Escola do Pirambu é o nome pelo qual ficou conhecido o ateliê de produção coletiva formado em torno do pintor Chico da Silva no bairro do Pirambu, em Fortaleza, a partir de meados da década de 1960. Discípulos e parentes executavam por etapas pinturas que o pintor acabava, assinava e vendia, arranjo que abasteceu o mercado de arte brasileiro por duas décadas e abriu, a partir de 1969, uma disputa pública sobre autoria que a historiografia não encerrou.
Chico da Silva pintava desde 1961 nas dependências do Museu de Arte da UFC, por convite da universidade, e voltou a trabalhar em casa, no Pirambu, em 1963. A procura por seus quadros crescia, e para atendê-la ele passou a contar com auxiliares: segundo Roberto Galvão, os primeiros foram garotos da vizinhança, associados ao trabalho em fins de 1963 ou início de 1964. O cantor lírico alemão Henrique Bluhm, que Jean-Pierre Chabloz lhe apresentara, atuava então como seu marchand e mantinha um ateliê onde parte da produção era feita.
O volume A Escola do Pirambu: um legado de Chico da Silva, organizado pela curadora Flávia Muluc em 2024, nomeia um núcleo inicial de cinco pintores: Babá (Sebastião Lima da Silva), Claudionor (José Claudionor Nogueira), Garcia (José dos Santos Gomes), Ivan (Ivan José de Assis) e Chica (Francisca da Silva), filha de Chico. O círculo não parou neles: Galvão contabiliza quase três dezenas de discípulos no auge, entre a casa do pintor e as oficinas que se desprenderam dela.
A socióloga Gerciane Maria da Costa Oliveira registra que parte dos autores reserva o nome "Escola Chico da Silva" para o círculo próximo e "Escola do Pirambu" para os pintores anônimos que trabalhavam fora dele, e estima que, no auge, cerca de quinhentas pessoas no bairro viviam da produção desses quadros.
O trabalho era dividido por etapa. O cientista político David A. Silberstein, que estudou o circuito em 1977 a partir de entrevistas com Claudionor e Babá, descreve a sequência: os desenhos ficavam com Claudionor e Ivan, o preenchimento de cor e a pigmentação com Babá, Garcia e Chica, e Chico reservava para si o acabamento, o verniz, a assinatura e a venda. O suporte inicial era o guache sobre cartolina pregada na parede; a tela entrou depois, pelas oficinas paralelas, porque valia mais no mercado. Todos recebiam pelo serviço executado.
A produção coletiva veio a público pela via do escândalo. Em 1969, Maria Augusta do Carmo Moreira, uma das jovens do ateliê, declarou à imprensa ser a autora de guaches assinados por Chico, e o caso ganhou repercussão nacional; no mesmo ano Chabloz, que descobrira o pintor em 1943, falava em "indústria de quadros". Em 1976, o Jornal do Brasil estimou que 90% dos quadros atribuídos ao pintor e produzidos depois de 1972 tinham saído da oficina do Pirambu, onde 28 pintores mantinham o que a reportagem chamou de indústria de telas. A mesma proporção é retomada pela historiografia recente, que a atribui a Galvão e a lê como produção coletiva em vez de falsificação.
A resposta do grupo tomou forma em 1977. Com o grupo de estudos formado naquele ano por Hélio Rôla, Gilberto Brito e Silberstein, os cinco expuseram como "Pintores do Pirambu" e pintaram, com Chico, o painel coletivo Homens Trabalhando, hoje na Universidade Federal do Ceará.
O ateliê voltou ao centro da leitura da obra de Chico da Silva na década de 2020. Em 2023 a Pinacoteca do Estado de São Paulo montou "Chico da Silva e o ateliê do Pirambu", com curadoria de Thierry de Freitas, que seguiu para a Pinacoteca do Ceará com o título "Chico da Silva e a Escola do Pirambu". Em 2024, a exposição "Escola do Pirambu: Um Legado de Chico da Silva", em Fortaleza, deu nome ao volume organizado por Flávia Muluc, que reúne os textos de Galvão e de Silberstein sobre o grupo.