| Carlos Chagas | |
|---|---|
| Descrever completamente uma infecção Doença de Chagas Estudo da Malária Descoberta do Trypanosoma cruzi | |
| Nascimento | 9 de julho de 1878 Oliveira, Minas Gerais |
| Morte | 8 de novembro de 1934 (55 anos) Rio de Janeiro, Distrito Federal |
| Sepultamento | Cemitério de São João Batista |
| Nacionalidade | brasileiro |
| Cidadania | Brasil |
| Filho(a)(s) | Carlos Chagas Filho, Evandro Chagas |
| Alma mater | Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro |
| Ocupação | bacteriologista, médico, entomologista, acadêmico, scientific collector |
| Distinções |
|
| Cargo(s) | professor catedrático (desde 1925) |
| Instituições | Instituto Oswaldo Cruz |
| Causa da morte | infarto |
| Assinatura | |
Carlos Ribeiro Justiniano Chagas (Oliveira, 9 de julho de 1878 – Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1934) foi um cientista, médico sanitarista, professor, infectologista e bacteriologista brasileiro. Atuante na saúde pública do Brasil, iniciou sua carreira no combate à malária. Destacou-se ao descobrir o protozoário Trypanosoma cruzi (cujo nome foi uma homenagem ao seu mestre e amigo Oswaldo Cruz) e a tripanossomíase americana, conhecida como doença de Chagas. Ele foi o primeiro e até os dias atuais permanece como o único cientista na história da medicina a descrever completamente uma doença infecciosa: o patógeno, o vetor (Triatominae), os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.
Foi diversas vezes laureado com prêmios e títulos de instituições do mundo inteiro. Também trabalhou no combate à leptospirose e às doenças venéreas.


Carlos Ribeiro Justiniano Chagas nasceu em Oliveira, Minas Gerais, no dia 9 de julho de 1878, filho de José Justiniano Chagas e Mariana Candida Ribeiro de Castro Chagas. O lugar de seu nascimento foi a Fazenda Bom Retiro, a 20 km da cidade, onde seus antepassados, de ascendência portuguesa, se estabeleceram.
Seu pai, cafeicultor, morreu quando Chagas tinha quatro anos de idade, ficando a cargo de sua mãe a administração do cultivo do café e da criação dele e de seus outros quatro irmãos: Maria Rita, José (que morreu com três anos de idade), Marieta e Serafim. Eles foram morar em outra propriedade da família, a Fazenda Bela Vista, próxima a Juiz de Fora, também no estado de Minas Gerais.
Em Oliveira teve convivência direta com três tios maternos: Cícero, Olegário e Carlos. Os dois primeiros eram advogados formados em São Paulo e incentivaram o sobrinho a se dedicar aos estudos. Porém, o último era formado em Medicina e proprietário de uma casa de saúde em Oliveira. As ações desse tio o influenciaram a seguir a carreira médica.
Aos oito anos de idade e já alfabetizado foi matriculado no Colégio São Luís, dirigido por jesuítas, em Itu, interior de São Paulo. Entretanto, fugiu do internato em 1888 para ir ao encontro da mãe, em Juiz de Fora, ao saber que os escravos recém-libertados estariam depredando fazendas. A punição para essa fuga foi a expulsão de Chagas do colégio pelos jesuítas. De lá ele foi transferido para o Ginásio São Francisco, em São João del-Rei, Minas Gerais.
Após encerrar os estudos secundários, Chagas ingressou no curso preparatório para a Escola de Minas de Ouro Preto por vontade de sua mãe, que gostaria de vê-lo formado em Engenharia. Em companhia de colegas do curso, aderiu a vida boêmia. Adoentado, em 1896, depois de reprovado nos exames, voltou para Oliveira.
Durante o tempo de recuperação em sua cidade natal, seu tio Carlos fortaleceu a vontade de Chagas em ser médico e o ajudou a vencer a barreira de sua mãe, que acabou aceitando a opção do filho. Seguiu, então, para São Paulo com o intuito de obter os diplomas básicos exigidos para a matrícula no curso médico. Conseguindo tais documentos, em fevereiro de 1897 seguiu para o Rio de Janeiro a fim de cursar medicina.
Aos 18 anos, em abril de 1897, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro). Tal faculdade estava passando por um processo de renovação, além de viver um clima de "revolução pasteuriana" em seu conteúdo programático.

Ao longo do curso dois professores exerceram grande influência em sua carreira. Miguel Couto, que apresentou a Chagas as noções e as práticas da clínica moderna e com quem passaria a ter uma estreita amizade, e Francisco Fajardo, que o colocou em contato com temas ligados àsdoenças tropicais, especialmente a malária, e que seria de grande importância para sua futura carreira. Esses dois professores apresentaram os dois caminhos que se abriram para Chagas no decorrer de seu curso médico: a clínica e a pesquisa científica.
Para elaborar sua tese de doutoramento (pré-requisito para o exercício da medicina) dirigiu-se ao Instituto Soroterápico Federal, na Fazenda de Manguinhos, levando uma carta de apresentação de Miguel Couto para Oswaldo Cruz, diretor do instituto. Assim, Chagas teve o primeiro contato com o cientista, que seria seu grande mestre e amigo.
Orientado por Oswaldo Cruz, começou a trabalhar no Instituto Soroterápico Federal (que em 1908 passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz) e elegeu como tema da tese de doutoramento o ciclo evolutivo da malária na corrente sanguínea. Em março de 1903 estava concluída a sua tese, intitulada Estudos hematológicos no impaludismo, que foi defendida em maio do mesmo ano. Em 23 de abril de 1904 recebeu seu diploma. Oswaldo Cruz, que dirigia simultaneamente o Instituto Soroterápico Federal e a Diretoria Geral de Saúde Pública, nomeou Chagas como médico do instituto, cargo que ele recusou por preferir, em 1904, ir trabalhar como clínico em hospital de Jurujuba, em Niterói. Foi nomeado como médico da Diretoria Geral de Saúde Pública em 15 de março de 1904. Nesse mesmo ano instalou seu laboratório particular no Rio de Janeiro e casou-se com Íris Lobo, filha do senador Fernando Lobo Leite Pereira, que conheceu por intermédio de Miguel Couto. Dessa união nasceram seus dois filhos, Evandro (em 1905) e Carlos Filho (em 1910). Ambos seguiriam a carreira médica e científica do pai.

Por causa de sua tese de doutoramento sobre malária, em 1905 foi recrutado por Cruz para a missão de controlar a doença em Itatinga, interior de São Paulo, que atacava a maioria dos trabalhadores da Companhia Docas de Santos, que construía uma represa na região, causando a paralisação das obras. Realizou a primeira ação bem-sucedida contra a malária no Brasil, colocando em prática procedimentos que mais tarde se tornariam corriqueiros em outras campanhas.
Segundo ele, para se impedir a propagação da doença em regiões em que não havia ações sistemáticas de saneamento, era necessário concentrar as medidas preventivas nos locais onde viviam os homens e os mosquitos infectados com o parasita da malária. Seguindo tal orientação, em cinco meses Chagas conseguiu debelar o surto da doença.
De volta ao Rio de Janeiro, Chagas continuou servindo a Diretoria Geral de Saúde Pública. Em 19 de março de 1906 transferiu-se para o Instituto Oswaldo Cruz. No ano seguinte foi solicitado pela Diretoria Geral para organizar o saneamento na Baixada Fluminense, onde estavam acontecendo obras para a captação e bombeamento de água para o Rio de Janeiro. Com Arthur Neiva seguiu para Xerém e os resultados positivos que conseguiu nessa obra confirmaram a sua teoria da infecção domiciliar da malária.


Em junho de 1907 Chagas foi enviado pelo instituto à cidade de Lassance, Minas Gerais, perto do Rio São Francisco, para combater uma epidemia de malária entre os trabalhadores de uma nova linha da Estrada de Ferro Central do Brasil. Instalou-se durante dois anos em um vagão de trem, onde montou um pequeno laboratório e um consultório para atendimento dos doentes. Diversos métodos de inseticidas foram utilizados na época, como enxofre ou piretro, que décadas mais tarde popularizou-se com o advento do DDT.
Nesse tempo, capturou, classificou e estudou os hábitos dos anofelinos, mosquitos transmissores da doença, e examinou o sangue de animais em busca de parasitas. Chagas identificou no sangue de um sagui uma nova espécie de protozoário, ao qual deu o nome de Trypanosoma minasense. Um engenheiro da ferrovia alertou-o para a infestação de um inseto hematófago nas residências rurais, da espécie Triatoma infestans, conhecido como barbeiro, assim chamado porque suga o sangue das pessoas durante a noite, atacando o rosto delas. Chagas levou alguns deles ao seu laboratório e percebeu que nos seus intestinos havia tripanossomas que poderiam ser da espécie Trypanosoma minasense, já numa fase evoluída.
Por Lassance não ter condições para uma pesquisa mais aprofundada, enviou alguns exemplares de barbeiros para Cruz, pedindo que os pusesse em contato com macacos de laboratório. Um mês depois, foi comunicado da presença de tripanossomas no sangue dos animais. Voltou ao Rio de Janeiro para confirmar a pesquisa e descobriu que não se tratava do Trypanosoma minasense, mas de uma nova espécie. Chagas chamou esse novo parasita de Trypanosoma cruzi em homenagem a Oswaldo Cruz. A nota anunciando a descoberta do parasita foi publicada em 1909 na revista alemã Archiv für Schiffs- und Tropen-Hygiene.
Retornando a Lassance, Chagas suspeitava que o parasita poderia causar algum mal para humanos e outros animais, visto que o barbeiro estava sempre em lugares frequentados por pessoas. Recolheu amostras de sangue de um gato infectado em 14 de fevereiro de 1909 e em 23 de abril do mesmo ano descobriu o Trypanosoma cruzi em uma menina de dois anos, chamada Berenice, que apresentava febre e anemia. Tal tripanossoma foi o segundo descoberto a causar uma doença, a tripanossomíase americana ou doença de Chagas, pois até então o único confirmado era o causador da doença do sono, ou tripanossomíase africana, transmitida pela picada da mosca tsé-tsé.
Também observou inclusões parasitas no cérebro e no miocárdio dela, que poderiam explicar algumas manifestações clínicas em pessoas doentes. Para completar seu trabalho sobre a patologia da nova doença, o cientista descreveu 27 casos de formas agudas e realizou mais de cem autópsias de pacientes que tinham a forma crônica da doença. Com isso, ele concluiu o ciclo da doença: identificou o vetor (barbeiro), o agente causal (Trypanosoma cruzi), o reservatório doméstico (gato), a doença nos humanos (o caso de Berenice) e suas complicações. Ao longo da pesquisa, Chagas propôs algumas complicações da doença que, mais tarde, mostraram-se equivocadas. Exemplo disso foi anunciar que o bócio era um sintoma da tripanossomíase americana. O trabalho que Chagas realizou foi o primeiro e o único na história da medicina descrevendo completamente a nova doença infecciosa: anatomia patológica, o meio de transmissão (Triatoma infestans), etiologia, suas formas clínicas e sua epidemiologia.
Chagas também foi o primeiro a descobrir o gênero Pneumocystis, um fungo parasita, nos pulmões dos animais experimentalmente infectados com tripanossomas. Nessa altura ele não o reconheceu como um organismo distinto e portanto descreveu o gênero Schizotrypanum de modo a acomodar ambos os ciclos de vida que ele ilustrou. Porém, a sua descoberta levou outros a aprofundar a investigação e descrever Pneumocystis como um gênero distinto, que agora é reconhecido como um fungo. Chagas seguia atentamente a literatura e rapidamente confirmou a distinção, pelo que novamente adotou o nome Trypanosoma cruzi que havia originalmente cunhado. Pneumocystis é agora associado a uma outra doença, PCP ou pneumocistose, causada por uma espécie (P. jirovecii). A espécie original de Pneumocystis, observada por Chagas em espécies de porquinho-da-índia, não foi ainda nomeada como uma espécie separada.

A descoberta da doença foi levada ao conhecimento da comunidade científica por meio de uma nota prévia escrita por Chagas em 15 de abril de 1909 e publicada na Revista Brasil-Médico em 22 de abril. No mesmo dia Oswaldo Cruz anunciou-a formalmente à Academia Nacional de Medicina, que decidiu levar a Lassance uma comissão para verificar o trabalho. Miguel Couto, presidente da comissão, sugeriu que a nova doença se chamasse doença de Chagas, mas o próprio Carlos Chagas preferia chamar a doença como tripanossomíase americana.
Na Europa o trabalho teve repercussão em revistas científicas, em especial na Alemanha e na França, pois esses países tinham interesses em doenças tropicais, visto que a tripanossomíase africana vinha prejudicando o plano imperialista em tal continente. Em agosto de 1909 Chagas publicou no primeiro volume da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz um estudo completo sobre a doença de Chagas e o ciclo evolutivo do protozoário causador da doença. Esse trabalho garantiu a ascensão do cientista na instituição, sendo promovido a chefe de serviço em março de 1910.
Em 26 de outubro de 1910 a Academia Nacional de Medicina reconheceu formalmente o trabalho realizado pelo cientista e o recebeu como seu novo membro. Nessa solenidade Chagas proferiu a primeira conferência sobre a doença. Em 1911 divulgou os resultados na Sociedade de Medicina e Cirurgia de Minas Gerais e em agosto fez uma segunda conferência na Academia Nacional de Medicina. Ainda nesse mesmo ano ocorreu a Exposição Internacional de Higiene e Demografia em Dresden, Alemanha, onde foi mostrado no pavilhão brasileiro a descoberta da doença, que atraiu grande público. A partir de 1915 pesquisas realizadas pelo austríaco Rudolf Kraus, na Argentina, levantaram questões sobre a doença que foram logo repetidas no Brasil envolvendo até a autoria da descoberta ou a importância social em território nacional, questões que foram decididas em favor do cientista nas décadas seguintes ao seu falecimento. Carlos Chagas chegou a rebater as críticas de Rudolf Kraus em conferência em Buenos Aires.
O estudo da doença avançou nas décadas de 1940 e 1950 através do Instituto Oswaldo Cruz no município mineiro de Bambuí.

Na década de 1910 o Instituto Oswaldo Cruz promoveu viagens científicas ao interior do país com o objetivo de investigar os problemas médicos que lá ocorriam. Em 1912, com a crise do extrativismo da borracha na Amazônia, o governo federal firma parceria com a instituição para verificar as condições de salubridade do vale do Rio Amazonas e elaborar um plano de exploração racional dos recursos naturais.
Assim, em agosto daquele ano Chagas liderou um grupo que incluía mais dois cientistas e um fotógrafo. Visitaram a população ribeirinha dos rios Solimões, Negro e Purus e analisaram as condições de moradia, abastecimento de água, esgoto, alimentação e assistência médica. Também realizaram observações clínicas sobre as epidemias que assolavam a região, em especial a malária. Também foram recolhidas amostras de plantas de cunho medicinal, insetos causadores de doenças e peixes, que foram analisados em busca de novos parasitas.
A expedição foi encerrada em março de 1913 e os resultados encontrados foram expostos por Chagas em outubro daquele ano na Conferência Nacional da Borracha, organizada pelo Senado Federal no Rio de Janeiro. Com tal conferência e o relatório escrito por Oswaldo Cruz entregue ao Ministério da Agricultura, foi possível formar um panorama da situação de abandono social que a região vivia, sem assistência do Governo Federal. Também foi possível viabilizar o desenvolvimento econômico da região. Tal expedição foi fundamental para fortalecer o movimento que ao longo da década de 1910 buscou alertar o governo para a importância do saneamento rural do país e para a necessidade de uma ampla reforma dos serviços de saúde pública.
A gripe espanhola chegou ao Brasil em 1918 e atacou no Rio de Janeiro dois terços da população (por volta de seiscentos mil habitantes). Ela fez mais de dez mil vítimas devido à falta de assistência médica e às precárias condições de higiene e saneamento encontradas na cidade. Tal quadro fez com que o presidente da República Venceslau Brás convidasse Carlos Chagas para assumir o controle da situação.
Chagas criou um serviço especial de postos de atendimento à população em diferentes pontos da cidade. Ao mesmo tempo que providenciou tal tarefa, criou hospitais emergenciais, publicou cartazes e panfletos de alerta para os habitantes e buscou apoio de profissionais da sua área, quando conseguiu ajuda da maioria dos clínicos cariocas e de vários membros da Academia Nacional de Medicina.
No Instituto Oswaldo Cruz incentivou a pesquisa sobre a gripe espanhola, como a causa da infecção, o meio de contágio e o diagnóstico. Chagas trabalhou fortemente para o desaparecimento da doença, que ocorreu em novembro de 1918.

Em 14 de fevereiro de 1917, três dias após a morte de Oswaldo Cruz, Chagas foi nomeado para a direção do Instituto Oswaldo Cruz através de um decreto presidencial. Ao assumir o cargo, buscou consolidar o modelo estabelecido por Cruz semelhante ao praticado no Instituto Pasteur, onde a autonomia administrativa e financeira eram as características principais. Além disso, estreitou a relação entre a pesquisa, o ensino e a fabricação de produtos medicinais e veterinários.
No campo da pesquisa sua administração ficou marcada pela investigação das principais epidemias que assolavam a zona rural brasileira em sua época. Com o objetivo de controlá-las, inaugurou em 1918 o Hospital Oswaldo Cruz nas dependências do instituto para ser um centro de estudos para seus cientistas. Mais tarde, em 1942, o hospital passaria a ser chamado de Hospital Evandro Chagas.
Chagas foi responsável pela criação de seções científicas independentes, separando-as por áreas de conhecimento com o intuito de estabelecer uma divisão de trabalho mais nítida no instituto. Assim, foram instaladas seções de Química Aplicada, Micologia, Bacteriologia, Zoologia, Anatomia, Protozoologia e Fisiologia. Quanto ao ensino, o cientista ampliou o programa do Curso de Aplicação do instituto, oferecido desde 1908 como especialização em Microbiologia e Zoologia Médica.
Na área de produção Chagas diversificou os medicamentos e produtos fabricados no Instituto Oswaldo Cruz. Estimulou o comércio dos mesmos e a renda gerada por eles tornou-se fundamental para o funcionamento da instituição. Uma medida para a expansão da área de produção foi a criação do Serviço de Medicamentos Oficiais, destinado para produzir, entre outros, a quinina usada no combate à malária. Na década de 1920 o instituto ficou responsável por verificar o controle de qualidade dos produtos utilizados na medicina brasileira, tanto os fabricados em laboratórios nacionais quanto os importados. Outra iniciativa foi a incorporação do Instituto Vacinogênico Municipal, quando ficou a cargo do instituto a fabricação da vacina antivariólica.

Em 1920 a autonomia administrativa do instituto ficou preservada, mesmo que estivesse subordinada ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Financeiramente, a autonomia foi assegurada graças ao regulamento criado por Chagas e aprovado em 1919, no qual toda a receita gerada por trabalhos realizados em Manguinhos a pedido de particulares seria dividida igualmente entre a instituição e os funcionários que os executassem.
Porém, o aumento das atividades do instituto no decorrer da década de 1920 acarretou um acúmulo de problemas financeiros. Isso prejudicou o aperfeiçoamento tecnológico e a manutenção de suas instalações físicas, que levou a uma consequente perda da qualidade de seus produtos.
Tal quadro se agravou na década de 1930 com a criação do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas. Aos poucos o instituto foi perdendo sua autonomia administrativa graças ao aumento da intervenção do Estado. A nova ordem política brasileira trouxe consequências diretas para a estrutura e para o funcionamento do instituto, que ficou vinculado ao Departamento Nacional de Medicina Experimental do recém-criado Ministério da Educação e Saúde.
Ao tomar posse em 1919 o presidente Epitácio Pessoa nomeou Carlos Chagas para a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) com o objetivo de reorganizar a saúde pública nacional. Ele acumulou essa função com aquela praticada no Instituto Oswaldo Cruz. No ano seguinte tal instituição se chamaria Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), ligado ao Ministério da Justiça e Negócios Exteriores.
Sua primeira atitude, exposta na Biblioteca Nacional em fevereiro de 1921, foi a descentralização das atividades, no qual estados e municípios brasileiros tinham maior liberdade de organizar seus sistemas sanitários. Acordos com os mesmos foram essenciais para a segunda ação - a interiorização em busca da erradicação das doenças rurais, principalmente malária, ancilostomose e tripanossomíase americana. Em paralelo a esse projeto, criou medidas referentes à higiene pública. Com apoio da Fundação Rockefeller, Chagas criou o Serviço de Enfermeiras e com o desdobramento desse serviço fundou, em 1923, a Escola de Enfermagem Anna Nery, introduzindo o ensino profissionalizante de Enfermagem no Brasil. Os alunos foram instruídos também no Hospital São Francisco de Assis, fundado também por Chagas para tal finalidade.
Como diretor do DNSP representou o país no Comitê de Higiene da Liga da Nações, associação sediada em Genebra e precursora da Organização Mundial de Saúde (OMS). O médico permaneceu à frente do órgão até novembro de 1926, quando terminou o mandato do presidente Arthur Bernardes. O DNSP foi transferido para o Ministério da Educação e Saúde em função da reforma política do Estado Novo.
Chagas acreditava que a ciência médica era sustentada por dois pilares: o primeiro defendia uma estreita articulação entre o ensino e a pesquisa. O segundo defendia a introdução nos cursos de Medicina do estudo específico de doenças tropicais e o combate dos problemas de saúde pública brasileira, como malária, ancilostomose e tripanossomíase americana. Com isso, o país teria profissionais qualificados para tratar dos problemas sanitários.
Em 1925 Chagas foi nomeado primeiro professor catedrático de medicina tropical da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro. Um ano depois, no âmbito dessa faculdade, criou o Curso Especial de Higiene e Saúde Pública, que garantia vagas nos cargos da administração sanitária federal aos aprovados.
Carlos Chagas morreu aos 56 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro. A causa de sua morte foi um infarto do miocárdio. Ele foi sepultado no Cemitério São João Batista.
Idealizador do Centro Internacional de Leprologia, Carlos Chagas recebeu diversas homenagens. Uma herma na Praia de Botafogo foi construída em sua memória, de autoria do escultor Modestino Kanto. Um município do estado de Minas Gerais recebeu seu nome, além de cédulas de 10.000 Cruzados terem circulado com sua imagem durante a década de 1980.

A Casa da Cultura de sua cidade natal, Oliveira, Minas Gerais, leva seu nome, sendo Carlos Chagas o mais reconhecido de seus cidadãos ilustres.
Quanto aos prêmios recebidos, em 1912 chegou o primeiro, o prêmio Schaudinn do Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, Alemanha. Em 1921 foi nomeado artium magistrum honoris causa da Universidade Harvard. Em 1923 ganhou o prêmio hors-concours na Conferência Comemorativa sobre o Centenário de Louis Pasteur, em Estrasburgo, França, e em 1925 o prêmio Kümmel da Universidade de Hamburgo, Alemanha. Ainda recebeu em 1926, 1929 e 1934 outros títulos honoris causa vindos das universidades de Paris, Lima e Livre de Bruxelas, respectivamente.
Chagas recebeu diplomas da Universidade Nacional de Buenos Aires, em 1917, da Faculdade de Medicina da Universidade de Hamburgo, em 1925, e da Cruz Vermelha Alemã, em 1932. Foi nomeado membro da Academia Nacional de Medicina em 1910. Também integrou a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (1909), a Société de Patologie Exótique da França (1910), a Associação Médico-Cirúrgica de Minas Gerais (1911), o Physicians Club of Chicago dos Estados Unidos (1921), a Academia Nacional de Medicina do Peru (1922), a Sociedade de Artes Médicas das Índias Orientais Neerlandesas (1924), a Academia de Medicina de Nova York e a Kaiserlich Deutsche Akademie der Naturforscher zu Halle (1926), a Sociedade Real de Medicina Tropical e Higiene de Londres (1928), a Sociedade de Biologia de Buenos Aires (1930) e a Academia Nacional de Medicina da França (1931), entre outras associações médico-científicas.
Além disso, recebeu os seguintes títulos: em 1920 de Cavaleiro da Ordem da Coroa da Itália; em 1923 de Comendador da Coroa da Bélgica e de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França; em 1924 de Oficial da Ordem de São Tiago, de Portugal; em 1925 de Comendador da Ordem de Afonso XII, da Espanha; em 1926 de Comendador da Ordem de Isabel, a Católica da Espanha; e em 1929 de Cavaleiro da Ordem da Coroa da Romênia.
É patrono da cadeira 37 da Academia Pernambucana de Medicina.
A descoberta de Carlos Chagas foi reconhecida no país e no exterior como uma das mais importantes conquistas da parasitologia. Chagas foi duas vezes indicado ao Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina (em 1913 e 1921), cada vez por apenas um único indicador brasileiro, mas nunca recebeu o prêmio. Em 1913, 63 cientistas foram indicados para o prêmio, os dois primeiros receberam nove e oito indicações, respectivamente. Em 1921, 42 cientistas foram indicados para o prêmio, os quatro primeiros receberam 11, nove, sete e sete indicações, respectivamente. Cem anos após a descoberta da doença ainda persistem especulações sobre as duas indicações oficiais de Carlos Chagas ao Prêmio Nobel. O motivo pelo qual o prêmio não foi concedido pode ter sido a forte oposição que ele enfrentou no Brasil de alguns médicos e cientistas da época. Chegaram a questionar a existência da doença de Chagas, o que possivelmente influenciou a decisão do Comitê do Nobel de não lhe conceder o prêmio. A análise da base de dados dos arquivos do Prêmio Nobel, com a revelação dos nomes dos indicados e vencedores dos anos 1901-1951, trouxe informações não apenas sobre o que era considerado uma conquista científica na época, mas também sobre quem eram os cientistas importantes e quais eram as relações entre eles. As conexões dos membros do Comitê do Nobel com a comunidade científica internacional, quase exclusivamente centrada em cientistas europeus e estadunidenses, também influenciaram suas escolhas. O não reconhecimento das descobertas de Carlos Chagas pelo Comitê do Nobel parece ser mais corretamente explicado por esses fatores do que pelo impacto negativo da oposição no Brasil.
