
Na religião e na filosofia, a alma é o aspecto imaterial ou a essência de um ser vivo. Geralmente se acredita que seja imortal e que exista separadamente do mundo material. Antropólogos e psicólogos constataram que a maioria dos seres humanos acredita na existência de uma alma ou de um espírito e que, em diferentes culturas, distingue a alma — ou espírito — do corpo material.
As religiões concebem a alma de maneiras diferentes. O budismo geralmente ensina a inexistência de um eu permanente (anatta), em contraste com a crença do cristianismo em uma alma eterna, para a qual a morte constitui uma transição à presença de Deus no céu. O hinduísmo considera o ātman ("eu", "essência") idêntico ao Brahman em algumas tradições, enquanto o islã emprega dois termos — rūḥ e nafs — para distinguir o espírito divino da disposição pessoal. O jainismo considera a alma (jīva) uma forma eterna, embora mutável, até alcançar a libertação, enquanto o judaísmo utiliza vários termos, como nefesh e neshamah, para se referir à alma. O siquismo considera a alma parte de Deus (Waheguru), o xamanismo frequentemente adota o dualismo da alma, com "almas corporais" e "almas livres", e o taoismo reconhece dois tipos de alma, hun e po.
A alma é uma área central de interesse da filosofia desde a antiguidade. Sócrates concebia a alma como dotada de uma faculdade racional, cujo exercício seria a atividade humana mais semelhante à divina. Platão acreditava que a alma fosse o verdadeiro eu da pessoa, um habitante imaterial e imortal de nossa vida, que continua existindo e pensando mesmo após a morte. Aristóteles descreveu a alma como a "primeira atualidade" de um corpo naturalmente organizado — a disposição de forma e matéria que permite aos seres naturais aspirar à plena realização.
Os filósofos medievais desenvolveram essas bases clássicas. Ibn Sina distinguiu a alma do espírito e argumentou que a imortalidade da alma decorre de sua natureza, em vez de ser uma finalidade a ser cumprida. Seguindo princípios aristotélicos, Tomás de Aquino compreendeu a alma como a primeira atualidade do corpo vivo, mas sustentou que ela poderia existir sem o corpo, pois realiza operações independentes dos órgãos corpóreos. Na filosofia moderna, as três principais teorias que descrevem a relação entre a alma e o corpo são o interacionismo, o paralelismo psicofísico e o epifenomenalismo. Durante o iluminismo, Immanuel Kant definiu a alma como o "eu" no sentido mais técnico e sustentou que se pode demonstrar que "todas as propriedades e ações da alma não podem ser reconhecidas a partir da materialidade".
O substantivo português alma deriva do latim anĭma, -ae, termo que significava “sopro”, “ar”, “respiração”, “princípio vital” e, por extensão, a parte imaterial do ser humano. A forma portuguesa provavelmente se desenvolveu por meio da variante do latim vulgar da Península Ibérica *alima. Nessa evolução, ocorreu uma dissimilação: o som representado por n em anima transformou-se em l para se diferenciar do m, outra consoante nasal próxima. Posteriormente, a vogal medial foi suprimida, resultando na forma alma. Entre os cognatos derivados do mesmo termo latino encontram-se o espanhol alma, o francês âme, o italiano anima e o romeno inimă.

O conceito de anātman — não eu — é fundamental para o budismo. Os primeiros budistas desconfiavam do valor espiritual atribuído a uma alma. Pretendiam rejeitar claramente o dualismo entre um corpo mortal e uma alma eterna postulado pelo jainismo, que levava ascetas a morrer de inanição para libertar a alma de sua prisão mortal. Em perspectiva histórica, a doutrina do anātman desenvolveu-se a partir de duas grandes crenças filosófico-religiosas: o eternalismo (sassata-vāda) e o aniquilacionismo (anuyoga). Os eternalistas afirmam a eternidade da alma, a pureza ritual, a existência de seres celestes, do céu e do inferno, a mortificação do corpo e outras ideias. Em contraste, os aniquilacionistas negam a imortalidade da alma e acreditam que ela exista apenas enquanto o corpo existe. Como acreditam que a alma morra juntamente com o corpo, prescrevem a prática da autoindulgência (kamasukhallikanuyoga) para desfrutar dos prazeres experimentados pelos sentidos. O Buda rejeita ambas as concepções e identifica suas origens em dois desejos: o desejo de imortalidade conduz ao eternalismo quando a vida é prazerosa, enquanto estados desagradáveis conduzem ao aniquilacionismo devido ao desejo de descontinuidade do eu. O Buda identifica as duas concepções como teorias da alma, pois ambas definem um eu por meio do desejo.
A ideia de uma alma imutável entra em conflito com os princípios da originação dependente e da cessação dos cinco agregados. Devido à sua impermanência, eles são considerados "vazios" ou "sem essência". Sob a perspectiva da impermanência, os budistas reconhecem que todos os fenômenos, físicos ou mentais, encontram-se em um ciclo contínuo de surgimento e dissolução e que nada é permanente, inclusive a percepção de um eu ou de uma alma. No budismo, o único absoluto é a śūnyatā. O eu constitui uma avaliação retrospectiva da experiência sensorial. Essa experiência conduz então ao desejo e à formação do pensamento "isto é meu", criando a noção de um eu. É a continuidade desse desejo por um eu que dá origem a um novo nascimento. Os budistas consideram equivocada a identificação de uma alma independente com a percepção, pois nossa percepção do mundo depende dos órgãos dos sentidos. No Cetana-sutta, o fluxo da consciência mantém a ligação entre um nascimento e outro, e também determina as condições da concepção no útero materno, quando as pessoas se esquecem de suas vidas anteriores. O Mahāvedalla-sutta menciona três modos de continuidade do eu: o modo sensual (kāma-bhava), o modo de matéria sutil (rūpa-bhava) e o modo imaterial (arūpa-bhava); os dois últimos ocorrem entre aqueles que praticam meditações de absorção (jhāna) e se tornam brahmas.
Entretanto, nem mesmo essa transmissão da consciência pode ser identificada com uma alma, pois a própria possibilidade de perder a consciência se tornaria inexplicável. Caso existisse uma alma, os budistas teriam de associá-la a algo inteiramente desprovido de sensibilidade; tal entidade, contudo, não possuiria base alguma para ser identificada como "eu". Outro argumento contra uma alma autônoma é que ela poderia determinar que nunca morreria nem adoeceria; a morte e a doença, porém, ocorrem contra a vontade dos indivíduos. O argumento final é que, no pensamento budista, nada foi identificado como imutável ou permanente. Como a própria consciência também é impermanente, não pode existir uma alma imutável. Assim, cada indivíduo constitui uma interação complexa de fenômenos físicos e mentais, todos dependentes de inúmeras condições; removidos esses fenômenos e condições, nenhum eu duradouro pode ser encontrado.
O Buda deixou dez perguntas sem resposta, uma das quais dizia respeito à existência de uma alma: "A alma é uma coisa e o corpo outra?" e "Quem é que renasce?". Isso levou algumas pessoas a acreditar que o Buda teria rejeitado somente uma alma definida por um ou mais dos cinco agregados. Outra interpretação sustenta que ele permaneceu em silêncio por considerar a pergunta irrelevante para a busca da iluminação. Se conhecia ou não a resposta continua sendo objeto de debate. Outra interpretação afirma que o Buda permaneceu em silêncio porque a própria pergunta é inválida.
Os que argumentam que o Buda afirmou um eu independente do corpo e da mente, como propunham eternalistas ou aniquilacionistas, sustentam que a alma transcende os cinco agregados. Alguns budistas da tradição maaiana acreditam que a alma não seja absoluta, mas imortal: embora influenciada pelo carma, não poderia morrer, pois seria não nascida e incondicionada. Em apoio a essa interpretação, Christopher Gowans aponta textos budistas que possivelmente implicam alguma forma de eu, como referências a pronomes pessoais, e a necessidade de um eu que sofre para que se possa buscar a libertação no nirvana. Devido a essas referências implícitas nas doutrinas budistas, Gowans também rejeita a ideia de que elas sejam apenas convenções linguísticas; segundo ele, a maneira mais coerente de compreender os ensinamentos do Buda seria distinguir um eu substancial de um eu em constante transformação, além dos cinco agregados. O Buda teria rejeitado o primeiro, mas implicitamente afirmado o segundo.
Em contraste, outros sustentam que o Buda permaneceu em silêncio porque tais perguntas são inválidas. Quando se pergunta "Quem renasce?", pressupõe-se a existência de um eu. Contudo, se as almas não existem, ninguém pode renascer e, portanto, a pergunta não possui resposta precisa. Essa interpretação também rejeita respostas posteriores de escolas budistas tradicionais, como o teravada, que responderam à questão da identidade em termos paradoxais e, assim, afirmaram implicitamente alguma forma de eu ou de alma.
No antigo texto budista Perguntas de Milinda, a natureza do eu duradouro é examinada em um diálogo entre o rei grego Milinda e o monge Nāgasena. Questionado sobre sua identidade, Nāgasena explica que, em verdade, não existe um Nāgasena, pois seu nome é apenas um rótulo. Para ilustrar a ideia, menciona a carruagem de Milinda e pergunta se sua essência se encontra no eixo, nas rodas ou na armação. Milinda admite que a essência da carruagem não está em uma única peça, mas sustenta que o termo "carruagem" continua significativo, pois se refere à combinação de todas as partes. Nāgasena concorda e acrescenta que esse é precisamente seu argumento: não existe um Nāgasena para além dos cinco agregados que o constituem. Assim como a carruagem, a pessoa é uma designação convencional aplicada a um conjunto de componentes interdependentes.
O exemplo da carruagem de Milinda relaciona-se à doutrina budista das Duas verdades. Segundo ela, a verdade convencional corresponde às verdades fenomênicas do mundo percebido, incluindo as pessoas, mas, em última instância, elas são desprovidas de essência e de existência independente. Ao compreender o eu como mera convenção, cessariam o medo da morte e o apego à permanência do eu, pois não existiria um eu ao qual se apegar. Essa interpretação das Perguntas de Milinda foi frequentemente comparada à teoria do feixe de David Hume.

A Bíblia ensina que, após a morte, as almas são imediatamente recebidas no céu, depois de obterem o perdão dos pecados por aceitarem Cristo como Salvador. Os fiéis experimentam a morte como uma transição em que deixam o corpo físico para habitar na presença de Deus. Enquanto a alma se une a Deus após a morte, o corpo físico permanece no túmulo, aguardando a ressurreição. No momento da ressurreição, o corpo será ressuscitado, aperfeiçoado e reunido à alma. Essa unidade plenamente restaurada e glorificada de corpo e espírito existirá eternamente na criação renovada descrita em Apocalipse 21–22.
Paulo de Tarso empregou especificamente psychē (ψυχή) e pneuma (πνεῦμα) para distinguir as noções judaicas de nephesh (נפש), "alma", e ruah (רוח), "espírito". Na Septuaginta, por exemplo, Gênesis 1:2 apresenta רוּחַ אֱלֹהִים = πνεῦμα θεοῦ = spiritus Dei = "Espírito de Deus". Isso levou alguns cristãos a adotar uma concepção tricotômica do ser humano, segundo a qual este é composto de corpo (soma), alma (psyche) e espírito (pneuma). Outros acreditam que "espírito" e "alma" sejam empregados de forma intercambiável em muitas passagens bíblicas e, por isso, defendem a dicotomia: a concepção de que cada ser humano é composto de corpo e alma. O autor da Epístola aos Hebreus declarou: "Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito".
A "origem da alma" mostrou-se uma questão difícil no cristianismo. Entre as principais teorias propostas estão o criacionismo da alma, o traducianismo e a preexistência. Segundo o criacionismo da alma, Deus cria diretamente cada alma individual, no momento da concepção ou em algum momento posterior. Segundo o traducianismo, a alma procede dos pais por geração natural. De acordo com a teoria da preexistência, a alma existe antes da concepção. Também há posições divergentes sobre se os embriões humanos possuem alma desde a concepção ou se existe um momento entre a concepção e o nascimento em que o feto adquire alma, consciência e condição de pessoa.
O corrupcionismo é a concepção de que, após a morte física, o ser humano deixa de existir até a ressurreição, embora sua alma persista na vida após a morte. O sobrevivencialismo sustenta que tanto o ser humano quanto sua alma persistem na vida após a morte como entidades distintas, sendo a alma aquilo que constitui o ser humano. A maioria dos tomistas adota a concepção corrupcionista e argumenta que a pessoa humana é um composto de matéria e alma. Os sobrevivencialistas sustentam que, embora uma pessoa não seja idêntica à própria alma, esta é suficiente para constituir uma pessoa. Nos últimos anos, foi proposta uma posição intermediária: a alma separada seria uma pessoa incompleta. Essa posição afirma que a alma satisfaz a maior parte dos critérios de uma pessoa, mas que a concepção sobrevivencialista não expressa adequadamente o caráter antinatural da sobrevivência de uma pessoa à morte.
Ātman é uma palavra em sânscrito que significa eu interior ou alma. Na filosofia hindu, especialmente na escola vedanta do hinduísmo, o ātman é o primeiro princípio, o verdadeiro eu de um indivíduo, para além da identificação com os fenômenos, e sua essência. Para alcançar a libertação (moksha), o ser humano deve adquirir autoconhecimento (ātma-jñāna), isto é, compreender que seu verdadeiro eu (ātman) é idêntico ao eu transcendente, o Brahman, segundo a Advaita Vedanta. As seis escolas ortodoxas do hinduísmo acreditam que existe ātman — "eu", "essência" — em todos os seres.
No hinduísmo e no jainismo, um jīva (जीव, jīva; जीव, jīv) é um ser vivo ou qualquer entidade dotada de força vital. O conceito de jīva no jainismo é semelhante ao de ātman no hinduísmo; contudo, algumas tradições hindus distinguem os dois conceitos, considerando o jīva um eu individual e o ātman o eu universal e imutável presente em todos os seres vivos e em tudo mais como o Brahman metafísico. Este último é por vezes denominado jīva-ātman, isto é, uma alma em um corpo vivo.
O islã utiliza duas palavras para a alma: rūḥ, traduzida como "espírito", "consciência", "pneuma" ou "alma", e nafs, traduzida como "eu", "ego", "psique" ou "alma". Os dois termos são frequentemente empregados de forma intercambiável, embora rūḥ seja usado com maior frequência para designar o espírito divino ou o "sopro da vida", enquanto nafs designa a disposição ou as características pessoais. O Tāj al-ʿArūs min Jawāhir al-Qāmūs enumera vários significados de nafs, inclusive dois provenientes do Lisān al-ʿArab: espírito, eu, desejo, mau-olhado, desdém e corpo. O Lane's Lexicon observa que os seres humanos são constituídos de nafs e rūḥ; o primeiro termo se aplica à mente e o segundo, à vida. Evita-se atribuir nafs a Deus (Alá). Al-Baghdadi também rejeitou que Deus possuísse rūḥ para ter vida, como ocorre em crenças cristãs, e propôs que todos os espíritos (arwāḥ) são criados.
No Alcorão, nafs — com os plurais anfus e nufūs — refere-se, na maioria dos casos, à pessoa ou a um eu. O termo é empregado para seres humanos e jinn, mas não para os anjos. Quando se refere à alma, ela é dividida em três tipos. O eu imperioso (ammāra bi 'l-sūʾ), que recorda o hebraico nefesh — apetite físico — e a ideia paulina de "carne", é sempre mau; sua cobiça deve ser temida e contida. O eu acusador (lawwāma) é a alma dos desertores. Por fim, há a alma tranquila (muṭmaʾinna), que entra no paraíso. Essa tipologia da alma fundamentou tratados muçulmanos posteriores de ética e psicologia.

A maioria dos filósofos muçulmanos, em consonância com seus predecessores gregos, aceitava de modo geral que a alma era composta de elementos não racionais e racionais. A dimensão não racional subdividia-se nas almas vegetativa e animal, enquanto a parte racional era dividida nos intelectos prático e teórico. Embora todos concordassem que a alma não racional estivesse vinculada ao corpo, divergiam quanto à parte racional: alguns a consideravam imaterial e naturalmente independente do corpo, ao passo que outros afirmavam a natureza inteiramente material de todos os componentes da alma. Ibn Hazm empregou nafs e rūḥ de forma intercambiável. Também rejeitou a metempsicose segundo a qual todas as almas já haviam sido criadas quando os anjos foram ordenados a se curvar diante de Adão, permanecendo no barzakh até serem sopradas no embrião.
Havia consenso de que, durante sua união com o corpo, a alma não racional governa as funções corporais, o intelecto prático administra os assuntos terrenos e corpóreos e o intelecto teórico procura o conhecimento de verdades universais e eternas. Esses pensadores sustentavam que a finalidade ou felicidade suprema da alma consiste em transcender os desejos corporais para contemplar princípios universais atemporais. Todos concordavam que a alma não racional é mortal — criada e inevitavelmente perecível. As opiniões sobre o destino da alma racional, porém, variavam: Alfarábi sugeriu que sua sobrevivência eterna era incerta; Ibn Sina afirmou que ela era não criada e imortal; e Ibn Rushd argumentou que toda a alma, incluindo cada uma de suas partes, era transitória e acabaria deixando de existir.
Para Ibn Arabi, a alma é o potencial humano, e o propósito da vida é realizar esse potencial. A experiência humana encontra-se sempre entre o corpo (jism) e o espírito (rūḥ), de modo que a experiência individual se limita à imaginação (nafsānī). Oscilando entre o corpo e o espírito, a alma pode escolher, por livre-arbítrio, entre ascender à realização ou descer à mente materialista, movimento que Ibn Arabi compara à viagem noturna de Maomé, o miʿrāj. Assim, a alma determina sua própria trajetória em uma cadeia cármica de causalidades, rumo a níveis paradisíacos ou infernais, de acordo com a compreensão, as características e as ações da pessoa.

Al-Ghazali — ativo no século XI — conciliou as concepções sunitas da alma com a filosofia aviceniana (falsafa). Al-Ghazali define o ser humano como uma substância espiritual (jawhar rūḥānī), nem confinada ao corpo, nem unida a ele, nem separada dele. Essa substância possui conhecimento e percepção. Ele identifica o eu imaterial com o al-nafs al-muṭmaʾinna e o al-rūḥ al-amīn do Alcorão, e utiliza nafs para os desejos corporais que devem ser disciplinados. Recusa-se, entretanto, a explicar a natureza mais profunda da alma, pois afirma que isso é proibido pela xaria, por estar além da compreensão.
Segundo Al-Ghazali, a nafs possui três elementos: animais, demônios e anjos. O termo para o eu ou a alma é "coração" (qalb). Em sua concepção da alma, a nafs é mais bem compreendida como psique, um "veículo" (markab) da alma, embora distinto dela. As partes animalescas da nafs dizem respeito a funções corporais, como comer e dormir; a parte demoníaca relaciona-se ao engano e à mentira; e a parte angélica contempla os sinais de Deus e impede a luxúria e a ira. Desse modo, as inclinações a seguir a nafs ou o intelecto são associadas a agentes sobrenaturais: os anjos inspiram a seguir o intelecto (ilhām), e os demônios tentam induzir ao mal (waswās).
A psicologia de Al-Baydawi demonstra influência dos escritos de Al-Ghazali, a quem ele também menciona explicitamente. Sua classificação das almas é desenvolvida no Ṭawāliʿ al-anwār, escrito por volta de 1300. Assim como Al-Ghazali, defende a existência da alma independentemente do corpo e apresenta evidências racionais e corânicas. Acrescenta que a nafs é criada quando o corpo se completa, embora não seja ela própria corporificada, e que se encontra ligada ao rūḥ.
Ao discutir as almas, Al-Baydawi estabelece uma hierarquia cosmológica de Intelectos celestes. Segundo essa hierarquia, Deus, em sua unidade (tawḥīd), cria primeiro o Intelecto (ʿaql), que não é corpo nem forma, mas a causa de todas as demais potencialidades. Desse Intelecto produz-se um terceiro Intelecto, e assim sucessivamente até o décimo, que por sua vez influencia os elementos e produz os espíritos (arwāḥ). Abaixo desses Intelectos estão as "almas das esferas" (al-nufūs al-falakiyya), identificadas com os anjos celestes. Abaixo delas encontram-se os anjos terrestres incorpóreos, tanto os bons quanto os maus (al-kurūbiyyūn e al-shayāṭīn), os anjos que controlam os elementos, as "almas racionais" (anfus nāṭiqa) e os jinn.

A cosmologia do ismaelismo é descrita em grande parte por meio de ideias neoplatônicas e gnósticas. Dois mestres ismaelitas influentes foram Abu Iacube Assijistani, no século X, e Nasir Khusraw, no século XI. Uma das principais doutrinas de Assijistani é a imaterialidade da alma, que pertence ao domínio espiritual, mas se encontra aprisionada no corpo do mundo material. Em seus ensinamentos soteriológicos, a alma precisa abandonar os prazeres sensuais em favor da satisfação intelectual alcançada pela ascensão espiritual. Um dos argumentos de Assijistani é que o prazer sensual é finito e, por isso, não pode fazer parte da alma eterna. Embora ele próprio não o tenha declarado expressamente, outros autores ismaelitas propõem que uma alma apegada ao prazer material renascerá em outro corpo sensorial na Terra: primeiro como uma pessoa de pele escura, um berbere ou um turco; depois como animal, inseto ou planta, formas que se acreditava serem progressivamente menos inclinadas às virtudes espirituais ou intelectuais.
Nesse contexto, Nasir al-Din al-Tusi identifica o mundo terreno com sijjīn. Os zabāniya são identificados com dezenove forças malignas que distraem o ser humano das verdades celestes e o desviam para preocupações materiais e sensuais, inclusive a imaginação distorcida (khayāl). As húris paradisíacas são concebidas como elementos de conhecimento do mundo espiritual aos quais a alma se une em uma espécie de casamento metafórico, conforme a sura 44:54. Esse conhecimento é inacessível às almas que permanecem no domínio terreno ou no inferno.
Nasir Khusraw equipara a alma racional humana a um espírito potencialmente angélico ou demoníaco. A alma é um anjo potencial ou um demônio potencial, conforme sua obediência à lei de Deus. A alma obediente desenvolve-se como anjo potencial e torna-se um anjo real após a morte; a alma que procura prazeres sensuais é um demônio potencial e transforma-se em demônio real no outro mundo.

No jainismo, todo ser vivo, da planta e da bactéria ao ser humano, possui uma alma, e esse conceito constitui a própria base da religião. Segundo o jainismo, a existência da alma não tem início nem fim. Ela é eterna por natureza e muda de forma até alcançar a libertação. No jainismo, jīva é a essência imortal ou a alma de um organismo vivo — como um ser humano, animal, peixe ou planta — que sobrevive à morte física. O termo ajīva significa "não alma" e representa a matéria, incluindo o corpo, o tempo, o espaço, a não movimentação e o movimento. Um jīva pode ser saṃsāri, mundano e preso ao ciclo de renascimentos, ou mukta, libertado.
Segundo essa crença, até ser libertada do samsara — o ciclo repetido de nascimento e morte —, a alma se liga a um desses corpos com base no carma, isto é, nas ações da alma individual. Independentemente do estado em que se encontre, a alma possui os mesmos atributos e qualidades. A diferença entre almas libertadas e não libertadas é que as qualidades e os atributos se manifestam plenamente no siddha, a alma libertada que superou todos os vínculos cármicos, e apenas parcialmente nas almas não libertadas. As almas que triunfam sobre as emoções nocivas ainda durante a permanência no corpo físico são chamadas arihants.
A respeito da concepção jainista da alma, Virchand Gandhi declarou: "A alma vive sua própria vida, não para a finalidade do corpo; o corpo é que vive para a finalidade da alma. Se acreditarmos que a alma deve ser controlada pelo corpo, ela perde seu poder".
Os termos hebraicos נפש nefesh ("ser vivo"), רוח ruach ("vento"), נשמה neshamah ("sopro"), חיה chayah ("vida") e יחידה yechidah ("singularidade") são utilizados para descrever a alma ou o espírito. O tradutor bíblico e hebraísta Robert Alter, contudo, rejeita "alma" como tradução inglesa válida do texto bíblico, por evocar um dualismo mente-corpo da teologia cristã que não aparece na Bíblia hebraica.
As crenças judaicas sobre o conceito e a natureza da alma são dificultadas pela ausência de uma tradição única e plenamente autorizada e pela diversidade de crenças acerca da vida após a morte. A concepção de uma alma imortal, separada do ser humano e capaz de sobreviver-lhe após a morte, não estava presente nas primeiras crenças judaicas, mas tornou-se predominante no início da Era Comum. Essa concepção diferia da crença grega, e posteriormente cristã, segundo a qual a alma era uma substância ontológica intrinsecamente separável do corpo humano. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da crença em uma vida após a morte exigia alguma forma de existência continuada depois do término da vida mortal, para que o indivíduo participasse do mundo vindouro. Essa necessidade de uma aparente dicotomia reflete-se no Talmude, no qual permanece a unidade psicofísica bíblica da alma, embora se aceite a possibilidade de sua existência simultânea nos níveis físico e espiritual. Esse paradoxo fundamental é reforçado pelas obras rabínicas posteriores. Em última análise, a natureza específica da alma foi uma preocupação secundária para as autoridades rabínicas e continua sendo em grande parte das tradições modernas.
À medida que as tradições espirituais e místicas se desenvolveram, o conceito judaico de alma passou por diversas transformações. A cabala e outras tradições místicas descrevem com maior pormenor a natureza da alma. A Cabala divide-a em cinco elementos, correspondentes aos cinco mundos:
A Cabala propôs um conceito de reencarnação, o gilgul (nefesh habehamit, a "alma animal"). Algumas tradições judaicas afirmam que a alma se aloja no osso luz, embora discordem sobre se este corresponde ao atlas, na parte superior da coluna vertebral, ou ao sacro, na extremidade inferior.

O dualismo da alma, também chamado "almas múltiplas" ou "pluralismo dualista", é uma crença comum no xamanismo e é essencial ao conceito universal e central de "voo da alma", também denominado "viagem da alma", experiência fora do corpo, êxtase religioso ou projeção astral. Ele envolve a crença de que os seres humanos possuem duas ou mais almas, geralmente denominadas "alma corporal" — ou "alma vital" — e "alma livre". A primeira vincula-se às funções corporais e à consciência durante a vigília, enquanto a segunda pode vagar livremente durante o sono ou estados de transe. Em alguns casos, existe grande variedade de tipos de alma, cada qual com funções diferentes. O dualismo e a multiplicidade de almas aparecem com destaque nas crenças animistas tradicionais dos povos austronésios, dos chineses — com hun e po —, do povo tibetano, da maioria dos povos africanos, da maioria dos povos indígenas da América do Norte, dos povos antigos do Sul da Ásia, dos povos do norte da Eurásia e dos antigos egípcios, com o ka e o ba.
A crença no dualismo da alma encontra-se na maior parte das tradições xamânicas austronésias. A palavra reconstruída em protoaustronésio para "alma corporal" é *nawa, com os sentidos de "sopro", "vida" ou "espírito vital". A alma corporal localiza-se em algum ponto da cavidade abdominal, frequentemente no fígado ou no coração — em protoaustronésio, *qaCay. A "alma livre" localiza-se na cabeça. Seus nomes geralmente derivam do protoaustronésio *qaNiCu, "fantasma" ou "espírito dos mortos", termo também aplicado a outros espíritos não humanos da natureza. A "alma livre" ainda recebe nomes cujo significado literal é "gêmeo" ou "duplo", derivados do protoaustronésio *duSa, "dois". Diz-se que uma pessoa virtuosa é aquela cujas almas permanecem em harmonia, enquanto uma pessoa má possui almas em conflito.
A "alma livre" supostamente deixa o corpo e viaja ao mundo espiritual durante o sono, estados semelhantes ao transe, delírio, insanidade e a morte. A dualidade também aparece nas tradições de cura dos xamãs austronésios, nas quais as doenças são consideradas uma "perda da alma". Para curar o doente, portanto, é necessário "devolver" ao corpo a "alma livre", que pode ter sido roubada por um espírito maligno ou ter-se perdido no mundo espiritual. Caso a "alma livre" não possa ser recuperada, a pessoa afetada morre ou enlouquece permanentemente. O xamã cura na dimensão espiritual, recuperando as partes "perdidas" da alma humana onde quer que tenham ido. Também remove o excesso de energias negativas que confundem ou contaminam a alma.
Em alguns grupos étnicos pode haver mais de duas almas. Entre os tagbanwas das Filipinas, diz-se que uma pessoa possui seis: a "alma livre", considerada a alma "verdadeira", e cinco almas secundárias com funções diversas. Vários grupos inuítes acreditam que uma pessoa possua mais de um tipo de alma. Uma delas associa-se à respiração; outra pode acompanhar o corpo como uma sombra. Em certos casos, a crença está ligada às tradições xamânicas dos diferentes grupos inuítes. Os inuítes caribus também acreditavam em vários tipos de alma.
No siquismo, a alma, denominada ātman, é compreendida como consciência pura e sem conteúdo. Considera-se que seja eterna e inerentemente ligada ao divino (Paramatman), embora sua jornada seja moldada pelo carma, o efeito acumulado das ações, pensamentos e atos da pessoa. Segundo os ensinamentos siques, a alma passa por ciclos de renascimento, ou transmigração, até alcançar a libertação (mukti), processo governado pelos princípios da ordem divina (hukam) e da graça (nadar).
O ciclo de renascimentos é influenciado pelo apego do indivíduo aos desejos mundanos e ao ego (haumai), que encobre a ligação inata da alma com o divino. As escrituras siques advertem que a preocupação com a riqueza material, os vínculos familiares ou os prazeres sensoriais no momento da morte pode conduzir ao renascimento em formas inferiores de vida, como animais ou espíritos. Em contrapartida, a meditação no nome de Deus (Nam Simran) e a recordação do divino (Waheguru) durante a vida, sobretudo no momento da morte, permitem que a alma se una à verdade eterna (Sach Khand), encerrando o ciclo de reencarnações.
Um elemento central da doutrina sique é a crença de que, embora o carma determine a trajetória da alma, a graça divina pode superar as limitações cármicas. O Guru Granth Sahib afirma que a libertação depende, em última instância, da vontade de Deus. A vida ética inclui o trabalho honesto (Kirat Karo), o compartilhamento de recursos (Vand Chhako) e o serviço comunitário (seva).
No taoismo, a "alma" não é uma entidade única e imutável, como ocorre em muitas tradições ocidentais. Ela é concebida como um equilíbrio dinâmico de energias. Duas de suas partes fundamentais são o hun e o po. O hun é a "alma etérea", ligada à luz, à consciência espiritual e à mente. É considerado yang, energia ativa e ascendente, e acredita-se que deixe o corpo após a morte. O po é a "alma corpórea", ligada ao corpo, aos instintos e aos sentidos físicos. É yin, energia passiva e terrena, permanece junto ao corpo depois da morte e, com o tempo, dissolve-se novamente na terra.
Existe considerável debate acadêmico sobre a compreensão taoista da morte. O próprio processo de morrer é descrito como shijie, "libertação do cadáver", mas o que ocorre depois é descrito de maneiras diversas: como transformação espiritual, imortalidade ou ascensão da alma ao céu. Por exemplo, dizia-se que o Imperador Amarelo ascendera diretamente ao céu diante de testemunhas, enquanto o taumaturgo Ye Fashan teria se transformado em uma espada e depois em uma coluna de fumaça que subiu aos céus.
Textos taoistas como o Zhuangzi sugerem que a alma não se encontra separada do mundo natural, mas integra o fluxo do Tao, o princípio universal. Uma passagem declara: "O céu e a terra nasceram ao mesmo tempo que eu, e as dez mil coisas são uma comigo". De modo semelhante, o Daodejing ensina que a harmonia com o Tao dissolve as fronteiras rígidas entre o eu e o cosmo: "Retornar às próprias raízes é conhecido como quietude. É isso que se entende por retornar ao próprio destino".

Filósofos gregos como Sócrates, Platão e Aristóteles entendiam que a alma (ψυχή, psykhḗ) deveria possuir uma faculdade lógica, cujo exercício constituía a mais divina das ações humanas. Em seu julgamento de defesa, Sócrates chegou a resumir seus ensinamentos como nada além de uma exortação aos atenienses para que buscassem a excelência nos assuntos da psykhḗ, pois todos os bens corporais dependiam dessa excelência (Apologia, 30a–b). Aristóteles argumentou que o corpo e a alma de uma pessoa eram, respectivamente, sua matéria e sua forma: o corpo é um conjunto de elementos, e a alma é a essência. A alma ou psique (em grego antigo, ψυχή, psykhḗ, de ψύχειν, psýkhein, "respirar"; compare-se ao latim anima) compreende as capacidades mentais de um ser vivo: razão, caráter, livre-arbítrio, sentimento, consciência, qualia, memória, percepção e pensamento, entre outras. Dependendo do sistema filosófico, a alma pode ser mortal ou imortal.
Os gregos antigos utilizavam um termo equivalente a "animado por uma alma" para representar o conceito de estar vivo, indicando que a mais antiga concepção preservada da filosofia ocidental considerava a alma aquilo que dava vida ao corpo. A alma era vista como o "sopro" incorpóreo ou espiritual que anima — do latim anima, compare-se a "animal" — o organismo vivo. Francis M. Cornford cita Píndaro ao afirmar que a alma dorme enquanto os membros estão ativos, mas, durante o sono, torna-se ativa e revela nos sonhos "uma recompensa de alegria ou tristeza que se aproxima". Erwin Rohde escreveu que uma antiga crença anterior ao pitagorismo apresentava a alma como inerte depois de deixar o corpo e afirmava que ela se retirava para o Hades, sem esperança de retornar a um corpo. Platão foi o primeiro pensador da Antiguidade a reunir as diferentes funções da alma em uma concepção coerente: a alma é aquilo que move as coisas — isto é, que dá vida, entendida como automovimento — por meio de seus pensamentos, de modo que precisa ser simultaneamente movente e pensante.

Baseando-se nas palavras de seu mestre Sócrates, Platão considerava a psique a essência de uma pessoa, aquilo que determina o comportamento humano. Entendia essa essência como um ocupante incorpóreo e eterno de nosso ser. Platão afirmava que, mesmo após a morte, a alma existe e é capaz de pensar. Acreditava que, à medida que os corpos morrem, a alma renasce continuamente — metempsicose — em corpos posteriores; Aristóteles, porém, sustentava que apenas uma parte da alma era imortal: o intelecto (logos). A alma platônica é composta de três partes, localizadas em diferentes regiões do corpo:
Platão compara as três partes da alma ou da psique a um sistema de castas social. Segundo sua teoria, a alma tripartida é essencialmente equivalente ao sistema de classes de um Estado, porque, para funcionar adequadamente, cada parte deve contribuir para o bom funcionamento do conjunto. O logos mantém reguladas as demais funções da alma.
A alma ocupa o centro da filosofia de Platão. Francis Cornford descreveu os dois pilares do platonismo como, de um lado, a teoria das formas e, de outro, a doutrina da imortalidade da alma. Platão foi a primeira pessoa na história da filosofia a considerar a alma simultaneamente fonte da vida e mente. Nos diálogos platônicos, ela desempenha funções muito diferentes. Entre outras coisas, Platão acredita que a alma dá vida ao corpo — ideia formulada sobretudo nas Leis e no Fedro — em termos de automovimento: estar vivo é ser capaz de mover a si mesmo, e a alma move a si própria. Ele também considera a alma portadora das propriedades morais: quando alguém é virtuoso, é sua alma, e não, por exemplo, seu corpo, que possui virtude. A alma é igualmente a mente, aquilo que pensa no indivíduo. Essa alternância informal entre diferentes funções da alma aparece em diversos diálogos, inclusive em A República:
Existe alguma função da alma que não se possa realizar por meio de qualquer outra coisa, como cuidar de algo (epimeleisthai), governar, deliberar e outras atividades semelhantes? Poderíamos atribuí-las corretamente a algo que não fosse a alma e dizer que são características (idia) dela?
Não, a nada mais.
E quanto a viver? Negaremos que essa seja uma função da alma?
Certamente que é.
O Fédon criou os problemas mais conhecidos para os estudiosos que tentaram compreender esse aspecto da teoria platônica da alma, entre eles Dorothea Frede e Sarah Broadie. Pesquisas da década de 2020 contestaram essa acusação, argumentando que uma das novidades da teoria de Platão foi ter reunido, pela primeira vez, diferentes características e poderes da alma que se tornariam comuns na filosofia antiga e medieval posterior. Segundo a formulação de um estudioso, para Platão a alma move as coisas por meio dos pensamentos e, portanto, é ao mesmo tempo movente — o princípio da vida, entendida como automovimento — e pensante.

Aristóteles definiu a alma, ou psūchê (ψυχή), como a "primeira atualidade" de um corpo naturalmente organizado e argumentou contra sua existência separada do corpo físico. Em sua concepção, a atividade primária, ou plena realização, de um ser vivo constitui sua alma. Por exemplo, a plena realização de um olho considerado organismo independente é ver, sua finalidade ou causa final. Outro exemplo é que a plena realização de um ser humano consistiria em viver uma vida humana plenamente funcional de acordo com a razão, que ele considerava uma faculdade exclusiva da humanidade. Para Aristóteles, a alma é a organização da forma e da matéria de um ser natural que lhe permite buscar a plena realização. Essa organização é necessária para que qualquer atividade ou funcionalidade seja possível em um ser natural. Tomando-se como exemplo um artefato, isto é, um ser não natural, uma casa é uma construção destinada à habitação humana, mas, para que se realize como casa, necessita da matéria — madeira, pregos ou tijolos — requerida para sua atualidade, ou seja, para ser uma casa plenamente funcional. Isso, contudo, não significa que uma casa possua alma. Nos artefatos, a fonte do movimento necessário à plena realização é externa: um construtor, por exemplo, constrói uma casa. Nos seres naturais, essa fonte de movimento encontra-se no próprio ser.
Aristóteles abordou as faculdades da alma. As diferentes faculdades, como nutrição, movimento — próprio dos animais —, razão — própria dos seres humanos — e sensação — especial, comum e incidental —, quando exercidas, constituem a "segunda atualidade", isto é, a realização da capacidade de estar vivo. Uma pessoa que adormece, ao contrário de uma pessoa que morre, pode despertar e viver, enquanto a segunda já não pode fazê-lo. Aristóteles identificou três níveis hierárquicos de seres naturais — plantas, animais e seres humanos —, dotados de três graus diferentes de alma: bios, "vida"; zoë, "vida animada"; e psuchë, "vida autoconsciente". Para esses grupos, identificou três níveis correspondentes de alma ou atividade biológica: a atividade nutritiva de crescimento, manutenção e reprodução, compartilhada por toda forma de vida (bios); a atividade motora voluntária e as faculdades sensoriais, comuns apenas aos animais e seres humanos (zoë); e, por fim, a razão, da qual apenas os seres humanos são capazes (psuchë). A discussão aristotélica da alma aparece na obra De Anima.
Embora Aristóteles seja visto sobretudo como adversário de Platão quanto à imortalidade da alma, existe uma controvérsia relacionada ao quinto capítulo do terceiro livro de De Anima. O texto admite ambas as interpretações: a alma como um todo pode ser considerada mortal, enquanto uma parte denominada "intelecto ativo" ou "mente ativa" seria imortal e eterna. Há defensores dos dois lados da controvérsia. Argumenta-se que o desacordo sobre a conclusão definitiva será permanente, pois nenhum outro texto do aristotelismo contém esse ponto específico, e essa passagem de De Anima é obscura. Aristóteles também afirma que a alma ajuda os seres humanos a encontrar a verdade e que compreender sua verdadeira finalidade ou função é extremamente difícil.

Seguindo Aristóteles, Avicena — Ibn Sina — e Ibn al-Nafis, médico árabe, desenvolveram a compreensão aristotélica da alma e formularam teorias próprias. Ambos distinguiram a alma do espírito, e a doutrina aviceniana sobre a natureza da alma exerceu influência entre muçulmanos posteriores. Entre as ideias de Avicena encontra-se a de que a imortalidade da alma é consequência de sua natureza, e não uma finalidade que ela deva cumprir. Em sua teoria dos "dez intelectos", considerou a alma humana o décimo e último intelecto.
Enquanto estava preso, Avicena escreveu o célebre experimento mental do "homem voador" para demonstrar a autoconsciência humana e a natureza substancial da alma. Pediu aos leitores que se imaginassem suspensos no ar e isolados de todas as sensações, sem qualquer contato sensorial sequer com o próprio corpo. Argumentou que, nessa situação, a pessoa ainda possuiria autoconsciência. Concluiu, assim, que a ideia do eu não depende logicamente de nenhuma coisa física e que a alma não deve ser considerada em termos relativos, mas como um dado primário, uma substância. O argumento foi posteriormente refinado e simplificado por René Descartes em termos epistêmicos, quando afirmou: "Posso abstrair da suposição de todas as coisas externas, mas não da suposição de minha própria consciência".
Avicena geralmente apoiava a ideia aristotélica de que a alma se originava no coração, enquanto Ibn al-Nafis a rejeitou e argumentou que a alma "se relaciona com a totalidade, e não com um ou alguns órgãos". Também criticou a ideia de Aristóteles de que cada alma singular exige a existência de uma fonte igualmente singular, neste caso o coração. Ibn al-Nafis concluiu que "a alma não se relaciona primordialmente nem com o espírito nem com qualquer órgão, mas com toda a matéria cujo temperamento está preparado para receber essa alma", e definiu a alma como nada além daquilo que um ser humano indica ao dizer "eu".

Seguindo Aristóteles e Avicena, Tomás de Aquino compreendeu a alma como a primeira atualidade do corpo vivo. A partir disso, distinguiu três ordens de vida: as plantas, que se alimentam e crescem; os animais, que acrescentam a sensação às operações vegetais; e os seres humanos, que acrescentam o intelecto às operações animais. Quanto à alma humana, sua teoria epistemológica exigia que, uma vez que "aquele que conhece se torna aquilo que conhece", a alma não fosse corpórea: se fosse corpórea ao conhecer uma coisa corpórea, essa coisa passaria a existir dentro dela. Portanto, a alma realiza uma operação que não depende de um órgão corporal e, consequentemente, pode existir sem o corpo. Além disso, como a alma racional dos seres humanos é uma forma subsistente, e não algo composto de matéria e forma, ela não pode ser destruída por nenhum processo natural.
O argumento completo sobre a imortalidade da alma e o desenvolvimento aquiniano da teoria aristotélica encontram-se na Suma Teológica. Aquino afirmou a doutrina da efusão divina da alma, o juízo particular da alma depois de sua separação do corpo morto e a ressurreição final da carne. Recordou dois cânones do século IV, segundo os quais "a alma racional não é gerada pela cópula" e "é uma só e a mesma alma no homem, que dá vida ao corpo unindo-se a ele e se dirige por seu próprio raciocínio". Além disso, acreditava em uma alma única e tripartida, na qual estão distintamente presentes as almas nutritiva, sensitiva e intelectiva. A última é criada por Deus e possuída somente pelos seres humanos; inclui os outros dois tipos e torna incorruptível a alma sensitiva.
Segundo Tomás de Aquino, a alma é tota in toto corpore. Isso significa que se encontra inteiramente contida em cada parte do corpo humano e, portanto, é onipresente no corpo, não podendo ser localizada em um único órgão, como o coração ou o cérebro, nem separada do corpo, salvo depois da morte. No quarto livro de De Trinitate, Agostinho de Hipona afirma que a alma está inteira em todo o corpo e inteira em qualquer parte dele.

Em suas discussões sobre a psicologia racional, Immanuel Kant identificou a alma com o "eu" no sentido mais estrito e argumentou que a existência da experiência interior não pode ser provada nem refutada. Declarou: "Não podemos demonstrar a priori a imaterialidade da alma, mas apenas isto: que todas as propriedades e ações da alma não podem ser reconhecidas a partir da materialidade". É do "eu", ou alma, que Kant propõe uma racionalização transcendental, mas adverte que essa racionalização só pode determinar os limites do conhecimento caso permaneça prática.
Kant critica a metafísica da alma — investigação que chama de "psicologia racional" — nos Paralogismos da razão pura. Conforme a define, a psicologia racional procura estabelecer afirmações metafísicas sobre a natureza da alma mediante a análise da proposição "eu penso". Muitos predecessores e contemporâneos racionalistas de Kant acreditavam que a reflexão sobre o "eu" em "eu penso" poderia demonstrar que o eu é necessariamente uma substância, o que implicaria a existência da alma; indivisível, para sustentar sua imortalidade; idêntico a si mesmo, no que diz respeito à identidade pessoal; e separado do mundo exterior, conduzindo ao ceticismo sobre a realidade externa. Kant, contudo, afirma que essas conclusões decorrem de um erro de raciocínio.
Segundo Kant, esse erro surge quando o pensamento conceitual do "eu" em "eu penso" é confundido com uma verdadeira cognição do "eu" como objeto. Para Kant, a cognição exige tanto intuição — experiência sensorial — quanto conceitos, ao passo que o "eu" em questão envolve apenas pensamento conceitual abstrato. Considere-se, por exemplo, se o eu pode ser conhecido como substância. Embora o "eu" seja sempre o sujeito dos pensamentos, e nunca o predicado de outra coisa, reconhecer algo como substância também exige intuí-lo como objeto persistente. Como a pessoa não possui intuição alguma do próprio "eu", não pode conhecê-lo como substância. Assim, na concepção kantiana, embora a pessoa inevitavelmente conceba o "eu" como uma substância semelhante à alma, o verdadeiro conhecimento da existência ou da natureza da alma permanece fora de seu alcance.
A noção de alma frequentemente se baseia na teoria denominada dualismo mente-corpo, segundo a qual os fenômenos mentais não são físicos. Se corpo e alma — ou mente — pertencem a dois domínios distintos, permanece a questão de como se relacionam. A filosofia da mente contemporânea distingue três grandes teorias dualistas sobre a relação entre as propriedades mentais e o corpo: interacionismo, paralelismo psicofísico e epifenomenalismo. O interacionismo sustenta que acontecimentos físicos e mentais interagem. Essa posição é frequentemente considerada a mais intuitiva: percebe-se a mente reagindo a estímulos físicos e, em seguida, pensamentos e sentimentos agindo sobre o corpo, por exemplo ao movimentá-lo. Os seres humanos, portanto, apresentariam uma inclinação natural ao interacionismo. A Internet Encyclopedia of Philosophy afirma que "a característica decisiva do interacionismo é seu compromisso com uma causalidade de 'duas vias': causalidade do mental para o físico e do físico para o mental".
O paralelismo evita os debates sobre a interação mente-corpo ao propor que ambos funcionam paralelamente. Nesse modelo, acontecimentos mentais e físicos não exercem influência causal uns sobre os outros; apenas coincidem. Quando existe causalidade, ela permanece estritamente limitada a cada domínio: acontecimentos mentais somente provocam ou resultam de outros acontecimentos mentais, e acontecimentos físicos exclusivamente causam ou são causados por outros acontecimentos físicos.
O epifenomenalismo afirma que acontecimentos físicos geram acontecimentos mentais, mas que estes não possuem poder causal: não podem influenciar acontecimentos físicos nem mesmo outros fenômenos mentais. Essa posição incorpora parcialmente o interacionismo ao admitir causalidade em uma única direção, do físico para o mental, rejeitando assim o paralelismo, que nega qualquer vínculo causal entre os domínios. Nesse modelo, a mente é comparada à sombra do corpo: enquanto o corpo produz efeitos ativamente, a mente é apenas um subproduto passivo, incapaz de determinar resultados ou interações.
Entre as teorias não dualistas estão o fisicalismo, segundo o qual tudo é físico, e o idealismo, a convicção de que uma inteligência a priori fundamenta todos os fenômenos, inclusive a ciência. George Howison contextualizou da seguinte forma a questão da necessidade de almas logicamente anteriores:
A questão de saber se não possuímos algum conhecimento independente de toda e qualquer experiência — se não deve inevitavelmente existir algum conhecimento a priori, algum conhecimento ao qual chegamos simplesmente em virtude de nossa natureza — é realmente a questão primordial, em torno da qual se concentra todo o conflito da filosofia e de cuja decisão depende a solução de todas as demais questões.
Seelenglaube, ou "crença na alma", é um elemento destacado na obra de Otto Rank. Rank explica a importância da imortalidade na psicologia do interesse primitivo, clássico e moderno pela vida e pela morte. Sua obra opôs-se diretamente à psicologia científica que admite a possibilidade da existência da alma e a postula como objeto de pesquisa sem realmente reconhecer que ela existe. Rank afirma: "Assim como a religião representa um comentário psicológico sobre a evolução social do homem, as diferentes psicologias representam nossas atitudes atuais diante da crença espiritual. Na era animista, psicologizar significava criar a alma; na era religiosa, representá-la para si próprio; em nossa era das ciências naturais, significa conhecer a alma individual". A obra de Rank exerceu influência significativa sobre a compreensão de Ernest Becker acerca do interesse universal pela imortalidade. Em A negação da morte, Becker descreve a "alma" a partir do uso de "eu" por Søren Kierkegaard:
O uso que Kierkegaard faz de "eu" pode ser um pouco confuso. Ele o utiliza para incluir o eu simbólico e o corpo físico. Trata-se, na realidade, de um sinônimo de "personalidade total", que ultrapassa a pessoa para incluir aquilo que hoje chamaríamos de "alma" ou "fundamento do ser", do qual surgiu a pessoa criada.
Segundo o cientista cognitivo Jesse Bering e o psicólogo Nicholas Humphrey, os seres humanos possuem inicialmente uma inclinação a acreditar em uma alma e nascem como dualistas de alma e corpo. Assim, as instituições religiosas não precisaram inventar nem herdar a ideia de alma de tradições anteriores; o conceito sempre esteve presente ao longo da história humana. Repetindo essa ideia, o filósofo americano Stewart Goetz afirmou que, segundo antropólogos e psicólogos, os seres humanos comuns são dualistas de substância entre alma e corpo e, em todos os tempos e lugares, acreditaram na existência de uma distinção entre ambos.

Alguns parapsicólogos tentaram estabelecer, por meio de experimentos científicos, se existe uma alma separada do cérebro, conforme é mais comumente definida na religião, e não como sinônimo de psique ou mente.
Uma dessas tentativas tornou-se conhecida como o "experimento dos 21 gramas". Em 1901, Duncan MacDougall, médico de Haverhill, que desejava determinar cientificamente se a alma possuía peso, identificou seis pacientes internados em instituições de cuidados cujas mortes eram iminentes. Quatro sofriam de tuberculose, um de diabetes e um de causas não especificadas. MacDougall escolheu especificamente pessoas com doenças que provocavam exaustão física, pois precisava que permanecessem imóveis no momento da morte para realizar medições precisas. Quando pareciam próximas da morte, suas camas inteiras eram colocadas sobre uma balança industrial, sensível a dois décimos de onça, equivalentes a 5,6 gramas. Um dos pacientes perdeu "três quartos de onça", ou 21,3 gramas, coincidindo com o momento da morte, o que levou MacDougall a concluir que a alma possuía peso.
O físico Robert L. Park escreveu que os experimentos de MacDougall "não são atualmente considerados dotados de qualquer mérito científico", e o psicólogo Bruce Hood afirmou que, "como a perda de peso não era confiável nem reproduzível, suas conclusões não eram científicas".
In St. Paul we find a more technical phraseology employed with great consistency. Psyche is now appropriated to the purely natural life; pneuma to the life of supernatural religion, the principle of which is the Holy Spirit, dwelling and operating in the heart. The opposition of flesh and spirit is accentuated afresh (Romans 1:18, etc.). This Pauline system, presented to a world already prepossessed in favour of a quasi-Platonic Dualism, occasioned one of the earliest widespread forms of error among Christian writers – the doctrine of the Trichotomy. According to this, man, perfect man (teleios) consists of three parts: body, soul and spirit (soma, psyche, pneuma).
Advaita and Nirguni movements, on the other hand, stress an interior mysticism in which the devotee seeks to discover the identity of individual soul (Ātman) with the universal ground of being (Brahman) or to find god within himself.
Ātman as the innermost essence or soul of man, and Brahman as the innermost essence and support of the universe. (...) Thus we can see in the Upanishads, a tendency towards a convergence of microcosm and macrocosm, culminating in the equating of Ātman with Brahman.
Central to Buddhist soteriology is the doctrine of not-self (Pali: anattā, Sanskrit: anātman, the opposed doctrine of Ātman is central to Brahmanical thought). Put very briefly, this is the [Buddhist] doctrine that human beings have no soul, no self, no unchanging essence.
Augustinus dixit, in VI De Trinitate, quod anima est tota in toto corpore, et tota in qualibet parte eius.