Iáia ibne Isaque Almassufi

Abu Zacaria Iáia ibne Isaque Almassufi (em árabe: أبو زكريا يحيى بن إسحاق; romaniz.: Abū Zakariyyā Yaḥyā ibn Isḥāq), apelidado Anejemar (em árabe: انجمار; romaniz.: An[e]j[e]mar), ou seja, "o Caçador", e referido nas fontes cristãs como Esmar,[a] foi um nobre almorávida, respectivamente filho e irmão dos emires Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143) e Tafuxine ibne Ali (r. 1143–1145). É particularmente conhecido por seu envolvimento na Batalha de Ourique (1139) contra o então conde Afonso Henriques (r. 1112–1143) e futuro primeiro rei de Portugal.

Vida

O nascimento de Iáia é desconhecido. Como sugerido por Alexandre Herculano, e apoiado por Luís Gonzaga de Azevedo e Jorge de Alarcão, a Crónica dos Godos indica que era, respectivamente, filho e irmão dos emires Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143) e Tafuxine ibne Ali (r. 1143–1145). Abu Zacaria, que acompanha seu isme (nome próprio) Iáia, era seu cúnia, como confirmado por sua menção na Crónica de Coimbra, que se refere a ele como "rei Ismar Abuzicri". De seu lacabe (alcunha) Anejemar, "o Caçador", surgiu a forma corrompida Esmar nas fontes cristãs. De acordo com o al-Bayān al-Mughrib, de Ibne Idari, Iáia serviu como governador de Sevilha por quase 10 anos, entre dezembro de 1134 e junho de 1144. Dada a posição de Sevilha, as operações muçulmanas realizadas no território que futuramente pertenceria a Portugal nesse período devem ter partido dessa cidade, como confirmado por sua participação na destruição do Castelo de Leiria, ocorrida entre 1137 e 1140, no qual Paio Guterres foi cativado.

A Crónica do Imperador Afonso menciona que os reis de Córdova, Azuel, e de Sevilha, Abenceta, mobilizaram um grande exército e capturaram o Castelo de Mora, na região de Toledo. Através do historiador de Marraquexe Ibne Alcatane, sabe-se que a operação ocorreu em 1139; Ibne Alcatane, entretanto, só faz menção a Zobair ibne Omar (Azuel). Uma vez que esse ano corresponde ao período no qual Iáia ainda estava governando Sevilha, é possível que Abenceta, embora foneticamente distante, seja uma corrupção do náçabe (patronímico) Ibne Isaque. No mesmo ano, Iáia reuniu as guarnições de Beja, Évora, Badajoz, Sevilha e Elvas e marchou rumo ao território português, onde foi derrotado pelo então conde Afonso Henriques (r. 1112–1143) na Batalha de Ourique. Iáia reagrupou as tropas em Santarém e o alcaide desta cidade, Auzecri, instou-o a levar a cabo um profundo ataque de desforra contra território português em 1140. Embrenharam-se então os cavaleiros muçulmanos por território português até Trancoso, que saquearam. Perto de Trancoso, porém, Esmar foi novamente desbaratado por Afonso Henriques em dois recontros. Segundo os Anais de Toledo, em 1 de março de 1143, Abenceta e Azuel supostamente foram derrotados às margens do rio Adoro (depois chamado Azuer) por Monio Afonso, que os teria matado e decapitado.

Em 1144, Iáia foi chamado ao Magrebe, para auxiliar Taxufine ibne Ali, no contexto do cerco almóada de Tremecém, hoje na Argélia. Em sua viagem, foi acompanhado pelo filho de Taxufine, Ibraim. É possível que esse Ibraim seja o "Omar Atagor", que as fontes cristãs afirmam ter participado na Batalha de Ourique, mas a identificação é indeterminada. Taxufine tentou salvar Tremecém, mas suas tropas foram derrotadas e ele fugiu para Orão, com a intenção de pegar um barco rumo a Almeria, mas morreu em 23 de março de 1145. Iáia estava com Taxufine na cidade, mas ao perceber que a causa almorávida estava perdida, fugiu ao deserto e, algum tempo depois, apresentou-se ao califa Abde Almumine (r. 1133–1163) quando ele sitiava a cidade de Fez. Ibne Idari complementa que Iáia foi acompanhado por um grupo de seus irmãos massufas, trajados com litame, que retiraram diante de Fez e adotaram os trajes almóadas. Ao apoiar os almóadas, Iáia garantiu a segurança de sua esposa e família, que viviam em Marraquexe e corriam risco durante o cerco almóada da cidade (1146–1147).

Ver também

Notas

[a] ^ Tentativamente, Esmar foi associado por José Mattoso ao governador coetâneo de Córdova, Zobair ibne Omar Alantuni, mas a associação é errônea, pois o referido governador aparece nas crônicas cristãs com o nome Azuel.

Referências

  1. ↑ Lourinho 2023, p. 70-71.
  2. 1 2 Herculano 1846, p. 334-335.
  3. ↑ Lourinho 2023, p. 71-72.
  4. ↑ Villalta 2014, p. 41.
  5. ↑ Lourinho 2023, p. 72-73.
  6. ↑ Lourinho 2023, p. 73.
  7. ↑ Mattoso 2006, p. 118.
  8. ↑ Lourinho 2023, p. 71.

Bibliografia