Poggio Bracciolini

Poggio Bracciolini
NascimentoGiovanni Francesco Poggio Bracciolini
11 de fevereiro de 1380
Terranuova Bracciolini
Morte30 de outubro de 1459 (79 anos)
Florença
CidadaniaRepública Florentina, Estados Papais
Filho(a)(s)Iacopo Bracciolini
Ocupaçãohistoriador, erudito clássico, filósofo, tradutor, escritor, humanista, político
Obras destacadasOratio in laudem legum, Facetiae, Cyropedia, De varietate Fortunae, Historiae Florentini populi, Historia disceptativa convivialis, De avaritia, Dialogus an seni sit uxor ducenda, De infelicitate principum, De vera nobilitate, Libellus contra hypocritas, De miseria humanae conditionis, Letters

Poggio di Duccio, mais conhecido como Poggio Bracciolini (Terranuova Bracciolini, 11 de fevereiro de 1380 – Florença, 30 de outubro de 1459), foi um dos mais importantes humanistas do Renascimento italiano.

Nascimento e Educação

Poggio Bracciolini, filho de Gucci Bracciolini e Jacoba, nasceu em 1380 na cidade de Terranuova, Itália. Seu pai exercia o ofício de boticário (farmacêutico) e notário (tabelião). Possuía, portanto, uma posição de importância social.

Até os 7 anos, Poggio viveu confortavelmente. Entretanto, por conta de endividamentos, seu pai vendeu suas propriedades e mudou-se com a família para as proximidades de Arezzo, onde o menino recebeu sua educação primária, tendo adquirido conhecimentos básicos de latim e a arte da caligrafia.

Na adolescência, em Florença, Poggio é mentorado por Salutati, cujos referenciais eram Petrarca e Boccaccio, líderes do Renascimento florentino. Ademais, ao longo de sua vida, Bracciolini conviveu com estudiosos que contribuíram muito para o enriquecimento de seu conhecimento. O estudo autodidata também foi uma das principais fontes de seu saber.

Reconhecendo sua aptidão para os estudos, seu pai o levou para ser educado em Florença, tornando-se aluno de latim de João de Ravena, e de grego com Manuel Crisoloras. Logo distinguiu-se pelo rápido progresso nas letras, ao mesmo tempo em que se tornava um hábil copista de manuscritos, com uma caligrafia clara e elegante. Com 21 anos foi recebido na guilda dos notários, e em 1402 ingressou na Cúria Romana como secretário do cardeal Maramori. Mais tarde tornou-se secretário de Baldassare Cossa, o antipapa João XXIII, que foi condenado à prisão pelo Concílio de Constança (1414 - 1418). Com a condenação do papa, Poggio fica desempregado, e é neste período que dá as asas às suas atividades humanísticas, resgatando do esquecimento e da destruição o poema de Tito Lucrécio Caro, De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas), de inspiração epicurista.

Ao resgatar os pensamentos de Epicuro contidos em De Rerum Natura, Poggio Bracciolini proporciona uma grande contribuição ao conhecimento humano. Por exemplo, o conceito do atomismo de Epicuro, isto é, a existência do átomo formando todos os objetos do universo, veio à luz através dessa descoberta.

Esteve na Inglaterra e voltou a Roma em 1423. Em 1435, casou-se com Selvaggia dei Buondelmonti, de família nobre. Em 1452, aposentou-se na Cúria e mudou-se para Florença, onde exerceu o cargo de chanceler e de historiador da República.

Busca por manuscritos

No inverno de 1417, Poggio encontrava-se desempregado. O papa a quem ele servia, Baldassare Cossa (antipapa João XIII), fora deposto da Igreja e se encontrava preso em Heidelberg. Em vez de buscar um novo emprego, ele vai em busca de escritos antigos nas bibliotecas monásticas europeias.

Quando passava pelo sul da Alemanha, dirigiu-se ao Monastério de San Gallo, onde acreditava haver velhos manuscritos. Ele era apaixonado pelos textos antigos. Procurava pelos manuscritos com mais de 400 anos, mesmo com grafias de difícil compreensão.

Outros pesquisadores italianos, chamados humanistas, também procuravam livros antigos. Eles “atuaram como mediadores entre sua época e a venerada Antiguidade”, buscando manuscritos e reproduzindo, não apenas a escrita, mas também sua forma de pensar.

Naquele mesmo ano, em suas andanças pela Alemanha, Poggio adentrou em um monastério que parecia uma fortaleza: a Abadia Beneditina de Fulda, na Alemanha central, entre o Reno e as montanhas Vogelsberg. Ele teve acesso a diversos manuscritos: sobre as guerras púnicas, entre Roma e Cartago, de Sílio Itálico; um poema referente à astronomia, de Mânlio; e vários outros. Porém, naquele mosteiro ele iria desenterrar das trevas uma obra que abalaria as estruturas do próprio mundo, uma obra radical: De rerum natura, do poeta e filósofo Tito Lucrécio. Sob os olhares dos monges, Poggio obteve acesso aos manuscritos. Porém, pela impossibilidade de retirá-los do mosteiro, valeu-se de suas habilidades de escriba e fez cópias. A obra que melhor retrata esse evento foi publicada em 2011, por Stephen Greenblatt, "A Virada" (The Swerve), e foi vencedora do prêmio Pulitzer de 2012.

Outros manuscritos achados por Poggio Bracciolini são: seis discursos de Cícero; um de Quintiliano; o manuscrito de Sant Gallen; obras de Sílio Itálico, Manílio, Lucrécio, Caio Valério Flaco, Asconius Pedianus, Columella, Celso, Aulo Gélio, Estácio, entre outros. Com Leonardo Aretino, trouxe à luz peças de Plauto, e as Verrinas, de Cícero. Essas descobertas foram essenciais para a formação do pensamento moderno.

Círculo Social

Poggio Bracciolini foi um homem muito conectado à rede de comunicação que fazia circular os achados da literatura greco-romana antiga e as produções renascentistas na Europa ocidental, sendo um dos humanistas mais ativos de seu tempo.

Integrante dos círculos eruditos de Florença, relacionou-se, entre outros, com Lourenço e Cosme de Médici, Carlo Marsuppini e Antonio Loschi. Com Niccolò Niccoli chegou a ter um conflito em torno da posse de uma cópia de De Rerum Natura. Esses aparecem em seus diálogos como interlocutores, participando da construção de sua argumentação.

Suas ideias também tiveram influência fora da Itália, levando-o a manter contato com a intelectualidade estrangeira, sobretudo a espanhola, na figura de Alfonso de Cartagena, com quem trocou diversas cartas.

Obras

Historia Florentina, 1478

Copista, tradutor, orador, caçador de obras perdidas, escritor e, acima de tudo, um apaixonado pelo conhecimento, desde muito jovem Poggio demonstrou um enorme interesse pela literatura, que se concretizou não só em sua busca incessante por obras perdidas, mas também por diversas publicações onde versava sobre os interesses e valores do seu tempo.

Deixou como legado obras que foram primordiais para a história moderna:

E a obra Epistolae (1832), uma coletânea de cartas de Poggio que retratam o período em que ele viveu, sendo compilada por Tommaso Tonelli.

Morte e anos posteriores

Poggio morre no dia 30 de outubro de 1459. Como havia renunciado ao cargo de chanceler, não recebeu um grande funeral de Estado, o que era habitual na época. Mas foi enterrado com honras e cerimônias na Basílica de Santa Cruz.

Seu retrato, feito por António Pollaiuolo, foi pendurado em um dos salões da cidade. Teve uma estátua erguida diante da Catedral de Santa Maria del Fiori, que foi removida no ano de 1560, por conta de uma obra de remodelagem da faixada, sendo transportada para uma outra parte do edifício. Hoje, essa estátua serve como parte de um grupo de esculturas que representam os doze apóstolos.

Cidade batizada em homenagem a Poggio

A cidade de seu nascimento foi rebatizada com o nome de Terranuova Bracciolini, em sua homenagem.

Em 1954, uma nova estátua foi inaugurada na praça da cidade, em comemoração ao quingentésimo aniversário de sua morte.

Legado

Poggio Bracciolini deixa um importante legado para a humanidade, não apenas dentro de seu círculo humanista, mas também para a configuração de novos ideários fora da Itália. Seu trabalho de resgatar os manuscritos influenciaram quase todos os pensadores do mundo moderno, que permeiam a nossa concepção de mundo hoje.

Uma das coisas que, de maneira bem sutil, está inserida no nosso mundo é a sua escrita, marcada por uma bela caligrafia. Sua letra era constituída por minúsculas carolíngias e foi transformada na letra usada para copiar manuscritos e cartas. As fontes em Itálico e os tipos redondos das letras, seguem a influência de sua escrita.

A escrita humanista foi importante para trazer à tona os trabalhos do mundo antigo e Poggio viu nisso, mais que um ofício, uma vocação para difundir a nova escrita, para que o conhecimento resgatado pelos humanistas fossem mais legíveis.

Poggio também tem forte influência na configuração de novos ideários fora da Itália, lugar onde ocorria a emergência das ideias de racionalismo crítico, individualidade dos sujeitos e de laicidade, formando uma nova concepção de homem e constituindo uma renovação cultural da nobreza. Essas ideias foram se espalhando, até chegarem na monarquia de Castela no início do século XV, onde antes de João II, o estereótipo real girava em torno de qualidades guerreiras e já em seu reinado migram para características de letramento e instrução. Porém, essas ideias não migram da Itália para Castela sozinhas, o grande influenciador, o humanista que mais circulou na corte Castelhana foi Bracciolini, não só por meio de seus manuscritos, mas também com uma relação direta com o rei João II, chegando a fazer parte do Conselho Real.

Poggio tinha uma relação direta com a nobreza e com os membros do clero. Sabe-se até que ele enviou uma carta a Alfonso de Cartagena agradecendo os elogios que recebeu em Sobre a Infelicidade dos Príncipes (1440). Vemos que, o florentino não só estava sendo lido, como também estava sendo prestigiado pelos castelhanos. Um outro livro que teve mais de 60 manuscritos difundidos não só em Castela, mas por toda Europa foi Sobre a verdadeira nobreza (1440). Desta forma, a corrente renascentista que circulava pela Itália se espalha por toda Europa sob uma intrínseca influência do caçador de livros.

A descoberta de De rerum natura, e a volta de sua leitura e circulação influenciam muitos pensadores modernos, mesmo se tratando de uma obra subversiva para aquele período. Um dos pensadores que faz uso do epicurismo levando essa ideologia radical a uma de suas obras é Thomas More em sua Utopia. onde os moradores de sua ilha imaginária estavam convencidos de que a principal busca da felicidade humana se dá na busca do prazer (esse o principal ponto do epicurismo).

Embora não se possa identificar claramente o epicurismo / lucrecianismo em sua obra, outro jovem florentino que é identificado com o poema, e escreve até uma cópia para si é Nicolau Maquiavel.

De rerum natura também foi a base da filosofia nolana de Giordano Bruno, onde o epicurismo perturba e transforma seu mundo, como podemos ver em A expulsão da besta triunfante, onde ele de maneira alegórica, zomba da passagem em que Jesus diz que Deus sabe a conta de todos os cabelos de nossa cabeça.  

Poggio, despertou um monstro, era difícil fazer com que De rerum natura voltasse às trevas. A influência da poesia de Lucrécio segue ainda mais forte com o passar do tempo, estando presente nas pinturas de Botticelli, Pierro di Cosimo e Leonardo Da Vinci. A obra é encarnada em Shakespeare com Romeu e Julieta, e está também, profundamente íntima dentro de Montaigne com seus Ensaios e nas suas outras obras.

Galileu Galilei, Isaac Newton e Thomas Jefferson também são inspirados por Lucrécio em suas obras, sendo o último alguém que assumiu como sua filosofia de vida, ser “um epicurista", ou seja, vemos que a descoberta de Poggio é fundamental para os pensadores que alicerçam o mundo moderno.  

Ver também

Referências

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