| Joana | |
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Retrato do século XVII identificado como sendo de Joana Grey, cópia do original localizado na Casa Syon. Essa obra é considerada uma das representações mais fidedignas da aparência da rainha. | |
| Rainha da Inglaterra e Irlanda (disputado) | |
| Reinado | 10 de julho de 1553 a 19 de julho de 1553 |
| Predecessor | Eduardo VI |
| Sucessora | Maria I |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 1536 ou 1537 Casa Bradgate, Leicestershire, Inglaterra |
| Morte | 12 de fevereiro de 1554 (16 ou 17 anos) Torre de Londres, Londres, Inglaterra |
| Sepultamento | Capela Real de São Pedro ad Vincula, Londres, Inglaterra |
| Marido | Guilford Dudley |
| Casa | Grey (por nascimento) Dudley (por casamento) |
| Pai | Henrique Grey, 1.º Duque de Suffolk |
| Mãe | Francisca Brandon |
| Religião | Protestantismo |
| Assinatura | |
| Brasão | |
Joana Grey (em inglês: Jane Grey; 1536 ou 1537 – 12 de fevereiro de 1554), conhecida após seu casamento em 25 de maio de 1553 como Joana Dudley, foi uma rainha não coroada da Inglaterra e Irlanda, reinando de 10 a 19 de julho de 1553. Na tradição popular, ficou conhecida como a "Rainha dos Nove Dias". Bisneta do rei Henrique VII, filha do duque de Suffolk, foi criada em um ambiente protestante e recebeu uma educação excepcional para sua época.
Durante o reinado do jovem rei Eduardo VI, apesar de estar em quarto lugar na linha de sucessão, suas chances de chegar ao trono eram mínimas, a herdeira legítima era sua meia-irmã mais velha, Maria Tudor. Em 1553, sob a influência do regente João Dudley, Joana foi forçada a casar-se com o filho dele, Guilford Dudley, apesar de sua resistência ao casamento. No entanto, em junho de 1553, com Eduardo à beira da morte, o rei e Dudley excluíram a católica Maria da sucessão e nomearam Joana como herdeira. Após a morte de Eduardo, Joana foi proclamada rainha em Londres, enquanto Maria iniciou uma rebelião armada no leste da Inglaterra. Nove dias depois, o Conselho Privado avaliou a situação militar e destituiu Joana, reconhecendo Maria como rainha legítima. Joana Grey e seu marido foram presos na Torre de Londres, condenados por traição e executados (por decapitação) sete meses depois, em fevereiro de 1554.
A tragédia de Joana Grey ocupou um lugar extremamente destacado na cultura inglesa, desproporcional ao seu real peso histórico, se considerarmos a questão de forma ampla. A origem dessa discrepância está na conjuntura política da época e nos eventos que se seguiram. Sabe-se que a lenda começou a se formar logo após sua execução: para os protestantes perseguidos por "Maria, a Sanguinária" (em inglês: Bloody Mary), Joana foi uma mártir, a primeira vítima da Contrarreforma inglesa. Sob o governo da sucessora de Maria, sua meia-irmã Isabel I, que, apesar de sua fé pessoal protestante, empenhou-se na reconciliação entre os súditos católicos e reformistas, a história de Joana passou a integrar de forma sólida o repertório da leitura devocional, da literatura erudita e da tradição popular. Temas como martírio e amor, populares nos séculos XVI e XVII, deram lugar a uma nova abordagem: nas inúmeras obras do século XIX, Joana Grey passou a ser retratada como o ideal feminino da era Vitoriana. Os testemunhos históricos sobre sua personalidade são escassos e conhecidos principalmente por meio de relatos de seus tutores e de diplomatas estrangeiros. Não se preservou nenhum retrato confiável feito em vida; a única "testemunha" que supostamente descrevia sua aparência de forma objetiva foi, na verdade, uma falsificação do início do século XX.

A dinastia dos Tudor, que governou a Inglaterra de 1485 a 1603, era pouco numerosa. Filhos homens eram particularmente raros na linhagem. Dos três filhos legítimos do fundador da dinastia, Henrique VII (1457–1509), o primogênito, Artur, Príncipe de Gales (1486–1502), morreu aos quinze anos, e o caçula, Edmundo (1499–1500), faleceu ainda na primeira infância. A coroa foi herdada pelo único filho sobrevivente, Henrique VIII (1491–1547). Sua irmã mais velha, Margarida (1489–1541), tornou-se rainha da Escócia, enquanto sua irmã mais nova, Maria (1496–1533), foi rainha da França, ainda que por breve período: seu primeiro marido, Luís XII, faleceu três meses após o casamento.
Na geração seguinte, a história se repetiu. Dos filhos de Henrique VIII, apenas sobreviveram o herdeiro Eduardo VI (1537–1553) e suas duas irmãs, Maria (1516–1558) e Isabel (1533–1603). Dos descendentes de Margarida, sobreviveram apenas o filho Jaime (1512–1542) e a filha do segundo casamento, Margarida Douglas (1515–1578). Os poucos descendentes desse ramo escocês dos Tudor saíram da disputa pela coroa inglesa antes do início do século XVII. Dos filhos de Maria (filha de Henrique VII), que retornou à Inglaterra e casou-se em segundas núpcias com Carlos Brandon, apenas duas filhas chegaram à idade adulta: Leonor (1519–1547) e Francisca (1517–1559), mãe de Joana Grey. A ausência de herdeiros do sexo masculino na linhagem causou uma crise dinástica em 1553, que culminou na morte de Joana.
Francisca Brandon, neta de rei, filha de um influente nobre e externamente atraente, mas ainda assim, não era considerada um bom partido. Ao contrário dos Tudor, os Brandon eram fecundos (em 1533, Francisca tinha sete irmãos e irmãs), o que fazia com que os pretendentes não esperassem nem um dote substancial, nem grandes heranças. Carlos Brandon não conseguiu casar a filha com Henrique Howard, Conde de Surrey, o mais promissor pretendente de sua época; em vez disso, por meio de intrigas, desfez o casamento já arranjado entre Henrique Grey, Marquês de Dorset e a filha do Conde de Arundel. Em 1533, Fransica, com quinze anos, casou-se com Henrique Grey, de dezesseis. Devido à recusa ou incapacidade de Brandon em fornecer o dote da filha, quem o pagou foi o próprio rei. Dos filhos nascidos desse casamento, apenas três filhas chegaram à idade adulta: Joana, nascida em 1537, e suas irmãs mais novas Catarina (1540–1568) e Maria (1545–1578).
O rei adolescente Eduardo VI foi o terceiro e último homem da linhagem Tudor a ocupar o trono da Inglaterra. Durante quase todo o seu reinado vigorou a ordem de sucessão estabelecida pelo último (terceiro) Ato de Sucessão de Henrique VIII e pelo seu testamento de 1546. Eduardo foi sucedido pelas suas irmãs, primeiro Maria e depois Isabel; em terceiro lugar na linha de sucessão estavam os filhos ou netos que Francisca Grey pudesse vir a ter, e depois vinham os descendentes de Leonor Clifford, que faleceu em 1547. Com base nessa estrutura de sucessão, Joana Grey tinha somente chances remotas de se tornar rainha governante, e nem sequer rainha mãe, embora pudesse deveria servir de regente de um rei menor. Com o aparecimento de filhos próprios de Eduardo, estes tornariam-se herdeiros, e a sucessão pelas irmãs e demais parentes perderia relevância prática. Contudo, Eduardo morreu aos quinze anos, e os eventos dos meses finais da sua vida culminaram na subida ao trono de "rainha dos nove dias", Joana Grey.
| A relação de Joana com a Casa de Tudor e outros pretendentes ao trono inglês |
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Os itálicos indicam pessoas que faleceram antes de Eduardo VI; |

A data e o local de nascimento de Joana são desconhecidos. De acordo com a tradição, ela teria nascido na propriedade de caça de seu pai, Casa Bradgate (em inglês: Bradgate House), perto de Leicester, em outubro de 1537, no mesmo mês que o futuro rei Eduardo VI, falecendo aos dezessete anos Segundo Eric Ives e Leanda de Lisle, é mais provável que Joana tenha nascido na primavera de 1537, na Casa Dorset em Londres. De acordo com Stephen Edwards, Joana pode ter nascido ainda mais cedo, no segundo semestre de 1536.
A chamada "Torre de Joana Grey" (em inglês: Lady Jane’s Tower) preservada em Bradgate não possui qualquer ligação com a Joana histórica: a casa principal onde Joana cresceu foi completamente reconstruída e posteriormente destruída por um incêndio ainda no século XVIII. Tampouco há registros sobre a infância precoce de Joana, exceto o fato de que, a partir de 1545, sua educação passou a ser supervisionada pelo bispo John Aylmer, graduado em Cambridge e protegido de Henrique Grey. A vida privada da jovem família, então em situação de relativo ostracismo, não despertava interesse entre os contemporâneos. O rei continuava a considerar Francisca e sua irmã como suas "sobrinhas favoritas", mas impedia Henrique Grey de ocupar cargos públicos. Os direitos de Francisca e de seus descendentes não são mencionados em nenhuma das três leis de sucessão promulgadas por Henrique VIII. Somente em 1546 ele voltou a incluir os descendentes de Francisca na linha de sucessão e conferiu a Grey seu primeiro encargo significativo, o comando da infantaria durante o cerco a Bolonha. A verdadeira carreira de Henrique Grey só teve início durante o reinado de Eduardo VI, sob o patrocínio de Tomás Seymour, tio do novo rei, irmão mais novo e rival político do regente Eduardo Seymour.
Após alguns dias da morte de Henrique VIII, Tomás Seymour sugeriu a Grey entregar sua filha para ser educada em sua própria casa. A educação de crianças em famílias de igual ou maior posição social (em inglês: wardship) era prática comum na época: a criança adquiria conexões e experiência no convívio social, os tutores tinham a oportunidade de organizar seus próprios planos matrimoniais, e, em caso de falecimento dos pais, ficavam com uma parte da herança; os pais, por sua vez, exigiam pagamento dos tutores em troca dessa parte. A proposta de enviar a filha para a casa de um solteiro era algo inusitado: em janeiro de 1547, Seymour, ainda solteiro, cortejava a viúva rainha Catarina Parr. Grey recusou firmemente, e então Seymour (de acordo com os depoimentos de Henrique Grey durante o inquérito) revelou seu plano de casar Joana Grey com Eduardo VI e prometeu a Grey um crédito de duas mil libras. Após uma semana de reflexão, Grey cedeu, e Joana passou um ano e meio na casa de Seymour e Parr. O escândalo envolvendo a corte de Seymour por outra de suas pupilas, a jovem Isabel, de quatorze anos, não afetou as relações de Grey com Seymour. Henrique Grey só tentou recuperar sua filha em setembro de 1548, após a morte de Catarina Parr, mas Seymour conseguiu manter Joana consigo: o controle sobre ela era um ativo político de grande valor. Joana, conforme as cartas preservadas, preferia a liberdade da casa de Seymour às rígidas regras da casa de seu pai.

Em janeiro de 1549, o Conselho Privado prendeu Tomás Seymour sob acusação de tentativa de golpe de Estado. Henrique Grey, o aliado mais próximo do destituído almirante, após cinco interrogatórios, comprou sua liberdade prometendo casar sua filha com o filho do regente Eduardo Seymour. No verão, Eduardo Seymour também foi preso, e Henrique Grey se uniu com sucesso ao grupo do novo regente João Dudley e obteve cargos lucrativos na corte. Joana foi apresentada à corte, participou de várias cerimônias, mas passava a maior parte do tempo nas propriedades de seu pai. O escritor-humanista Rogério Ascham, que visitou a Casa Bradgate em agosto de 1550, no dia em que os pais de Joana saíram para caçar, encontrou Joana lendo o Fedão de Platão em grego antigo. A menina, segundo Ascham, estava infeliz em sua casa e reclamava das severas punições por qualquer falta. Para Alison Plowden e Megan Hickerson, o relato de Ascham indica o desenvolvimento de uma personalidade não só erudita e astuta, mas também obstinada, mordaz e arrogante.
A educação literária foi provavelmente uma iniciativa de seu pai, que era considerado um patrono das ciências no meio acadêmico. Henrique Grey, ligado à família real por laços de parentesco com sua bisavó Isabel Woodville, foi educado junto com o filho ilegítimo de Henrique VIII, Henrique FitzRoy, e recebeu uma excelente formação humanista. Morrendo aos 37 anos na mesma aventura que levou sua filha à morte, Grey entrou para a história como o "mais estúpido dos pares da Inglaterra", mas em vida era considerado espirituoso, culto e sedento de poder.
Ao herdar o título de Duque de Suffolk em 1551, Grey tornou-se o aristocrata mais titulado de seu tempo e atraiu a atenção de numerosos teólogos protestantes que buscavam a sua proteção e abertamente chamavam Joana de "primeira evangelista da Inglaterra" e futura noiva de Eduardo VI. Grey mantinha correspondência regular com estudiosos ingleses, alemães e suíços; Joana não tinha falta de livros ou de mentores.
No entanto, aos quatorze anos, ela perdeu o antigo interesse pelas sabedorias literárias: agora, o que mais a atraía eram as roupas e a música. João Aylmer repetidamente pediu ao teólogo de Zurique Henrique Bullinger que orientasse Joana para uma postura mais sensata, sugerindo como modelo a princesa Isabel. Provavelmente, o conselho teve efeito: segundo Aylmer, Joana recusou ricos presentes da princesa Maria.

Joana e suas irmãs pertenciam à primeira geração de ingleses, criados desde a infância no espírito da Reforma Evangélica (o conceito de protestantismo surgiu na Inglaterra mais tarde, em meados da década de 1550). Sua vida inteira se passou em um ambiente de reformadores evangélicos: provavelmente, na vida privada, ela nunca teve contato com o Catolicismo. O terror religioso de Henrique VIII, que até o fim da vida considerava a negação da transubstanciação um pecado mortal, não se aplicava aos membros da família real. O rei Eduardo VI foi um protestante convicto; Catarina Parr foi uma reformista ativa, tradutora e editora de literatura protestante (paradoxalmente, entre 1543 e 1546, seu círculo teológico incluía até a católica Maria). Henrique Grey não apenas incentivava estudiosos reformistas, mas também propagava pessoalmente a doutrina protestante no Parlamento. O terceiro, depois de seu pai e Catarina Parr, na hierarquia espiritual, segundo Joana, foi o radical reformista de Estrasburgo Martinho Bucer, que pregava em Cambridge entre 1549 e 1551 Foi ele quem incutiu nela aversão pela doutrina católica da eucaristia e pelos dons carismáticos A influência da amiga da família Grey, a princesa Maria Tudor, sobre Joana não é clara. João Foxe relata que a ruptura entre elas ocorreu no final de 1549, quando a doze anos, Joana falou grosseiramente sobre a religiosidade de Maria. Para Leanda de Lisle, a visão tendenciosa de Foxe é incorreta: Maria continuou mantendo boas relações com as irmãs Grey nos anos seguintes.
Há muitas evidências sobre a educação de Joana, mas avaliar objetivamente seu nível e o grau de seu talento é difícil devido à parcialidade dos testemunhos. Ascham afirmou que ela superava Isabel, Foxe a considerava mais talentosa que Eduardo VI. Sabe-se que, aos quatorze anos, Joana dominava o latim e sabia escrever em grego antigo. Ela foi ensinada em francês, italiano e hebraico antigo por emigrantes protestantes; segundo James Taylor, é mais adequado falar sobre o conhecimento superficial de Joana desses idiomas, em vez de afirmar que ela os dominava. A afirmação de Tomás Cheloner de que ela "falava" oito línguas, incluindo aramaico e árabe, não é aceita pelos historiadores. A base para essa lenda pode ter sido o interesse de Joana pela Poliglota Complutense — uma Bíblia impressa em latim, grego antigo e hebraico, com fragmentos em aramaico (não árabe).
A vasta coleção de cartas de Joana, escritas principalmente durante seu encarceramento, revela um excelente conhecimento das Escrituras e dos apócrifos: como autores medievais, ela usava frequentemente citações bíblicas — de memória, sem consultar a fonte original. De acordo com Erik Ives, apenas em um parágrafo de sua carta a Thomas Harding (80 palavras), há nove citações do Antigo e Novo Testamento. Essa carta está cheia de construções formulaicas: anáforas, prolepse e perguntas retóricas; sua estrutura de seis partes segue rigorosamente o cânone da retórica Provavelmente, Joana formulava suas cartas com tanto cuidado na esperança de que fossem publicadas, o que realmente aconteceu após sua morte.

O aspecto físico de Joana é de fato desconhecido. Os autores tradicionais de descrições verbais, incluindo diplomatas estrangeiros e mercadores, não se interessaram por ela antes da crise de 1553. Como rainha, ela foi mostrada ao público apenas uma vez, na entrada para a Torre em 10 de julho de 1553. O único testemunho preservado sobre a aparência de Joana nesse dia, supostamente registrado pelo mercador genovês Baptista Spinola: "Ela é muito baixa e magra, mas bem formada e se mantém com dignidade. Tem traços pequenos, um nariz bonito, a boca flexível e os lábios vermelhos. As sobrancelhas são arqueadas e muito mais escuras que seus cabelos quase ruivos. Seus olhos brilham, de cor castanho-avermelhada. Quando fiquei próximo de sua graça, notei que sua pele, embora boa, estava coberta de sardas. Quando sorria, apareciam seus dentes afiados e brancos". No entanto, verificou-se que este testemunho é uma falsificação do início do século XX. Não foram encontrados quaisquer registros de retratos contemporâneos de Joana. O primeiro registro desse tipo data dos anos 1560: um retrato de uma tal "Lady Joana Grey" estava na posse de Isabel de Hardwick (1527–1608), parente distante e boa amiga da família Grey. No final da vida, Hardwick transferiu o retrato para sua neta, Arabella Stuart; em 1601, ele desapareceu definitivamente dos inventários da família. Tentativas de localizar o perdido "retratro de Chatsworth" entre as inúmeras imagens anônimas do século XVII não tiveram sucesso. Algumas dessas pinturas foram identificadas como retratos de Catarina Parr e Maria Neville, Baronesa Dacre, enquanto outras continuam sendo "retratos de desconhecidos". Historiadores do início do século XXI acreditam que nenhum deles pode ser confiavelmente atribuído como "retratro de Joana Grey"; as opiniões sobre qual imagem "poderia ser" o retrato dela variam.
Segundo David Starkey e Leanda de Lisle, a verdadeira imagem de Joana Grey pode ser uma miniatura de Levina Teerlinc na coleção da Universidade Yale. O broche no peito da figura representada, na opinião de Starkey, é um dos objetos transferidos pelo tesouro para Joana em 14 de julho de 1553. O broche é adornado com um ramo de carvalho e flores. Supõe-se que sejam cravos de campo (em inglês: gilliflowers — emblema pessoal de Guilford Dudley, De acordo com Eric Ives, a flor na miniatura não é o cravo de Guilford Dudley, mas uma planta do gênero primula (em inglês: cowslips), e a inscrição "A° XVIII" ("dezoito anos") não pode se referir a Joana, que não viveu nem até os dezessete.
Segundo Ives, as candidatas mais prováveis são três cópias do mesmo retrato de uma mulher vestida conforme a moda dos anos 1550. Stephen Edwards sugere que elas foram feitas a partir do perdido "retratro de Chatsworth". O mais bem estudado é o chamado "Retrato de Streatham" (em inglês: Streatham portrait) dos anos 1590, assinado "Lady Joana" (em inglês: Lady Jayne) e desde 2006 armazenado na National Portrait Gallery. A segunda cópia, exibida pela primeira vez por Ricardo Monckton Milnes, 1.º Barão Houghton em 1866, também é uma cópia de um original desconhecido e está em mãos privadas. O local da terceira cópia, que no século XX pertenceu ao historiador Herbert Norris, é desconhecido. Em todas as três cópias, a mulher está segurando um livro (provavelmente uma lembrança do livro de orações que a verdadeira Joana levou para a forca). Foi levantada a hipótese de que essas pinturas não representem Joana Grey, mas sim Lady Joana Seymour (1541–1561), filha do Lorde Protetor, ou Joana de Montague — mas é totalmente improvável que o interesse por essas mulheres pouco conhecidas tenha perdurado até o final do século XVI.
É possível que seja justamente Joana Grey a figura no chamado "Retrato de Northwick" da coleção de Giles Wontner. Segundo Ives, trata-se de uma cópia do perdido retrato de Joana Grey em tamanho real na coleção de seu contemporâneo João Lumley, 1.º Barão Lumley. Todavia, Edwards acredita que Ives interpretou mal o catálogo de Lumley: o retrato existente e o misterioso original são a mesma pintura; identificar a mulher representada é impossível.
Em fevereiro de 1553, o rei Eduardo adoeceu gravemente, doença que se revelou fatal. Em abril, quando a possibilidade de recuperação ainda não era posta em dúvida, Henrique Grey e o regente João Dudley, por intermédio de Isabel Parr, Marquesa de Northampton, firmaram um acordo de noivado entre Joana Grey e o filho mais novo do regente, Guilford Dudley. A primeira evidência do noivado já consumado data de 24 de abril: nesse dia, os servos de Dudley entregaram presentes de casamento às casas da noiva e da casamenteira. Na mesma ocasião, Henrique Grey organizou o noivado de sua filha do meio com o filho mais velho do Conde de Pembroke. A cerimônia dupla, realizada no Domingo de Pentecostes (Festa do Divino Espírito Santo), em 21 de maio, surpreendeu os embaixadores franceses e italianos pela opulência sem precedentes e pela ostensiva ausência dos enviados imperiais entre os convidados.

Segundo historiadores do século XIX e das três primeiras quartas partes do século XX, o casamento de Joana Grey com Guilford Dudley fazia parte do plano de João Dudley para a tomada do poder no país. O regente, apavorado com a possibilidade da católica Maria ascender ao trono, promoveu o casamento do filho com a protestante Joana Grey e convenceu o rei gravemente enfermo a deserdar Maria e Isabel, nomeando Joana como herdeira. Dudley usou persuasão e ameaças para forçar o Conselho Privado e os magistrados a aprovarem a alteração na linha sucessória, embora não tenha ousado torná-la pública. No final do século XX, estudiosos revisaram substancialmente essa visão. Pesquisas de Wilbur Kitchener Jordan, David Loades, Linda Porter, Leanda de Lisle, Jerri Macintosh e outros autores indicam que Eduardo, entre 1552 e 1553, não era uma marionete nas mãos de Dudley, mas um governante autônomo. Foi o próprio rei quem propôs nomear herdeiros — em detrimento de Maria e Isabel — os ainda não nascidos filhos de Joana Grey. Nessa interpretação, o casamento de Grey e Guilford, realizado antes de o estado de Eduardo se tornar desesperador, não fazia parte de um plano premeditado, mas constituía uma circunstância "favorável" acidental. As primeiras iniciativas para modificar a sucessão foram tomadas por Eduardo e Dudley apenas na primeira década de junho. É provável que, por iniciativa de Dudley, o rei substituísse a expressão "descendentes de Joana Grey" da primeira versão pela formulação "Joana Grey e seus descendentes". Em 11 de junho, já moribundo, Eduardo convocou os juízes para discutir o projeto de testamento; onze dias depois, após Dudley convencer aristocratas, bispos e juízes mediante ameaças e persuasão, o testamento de Eduardo adquiriu força de lei.
A atitude de Joana em relação ao casamento e a Guilford é conhecida apenas por relatos italianos, do núncio Giovanni Commendoni, testemunha da revolta de 1553, e do editor e compilador de Ferrara Girolamo Rosso, que se baseou nos relatórios dos enviados venezianos. Commendoni escreveu que Joana resistiu ao casamento com Guilford, sem mencionar motivos ou formas de resistência. Rosso acrescentou que Joana supostamente pressentia o perigo; o pai a obrigou por ameaças, e a mãe, por súplicas (no período vitoriano, na versão de Agnes Strickland, as ameaças transformaram-se em agressões físicas). É possível que Joana se sentisse vinculada a compromissos anteriores: segundo a rainha Maria, relatada por Simon Renard, Joana fora anteriormente prometida a um suposto "discípulo do bispo de Winchester". A identidade desse pretendente permanece incerta; talvez fosse Eduardo Seymour, filho do condenado Eduardo Seymour, 1.º Conde de Hertford, pupilo do Marquês de Winchester.
Quase nada se sabe sobre Guilford Dudley, que era apenas um ou dois anos mais velho que Joana; sua única carta (uma nota fúnebre no livro de orações de Joana) foi preservada na versão de Richard Grafton. A curta vida conjugal do casal é descrita de forma contraditória nas fontes. Segundo o embaixador imperial, em junho os cônjuges viviam separados, supostamente devido à "juventude imatura" do marido. De acordo com Commendoni, a vida em comum começou antes da proclamação de Joana como rainha; relato semelhante, também de autores italianos, consta da confissão da própria Joana. Em meados de junho, após duas ou três noites com Guilford, ela teria se recolhido a uma casa de campo em Chelsea sob o pretexto de "intoxicação" e permanecido lá até 9 de julho. Foi ali, na terceira semana de junho, que Joana soube pela sogra da mudança na linha de sucessão. Segundo Joana, ela ficou preocupada, mas não deu muita importância à notícia., provavelmente acreditando que a sogra apenas manipulava-a em um conflito familiar
O rei Eduardo VI faleceu por volta das nove horas da noite de 6 de julho de 1553. Roberto Dudley, enviado por seu pai para prender Maria, chegou atrasado: a princesa perseguida havia fugido antecipadamente de sua residência campestre e já cavalgava rumo às suas propriedades em Norfolk. No dia 8 de julho, Maria, estando fora do alcance da família Dudley, deu início ao plano previamente arquitetado para um levante armado. Já em Londres, o interregno persistia: antes de proclamar Joana como rainha, era necessário convencê-la a aceitar a coroa.

De uma carta de Joana a Maria, escrita enquanto Joana estava presa na Torre e preservada em traduções italianas, sabe-se que em 9 de julho Maria Sidney, filha de João Dudley, levou até Chelsea uma ordem do Conselho Privado para que Joana fosse imediatamente à Casa Sion — o palácio suburbano de Eduardo Seymour — a fim de "receber aquilo que havia sido designado pelo rei". Quando o barco transportando as mulheres chegou pelo rio Tâmisa ao destino, o palácio ainda em construção estava vazio. Somente algum tempo depois apareceram João Dudley e os altos dignitários Francisco Hastings, Guilherme Herbert, Guilherme Parr e Henrique Fitzalan João Dudley informou Joana de que o rei havia morrido e que, por vontade dele, Joana deveria aceitar a coroa. Após sua recusa inicial, Dudley envolveu na negociação Francisca Grey, Joana Dudley e Ana Parr; depois de outra recusa, Henrique Grey e Guilford Dudley também foram chamados. Por fim, sob pressão dos pais e do marido, Joana concordou.

Em 10 de julho, o Conselho Privado proclamou publicamente Joana como rainha. Joana, junto com seu marido e pais, foi solenemente conduzida de barco até a Torre, onde já haviam sido providenciados aposentos reais temporários. Enquanto percorriam o rio, o Conselho recebeu o primeiro ultimato de Maria. A ameaça acelerou os passos do partido Dudley: ao final do dia, o Conselho elaborou e publicou uma proclamação em nome de Joana. O número desses editais, assinados por Joana ao longo de nove dias, sugere que ela assumiu a autoridade conscientemente e não se afastou dela, como muitas narrativas do século XIX alegaram. Diferente de Maria, que evitava proclamações religiosas, Joana dirigiu-se ao povo com posicionamento protestante explícito e acusou sua rival de pretender trazer o papado de volta à Inglaterra. A população de Londres permaneceu indiferente, enquanto a do leste da Inglaterra começava a se reunir sob a bandeira de Maria. Dois dias depois, segundo Commendoni, ocorreu o primeiro confronto entre Joana e a facção Dudley. O Lorde Tesoureiro Guilherme Paulet, ao entregar a coroa na Torre, mencionou precipitadamente que também seria preciso fazer uma coroa para Guilford. Joana, não pretendendo dividir o trono com o marido, opôs-se veementemente, provocando a ira da duquesa de Northumberland. A percepção de Joana sobre Guilford mudou irrevogavelmente: ela percebeu que ele estava ciente dos planos desde o início, mas o protocolo da corte a manteve no ostracismo. Herbert e Fitzalan conseguiram conter o escândalo, mas sem mudar a situação: Joana, isolada na Torre e sem os meios para exercer poder real, permaneceu prisioneira de João Dudley e de seus aliados.
Em 12 de julho, a situação de Joana e da família Dudley atingiu ponto crítico. João Dudley, até então subestimando Maria como ameaça, iniciou frenética recrutação de mercenários para operação militar; em Bradgate, a casa de Joana, tropas do tio Jorge Medley se posicionavam. A motivação de Dudley em liderar pessoalmente a expedição, deixando Londres ao encargo de Henrique Grey, permanece debatida: algumas fontes dizem que Joana exigiu que o pai comandasse, outras dizem que ela se opôs a isso. Dudley era reconhecido como um dos mais capazes líderes militares do reino e contava com o apoio total de Joana. Em 14 de julho ele partiu para a campanha; no mesmo dia, a frota enviada à costa de Norfolk se rebelou. Segundo seus contemporâneos, esse evento marcou o início do colapso do partido Dudley. Os nobres que haviam firmado lealdade a Joana foram abandonando a causa, tanto no leste da Inglaterra quanto nos bastidores da facção Dudley. À medida que as notícias chegavam a Londres, o Conselho Privado tornava-se cada vez mais vacilante em apoiar Joana. Em 17 de julho, Joana, desconfiando dos conselheiros, assumiu pessoalmente o controle da guarda da Torre; no dia seguinte, anunciou o recrutamento de tropas próprias. O comando haveria de ficar com "nossos fieles e amados primos", os condes Fitzalan e Herbert, que deveriam reunir forças na fronteira com o País de Gales e marchar pelo oeste contra os rebeldes da região do Tâmisa. Joana ainda não sabia que no mesmo dia Dudley abandonara o confronto com os rebeldes e retrocedera rumo a Cambridge, enquanto os "amados primos" articulavam secretamente em Londres para favorecer Maria.
Em 19 de julho, Herbert, com o apoio do Conselho Privado e da Corporação da Cidade de Londres, proclamou Maria como rainha. Os londrinos saudaram o golpe, e nenhum antigo apoiador de Joana lançou-se em sua defesa. Consciente do equilíbrio de forças, Henrique Grey ordenou que a guarda da Torre depusesse as armas; os guardas, por sua vez, forçaram‑no a jurar fidelidade a Maria. Coube ao pai informar à filha que ela havia sido deposta. Após isso, ele partiu apressadamente a pedir clemência a Herbert, enquanto os guardas receberam ordens de prender Joana, Guilford, a duquesa de Northumberland e todos os seus acompanhantes. Sem deixar a Torre, a ex‑rainha permaneceu prisioneira. João Dudley, informado da virada, cessou sua resistência e se rendeu à misericórdia dos vencedores.
Nas primeiras semanas do governo, a ira de Maria foi dirigida exclusivamente contra a família Dudley e só em segundo lugar contra Joana e os funcionários de Londres, não tanto pela tentativa de usurpação do poder, mas pelas proclamações insultuosas sobre sua "ilegitimidade". Ela não tinha intenção de perseguir os Grey: Henrique Grey, conduzido à Torre em 27 de julho, três dias depois comprou seu perdão por vinte mil libras, e em novembro Maria perdoou até essa dívida. Maria estava disposta a perdoar Joana também, mas em cena entraram os embaixadores de Carlos V, João Scheyve e Simão Renard, que exigiam sangue. Sob sua influência, a rainha manteve Joana sob custódia e em 12 de agosto assinou o ato acusando-a de traição ao Estado, o que no século XVI significava sentença de morte inevitável. Contudo, Maria não pretendia executar a sentença e buscava ativamente maneiras de libertar Joana que agradassem tanto os embaixadores imperiais quanto a sociedade inglesa, onde predominava a opinião da inocência de Joana e da misericórdia de Maria. De fato, dos envolvidos na crise de 1553, foram executados apenas João Dudley, João Gates e Tomás Palmer; a maioria dos seus apoiadores, para desgosto de Renard, recebeu apenas sanções financeiras (em inglês: composition). No final de agosto, restava na Torre apenas um punhado de prisioneiros.

O regime de prisão de Joana na Torre foi relativamente brando. Ela vivia confortavelmente na casa do comandante, acompanhada por seus criados e familiares, mantinha correspondência, recebia visitantes em liberdade e conversava livremente com eles sobre religião e política, embora estivesse proibida de sair para passear até meados de dezembro. Dez anos após sua morte, formou-se entre os protestantes a lenda de que Joana foi executada grávida: supostamente teria concebido Guilford durante o cativeiro. Na realidade, o casal esteve separado, Joana só podia ver Guilford pela janela da cela. O evangelista radical Rowland Lee, que visitou a Torre em 29 de agosto de 1553, escreveu que Joana estava confiante em ser logo perdoada. Ela desprezava os Dudley por terem abraçado o catolicismo, não escondia sua hostilidade à contrarreforma e pretendia resistir à restauração do rito latino, mesmo que isso custasse a sua vida.
O julgamento de Joana, Guilford, seus irmãos Ambrose e Henrique e do arcebispo reformador Tomás Cranmer ocorreu em 13 de novembro, presidido pelo fervoroso católico Ricardo Morgan. A condenação de Joana e dos Dudley foi mera formalidade legal (todos já haviam perdido direitos civis e políticos e não negaram a culpa); o objetivo principal do julgamento era punir Cranmer. Todos os acusados, como esperado, foram condenados à morte: os homens ao enforcamento, esquartejamento e destruição; Joana, a queima viva ou decapitação, a critério da rainha.
O processo de Jane Grey coincidiu com o início da crise política que culminou na Rebelião de Wyatt e na morte de Jane e seu pai. Em meados de novembro de 1553, o equilíbrio político do Estado foi abalado pelo debate sobre o casamento da rainha: Maria inclinava-se a casar-se com o rei espanhol Filipe, um candidato cuja sociedade inglesa não concordava. Maria rejeitou petições da nobreza e da Câmara dos Comuns, enquanto aumentava a pressão contra os protestantes. Em dezembro, surgiu uma conspiração entre parlamentares protestantes. Os conspiradores planejavam iniciar a revolta na Páscoa de 1554 em quatro condados; a insurreição em Leicestershire seria liderada por Henrique Grey. As ações de Renard e do bispo Gardiner, que suspeitavam da conspiração, provocaram a antecipação do levante. Henrique Grey fugiu para Coventry para recrutar tropas rebeldes, mas tanto o povo quanto os nobres locais recusaram apoio. Em 2 de fevereiro, ele foi preso escondido, segundo Renard, em um oco de um enorme carvalho perto de Astley Hall. As ações de Tomás Wyatt, o Jovem foram mais bem-sucedidas: em 29 de janeiro, ele derrotou uma tropa governamental e, por um caminho indireto, levou seu exército até as muralhas da Cidade de Londres. Lá, em 7 de fevereiro, suas tropas foram dispersadas pelas forças governamentais sob o comando de Guilherme Herbert.
As proclamações governamentais elaboradas pelo Conselho Privado durante a revolta afirmavam que o objetivo dos rebeldes era elevar ao trono Guilford e Joana Grey. É possível que os magnatas quisessem difamar os insurgentes, associando‑os ao impopular regime Dudley; ou que tentassem manipular Maria para eliminar fisicamente a família Grey. A decisão final de eliminar Joana foi tomada pela rainha no auge da rebelião de Wyatt. Fontes católicas e protestantes do século XVI afirmam que Maria agiu sob pressão de Gardiner, Renard e agentes do Papa Júlio III; seus motivos reais permaneceram ocultos.
A execução foi marcada para 9 de fevereiro de 1554, mas o pregador João Feckenham, designado para ouvir a confissão de Joana, obteve um adiamento de três dias, com o objetivo de reconvertê-la ao catolicismo. Joana, já resignada quanto ao seu destino, recusou-se a ceder. Em 12 de fevereiro, Guilford foi o primeiro a ser executado no Torre Hill, seguido por Joana no pátio interno da Torre. Antes de ser levada ao cadafalso, ela escreveu em seu livro de orações sua última carta — uma dedicatória ao comandante da Torre, concluída com as palavras:
| “ | Como disse o Pregador, há tempo para nascer, e tempo para morrer, e o dia da morte é melhor que o dia do nascimento. Vosso amigo, Deus sabe.
— Joana Grey |
” |
Em seu discurso final aos poucos presentes, ela admitiu a acusação, mas negou a culpa. Nos momentos finais, segundo Commedoni, ela perdeu a orientação e não conseguiu encontrar o cadafalso sozinha; nenhum dos acompanhantes ousou aproximar-se, e ela foi conduzida por uma pessoa comum da multidão.

A execução fez de Joana a primeira mártir protestante da Inglaterra. e gerou uma onda de literatura hagiográfica, bastante distante da realidade histórica. As primeiras edições das cartas de Joana, secretamente impressas na Inglaterra, surgiram logo após a execução; depois, à medida que as repressões aumentaram, a edição mudou-se para o continente, e após a morte de Maria, voltou para a terra natal. Quase todas as cartas de Joana chegaram até nós apenas em reimpressões do século XVI, às vezes em tradução reversa do italiano. Uma rara exceção são os originais de suas cartas para Henrique Bullinger, que estão guardadas na Biblioteca Central de Zurique.
Em 1563 o cronista João Foxe publicou em seu Livro dos Mártires a primeira biografia detalhada de Joana com a inclusão de suas cartas mais importantes. Nas obras de Foxe e Holinshed a principal característica de Joana é a firmeza inabalável em questões de fé. Logo, não mais tarde que 1570, o fluxo de literatura sobre Jane secou: Por um lado, os editores já haviam saturado o mercado, por outro o catolicismo não era mais considerado a principal ameaça, e por fim o papel de "primeira mártir" passou para a viva Isabel I da Inglaterra. Depois que Foxe formulou essa doutrina, colocar Joana ao lado de Isabel tornou-se impróprio e lembrar da família Grey perigoso. Catarina e Maria Grey ainda reivindicavam a sucessão ao trono; o advogado João Hales, que ousou lembrar isso à rainha, foi preso e passou dois anos na Torre. No final do reinado de Isabel os editores só podiam publicar abertamente duas das muitas dezenas de cartas de Joana.
O interesse por Joana renasceu na primeira metade do século XVII, no início de uma nova onda da reforma da Igreja Anglicana. Em 1615, 1629 e 1636 as cartas e diálogos de Joana com Feckenham foram novamente impressos; durante a Revolução Inglesa e a Restauração Stuart eles definitivamente entraram no círculo comum da leitura protestante.

A imagem literária secular de Joana como sofredora e vítima já se formava nos tempos dos Tudor. O primeiro poema preservado sobre Joana, escrito poucos meses após sua execução, foi feito por George Cavendish. No início do reinado de Isabel, o tema do martírio de Joana Grey foi continuado por autores anônimos de gravuras populares em inglês e por poetas da alta sociedade que escreviam em latim. Seguindo a propaganda oficial, ambos abertamente condenavam Maria e seu círculo. O autor anônimo de uma proclamação de 1562 comparava os eventos de julho de 1553 à traição de Judas. O poeta clássico da corte Thomas Chaloner escreveu que a morte prematura de Maria era um castigo divino não tanto por sua hipocrisia na fé, mas por sua insensibilidade para com a nobre mulher.: "Não deveria a dama, outrora tão culta, ter se compadecido de outra tão culta quanto Joana?"
O tema do amor de Joana por Guilford surge pela primeira vez nas Cartas Heróicas sobre a Inglaterra de Michael Drayton (1597). Drayton, como seus predecessores, exaltava Isabel e difamava Maria, mas o tema principal de suas Cartas de Joana e Guildford eram os sentimentos de amantes inexperientes à beira da morte:
| “ | Adeus, querido Guilford, o fim está próximo Nosso destino é o céu, na terra somos estrangeiros |
” |
O mesmo motivo predominava na primeira peça sobre Joana e Guilford, que não foi preservada, escrita por um grupo de autores em 1602. Cinco anos depois, John Webster e Thomas Dekker a adaptaram para A História de Sir Tomás Wyatt. No século seguinte, o tema do amor de Joana e Guilford foi desenvolvido por Edward Young (1715) e Nicholas Rowe (1714); na tragédia de Rowe surge pela primeira vez um fantástico triângulo amoroso, entre Joana, Guilford e Pembroke.
Nas obras de poetas, historiadores e publicistas dos séculos XVII e XVIII, Joana era o ideal absoluto de beleza e moralidade. Já em 1630 John Hayward em História do Reinado de Henrique VI chamou Joana de "uma mulher de raríssima e incomparável perfeição … adornada com todas as virtudes conhecidas como um céu claro cheio de estrelas… ".
Moralistas do século XVIII exploravam a imagem de Joana como esposa ideal; no teatro de Dublin o fantasma de Joana assombrava os maridos infiéis. George Keate, que publicou em 1757 um modelo usado para compor obras desse tipo, admitia: "duvido se fiz justiça suficiente ao caráter desta virtuosa dama; mas espero, ao menos, não ter me afastado da natureza em nenhum sentimento atribuído a ela". No início do século XIX o interesse por Joana resurgiu e se consolidou na literatura moralizante para crianças, adolescentes e jovens mulheres.
Em 1791, no limiar do século romântico, o editor de romances góticos, Willliam Lane, publicou em Londres o romance epistolar Lady Joana Grey — o primeiro de uma série de numerosos romances sobre Joana e Guilford. As imagens de Joana na literatura do século XIX seguem um dos três padrões: heroína romântica, vítima romântica ou dona de casa ideal. A heroína romântica predominou na década de 1830: os mercados da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos foram inundados por obras abertamente fictícias e por vezes fantásticas. Um destaque na reescrita da história foi William Harrison Ainsworth, que em 1840 publicou o romance A Torre de Londres com ilustrações de George Cruikshank. Depois, em meados do século, o tema do amor cedeu totalmente espaço para o heroísmo sacrificial. Escritores de todos os gêneros e tendências exploraram a lenda da "perfeição incomparável" de Joana, que se tornou um modelo de dona de casa da era vitoriana e heroína do nascente protofeminismo. Até a historiadora séria Agnes Strickland escreveu em 1868: "Lady Joana Grey é, sem dúvida, a mais nobre representante da linhagem real Tudor, dotada de todas as virtudes…" "imaculada, parecida com uma santa, Lady Joana".
Autores dos séculos XX e XXI, principalmente dos países de língua inglesa, continuam a escrever sobre Joana, mas sob outra perspectiva: a grande maioria se interessa pela psicologia da personalidade de Joana ou pelas circunstâncias de sua morte; por exemplo, Joana é a protagonista do romance histórico da escritora e historiadora britânica Alison Weir intitulado Trono e Cadafalso da Lady Joana.
A difusão de retratos "artísticos", tanto pintados quanto gravados, de Joana Grey, tanto na Inglaterra quanto na Europa continental, data do início do século XVII. Na primeira metade do século XVIII, graças aos editores e ilustradores de peças teatrais populares e da crônica de Foxe, os retratos estáticos foram sendo gradualmente substituídos por cenas de gênero da vida de Joana. Por volta de 1760, com a ascensão do classicismo inglês, essas imagens deram lugar ao "grande gênero" da pintura histórica moralizante, mas somente nas décadas de 1820 o imaginário em torno de Joana tornou-se verdadeiramente popular. Em cinquenta anos (1827–1877), apenas na Academia Real de Artes de Londres foram exibidas 24 novas telas sobre a tragédia de Joana.

Entre os temas acadêmicos da época estão: Joana Grey e Rogério Ascham (em inglês: Lady Jane Grey and Roger Aschamm), de Henri Fradelle (1825), de John Horsley (1853) e de outros artistas que reproduziram ou reinterpretaram esse modelo temático; Joana Grey Persuadida a Aceitar a Coroa (em inglês: Lady Jane Grey Prevailed on to Accept the Crown), de Charles Leslie (1827), Interrogatório de Joana pelo Bispo Gardiner na Torre Beauchamp (em inglês: Bishop Gardiner's Conference with Jane in the Beauchamp Tower), de Cruikshank (1840), e George Folingsby (1871); Encontro de Feckenham com Lady Joana Grey na Torre (em inglês: Fecknam's interview with Lady Jane Grey in the Tower), de James Northcote (1792);) e o final da tragédia – Execução de Joana Grey (em inglês: The Execution of Lady Jane Grey), de Paul Delaroche (1833), exibida pela primeira vez em 1834, e de George Flagg (1833). Flagg, norte-americano e desconhecedor da história dos Tudor, inicialmente pretendia pintar a execução de Maria Stuart, mas mudou a protagonista para Joana ao descobrir que Maria, em 1587, já era idosa e pouco atraente para a representação artística.
A moda em torno de Joana atingiu seu ápice em 1855, com a inauguração da primeira etapa da reconstrução do Palácio de Westminster: Joana foi incluída no "panteão" oficial de doze Tudor representados em baixo-relevos na Câmara dos Lordes. Uma "série limitada" de xelins de c. 1553, com o retrato de Joana, foi emitida pelo falsificador Edward Emery. Tal como na literatura, a essa altura a imagem de Joana havia perdido seu heroísmo romântico e se adaptado às exigências da crescente burguesia (segundo os historiadores do século XXI, da classe média). É provável, sugere Rosemary Mitchell, que seja por essa razão que os retratos de Joana da década de 1850 passem a incluir, sem precedentes, instrumentos musicais, materiais de costura e ampulhetas — símbolos de autocontrole e de um ritmo de vida ordenado.
Na segunda metade do século XIX, com o declínio do interesse pela pintura acadêmica, cessou o fluxo de novas obras. O original de Execução de Joana Grey, de Delaroche, que fora considerado a melhor representação de Joana Grey, foi dado como perdido pela Galeria Tate após a enchente de 1928. Na realidade, a pintura "desaparecida", que não despertava interesse nem do público nem dos estudiosos, permaneceu por quase cinquenta anos esquecida num ateliê de restauração. O curador da Galeria Nacional de Londres, que expôs a obra restaurada em 1975, afirmou que "a única coisa que Delaroche pode oferecer de interessante à nossa geração é a questão de por que ele foi tão popular em sua época". No entanto, Execução de Joana Grey inesperadamente voltou a atrair o público e passou a ocupar um lugar permanente no centro da coleção.

Joana, como personagem secundária, aparece em diversas séries ambientadas no período Tudor e adaptações de O Príncipe e o Mendigo (em inglês: The Prince and the Pauper) de Mark Twain; como protagonista de um longa-metragem, contudo, ela só teve esse papel em três ocasiões ao longo da história do cinema. Todos os três filmes foram produzidos e lançados no Reino Unido.
Em 1923, foi lançado o filme mudo de 39 minutos Lady Joana Grey, ou A Corte da Intriga (em inglês: Lady Jane Grey/The Court of Intrigue), pertencente a uma série de baixo orçamento sobre "as grandes mulheres do mundo". O diretor Edwin Greenwood confiou o papel de Joana à atriz de 21 anos Nina Vanna (de origem iugoslava. Nesta obra, Joana é retratada tanto como vítima inocente quanto como uma pregadora protestante; João Dudley é representado como um vilão absoluto, e Maria como uma mulher hesitante, mas não mal-intencionada. O filme foi filmado em interiores "históricos", com tons sombrios e uma montagem peculiar e enérgica.
Em 1936, estreou o longa-metragem de 80 minutos Tudor Rose, dirigido por Robert Stevenson, que recebeu o título Nine Days a Queen nos Estados Unidos. A jovem Nova Pilbeam, então com 16 anos, interpretou Joana, enquanto John Mills (28 anos) viveu o papel de Guilford. Ao contrário do modelo do gênero, Os Amores de Henrique VIII (em inglês: The Private Life of Henry VIII) de Alexander Korda (1933), o filme de Stevenson foi produzido com uma abordagem intimista e contida. Seu tema principal foi o conflito entre a vontade pessoal e a necessidade política. Maria, interpretada por Gwen Ffrangcon-Davies, afirma: "Posso sentir compaixão, mas não tenho o direito de perdoar" (em inglês: Though I may pity, I can show no mercy). Tudor Rose recebeu o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review e o prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Veneza; Nova Pilbeam foi eleita a atriz mais popular do Reino Unido pelas revistas Film Weekly e Picturegoer. O filme revelou-se oportuno: logo após sua estreia, o Reino Unido enfrentou a crise constitucional da abdicação de Eduardo VIII, que culminou na ascensão do novo rei.
O terceiro filme, Lady Jane, dirigido por Trevor Nunn e estrelado por Helena Bonham Carter (1986), é uma história romântica completamente fictícia. Os principais eventos desse enredo prolongado ocorrem durante o cativeiro na Torre de Londres. Por decisão dos roteiristas, tanto Joana quanto Guilford são retratados como jovens reformadores, "ativistas sociais" do século XVI. Joana foi concebida, nas palavras do consultor histórico do filme, como "uma feminista proto-socialista, uma mistura de Robin Hood e Beatrice Webb. Os personagens secundários também se distanciam significativamente de seus modelos históricos: a família Grey é mostrada como católica, e Francisca Grey como a principal vilã. Maria executa Joana não por crueldade, mas para não ser separada de Filipe.
Na série do canal Starz, Becoming Elizabeth, (2022), Joana Grey foi interpretada por Bella Ramsey. Já na série de 2024, Minha Lady Jane, é apresentada uma versão alternativa do reinado de Joana Grey, interpretada por Emily Bader.
| Joana Grey Casa de Grey 1536 ou 1537 – 12 de fevereiro de 1554 | ||
|---|---|---|
| Precedida por Eduardo VI |
Rainha da Inglaterra e Irlanda (disputado) 10 de julho de 1553 – 19 de julho de 1554 |
Sucedida por Maria I |