| Hexagrama regular | |
|---|---|
Um hexagrama regular ({6/2} ou 2{3}). | |
| Tipo | Composto poligonal regular / Polígono estrelado |
| Arestas e Vértices | 12 (6 externas por triângulo) |
| Símbolo de Schläfli | {6/2}, 2{3} ou a{6} |
| Diagrama de Coxeter | |
| Grupo de simetria | Diedral (D6), ordem 12 |
| Ângulo interno (graus) | 60° (pontas dos triângulos) |
| Dual | Autodual |
| Propriedades | Estrela, composto, equilátero, isogonal, isotoxal, cíclico |
Um hexagrama (do grego clássico ἕξ, hex, "seis", e γραμμή, grammē, "linha" ou "traço") é uma figura geométrica plana em forma de estrela de seis pontas, formada pela intersecção concêntrica de dois triângulos equiláteros congruentes invertidos entre si. Na geometria euclidiana, a região central resultante da sobreposição mútua desses dois triângulos constitui um hexágono regular convexo.
Com símbolo de Schläfli {6/2} ou 2{3}, o hexagrama regular é o primeiro e mais simples dos compostos poligonais regulares regulares planos. Embora seja mundialmente reconhecido na Idade Contemporânea como o principal símbolo identitário do judaísmo sob o nome de Estrela de Davi (Magen David), a figura ostenta uma história milenar universal, tendo sido empregada de maneira autônoma como emblema religioso, matemático, alquímico, decorativo e heráldico em civilizações como a Índia antiga (o Shatkona), o Islã clássico (o Selo de Salomão), o cristianismo medieval e as corporações de ofício europeias.
Na teoria dos polígonos e poliedros, o hexagrama pode ser analisado sob duas óticas formais: 1. Composto poligonal regular (2{3}): Como a união desconexa de dois triângulos equiláteros rotacionados em $60^\circ$ entre si em torno do baricentro comum; 2. Polígono estrelado degenerado ({6/2}): Como uma estelação de um hexágono regular conexo, onde se conectam vértices com passo 2; a fração $\frac{6}{2}$ simplifica-se para $3$, evidenciando que os traçados formam dois ciclos fechados ternários independentes, e não um circuito poligonal único contínuo (característica presente, em contrapartida, no pentagrama regular {5/2}).
O hexagrama possui o grupo de simetria diedral $D_6$ (ou $[6]$ na notação de Coxeter), de ordem 12, compreendendo seis rotações angulares (em múltiplos de $60^\circ$) e seis eixos de simetria por reflexão especular (três passando pelas pontas opostas e três cruzando os lados do hexágono interno). É uma figura cíclica (todos os seus seis vértices exteriores tocam uma circunferência circunscrita comum) e isotoxal (todas as suas arestas externas guardam comprimentos congruentes).
Seja $R$ o raio da circunferência circunscrita que conecta os seis vértices externos da estrela:
$$L = R\sqrt{3}$$
$$r = \frac{R}{2}$$
$$l = \frac{R}{\sqrt{3}} = \frac{R\sqrt{3}}{3}$$
$$A = \sqrt{3}\,R^2$$

Diferentemente do hexagrama regular clássico, que requer dois traçados triangulares independentes, o hexagrama unicursal é uma variante geométrica contínua que pode ser traçada com uma única linha ininterrupta sem levantar o instrumento de desenho do papel.
Suas proporções e ângulos internos diferem do hexagrama regular: os vértices laterais são achatados e os eixos verticais alongados para viabilizar o entrelaçamento contínuo dos segmentos. O símbolo foi adotado no início do século XX pelo ocultista britânico Aleister Crowley como o principal emblema da ordem esotérica de Thelema, frequentemente decorado com uma flor de lótus de cinco pétalas em seu núcleo.
A construção de um hexagrama regular decorre diretamente da divisão clássica da circunferência em seis arcos congruentes por meio de régua e compasso: 1. Traça-se uma circunferência com o compasso a partir de um centro fixo $O$, mantendo a abertura do raio $R$; 2. Sem alterar a abertura do compasso, posiciona-se a ponta-seca sobre qualquer ponto da borda circular e marca-se um arco que intersecte a circunferência; 3. Repete-se sucessivamente a operação a partir de cada novo ponto demarcado até assinalar exatamente seis vértices equidistantes ($V_1, V_2, V_3, V_4, V_5, V_6$); 4. Com a régua, unem-se os vértices alternados de três em três: liga-se $V_1$ a $V_3$, $V_3$ a $V_5$, e $V_5$ a $V_1$ (formando o primeiro triângulo); em seguida, unem-se $V_2$ a $V_4$, $V_4$ a $V_6$, e $V_6$ a $V_2$ (formando o segundo triângulo sobreposto).

O hexagrama manifesta-se de forma espontânea na projeção ortogonal de sólidos geométricos tridimensionais regulares:

Na matemática pura e na física teórica, o hexagrama desempenha um papel geométrico fundamental na classificação das álgebras e grupos de Lie:
Na geometria projetiva, o célebre Teorema de Pascal, enunciado por Blaise Pascal aos 16 anos de idade em 1639 como o "hexagrama místico" (hexagrammum mysticum), estabelece que, se seis pontos arbitrários forem escolhidos sobre uma seção cônica qualquer (elipse, parábola, hipérbole ou circunferência) e conectados sequencialmente para formar um hexágono ou hexagrama, os três pontos de intersecção das linhas que contêm os pares de lados opostos serão sempre colineares, jazendo sobre a chamada "reta de Pascal".
No hinduísmo, no budismo tântrico e no jainismo, a estrela de seis pontas é denominada Shatkona (षट्कोण, literalmente "seis ângulos"). Trata-se de um yantra sagrado milenar que representa a comunhão cósmica indissolúvel entre os princípios arquetípicos universais:
A fusão de ambos espelha o ponto supremo de equilíbrio da criação, correspondendo diretamente à mandala visual tradicional do chakra cardíaco (Anahata), associado à compaixão, amor universal e união dos opostos.
Nas tradições religiosas islâmicas, a estrela de seis pontas é reverenciada como o Selo de Salomão (em árabe: خاتم سليمان, translit. Khātim Sulaymān). Conforme a tradição teológica e folclórica do Oriente Médio, o profeta e rei Salomão (Sulayman) teria recebido de Deus um anel de sinete gravado com o Nome Sagrado que lhe conferia autoridade sobre forças invisíveis da natureza e espíritos (os djinns).
O hexagrama figurou abundantemente em toda a civilização islâmica medieval e moderna:

Embora o hexagrama decorasse sinagogas antigas da Judeia e da Galileia no período romano-bizantino (como nos frisos de Cafarnaum) lado a lado com suásticas e pentagramas, o símbolo funcionava primordialmente como padrão ornamental ou talismã protetor contra o mal (com uso compartilhado com o meio cristão e islâmico), sem conotação exclusiva com a fé israelita.
A transformação da estrela de seis pontas no emblema supremo do judaísmo iniciou-se na Europa Central nos séculos XIV e XVII:
Em 1897, o Primeiro Congresso Sionista promovido por Theodor Herzl em Basileia consagrou o hexagrama azul como o estandarte do movimento político sionista, que viria a culminar, em 1948, em sua oficialização na bandeira do Estado de Israel.
No Ocidente cristão medieval e renascentista, o hexagrama foi extensamente utilizado na arquitetura gótica de catedrais e basílicas, esculpido em rosáceas de pedra, vitrais e portais (como na Basílica de Santa Cruz em Florença, na Catedral de Burgos e na Catedral de Valência). Sob a hermenêutica cristã, a figura evocava a criação do universo nos seis dias do Gênesis, a linhagem de Jesus a partir da Raiz de Jessé ou a conciliação das duas naturezas de Cristo (a divina e a humana integradas em um só corpo).

Na tradição da alquimia europeia e da filosofia hermética, o hexagrama representava o microcosmo e o macrocosmo em perfeita sintonia mútua, sintetizando o axioma basilar da Tábua de Esmeralda: "O que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está embaixo".
A figura encerrava o mapa visual dos quatro elementos fundamentais da matéria:
A reunião dos quatro gerava o hexagrama pleno, emblema do equilíbrio dos opostos, do casamento alquímico (o Rebis) e da pedra filosofal.
A partir dos séculos XIV e XV, as corporações de ofício de cervejeiros da Europa Central (em regiões que compreendem as atuais Alemanha, Áustria e Chéquia) adotaram a estrela de seis pontas como o seu selo profissional oficial de qualidade, conhecido em alemão como Brauerstern ou Bierstempel.
O símbolo era afixado em estalagens e tabernas para anunciar que uma nova leva de cerveja fresca estava pronta para consumo. As seis pontas simbolizavam os seis componentes e forças indispensáveis para a fabricação da cerveja tradicional: os três ingredientes materiais (água pura, grãos de malte e lúpulo) e os três elementos físicos de transformação energética (o fogo de cocção, o ar de aeração e a terra que dá a levedura biológica).