio Boscaglia e Maria Leonor Xavier, numa conversa depois disponibilizada em vídeo pela fundação.
Catarina Belo apresentou a tradução portuguesa como uma via de acesso para estudantes e pesquisadores de Portugal, do Brasil e de outros países onde o português é oficial, entre eles Angola e Moçambique. Essa circulação reúne edições portuguesas, traduções brasileiras de discussões isoladas e estudos acadêmicos escritos ou publicados em português.

Averróis respondeu a A Incoerência dos Filósofos com A Incoerência da Incoerência e criticou Algazali no Discurso Decisivo. Rejeitou as três acusações de incredulidade contra Alfarábi e Avicena. Os filósofos não negariam que Deus conhece os particulares, mas afirmariam que ele os conhece por uma ciência divina.
Sobre a eternidade passada do mundo, Averróis acusou os teólogos de interpretar o texto. Citou o Alcorão 11:7: "Foi ele quem criou os céus e a Terra em seis dias, e seu trono estava sobre a água". Em sua leitura, algo já existia. Os filósofos também discutiriam apenas a forma da vida futura, e não sua existência, o que não justificaria a acusação de incredulidade.
Para Algazali, quando a filosofia contradizia a revelação, o erro estava na filosofia. Para Averróis, "a verdade não pode contrariar a verdade". Se o texto revelado parecesse contrariar a razão, ele deveria ser interpretado.

A crítica de Algazali à falsafa não encerrou a lógica, a metafísica ou as ciências no mundo islâmico, pois sua aceitação da demonstração aristotélica levou conceitos de Avicena ao calam posterior e a atividade científica prosseguiu por séculos. O Observatório de Maraga, fundado no século XIII, tornou-se um centro para a astronomia e inspirou outros observatórios na Ásia e no Oriente Médio.
Mohamed Nabil Nofal e Florian Besson incluíram a recepção de Algazali entre os fatores do declínio da filosofia e da ciência depois do século XII, sem tratar os ataques de Tahāfut como causa única. Rehan Khan repetiu a leitura num texto de divulgação sobre a prioridade dada às ciências religiosas e os ataques contra os filósofos. Dominique Urvoy incluiu o tradicionalismo de Algazali nessa explicação. Mohammed Abed al-Jabri associou o declínio à crítica do racionalismo, embora atribuísse sua origem a Avicena. Nofal escreveu que "os ataques violentos de Algazali contra a filosofia foram um dos fatores de seu enfraquecimento no Oriente islâmico". George Saliba contestou essa leitura.
A frase "Grande é o crime contra a religião cometido por quem supõe que o Islã deve ser defendido pela negação das ciências matemáticas" aparece no parágrafo 41 de O libertador do erro. Algazali afirmou no mesmo trecho que a aritmética, a geometria e a astronomia continham resultados demonstrados que não afirmavam nem negavam a religião. Temia, porém, que o estudante transferisse a confiança nessas provas para a metafísica dos filósofos, ou que um defensor mal informado do Islã negasse cálculos corretos e fizesse a religião parecer inimiga da demonstração.
Medicina e aritmética tinham utilidade prática e podiam constituir obrigações coletivas, embora Algazali colocasse acima delas o conhecimento voltado para Deus e para a salvação. Ele dividiu a física entre conteúdos aceitáveis, inúteis ou contrários às doutrinas que defendia. Ao tratar de livros que misturavam lógica, matemática, ensinamentos sufis e teses metafísicas que julgava falsas, recomendou afastar deles o leitor sem preparo e escreveu que era preciso "proibir sua leitura".
Atribuir a Algazali a responsabilidade pelo declínio científico a partir do século XIII pode exagerar o alcance de sua obra. George Saliba rejeitou a tese de uma interrupção causada por A Incoerência dos Filósofos, pois ela depende de um modelo de conflito entre ciência e religião que não explica os textos científicos posteriores. Algazali não produziu astronomia ou matemática comparável à dos especialistas que trabalharam depois dele, mas sua lógica e sua leitura crítica de Avicena entraram no ensino teológico pós-clássico.

Na primeira metade do século XIX, a discussão XVII de A Incoerência dos Filósofos foi lida no Ocidente como uma recusa de qualquer conexão causal entre os acontecimentos da natureza. Ernest Renan levou essa interpretação para uma narrativa em que a crítica de Algazali à falsafa teria sufocado a razão e as ciências naturais no Islã. Essa leitura dominou boa parte da bibliografia europeia mesmo sem levar em conta o conjunto de seus livros sobre cosmologia.
Mishkāt al-anwār, disponível em edição impressa no começo do século XX, contém passagens nas quais Algazali aceitava relações causais. Para conciliar textos que pareciam discordar entre si, intérpretes como W. H. T. Gairdner propuseram que ele ensinava uma doutrina pública e outra reservada a leitores preparados. A hipótese dos dois ensinamentos guiou parte da discussão durante o século XX.
Henry Corbin escreveu sobre Algazali: "Sem ceder a certos exageros, pode-se admitir prontamente que esse homem do Coração foi uma das personalidades mais fortes e uma das mentes mais bem organizadas que surgiram no Islã".
T. J. De Boer escreveu:
"Gazali é sem dúvida uma figura singular no Islã. Sua doutrina expressa sua personalidade. Ele abandonou a tentativa de compreender este mundo, mas entendeu a questão religiosa com maior profundidade que os filósofos de seu tempo. Eles empregavam métodos intelectuais, como seus predecessores gregos, e viam as doutrinas religiosas como produtos da concepção, da fantasia ou do capricho do legislador. Para eles, a religião era obediência cega ou um conhecimento que continha uma verdade inferior. Gazali apresentou a religião como experiência interior. Era para ele mais que lei e doutrina, era experiência da alma. Nem todos acompanham essa experiência. Mesmo quem não o segue em seu voo místico, quando ele ultrapassa as condições de toda experiência possível, precisa reconhecer que seus excessos na busca do mais elevado pertencem à trajetória do pensamento humano tanto quanto os caminhos aparentemente seguros percorridos pelos filósofos de seu tempo numa terra já descoberta por outros."
W. Montgomery Watt escreveu:
"Algazali foi aclamado como o maior muçulmano depois de Maomé, e com certeza está entre os maiores. Sua visão se aproxima mais da Europa e da América modernas que a de muitos muçulmanos, o que o torna mais compreensível para nós."
Nas últimas décadas do século XX, Michael E. Marmura e Richard M. Frank rejeitaram a ideia de duas doutrinas secretamente opostas, mas chegaram a respostas diferentes sobre a causalidade. Marmura leu Algazali como defensor da ação direta de Deus em cada acontecimento. Frank encontrou espaço para causas secundárias criadas por Deus. A divergência deslocou o debate para a coerência interna de sua cosmologia e para o peso de Avicena em sua teologia.

Fora das universidades europeias, Xibli Numani publicou em 1902 uma biografia de Algazali em urdu. Frank Griffel aproximou a leitura de Numani e a de Sayyid Ahmad Khan de conclusões que só ganhariam espaço na bibliografia ocidental no fim do século XX. Esses autores muçulmanos não aceitaram a imagem simples de Algazali como adversário da razão e perceberam a incorporação de ideias filosóficas em sua obra.
A monografia de Frank Griffel publicada em 2009 reuniu teologia, cosmologia e filosofia num mesmo exame. Algazali não teria encerrado a filosofia árabe depois de Averróis. Ele levou conceitos e métodos aristotélicos e avicenianos para o calam e participou da incorporação das ciências gregas ao discurso teológico muçulmano. A expressão "teologia filosófica" passou a resumir essa combinação sem apagar as críticas que Algazali dirigiu aos filósofos.
Kenneth Garden retirou a Revivificação de uma leitura concentrada apenas na busca pessoal de salvação. Em sua monografia de 2014, Algazali aparece como um erudito envolvido nas disputas religiosas e políticas de seu tempo, que organizou a obra em torno da renovação da comunidade. Garden o chamou de primeiro reavivador islâmico a usar de modo consciente a linguagem da reforma.
Os dois volumes de Islam and Rationality, publicados em 2015 e 2016, reuniram trabalhos preparados em torno do noningentésimo aniversário solar da morte de Algazali. Os capítulos cobrem sua relação com Avicena, o uso da lógica, a racionalização do sufismo, a hermenêutica, a ética, o direito, a transmissão manuscrita e a recepção judaica e otomana. A amplitude dos temas substitui a antiga pergunta única, se Algazali teria destruído a filosofia, por problemas ligados a cada obra e a cada período de leitura.
Eric Ormsby escreveu:
"Neste livro, procurei transmitir o essencial da vida e do pensamento de um homem religioso de grande capacidade, pouco conhecido fora dos estudos especializados. Pela amplitude, sutileza e recepção de sua obra, Gazali merece figurar entre os grandes nomes da história das ideias, ao lado de Agostinho e Maimônides, Pascal e Kierkegaard."
Massimo Campanini escreveu:
"A afirmação de Montgomery Watt de que Algazali foi o protótipo do intelectual muçulmano ainda se sustenta. Ele foi filósofo, teólogo, jurista e místico e reuniu essas facetas para renovar e reformar a religião, com fins teológicos e também políticos ou públicos. A literatura crítica sobre Algazali é extensa e segue crescendo. Seu lugar como 'Prova do Islã', ḥujjat al-Islām, e como 'intelectual muçulmano' desperta interesse cada vez maior."
As avaliações recentes também ampliaram o espaço dado à ética. O exame de emoções, hábitos e formação do caráter aproxima a Revivificação de seus livros de jurisprudência e de sua teoria do conhecimento moral. A questão já não se limita a classificar Algazali como filósofo, teólogo ou místico, pois seus argumentos mudam conforme o gênero do livro e o público ao qual se dirige.

A Revivificação chega a leitores do século XXI como obra completa e também como livros separados. A Islamic Texts Society mantém uma coleção inglesa dedicada a Algazali, com dezessete títulos no catálogo. A tradução do livro sobre a recitação do Alcorão saiu em 2025, e a do livro sobre o retiro e a convivência saiu em 2026.
Partes da mesma obra foram transformadas em materiais para famílias e escolas. O Ghazali Children's Project prepara, para cada livro selecionado, uma tradução destinada aos adultos, uma adaptação infantil, um caderno de atividades e orientações curriculares. O material está disponível, por inteiro ou em parte, em urdu, espanhol, árabe, francês, alemão, indonésio e sueco. Essas adaptações retiram passagens de uma obra extensa e as reorganizam para idades e formas de estudo diferentes, sem substituir o texto árabe usado como ponto de partida.

O filósofo analítico da religião William Lane Craig defendeu em sua tese, em trabalhos posteriores e em debates públicos o argumento cosmológico calam. Ele retomou a formulação e parte da defesa apresentadas por Algazali e difundiu o argumento na filosofia analítica da religião.
Causalidade, lógica, ética, interpretação, direito e espiritualidade passaram a ser estudados como questões que se cruzam nos mesmos livros. A leitura ocasionalista atribui cada acontecimento à ação direta de Deus, enquanto a leitura causalista admite poderes criados e subordinados. A revisão da Stanford Encyclopedia of Philosophy publicada em janeiro de 2026 incorporou trabalhos sobre profecia, cosmologia e ética e deixou a divergência em aberto.

Ali Mirsepassi e Tadd Graham Fernée retomaram os escritos persas em uma monografia de 2025. Eles leem A Alquimia da Felicidade como uma crítica às instituições abássidas e aproximam as perguntas de Algazali sobre reforma moral e convivência de problemas encontrados em sociedades plurais. A proposta é uma interpretação atual dos textos, não a afirmação de que Algazali respondeu antecipadamente a questões políticas do século XXI.

Os planos para a área monumental de Tus passaram a abranger o sítio funerário atribuído a Algazali. Entre 1964 e 1968, o Conselho de Monumentos Nacionais do Irã ampliou o jardim do mausoléu de Ferdusi e o uniu por uma avenida arborizada ao local do túmulo de Algazali.
A UNESCO participou, em 1985, das comemorações dos novecentos anos lunares da morte de Algazali. Uma mesa-redonda ocorreu na sede da organização, em Paris, nos dias 9 e 10 de dezembro, e seus textos formaram uma publicação comemorativa.

A 34.ª Conferência Geral da UNESCO incluiu o 950.º aniversário de seu nascimento entre as comemorações de 2008 e 2009. O aniversário solar de novecentos anos da morte deu origem aos dois volumes de Islam and Rationality, editados por Georges Tamer e Frank Griffel.
A Grande Mesquita de Paris fundou o Institut Al-Ghazali em 1993 para a formação superior de imames e capelães muçulmanos. A formação passou a integrar a École nationale Ibn Badis, aberta em 2025, com centros fora de Paris. A nova escola chama seu núcleo de formação religiosa de Institut Al-Ghazali.
A província paquistanesa de Sinde instituiu por lei a Al-Ghazali University, em Carachi, em 2022. O chanceler Mufti Abdul Raheem declarou que o nome foi escolhido como homenagem ao teólogo.
Na Indonésia, a Universitas Nahdlatul Ulama Al Ghazali Cilacap começou a funcionar como universidade em 2014 e incorporou, em 2020, o instituto religioso que a precedera. O nome também foi dado à biblioteca da universidade.
A Universiti Islam Melaka, na Malásia, chama sua biblioteca de Perpustakaan Al-Ghazali. O prédio foi reformado em 2012, tem três andares e guarda mais de vinte mil itens entre livros, enciclopédias, periódicos, teses e materiais audiovisuais.
O filme Al-Ghazali: The Alchemist of Happiness, dirigido por Ovidio Salazar e lançado em 2004, combinou encenação dramática e documentário para narrar a crise espiritual do teólogo. Ghorban Najafi interpretou Algazali, e Robert Powell fez a narração em inglês. O filme leva ao audiovisual a saída de Bagdá e a procura por certeza que Algazali contou em O libertador do erro.
O catálogo crítico aceita cerca de cinco dezenas de obras como autênticas, enquanto repertórios muçulmanos reúnem aproximadamente trezentos outros títulos duvidosos, apócrifos ou repetidos sob nomes diferentes. A diferença de estilo entre os livros também vem do modo como Algazali escrevia para públicos distintos.
A lista temática abaixo preserva obras publicadas ou transmitidas sob seu nome, mas não declara autêntico cada título. A autoria de alguns tratados místicos e políticos ainda é discutida, e catálogos antigos também transformaram capítulos em livros separados.
A lista reúne o catálogo crítico da Encyclopædia Iranica e de W. Montgomery Watt na organização temática usada pelo inventário Ghazali.org.
A transmissão manuscrita ajuda a separar obras autênticas de textos incorporados mais tarde ao catálogo de Algazali. O códice coletivo Şehit Ali 1712, copiado quatro anos após sua morte, contém integralmente Mishkāt al-anwār, proximidade que sustenta a atribuição. A comparação entre manuscritos ainda deixa dúvidas sobre tratados menores, entre eles al-Risāla al-laduniyya e Minhāj al-ʿābidīn.
A Fundação Calouste Gulbenkian publicou em Lisboa, em 2023, uma tradução portuguesa integral de A Incoerência dos Filósofos, feita diretamente do árabe por Catarina Belo. O volume tem introdução, notas e glossário da tradutora.
No Brasil, Tadeu Mazzola Verza traduziu a discussão XVII, sobre causalidade, para o volume de 2021 da revista DoisPontos, publicado digitalmente em 2023, e a discussão II, sobre a eternidade futura do mundo, para a Veritas em 2025.