
Dies Iræ ("Dia da Ira") é um célebre hino litúrgico em latim, composto por volta do século XIII, tradicionalmente atribuído a Tomás de Celano, frade franciscano e poeta sacro. O texto reflete com intensidade o temor e a solenidade do Juízo Final, inspirado fortemente na linguagem profética de Sofonias 1,15-16 e de outras passagens bíblicas escatológicas. Sua composição poética segue a métrica troqueia (estrofes com ritmo forte-fraco), o que lhe confere um tom marcante e austero.
O uso principal é dentro da liturgia do Réquiem, como Sequência na tradicional Missa católica para os mortos, mas também em algumas comunidades anglicanas e luteranas com sensibilidade litúrgica histórica.
Além do seu papel litúrgico, o Dies Iræ exerceu uma profunda influência na música sacra e erudita ocidental, especialmente em composições fúnebres. É notoriamente o clímax — ou apoteose dramática — de muitos Réquiens, entre eles os de Mozart, Verdi e dos contemporâneos Penderecki e Karl Jenkins, entre outros.
O texto latino abaixo segue o estabelecido no Missal Romano de 1962.
Dies iræ, dies illa,
Solvet sæclum in favilla:
Teste David cum Sibylla.
Quantus tremor est futurus,
Quando iudex est venturus,
Cuncta stricte discussurus!
Tuba, mirum spargens sonum
Per sepulchra regionum,
Coget omnes ante thronum.
Mors stupebit, et natura,
Cum resurget creatura,
Iudicanti responsura.
Liber scriptus proferetur,
In quo totum continetur,
Unde mundus iudicetur.
Iudex ergo cum sedebit,
Quidquid latet, apparebit:
Nil inultum remanebit.
Quid sum miser tunc dicturus?
Quem patronum rogaturus,
Cum vix iustus sit securus?
Rex tremendæ maiestatis,
Qui salvandos salvas gratis,
Salva me, fons pietatis.
Recordare, Iesu pie,
Quod sum causa tuæ viæ:
Ne me perdas illa die.
Quærens me, sedisti lassus:
Redemisti Crucem passus:
Tantus labor non sit cassus.
Iuste Iudex ultionis,
Donum fac remissionis
Ante diem rationis.
Ingemisco, tamquam reus:
Culpa rubet vultus meus:
Supplicanti parce, Deus.
Qui Mariam absolvisti,
Et latronem exaudisti,
Mihi quoque spem dedisti.
Preces meæ non sunt dignæ:
Sed tu bonus fac benigne,
Ne perenni cremer igne.
Inter oves locum præsta,
Et ab hædis me sequestra,
Statuens in parte dextra.
Confutatis maledictis,
Flammis acribus addictis,
Voca me cum benedictis.
Oro supplex et acclinis,
Cor contritum quasi cinis:
Gere curam mei finis.
Lacrimosa dies illa,
Qua resurget ex favílla
Iudicandus homo reus:
Huic ergo parce, Deus:
Pie Iesu Domine,
Dona eis requiem. Amen.
O Dies Iræ é originalmente utilizado como Sequência da Missa de Réquiem — a Missa tradicional pelos defuntos — dentro do rito romano pré-conciliar (anterior à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II). Sua função era preparar espiritualmente os fiéis para a contemplação da justiça de Deus e da necessidade de conversão, recordando que todos comparecerão perante o trono divino no fim dos tempos.
Embora tenha sido retirado da liturgia da Missa pós-Vaticano II, permanece em uso nos ritos extraordinários (forma tridentina), em cerimônias de caráter tradicional. Também faz parte da liturgia do Dia de Todos os Santos.
O Dies iræ tem rima no final dos versos e usa acentos rítmicos e não a métrica antiga baseada em sílabas longas e curtas, o que era nessa época uma moda nova.
O Dies iræ aparece pela primeira vez no século XIII como forma do canto gregoriano.
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Em composições posteriores do requiem o Dies iræ é muitas vezes separado nas partes Dies iræ, Tuba mirum, Liber scriptus, Rex tremendæ, Recordare, Ingemisco, Confutatis e Lacrimosa.

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