Ibne Caci

Ibne Caci
Imame e mádi
Estátua equestre de Ibne Caci em frente ao Castelo de Mértola, inaugurada em maio de 2001 durante a 1.ª edição do Festival Islâmico de Mértola
Rei de Mértola
Reinado1144 - 1145
Antecessor(a)Nenhum
Sucessor(a)Ibne Uazir (em Badajoz)
Rei de Silves
Reinado1146 - 1151
Predecessor(a)Ibne Uazir (em Badajoz)
Sucessor(a)Ibne Almondir
Dados pessoais
Nascimentoséculo XII
Morte1151
Silves
PaiHuceine ibne Caci
ReligiãoIslamismo sufita

Abu Alcácime Amade ibne Alhoceine (em árabe: أبو القاسم أحمد بن الحسين; romaniz.: Abū al-Qāsim Aḥmad ibn al-Ḥusayn; m. Silves, 1151), melhor conhecido apenas por seu nisba Ibne Caci ou Ibne Cassi (بن قاسي, ibn Qāsī), foi um líder político sufista de oposição à dinastia almorávida no Garbe Alandalus em meados do século XII. Provavelmente natural de Silves, nasceu em data desconhecida do século XII. Era oriundo de uma família abastada muladi (moçárabes convertidos ao islamismo) e, segundo a tradição, abandonou uma juventude dedicada aos prazeres mundanos para seguir uma vida de ascese e formação espiritual. Estudou com alguns dos mais destacados mestres sufistas de seu tempo, entre eles Ibne Alarife e Ibne Barrajane, e aprofundou-se na literatura mística de Algazali e das Epístolas dos Irmãos da Pureza. De regresso ao Algarbe Alandalus, estabeleceu um ribate nos arredores de Silves, onde reuniu um círculo de discípulos conhecidos como muridines ("noviços" ou "discípulos espirituais"). Sua crescente influência religiosa, associada à reputação de santidade e aos milagres que lhe eram atribuídos por seus seguidores, levou-o a proclamar-se — ou a ser reconhecido como — o mádi, figura escatológica destinada a restaurar a verdadeira religião.

Aproveitando-se da rápida desagregação do poder almorávida, Ibne Caci liderou a Revolta dos Muridines a partir de 1143/4. Em 1144, seus partidários conquistaram Mértola, onde foi reconhecido como imame, e logo estabeleceram um domínio que se estendia por parte significativa do Algarbe Alandalus, contando com o apoio de chefes regionais como Ibne Uazir e Ibne Almondir. Conflitos internos e a crescente autonomia de seus aliados, contudo, enfraqueceram sua posição, levando-o a buscar apoio junto aos almóadas no Norte da África. Embora a intervenção almóada lhe tenha permitido recuperar Silves e Mértola em 1146, ela também reduziu sua margem de manobra política. Nos anos seguintes, afastou-se dos novos senhores do Magrebe e procurou afirmar sua independência, chegando a negociar uma aproximação com o rei português Afonso Henriques (r. 1143–1185). Essa política provocou oposição entre seus próprios partidários e, em 1151, foi assassinado em Silves. Apesar da brevidade de seu governo, permaneceu como uma das figuras mais singulares do misticismo e da política do ocidente andalusino, sendo também autor do tratado místico O Descalçar das Sandálias (Khalʿ al-Naʿlayn), posteriormente comentado por Ibne Arabi.

Vida

Ruínas do ribate nas cercanias de Aljezur
Fração (quirate) de dirrã de Ibne Uazir com a menção ao nome de Ibne Hamedine

As origens de Abu Alcácime Amade são controvertidas. Não se sabe o ano em que nasceu e presume-se que fosse natural de Silves (Xilbe à época). Seu nisba, presumidamente derivado de Cássio, permite sugerir uma origem muladi (moçárabes convertidos ao islamismo) e há historiadores que ainda sugerem que tivesse alguma relação entre sua família e a distinta linhagem dos cácidas da região de Aragão. Sua família era economicamente abastada. Após uma juventude marcada pela despreocupação e pelos prazeres mundanos, decidiu abandonar esse modo de vida, vendendo seus bens e distribuindo aos pobres os recursos obtidos. A partir de então, dedicou-se publicamente a uma existência de ascese, estudo e disciplina espiritual, percorrendo o exigente caminho da iniciação sufista. Durante sua permanência em Almeria, tornou-se discípulo de Ibne Alarife, cuja escola mística reunia numerosos seguidores e gozava de grande prestígio intelectual. O crescimento de sua influência despertou a desconfiança das autoridades almorávidas, que temiam as possíveis implicações políticas do movimento. Em consequência, Ibne Alarife foi denunciado oficialmente e enviado prisioneiro para o Norte da África, juntamente com um de seus principais discípulos, Ibne Barrajane de Sevilha. Durante suas peregrinações e contatos com os mestres sufistas do Alandalus, Ibne Caci teria recebido ensinamentos de Calafe Aune Alandalusi e de Ibne Calil, de Niebla, identificados por Ibne Arabi como alguns de seus mestres espirituais. Concluído esse período de formação, regressou a Silves, onde continuou a dedicar-se ao estudo da literatura mística, especialmente das obras de Algazali e das Epístolas dos Irmãos da Pureza, textos que então circulavam amplamente na região.

Nos arredores de Silves, mandou construir um ribate destinado ao recolhimento espiritual, onde passou a viver rodeado por um grupo de discípulos, conhecidos como muridines (do árabe murīdūn, "noviços" ou "discípulos espirituais"). A partir desse núcleo religioso, suas doutrinas difundiram-se por amplas áreas do Algarbe Alandalus, atraindo um número crescente de seguidores. Ibne Caci tornou-se então uma das figuras religiosas mais influentes daquela região. As tradições transmitidas por seus partidários atribuíram-lhe diversos dons extraordinários, incluindo capacidades de clarividência, a realização de milagres e até mesmo uma viagem miraculosa de ida e volta a Meca em uma única noite. No auge de sua projeção religiosa e carismática, passou a apresentar-se — ou foi reconhecido por seus adeptos — como o mádi, o guia escatológico destinado a restaurar a verdadeira religião e a justiça entre os fiéis. Algumas fontes hostis, especialmente Ibne Alcátibe, descrevem esse grupo de forma depreciativa e acusam Ibne Caci de apresentar-se como santo, realizando supostos milagres fraudulentos. O mesmo autor afirma que seus discípulos estavam influenciados por doutrinas esotéricas (bāṭinī). Ainda mais severo é o julgamento de Abde Aluaide de Marraquexe, que o retrata como um simples charlatão.

Em 1143/4, Ibne Caci declarou revolta aberta contra a autoridade almorávida. A autoridade central enfraquecia-se, revoltas eclodiam nas cidades e a insegurança dominava as zonas rurais. Uma primeira tentativa de tomar o castelo de Monte Agudo fracassou em 1144. Pouco depois, em 12 de Sáfar de 539 (14 de agosto de 1144), um destacamento de apenas setenta muridines, comandado por Ibne Alcabila, conseguiu capturar por estratagema a fortaleza de Mértola. Ibne Caci estabeleceu-se na cidade e foi reconhecido por seus partidários como imame. Presume-se que essa reivindicação pode ter se inspirado em Ibne Barrajane, que supostamente teria feito o mesmo anos antes e foi reconhecido como tal em numerosas localidades. Pouco depois, o governador de Évora Ibne Uazir decidiu prestar-lhe vassalagem, sendo recompensado com o governo de Beja. Numa ação conjunta de Ibne Almondir e Ibne Uazir, o castelo de Monchique foi conquistado e sua guarnição almorávida foi massacrada. Durante o ano de 1145, enquanto Ibne Almondir conduzia uma campanha contra Sevilha em nome de Ibne Caci, Ibne Uazir foi encarcerado em Mértola e substituído no governo de Beja por Abu Talibe Azuri. Pouco tempo depois, contudo, foi libertado e reassumiu o controle de Beja, ampliando gradualmente sua esfera de influência. Em março no mesmo ano, o cádi de Córdova, Ibne Hamedine, foi proclamado soberano da cidade. Com o objetivo de atrair os cordoveses para sua causa, Ibne Caci enviou tropas sob o comando de Ibne Almondir e de Ibne Alcabila. A expedição, entretanto, foi derrotada por Ibne Gania, filho do falecido emir Ali ibne Iúçufe (r. 1106–1143). Esse revés, somado à notícia da morte do emir almorávida Taxufine ibne Ali no mesmo mês, levou Ibne Caci a convocar seus vassalos. Ibne Uazir recusou-se a comparecer, num gesto de aberta insubordinação. Enviado contra ele, Ibne Almondir foi derrotado e aprisionado em Beja. Foi provavelmente nesse contexto que Ibne Uazir rompeu definitivamente com Ibne Caci e passou a reconhecer a autoridade suprema, ainda que apenas nominal, de Ibne Hamedine, em Córdova.

Nos meses que se seguiram, Ibne Uazir conquistou Silves e Mértola, encerrando o governo de Ibne Caci sobre essas regiões e colocando fim ao seu domínio independente. Em janeiro de 1146, Ibne Hamedine foi deposto de Córdova em favor de Ibne Gania. A julgar pela existência de ao menos um dinar de ouro cunhado por Ibne Uazir com seu nome associado ao nome do último emir almorávida, Isaque ibne Ali (r. 1145–1147), presume-se que tenha declarado vassalagem nominal aos almorávidas novamente. Em setembro, Ibne Caci atravessou o estreito de Gibraltar em direção ao Norte da África, onde procurou apoio junto aos almóadas para recuperar sua posição. O califa Abde Almumine (r. 1133–1163) aceitou ajudá-lo e em junho de 1146, o primeiro exército almóada desembarcou na Península Ibérica acompanhado por Ibne Caci. As forças almóadas reconquistaram Mértola e Silves de Ibne Uazir, restituindo ambas as cidades a Ibne Caci, que passou a governar a partir de Silves. Após submeter-se aos novos senhores do Magrebe, Ibne Uazir foi autorizado a permanecer no governo de Beja. No início de 1147, os almóadas conquistaram Sevilha com a colaboração de diversos chefes andalusinos, entre eles Ibne Caci e Ibne Uazir. No início de 1151, o califa Abde Almumine convocou os chefes andalusinos para que lhe prestassem homenagem em Salé, dentre os quais Ibne Uazir. Ibne Caci recusou-se a obedecer e procurou estabelecer uma aliança com o rei português Afonso Henriques (r. 1143–1185), que lhe enviou um cavalo e armas. Em agosto ou setembro do mesmo ano, Ibne Caci foi assassinado em Silves e sucedido por Ibne Almondir. Segundo os relatos das fontes, os assassinos simularam a captura de um saqueador e dirigiram-se às portas da cidade apresentando-o como prisioneiro. Enquanto o chefe da guarda obtinha autorização para que o suposto detido fosse conduzido ao interior da fortaleza, parte do grupo conseguiu penetrar no palácio de Xarajibe, residência de Ibne Caci. Uma vez no interior, os conspiradores assassinaram-no. Em seguida, os conspiradores decapitaram sua cabeça e exibiram-na cravada na ponta da lança que, segundo a tradição, lhe teria sido oferecida por Afonso Henriques. Enquanto a transportavam pelas ruas, proclamavam em tom de escárnio: "Eis o mádi dos cristãos!".

Obra

Como obra central de sua produção intelectual, Ibne Caci compôs durante seu período de retiro ascético o tratado místico O Descalçar das Sandálias (Khalʿ al-Naʿlayn), cujo título deriva da passagem corânica em que Deus se dirige a Moisés no vale sagrado de Tua, ordenando-lhe que retire as sandálias antes de receber a revelação divina. Redigido para um público de iniciados, o texto emprega uma linguagem marcadamente esotérica e estrutura-se em uma introdução seguida de quatro capítulos, cada qual associado a um grau específico da revelação espiritual: as realidades do Reino Divino, do Paraíso, as realidades maometanas e as da Misericórdia Divina. Ao longo da obra, Ibne Caci aborda uma ampla variedade de temas teológicos, cosmológicos e metafísicos, entre os quais a criação do universo, a organização do cosmos, a queda de Adão, a ressurreição dos mortos, os atributos divinos, a percepção dos seres vivos, a natureza do limbo, bem como as concepções do paraíso e do inferno como manifestações distintas de uma mesma realidade transcendente. A obra não contém referências explícitas à conjuntura política de seu tempo nem apelos diretos à rebelião. Suas principais influências derivam do pensamento de Algazali, de cujos escritos Ibne Caci chegou a reproduzir passagens extensas, por vezes sem indicação de autoria, e das Epístolas dos Irmãos da Pureza, cujas concepções apresentam afinidades com determinados aspectos do ismaelismo, especialmente a crítica às autoridades estabelecidas e a valorização espiritual da pobreza. Essas ideias guardam relação com a própria trajetória inicial de Ibne Caci e com os ideais cultivados em seu círculo religioso. A importância do Khalʿ al-Naʿlayn é reforçada pelo fato de constituir uma das raras obras sufistas conhecidas produzidas no Alandalus entre as gerações de Ibne Alarife e Ibne Arabi. Este último teve acesso ao texto em Tunes, por intermédio de um filho de Ibne Caci, e redigiu um comentário crítico no qual apontou deficiências doutrinárias e acusou o autor de recorrer excessivamente a fontes anteriores. Apesar dessas reservas, Ibne Arabi demonstrou apreço por diversos aspectos de seu pensamento e provavelmente incorporou algumas de suas ideias à própria elaboração doutrinária.

Representações na cultura

Apesar de seu movimento ter sido derrotado e absorvido pela expansão almóada, a memória de Ibne Caci permaneceu associada às regiões que outrora governou, sendo objeto de renovado interesse histórico e cultural nos séculos XX e XXI. A sua vida e obra são alvo da obra de Adalberto Alves, As Sandálias do Mestre, de 2001. Em Mértola, uma estátua em sua homenagem foi erguida junto ao castelo, evocando sua importância na história local e sua ligação à cidade que serviu de principal centro político do movimento muridine. Em Silves, sua trajetória foi celebrada em edições da Semana Medieval, nas quais episódios de sua vida e de sua revolta contra os almorávidas foram recriados por meio de encenações históricas. O legado de Ibne Caci também inspirou manifestações culturais contemporâneas. Em 2019, a ACTA — Companhia de Teatro do Algarve apresentou a peça Ibn Qasi – O Rei Iniciado do Algarve, centrada em sua vida, em sua dimensão mística e em suas relações com Afonso Henriques. Paralelamente, as investigações arqueológicas realizadas na Arrifana, perto de Aljezur, trouxeram novamente à luz vestígios do antigo ribate de Ibne Caci, cujo valor histórico e patrimonial motivou a adoção de medidas de proteção e conservação.

Referências

Bibliografia

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