| Giannozzo Manetti | |
|---|---|
| Nascimento | 5 de junho de 1396 Florença |
| Morte | 27 de outubro de 1459 (63 anos) Nápoles |
| Ocupação | escritor, diplomata |
| Cargo(s) | |
| Obras destacadas | Adversus Iudaeos et gentes, Apologeticus, De illustribus longaevis, De secularibus et pontificalibus pompis, De terremotu, De dignitate et excellentia hominis, De scriptoribus profanis, Dialogus in symposio, Dialogus consolatorius de morte filii, Elogi dei Genovesi, Historia Pistoriensis, Novum Testamentum, Protesti di giustizia, Vita Nicolai V summi pontificis, Vita Dantis, Vita Iohannis Boccaccii, Vita Petrarchae, Vita Socratis, Orationes, Letters |
Giannozzo Manetti (Florença, 5 de junho de 1396 — Nápoles, 27 de outubro de 1459) foi um estadista e diplomata da Itália. De origem fiorentina, tornou-se um dos grandes responsáveis pelo conjunto de ideias que surgiram no primeiro período do Renascimento e que ficaram conhecidas como humanismo. Suas obras causaram controvérsias: De dignitate et excellentia hominis (libri IV) foi indexada como livro proibido no final do século XVI e Adversus Iudaeos et Gentes considerada antissemita.
Hábil orador, profundo conhecedor do latim, grego e do hebraico, traduziu obras de filosofia, poesia e textos bíblicos.
Manetti nasceu em uma família rica de comerciantes florentinos. Foi aluno de Ambrogio Traversari no convento camaldulense de Santa Maria dos Anjos, onde aprendeu hebraico, além de grego e latim. Iniciou sua carreira política em Florença, ocupou alguns cargos importantes, e serviu no exterior como governador provincial e embaixador. Em 1454, deixou Florença e foi para Roma, servir o Papa Nicolau V, seu amigo de escola desde a juventude. Em 1456, serviu a Afonso V de Aragão, Rei de Nápoles.
Manetti conviveu em um círculo de eruditos que incluía Carlo Marsuppini, Poggio Bracciolini, Leonardo Bruni, Francesco Filelfo, Niccolò Niccoli, Palla Strozzi e Lorenzo Valla.
Autor de diversos temas, destacou-se por seu discurso em defesa da dignidade do homem; por sua retórica epideítica às edificações de Florença; pela sua apologia ao cristianismo; seus comentários sobre Aristóteles e suas biografias do Papa Nicolau V, de Dante Alighieri, Giovanni Boccaccio, Francesco Petrarca, Seneca e de Sócrates. Manetti traduziu o livro dos Salmos do hebraico para o latim e, em parceria com Lorenzzo Valla, deixou um projeto inacabado para a tradução do Novo Testamento do grego para o latim
Suas opiniões eram polêmicas, ele entrou em conflito com os poderosos de Florença e exilou-se voluntariamente em Nápoles, onde passou os últimos anos de sua vida até falecer em 1459.
Contemporâneo do grande arquiteto florentino Filippo Brunelleschi, Giannozzo Manetti é um dos maiores admiradores da Catedral de Santa Maria del Fiore, para a qual escreveu o discurso da cerimônia de consagração do Duomo, Oratio de Secularibus et Pontificalibus Pompis in Consecratione Basilicae Florentinae, proferido em 25 de março de 1436. Nesse dia, o Papa Eugenio IV celebrou a missa de consagração do Duomo, por ocasião do término das obras da cúpula. Giannozzo Manetti, narrador da grandiosidade da cúpula, relacionou-a à dignidade humana. Além de Brunelleschi e sua e equipe, presenciaram a cerimônia: Leon Battista Alberti; Poggio Bracciolini, humanista e secretário papal que acompanhou a comitiva do Papa Eugênio IV; Guillaume Dufay, compositor e erudito da música e membro da capela papal, entre outros notáveis como Leonardo Bruni, Carlo Marsuppini e Niccolò Nicoli. Talvez estivesse presente também o futuro biografo de Brunelleschi, Antonio Manetti (1423 - 1497). Embora compartilhe o sobrenome com Giannozzo, o parentesco direto entre eles não é conhecido.
Em Building the kingdom: Giannozzo Manetti on the material and spiritual edifice, Christine Smith e Joseph F. O'Connor apresentam o pensamento de Manetti sobre os grandes projetos arquitetônicos à luz dos paradigmas culturais do início do Renascimento italiano. Para os autores, os discursos de Manetti, sobre a consagração da Catedral de Florença em 1436 e sobre os projetos de construção planejados pelo papa Nicolau V visando o ressurgimento do esplendor papal em Roma, publicado em "Vida de Nicolau V Sumo Pontífice" , podem ser lidos como ecfrases arquitetônicas do século XV, que disputam com Leon Battista Alberti a glória dos grandes retores das edificações de seu tempo. Escritos em latim, os discursos são apresentados em Building the kingdom devidamente traduzidos para o inglês, precedidos por capítulos comentados à luz de outros escritos de Manetti; à literatura da época e ao momento histórico. A compreensão dos detalhes arquitetônicos, a relevância desses na obra maior e a descrição dos rituais e das cerimônias realizados nas construções mostram como as ideias escolásticas e humanistas se fundem no pensamento de Manetti, conforme destaca o sumário de apresentação de Building the Kingdom.
Giannozzo Manetti escreve De dignitate et excellentia hominis por volta de 1452/1453. Seu discurso é uma refutação à obra De miseria condicionis humane escrita no século XII pelo cardeal Lotário de Conti, futuro Papa Inocêncio III, e usada desde então como referência para sujeitar o homem ao controle da igreja católica. A tese da escala hierárquica dos seres que vai dos animais até Deus, considerando o corpo humano como imundo e condenado ao inferno por se entregar aos prazeres dos sentidos, é veementemente refutada por Manetti, que acusa o autor de De miseria condicionis humane de apelo a “argumentos rasos, infantis e longe de serem condizentes com a dignidade pontifícia e apostólica.” De dignitate et excellentia hominis explica que o corpo humano é uma obra maravilhosa criada por Deus, motivo pelo qual os prazeres dos sentidos não poderiam ser condenáveis, mas sim louváveis manifestações da razão divina e equilíbrio da natureza. Para Manetti, o coito sexual foi criado por Deus para ensinar os homens e as mulheres sobre a beleza do corpo e a conservação da espécie humana, que é a mais digna entre todos os animais. Assim, Manetti eleva o homem à dignidade da sua semelhança com Deus.
Orador tributário dos antigos latinos, Manetti usa como modelo a retórica De natura deorum (Sobre a Natureza dos Deuses) de Cícero e de De officio Dei (A obra do Deus criador), de Lactâncio (240-320 EC), para elaborar seu discurso de dignidade humana. De dignitate et excellentia hominis propõe uma analogia entre o corpo humano como obra divina e os avanços tecnológicos do Renascimento, especialmente aqueles associados às construções de edifícios e embarcações. Para Manetti, a razão divina se manifesta na geometria, proporcionalidades e duplicidade de órgãos do corpo humano: a cabeça é um círculo, a altura do homem é seis vezes sua largura, os órgãos são duplos ou bipartidos, sendo o homem o único animal que se ergue em uma estrutura ereta, na qual o esqueleto assim foi projetado para olhar o céu e desvendar seu conhecimento e sua beleza. A mente humana, quase divina, localiza-se na cabeça, a parte mais alta, como se estivesse em uma cidadela elevada. O criador assim formou este seu salão, descoberto e extenso, em todos os animais; porém, no homem, o fez como um globo terrestre, porque a circularidade desse é perfeitamente racional e figurativa.
Filósofo conciliador de teses contrárias à maneira da Renascença, Manetti evoca Platão ao admitir o modelo geométrico como ideal; porém, De dignitate et excellentia hominis rende-se a Aristóteles ao elogiar a unicidade na duplicidade de membros e órgãos (dois olhos, duas pernas, dois rins, etc), ou a univocidade bipartida (a boca com dois lábios, o coração com duas veias, o sistema de produção de espermas com dois testículos etc). Manetti menciona diversos filósofos antigos ora concordando, ora discordando deles, incluindo os grandes pensadores da medicina: Galeno e Avicena.
A obra de Manetti é imprescindível para o estudo do conceito de dignidade humana e refutação da escala hierárquica dos seres, uma vez que precede e serve de referência a autores como Pico della Mirandola, entre outros nomes do humanismo italiano.
Algumas citações de Giannozzo Manetti em De dignitate et excellentia hominis:
“Assim, os filósofos nos ensinaram que a própria natureza — a mais astuta, a mais engenhosa e, de fato, a única mestra da realidade — fez com que se obtivessem prazeres muito maiores no coito do que em comer e beber, porque ela pretendia primordialmente a conservação da espécie, e não a do indivíduo. A primeira é preservada pela união do macho e da fêmea; a segunda, pela ingestão de alimentos para a restauração daquilo que poderíamos chamar de indivíduo perecível”.
“Pode-se considerar o homem igualmente superior às estrelas, pois essas são corpos totalmente desprovidos de sensação; e também superior aos peixes e aves, ambos seres vivos; pois, embora o corpo humano não tenha nada em comum, no que diz respeito à sua matéria peculiar, com qualquer uma dessas criações, devemos concluir que ele é, no entanto, superior às coisas insensíveis pelas razões que já mencionamos em relação às feras e ao gado.”
“Os mamilos, também ligeiramente protuberantes e coroados com orbes menores e mais escuras, conferem muito à beleza: são dados às mulheres para nutrir seus filhos e aos homens como simples adorno, para que o peito não pareça disforme e mutilado. Abaixo, encontra-se a planície do ventre, cujo umbigo marca em seu centro um sinal que em nada é deselegante, feito para que, através dele, o feto seja nutrido enquanto está no útero.”
Stephano Baldassari, teórico do Renascimento da Universitá di Firenza, destaca a visão otimista que Manetti adota a respeito do ser humano, explicando os episódios bíblicos que tratam dos castigos de Deus, como milagres afortunados. Para Manetti, a construção da Torre de Babel não foi um castigo divino contra a arrogância do homem que desejava chegar ao céu, mas sim um acontecimento bem-aventurado para promover a diversidade e a disseminação de línguas fascinantes: cada uma dotada de sua grandeza literária. Ao traduzir o livro dos Salmos do hebraico para o latim, Manetti foi duramente criticado a ponto de escrever uma apologia para sua tradução: Apologeticus adversus suae novae Psalterii traductionis obtrectatores, entre 1454-1455. A tradução do Novo testamento, que vinha sendo feita com Lorenzo Valla,[3] ficou inacabada com a morte de Manetti. A pesquisadora Annet den Haan tem se dedicado especialmente às pesquisas dos textos bíblicos traduzidos por Manetti.
· Vite di Dante, Petrarca e Boccaccio (Vitae trium illustrium poetarum florentinorum), 1440.
· Vita Socratis et Senecae, cerca de 1440.
· Historia Pistoriensis, (História de Pistoia), 1446 e 1447.
· De vita ac gestis Nicolai quinti (Vida do Papa Nicolau V), 1455.
· De dignitate et excellentia hominis (Sobre a Dignidade e Excelência do Homem),1452 e 1453.
· De terremotu (Sobre o Terremoto que atingiu Nápoles), após o terremoto de 1456.
· Tradução do Saltério (Salmos), 1454 e 1455, durante seu período em Roma e Nápoles.
· Tradução do Novo Testamento, 1450 e 1455
· Apologeticus, 1455 e 1459.
· Contra Iudaeos et Gentes (Contra Judeus e Gentios), 1450 e?