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O latim cogito, ergo sum, geralmente traduzido para o português como "penso, logo existo" ("I think, therefore I am" em inglês), é o "primeiro princípio" da filosofia de René Descartes. Ele o publicou originalmente em francês como je pense, donc je suis em seu Discurso sobre o Método de 1637, para alcançar um público mais amplo do que o latim permitiria. Mais tarde, apareceu em latim em seus Princípios da Filosofia, e uma frase semelhante (em latim: Ego sum, ego existo; romaniz.: Sou, existo) também figurou de forma proeminente em suas Meditações sobre a Primeira Filosofia. O ditado também é às vezes referido como cogito. Como Descartes explicou em uma nota de rodapé, "não podemos duvidar de nossa existência enquanto duvidamos". Em A Busca da Verdade pela Luz Natural, publicado postumamente, ele expressou essa percepção como dubito, ergo sum, vel, quod idem est, cogito, ergo sum ("duvido, logo existo — ou, o que é o mesmo — penso, logo existo."). Antoine Léonard Thomas, em um ensaio de 1765 em homenagem a Descartes, apresentou-o como dubito, ergo cogito, ergo sum ("duvido, logo penso, logo existo.").
A afirmação de Descartes tornou-se um elemento fundamental da filosofia ocidental, pois pretendia fornecer uma base sólida para o conhecimento diante da dúvida radical. Enquanto outros conhecimentos poderiam ser fruto da imaginação, engano ou erro, Descartes afirmava que o próprio ato de duvidar da própria existência servia — no mínimo — como prova da realidade da própria mente; para que haja um pensamento, deve haver uma entidade pensante — neste caso, o eu.
Uma crítica ao ditado, sugerida inicialmente por Pierre Gassendi, é que ele pressupõe a existência de um "eu" que deve estar pensando. De acordo com essa linha de crítica, o máximo que Descartes tinha o direito de dizer era que "o pensamento está ocorrendo", e não que "eu estou pensando".
A demonstração do Cogito dá-se de maneira bastante breve no Discurso do Método, mas é muito mais extensa e detalhada nas Meditações Metafísicas. Para chegar ao “cogito, ergo sum”, Descartes estabelece dois movimentos: primeiro, demonstrar as razões que o levam à dúvida hiperbólica; e segundo, demonstrar como a dúvida hiperbólica leva à certeza indubitável de que ele mesmo existe enquanto coisa que pensa. Delineemos, a seguir, esses dois movimentos meditativos que o levam ao cogito.
Descartes deixa claro que o propósito de suas meditações é estabelecer o conhecimento sob bases sólidas e seguras. Nesse sentido, ele rejeita – como se fosse totalmente falso – tudo aquilo que pudesse supor a menor dúvida.
Em seguida, ele estabelece três pontos para especificar como esse processo de rejeição ocorrerá, que são:
I. Negação daquilo que se baseia nos sentidos, já que é claro que os sentidos às vezes nos enganam e que não é prudente confiar naqueles que um dia nos enganaram.
II. Negação das coisas que se apresenta em um sonho, já que não há indícios concludentes de que podemos distinguir a vigília do sono e, portanto, não podemos saber se estamos sonhando agora ou se estamos acordados.
III. Negação dos paradigmas matemáticos. Esse é um ponto mais complicado, pois parece que, acordando ou dormindo, 2 + 3 = 5; que, mesmo em sonho, 2 + 3 nunca será igual a 7. Para negar essa objeção, Descartes apontará para o fato de que raciocinamos errado em relação às demonstrações mais simples da matemática. Entretanto, ele irá se concentrar principalmente no apontamento da possível existência de um “gênio maligno” que poderia fazê-lo crer que 1 + 1 = 2, mesmo que isso não fosse verdadeiro. Nesse sentido, a suposição do gênio maligno parece promover a negação não só de suas crenças matemáticas, mas também de o restante de suas opiniões.
Diante desses pontos, Descartes conclui que deve rejeitar tudo aquilo que recebera em sua crença como verdadeiro e considerar todas as suas antigas opiniões como falsas. Esse é momento em que ele assume a suspensão do juízo e a dúvida hiperbólica.
Descartes percebe que, ao duvidar de tudo, ele não poderia negar que há a própria dúvida. Então ele admite que “penso, logo sou” deve ser o seu primeiro princípio firme e indubitável que sustentará o fundamento do conhecimento. Em outras palavras, tentando negar tudo como falso, acabava-se afirmando a existência do pensamento. Descartes duvidava e isso era indubitável, i. é, que Descartes duvidava era aquilo que conseguia resistir ao gênio maligno, pois o próprio Descartes precisaria, para ser enganado pelo gênio maligno, existir enquanto aquele que é enganado (ou aquele que pensa).
Assim, “cogito ergo sum” se torna o primeiro princípio firme e indubitável de sua jornada meditativa. Ele é o ponto arquimediano de sua filosofia. De sua própria existência enquanto coisa que pensa, então, Descartes não pode duvidar, já que, enquanto pode pensar, ele próprio é uma coisa que pensa. Essa “coisa que pensa” é aquilo “que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que imagina também e que sente”. Em contrapartida, ele só pode afirmar que é uma coisa que pensa enquanto pensa. Se cessar o seu pensar, cessasse simultaneamente o seu existir.
Ao longo da história do pensamento, diversos filósofos se enveredaram na tentativa de objetar o argumento cartesiano.
A objeção de Leibniz consiste em apelar que haveria na demonstração do cogito uma circularidade. Isto é, o “eu” que existe já está pressuposto ao assumir “eu penso”.
Embora Nietzsche, em Além do bem e do mal, §16, não chegue a se referir diretamente a Descartes, fica claro que ele está se referindo ao pensamento cartesiano e estabelecendo uma crítica ao “cogito ergo sum”.
Ele coloca que, ao decompor o processo lógico que leva Descartes ao “penso, logo sou”, é possível detectar algumas pressuposições por trás da frase, tais como:
A crítica de Nietzsche se norteia aqui no sentido de que haveria uma dificuldade – ou quem sabe impossibilidade – de fundamentar esses pressupostos sobre um suporte inabalável. Desse modo, por meio da demonstração do cogito, Descartes não construiria um conhecimento sem pressupostos e nem o firmaria em bases sólidas e seguras, como pretendia.
Russell objetará que, no máximo, Descartes poderia inferir que há o pensamento, e não que “eu penso”.
Arquimedes, para tirar o globo terrestre de sua posição e transportá-lo para outro lugar, nada pedia senão um ponto que fosse fixo e assegurado. Assim, terei direito de conceber altas esperanças, se for feliz o bastante para encontrar uma coisa que seja certa e indubitável.