Crioulo da Guiné-Bissau

Crioulo da Guiné-Bissau

Kriyol (kriol), guinensi (ginensi)

Pronúncia:[kriˈjol] / [ɡiˈnẽ.si]
Outros nomes:Crioulo bissau-guineense
Falado(a) em: Guiné-Bissau, Senegal, Gâmbia
Região: Alta Guiné
Total de falantes: c. 1 milhão (2009)
Família: Línguas crioulas
 Crioulos portugueses
  Crioulos afro-portugueses
   Crioulos da Alta-Guiné
    Crioulo da Guiné-Bissau
Escrita: Alfabeto latino
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---
ISO 639-3: cpp
Glottolog: uppe1455
Guinea-Bissau_CIA_map_PL

O crioulo da Guiné-Bissau (em crioulo: kriyol, AFI: [kriˈjol]), também conhecido como crioulo bissau-guineense ou guineense, é uma língua crioula de base portuguesa falada principalmente na Guiné-Bissau, em comunidades migrantes no Gâmbia e no sul do Senegal, na cidade de Ziguinchor, onde é conhecido como crioulo de Casamansa. Constitui a língua franca da Guiné-Bissau, sendo utilizada por cerca de 60% da população como meio principal de comunicação. Em 2009, estimava-se que aproximadamente 70% das pessoas o utilizavam como primeira ou segunda língua no país, enquanto apenas 15% na zona rural e 46% na zona urbana falava o português.

A língua pertence ao grupo dos Crioulos da Alta-Guiné, juntamente com o crioulo de Casamansa (considerado dialeto do crioulo da Guiné-Bissau) e crioulo de Cabo Verde. Seu nome nativo é geralmente registrado como kriol ou kriyol, podendo também aparecer como ginensi ou guinensi, já que não há uma ortografia fixa. Seu vocabulário deriva majoritariamente do português, mas também apresenta grandes influências estruturais do wolof e do mandinka, bem como, em menor nível, de fula, biafada, nyun, mankanya, balanta, diola e pepel.

Há três principais variedades dialetais: Bissau–Bolama, Bafatá e Cacheu–Ziguinchor, esta última falada também na região senegalesa da Casamansa e marcada por influência adicional do francês. Dessas variedades, o Bissau-Bolama é o mais influente no país, por ser a variedade da capital (Bissau). Apesar de amplamente falado, a língua ainda não possui estatuto oficial. Entretanto, já houveram projetos de elevá-la à língua oficial da Guiné-Bissau (junto ao português).

O guineense utiliza o alfabeto latino, mas não apresenta uma ortografia única padronizada, apesar de propostas existentes desde a década de 1980. Do ponto de vista linguístico, mantém a ordem básica Sujeito-Verbo-Objeto (SVO) e apresenta características fonológicas e morfológicas próprias, como a tendência de correspondência de /e/ e /o/ do português para /i/ e /u/ em guineense. Além disso, seus verbos são classificados em dinâmicos ou estativos, tendo cada um desses seus próprios modos de indicar os tempos verbais.

Etimologia

O nome crioulo da Guiné-Bissau é um exônimo em língua portuguesa, formado a partir do substantivo crioulo, usado historicamente para designar línguas surgidas em contextos coloniais de contato entre povos europeus e africanos, e do topônimo Guiné-Bissau, país onde a língua é majoritariamente falada.

Entre os endônimos, os falantes nativos utilizam principalmente as formas kriol (ou kriyol), que representam adaptações do termo, em português, “crioulo” ao sistema da própria língua. Outro endônimo registrado é ginensi (ou guinensi), termo que significa literalmente “guineense”, formado a partir do topônimo Guiné, mais o sufixo de gentílico da língua.

Distribuição

O guineense é falado principalmente na Guiné-Bissau, onde funciona como língua franca nacional, e no sul do Senegal, sobretudo na região da Casamansa (Ziguinchor). Também é utilizado por comunidades migrantes na Gâmbia e por membros da diáspora guineense em países europeus, especialmente Portugal, França e Espanha. Na Guiné-Bissau, a língua está presente tanto em áreas urbanas quanto rurais, sendo o meio de comunicação comum entre as diferentes etnias do país, que apresentam diferentes línguas entre si. As estimativas indicam mais de 800 mil usuários do guineense na Guiné-Bissau entre falantes nativos e de segunda língua, além de cerca de 47 mil falantes nativos no Senegal

Dialetos

Atualmente, o guineense apresenta três variantes dialetais, sendo eles: Bissau-Bolama, Batafá e Cacheu-Ziguinchor. Hoje, a primeira é a mais difundida na Guiné-Bissau, já que é a variante da capital (Bissau). Já no Senegal, a variante mais difundida é a Cacheu-Ziguinchor, também conhecida como crioulo de Casamansa, que tem influência do francês.

Línguas relacionadas

O guineense é uma língua crioula de base portuguesa pertencente à família dos crioulos da Alta Guiné. Essas línguas foram derivadas do Protocrioulo Potuguês da Alta Guiné (Proto-UGPC) que se desenvolveu desde a colonização portuguesa na região. O crioulo da Guiné-bissau e de Casamansa são continentais, enquanto o crioulo cabo-verdiano e seus dialetos são falados nas ilhas de Cabo-Verde. Há também o papiamento, que é um crioulo de base portuguesa-espanhola, falado atualmente na região do Caribe, mas que a maioria dos linguistas acreditam que se originou na Alta Guiné, devido suas semelhanças ao guineense.

Proto-UGPC
Crioulo de Cabo-Verde
Crioulos de Sotavento
 

Crioulo da Brava

 
 

Crioulo do Fogo

 
 

Crioulo de Santiago

 
 

Crioulo do Maio

 
 
Crioulos de Barlavento
 

Crioulo da Boa Vista

 
 

Crioulo da Ilha do Sal

 
 

Crioulo de São Nicolau

 
 

Crioulo de São Vicente

 
 

Crioulo de Santo Antão

 
 
 
Crioulos Continentais
 

Crioulo da Guiné-Bissau

 
 

Crioulo de Casamansa

 
 
 

Papiamento

 
 

Tendo isso em vista, abaixo segue uma tabela que compara vocabulários entre alguns desses crioulos:

Comparação entre alguns crioulos da Alta Guiné
Português Crioulo da Guiné-Bissau Papiamento Crioulo de Cabo Verde
Bom DiaBon diaBon diaBon dia
ObrigadoObrigaduDankiObrigadu
Como vai?Kuma ku bu ta bai?Con ta bai?Módi ki bu sa ta bai?
Muito bomI bon dimásHopi bonSabi dimás
Eu estou bemN' sta dirituMi ta bonN sta dretu
Eu, Eu SouAmi, ami iMi, Mi ta(A)Mi, Mi e
Tenha um bom diaPasa un bon diaPasa un bon diaPasa un bon dia
Vejo você depois, Até logoN' ta odja dipusTe aworoN ta odjâ-u dipôs
ComidaBianda; KumidaCumindaKumida
PãoPonPanPon
Suco, Refresco, SumoSumuRefrescoSumu

História

História da língua

Ainda não há consenso sobre a formação inicial do guineense. Parte dos linguístas defende uma origem continental, associada diretamente ao contato entre portugueses e populações africanas no litoral da atual Guiné-Bissau outras propostas apontam para uma origem insular, ocorrida na ilha de Cabo Verde, sendo essa proposta mais aceita. De acordo com essa segunda hipótese, um protocrioulo de base portuguesa da Alta Guiné (Proto-UGPC) teria surgido entre o final do século XV e o início do século XVI em Santiago (Cabo-Verde), sendo posteriormente levado ao continente por cabo-verdianos que se estabeleceram na região de Cacheu no final do século XVI. Isso teria produzido um “efeito fundador”, responsável pela difusão da língua, a partir da qual se desenvolveriam as variedades atuais.

O contexto desse processo foi marcado pelo contato intenso entre navegadores portugueses e povos africanos falantes de diversas línguas. O primeiro europeu a alcançar a costa da região foi o navegador português Nuno Tristão, em 1446. A partir daí, foram criadas feitorias e, mais tarde, povoações permanentes, como Cacheu, que se tornaram centros de comércio. Antes da presença europeia, grande parte do território integrava o Reino de Gabu, ligado ao Império do Mali, e era habitada por grupos como balantas, fulas e mandingas, cujas línguas exerceram influência estrutural no crioulo formado.

Durante séculos serviu como a principal língua de comunicação cotidiana entre grupos étnicos distintos, enquanto o português permanecia restrito à administração colonial, à Igreja e a uma pequena elite letrada. Ao longo do tempo, o guineense expandiu-se geograficamente, alcançando áreas como Bissau, Geba e Ziguinchor, e desenvolvendo variedades regionais.

História da documentação

A presença do guineense em registros escritos é recente quando comparada à longa tradição oral da língua. Durante séculos, o guineense foi transmitido predominantemente por meio da oralidade, em narrativas, canções, provérbios e performances culturais, enquanto o português ocupava o espaço quase exclusivo da escrita formal. Apenas no século XX começaram a surgir, textos literários e registros que incorporam o guineense como meio de expressão.

Os primeiros textos de autoria guineense que incluem o guineense passaram a aparecer com maior visibilidade entre as décadas de 1920 e 1930, frequentemente em publicações com forte inspiração na paisagem, na vida cotidiana e na experiência colonial. Um marco inicial é o conto “Amor e trabalho”, de James Pinto Bull, publicado em 1952 no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, frequentemente citado como um dos primeiros contos guineenses a registrar o uso literário da língua.

Em relação a prosa, o romance Eterna Paixão (1994), de Abdulai Silla, é considerado um marco na literatura guineense contemporânea, sendo amplamente reconhecido como o primeiro romance publicado por um autor da Guiné-Bissau. Apesar disso, a obra foi escrita em português.

A poesia em crioulo também ganhou espaço a partir da década de 1990. Um exemplo importante é o livro "Kebur – Barkafon di poesia na kriol", publicado em 1996 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP). Desde então, observa-se a ampliação de produções literárias, bem como o surgimento de registros em áudio, vídeo e meios digitais, incluindo músicas, programas de rádio, redes sociais e plataformas online, que contribuem para a documentação e circulação da língua.

Fonologia

Consoantes

O sistema consonantal do guineense apresenta um inventário relativamente estável, composto por fonemas que, em grande parte, correspondem a consoantes também presentes no português, língua que fornece a maior parcela do léxico do idioma. Ao mesmo tempo, o sistema reflete influências de línguas africanas da região, tanto em aspectos fonéticos quanto fonológicos. A seguir, apresenta-se a tabela de consoantes do guineense, organizada segundo o Alfabeto Fonético Internacional (AFI).

Quadro de consoantes do guineense
BilabialLabiodentalAlveolarPós-alveolarPalatalVelar
Plosiva p       b t       d k       g
Nasal          m          n          ɲ          ŋ
Tepe ou flepe          ɾ
Fricativa f       v s       z ʃ       ʒ
Aproximante          j          w
Aproximante lateral          l          ʎ

Vogais

O sistema vocálico do guineense tem sido objeto de debate na linguística, especialmente no que se refere ao número e ao estatuto fonológico das vogais médias. Há consenso quanto à existência das vogais altas /i, u/ e da vogal baixa /a/, enquanto divergências permanecem acerca da distinção entre vogais médias-altas e médias-baixas. Alguns estudos propõem a presença de apenas um grau de abertura para as vogais médias, enquanto outros defendem a oposição fonológica entre /e, o/ e /ɛ, ɔ/. Diante dessa variação de análises, adota-se aqui a descrição mais abrangente, conforme apresentado na tabela a seguir.

Quadro de vogais do guineense
↓ Altura
AnteriorPosterior
Fechada i                 u
Semifechada e                 o
Semiaberta ɛ                 ɔ
Aberta a        

Ortografia

A ortografia do guineense utiliza o alfabeto latino, e ocorre da esquerda para a direita, e, em geral, cada grafema corresponde a um fonema específico, ainda que haja algumas variações. A tabela a seguir apresenta os grafemas do guineense, seus respectivos fonemas no Alfabeto Fonético Internacional (AFI), exemplos em guineense e aproximações em português brasileiro quando possível, se não, as aproximações se fazem em inglês.

Ortografia do guineense
Grafema Fonema (AFI) Exemplo (guineense) Aproximação (pt/en)
p p pape pai
b b batata batata
t t tiu tatu
d d dana dado
k k kusa coisa
g g géra gato
m m mamé mãe
n n nóbu novo
nh ɲ nha nhoque
n’ ŋ N' singer (en)
f f fatu fato
v v vivi viver
s s séku seco
z z izami exame
x ʃ xa chá
j ʒ béju beijo
tx tʃ txuba tchau
dj ʤ djuda badge (en)
l l libru livro
lh ʎ bilha lhama
r ɾ rema caro
w w waga wine (en)
y j yagu yes (en)
i i misa missa
e e sera cera
é ɛ séra pé
a a kala calar
ó ɔ bóta bota
o o bota botar
u u puspus tudo

Gramática

Artigos

O guineense não apresenta distinção de artigos definidos e indefinidos como há no do português. Em línguas como o inglês e o português a distinção entre artigos definidos e indefinidos é relacionada com a introdução de informações novas e a introdução de informações já pressupostas. Em guineense, por sua vez, substantivos aparecem sem qualquer determinante, caso sejam uma informação pressuposta (o que em português requereria um artigo definido). Já se forem uma informação nova, faz-se necessário, como no português, o uso do artigo indefinido. Seguem os exemplos abaixo:

  • N' kumpra libru (1SG.PPe comprar livro) - Eu comprei o livro
  • N' kumpra un libru (1SG.PPe comprar INDF livro) - Eu comprei um livro

Nota-se que não há flexão de número nem gênero, sendo guineense a única partícula responsável pelo artigo indefinido. Entretanto, na maioria dos casos essa partícula não é usada, mesmo para informações novas, sendo o contexto o principal indicador de substantivos definidos ou indefinidos. Ex:

  • N' kumpra libru (1SG.PPe comprar livro) - Eu comprei o/os/um/uns livro(s)

Nesse caso, como não há contexto, não é possível para determinar propriamente a definição ou indefinição do substantivo.

Pronomes

Pronomes pessoais

Os pronomes pessoais do guineense podem ser divididos em duas categorias principais: os pronomes não argumentais (Não-A) e argumentais (Arg). De maneira simples, os Não-Arg são pronomes fortes, uma forma enfática usada para dar destaque, não sendo usados sozinhos como sujeito (salvo algumas exceções). Já os Arg, são pronomes fracos que podem ser usados como sujeito (nominativo), objeto de um verbo (objetivo) ou objeto de uma preposição (oblíquo). Ex:

  • N' ta papia kriol (1SG.PPe PRS falar guineense)
  • Ami, n' ta papia kriol (1SG.PPe 1SG.PPe PRS falar guineense)

No primeiro exemplo, usa-se somente o pronome n', que faz a função do sujeito da frase. Em português: Eu falo crioulo. Já no segundo exemplo, o pronome n' segue sendo o sujeito, mas o pronome ami exerce ênfase nele. Em português: Eu mesmo falo crioulo/Eu é que falo crioulo. Nota-se que, mesmo quando há o ami na frase, o n' faz-se necessário. Abaixo segue uma tabela que lista os pronomes pessoais da língua e exemplos com cada caso:

Pronomes pessoais do guineense
Caso gramatical Singular Plural
1a SG 2a SG 3a SG 1a PL 2a PL 3a PL
Não-Arg ami abo el anos abos elis
Arg Nominativo n' bu i no bo e
Objetivo n' u l no bo elis
Oblíquo mi bo el nos bos elis
  • Abo, bu kumpra sumu (2SG.PPe 2SG.PPe comprar suco) - Você mesmo comprou suco/Você é que comprou o suco
  • I kume kumida (3SG.PPe comer comida) - Ele(a) comeu comida
  • Nha pape kumpra no kumida (1SG.PPo pai comprar 1PL.PPe comida) - Meu pai comprou-nos comida
  • N' kumpra kumida pa bos (1SG.PPe comprar comida para 2PL.PPe) - Eu comprei comida para vocês

Pronomes possessivos

Em relação aos pronomes possessivos, o guineense apresenta dois tipos, os pronomes possessivos adnominais e os predicativos. Os adnominais precedem o substantivo, enquanto os predicativos funcionam como predicativo da frase, tendo um verbo de ligação entre o substantivo e o pronome. Ex:

  • Nha karru (1SG.PPo carro) - Meu carro
  • Karru i dimi (carro ser 1SG.PPo) - O carro é meu

Abaixo segue uma tabela listando esses pronomes:

Pronomes possessivos do guineense
Caso gramatical Singular Plural
1a SG 2a SG 3a SG 1a PL 2a PL 3a PL
Adnominal nha bu si no bo se
Predicativo dimi dibo disil dinos dibos diselis

Pronomes demonstrativos

Nos pronomes relativos, há a diferenciação de perto e longe, bem como flexão no singular e no plural. Abaixo segue uma tabela listando-os e exemplos utilizando-os:

Pronomes demonstrativos do guineense
Singular Plural
Perto Longe Perto Longe
es kil esis kilis
  • Es katcur i ka dimi (esse cachorro ser NEG 1SG.PPo) - Esse cachorro não é meu
  • Kil i ka baka i lyon (aquilo ser NEG vaca ser leão) - Aquilo não é uma vaca, é um leão
  • Esis i dus kusas mas importanti (esses ser dois coisas mais importante) - Essas são as duas coisas mais importantes
  • Kilis i nha ermons (aqueles ser 1SG.PPo irmãos) - Aqueles são os meu irmãos

Também há variações destes pronomes, as quais não flexionam entre plural e singular. Es e essis podem ser ditos como e, enquanto kil e kilis podem ser ditos como ki. Além disso, os advérbios li (aqui) e la (lá) são frequentemente usados em conjunto com esses pronomes. Ex:

  • Es katcur li (esse cachorro aqui) - Esse cachorro aqui/Esse cachorro
  • Kil katcur la (aquele cachorro lá) - Aquele cachorro lá/Aquele cachorro

É importante ressaltar que li pode ser ligado com e, es e esis e la com ki, kil e kilis, mas não o contrário, visto que es...la ou kil...li geraria uma contradição entre perto e longe.

Pronomes interrogativos

O guineense apresenta quatro diferentes pronomes interrogativos. Abaixo eles estão listados junto de suas respectivas traduções para o português:

  • kal - qual, quais
  • kantu - quanto(a)(s)
  • bakin - quem
  • ke - (o) que

Nota-se que não há flexão de número nem gênero.

Pronomes relativos

O guineense apresenta quatro diferentes pronomes relativos. Abaixo eles estão listados junto de suas respectivas traduções para o português:

  • ke - que
  • ki/ku - quem
  • nde - onde
  • kal - o(a) qual(is)
  • kantu - quanto(a)(s)

Nota-se que também não há flexão de número nem gênero.

Pronomes indefinidos

Abaixo estão listados pronomes indefinidos do guineense junto de suas respectivas traduções para o português. Nota-se que também não há flexão de número nem gênero.

  • algun - algum(a)
  • nin un - nenhum(ns)/nenhuma(s)
  • tudu - todo(a)(s)/tudo
  • utru/utur - outro(a)(s)
  • mutu - muito(a)(s)
  • puku - pouco(a)(s)
  • sertu - certo(a)(s)
  • tantu - tanto
  • kantu - quanto(a)(s)
  • kalker/kualker - qualquer
  • algin - alguém
  • kada algin/kadaun - cada um
  • kadakin/kadakual - cada qual
  • ningin - ninguém
  • nada/nin pliu/nin tus - nada
  • cada - kada

Substantivos

Gênero

A distinção de gênero, como feminino ou masculino, não possui força nesse idioma. A maioria dos substantivos não possui distinção de gênero, tendo, nos poucos casos dessa distinção, a possibilidade do gênero ser delimitado por um adjetivo. Ex:

  • Nha ermon-matcu - Meu irmão (masculino)
  • Nha ermon-femia - Minha irmã

Número

Há mais de um princípio de marcação de plural no guineense. O princípio de marcação 1 consiste na adição do "s" ao fim das palavras, de maneira bem parecida com o que ocorre no português. Nesse caso, não há nenhum outro quantificador na frase, logo, há a marcação do número no substantivo. Ex:

  • Sapatus altus i bonitu sin (sapato+PL alto+PL ser bonito demais) - Saltos altos são bonitos demais

Já o princípio de marcação 2 consiste na ausência de flexão, que ocorre quando já há um quantificador que indica o plural na frase. Ex:

  • Kil omi ten manga di mindjer (aquele homem ter muito de mulher) - Aquele homem tem muitas mulheres

Verbos

Os verbos em guineense não flexionam entre os diferentes pronomes pessoais. Abaixo segue uma tabela exemplificando com o verbo sta (estar) e o verbo trabadja (trabalhar):

Singular Plural
1a SG 2a SG 3a SG 1a PL 2a PL 3a PL
Sta n' sta bu sta i sta no sta bo sta e sta
Trabadja n' trabadja bu trabadja i trabadja no trabadja bo trabadja e trabadja

Além disso, os verbos são divididos em duas classes: Os verbos dinâmicos e os verbos estativos. Abaixo há uma explicação sobre o que os caracteriza e como cada um deles é flexionado em diferentes tempos verbais.

Verbos dinâmicos

1. Passado perfectivo

Os verbos dinâmicos expressam eventos ou ações, tais como comprar, ler, ir, observar etc. A forma não marcada desses verbos gera uma interpretação de passado perfectivo, logo, um passado no qual a ação ocorreu por inteira; já teve fim. Ex:

  • N' kumpra un libru (1SG.PPe comprar INDF livro) - Eu comprei um livro

2. Imperfectivo habitual

Para expressar o aspecto imperfectivo, o guineense apresenta duas partículas pré-verbais: o ta e o na. O ta indica o imperfectivo habitual, podendo indicar tanto ações presentes recorrentes como isoladas, porém não progressivas. Ex:

  • N' ta kumpra libru (1SG.PPe HAB comprar livro) - Eu compro livros/Eu costumo comprar livros

3. Imperfectivo progressivo

A partícula na, por sua vez, indica o imperfectivo progressivo, ações que estão acontecendo no presente. Ex:

  • N' na kumpra un libru (1SG.PPe PROG comprar INDF livro) - Eu estou comprando um livro

4. Pretérito mais-que-perfeito

Há também a partícula pós-verbal ba, que indica o pretérito mais-que-perfeito. Ex:

  • N' kumpra ba un libru (1SG.PPe comprar PAS INDF livro) - Eu tinha comprado um livro

5. Futuro

Já o futuro, é expresso de maneira composta com o uso do verbo bai (ir), como também pode ocorrer no português. Ex:

  • N' ta bai kumpra un libru (1SG.PPe HAB ir comprar INDF livro) - Eu vou comprar um livro

Verbos estativos

1. Presente

Os verbos estativos expressam estado, tais como ser, estar, ter etc. A forma não marcada desses verbos gera uma interpretação de presente. Ex:

  • N' sta drito (1SG.PPe estar direito) - Eu estou bem

2. Pretérito perfeito/imperfeito

A partícula pós-verbal ba também pode ser usada nos verbos estativos, mas diferente dos verbos dinâmicos, nos verbos estativos o ba indica pretérito perfeito/imperfeito. Ex:

  • N' sta ba drito (1SG.PPe estar PAS direito) - Eu estava bem/Eu estive bem
  • I tene ba katcur (3SG.PPe ter PAS cachorro) - Ele tinha um cachorro/Ele teve um cachorro

3. Futuro

O futuro, assim como nos verbos dinâmicos, é expresso de maneira composta com o uso do verbo bai (ir), como também pode ocorrer no português. Ex:

  • N' ta bai fika na nha kasa (1SG.PPe HAB ir ficar na 1SG.PPo casa) - Eu vou ficar na minha casa

Sentenças

Sendo um crioulo de base portuguesa, o guineense apresenta a ordem canônica SVO (sujeito–verbo–objeto), a mesma presente no português. Em relação ao alinhamento morfossintático, ele é geralmente descrito como nominativo-acusativo, também semelhante ao do português. Assim, os pronomes pessoais usados como sujeito de verbos intransitivos são os mesmos que funcionam como agentes de verbos transitivos, enquanto o objeto não recebe uma marcação morfológica distinta nos substantivos. Desse modo, como ocorre em outras línguas crioulas atlânticas, as relações sintáticas são indicadas principalmente pela ordem das palavras e pelo uso de partículas funcionais, e não por um sistema desenvolvido de casos gramaticais.. Ex:

  • Bu ta papia purtugis (2SG.PPe HAB falar português) - Você fala português

Já em relação à negação frásica, esta é feita com o uso da partícula pré-verbal ka, a qual aparece antes do verbo e antes de outras possíveis partículas pré-verbais. Ex:

  • No ka sta drito (1PL.PPe NEG estar direito) - Nós não estamos bem
  • E ka na trabadja (3PL.PPe NEG PROG trabalhar) - Eles não estão trabalhando

Vocabulário

Textos em guineense

Declaração Universal dos Direitos Humanos

A seguir está o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos em guineense, com sua respectiva tradução para o português.

Guineense Português
Artigu 1.

Tudu pekaduris ta padidu libri i igual na balur suma na diritus. Suma e dadu kapasidadi di pensa, e tene tambi konsiensia, e dibi di trata nutru suma ermons.

Artigo 1.

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

Poesia

Segue abaixo o poema "Kebur" presente na obra "Kebur - Barkafon di poesia na kriol" e sua tradução para o português:

Guineense* Português
Kebur


Ku no mons preña di fomi

korson kingitidu di dur

na ñeñu-ñeñu pa no dia di amaña

no paranta ku fe

No seta mara korson

pa mata flemas

no toma larmas di no kasabi

no fasi tchuba

no seta sedu mudu

pa iagu kirianu na boka

pa no pudi regua no balur

aonti no paranta

aos no kebra

kebur di aos

i pa paranta amaña

Colheita



Com as mãos cheias de fome

o coração enrijecido de dor

lutamos pelo amanhã

plantamos fé

fechamos o coração

para acabar com o torpor

tiramos lágrimas de nossos sofrimento

produzimos chuva

ficamos mudos

para dar água na boca

para regar nosso valor

ontem plantamos

hoje colhemos

colheita de hoje

para plantar amanhã

  • Uso da grafia antiga, de 1987

Frases Básicas

Algumas frases básicas em guineense são:

Guineense Pronúncia Português
Bon dia /ˈbõ ˈdia/ Bom dia
Bo tardi /ˈbo ˈtaɾdi/ Boa tarde
Bo noti /ˈbo ˈnoti/ Boa noite
Te logu /ˈte ˈlɔgu/ Até logo
Sin /ˈsin/ Sim
Ka /ˈka/ Não
Obrigadu /obriˈgadu/ Obrigado
Diskulpa /disˈkulpa/ Desculpa
Kuma ku bu sta? /ˈkuma ku bu ˈsta/ Como você está?
N' sta drito /ŋ ˈsta ˈdrito/ Eu estou bem
Kuma ki bu nomi? /ˈkuma ki bu ˈnomi/ Como você se chama?
Nha nomi i... /ɲa ˈnomi i/ Meu nome é...
Abo i di nundé? /aˈbo i di nunˈdɛ/ De onde você é?
Ami i brasileru /aˈmi i bɾaziˈleɾu/ Eu sou brasileiro
Bu ta papia purtugis? /bu ta ˈpapia purtuˈgis/ Você fala português?
N' ka ta papia kriol /ŋ ka ta ˈpapia kriˈol/ Eu não falo guineense

Numerais

No guineense, os números se fazem a partir de uma adaptação direta dos números em português para o sistema da língua. Abaixo, estão apresentados os numerais cardinais e ordinais da língua.

Numerais cardinais

De 0 a 10:

  • 0 - zeru 
  • 1 - un 
  • 2 - dus 
  • 3 - tris 
  • 4 - kuatru 
  • 5 - sinku 
  • 6 - seis 
  • 7 - seti 
  • 8 - oitu 
  • 9 - novi
  • 10 - des

De 11 a 19:

  • 11 - onzi
  • 12 - dozi
  • 13 - trezi
  • 14 - katorzi
  • 15 - kinzi
  • 16 - disaseis
  • 17 - disaseti
  • 18 - disaoitu
  • 19 - disanovi

Dezenas de 20 a 90:

  • 20 - vinti
  • 30 - trinta 
  • 40 - korenta
  • 50 - sinkuenta
  • 60 - sesenta
  • 70 - setenta
  • 80 - oitenta 
  • 90 - noventa

Centenas de 100 a 1000:

  • 100 - sen
  • 200 - duzentus
  • 300 - trizentus
  • 400 - kuatrusentus
  • 500 - kinhentus
  • 600 - seisentus
  • 800 - oitusentus
  • 900 - novesentus
  • 1000 - mil

Para números combinados, a formação é lógica e regular:

  • 25 - vinti i sinku (20 + 5)
  • 38 - trinta i oitu (30 + 8)
  • 167 - sentu i sesenta i seti (100 + 60 + 7)
  • 2054 - dus mil i sinkuenta i kuatru (2000 + 50 + 4)

Numerais ordinais

Do 1º ao 10º:

  • 1º - purmeru
  • 2º - segundu
  • 3º - terseru
  • 4º - kuarto
  • 5º - kintu
  • 6º - sestu
  • 7º - setimu
  • 8º - oitavu
  • 9º - nonu
  • 10º - desimu

Vocabulários Específicos

Estão listados abaixo vocabulários de temas específicos, em guineense, relacionados ao cotidiano.

Família (Familia)

Abaixo estão listados vocabulários relacionados à família em guineense:

  • Familia → família
  • Parenti → parente
  • Dona → avós e tios-avós
  • Pape → pai
  • Mame → mãe
  • Kumpanher, maridu, spozu → marido
  • Kumpanher, mindjer, spoza → esposa
  • Kumbosa → designação às várias mulheres de um mesmo marido
  • Donakasa → primeira mulher de um marido poligâmico ou mulher mais influente da casa
  • Kaza-dus → segunda mulher de um marido ou amante de um marido monogâmico
  • Amadur, amante, namoradu → namorado
  • Amada, amiga, mosa, garina, namorada → namorada
  • Noibu → noivo
  • Noiba → noiva
  • Kriansa → criança
  • Netu → neto
  • Neta → neta
  • Fidju → filho(a)
  • Ermon,ermon-matcu → irmão
  • Ermon-femia → irmã
  • Ermon-garandi → irmão mais velho
  • Ermonsinhu → irmão mais novo
  • Djemiu → gêmeo
  • Tiu → tio
  • Tia → tia
  • Primu → primo(a)
  • Kunhadu → sogro(a),genro, nora, cunhado(a)

Referências

  1. ↑ «Guinea-Bissau Creole». Ethnologue. Consultado em 9 de março de 2026
  2. ↑ Silva 2017, pp. 3–5.
  3. 1 2 Mendes, Etoal (2018). «Experiências de ensino bilíngue em Bubaque, Guiné-Bissau. Línguas e saberes locais na educação escolar.» (PDF). Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil). Consultado em 9 de dezembro de 2018
  4. ↑ (www.dw.com), Deutsche Welle, Guiné-Bissau lançará plano para tornar o crioulo língua oficial | DW | 30.01.2020, consultado em 16 de fevereiro de 2026
  5. ↑ Ciberdúvidas/ISCTE-IUL. «Crioulos». Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Consultado em 9 de março de 2026
  6. ↑ Djaló, p. 2.
  7. 1 2 3 4 5 Letras Debate UFMG (2 de outubro de 2024), Ginensi, o crioulo da Guiné-Bissau: uma introdução, consultado em 16 de fevereiro de 2026
  8. ↑ Aruba 2017, pp. 2-72.
  9. ↑ «Dicionário Caboverdiano Português On-Line». Wayback Machine. Consultado em 9 de março de 2026
  10. ↑ Geografia Irada Com Prof. Marcelo (26 de outubro de 2020), SEGUNDA BISSAU - ORIGEM DA LÍNGUA CRIOULA, consultado em 28 de fevereiro de 2026
  11. 1 2 Serra, Lílian; de Carvalho, Wellington (8 de fevereiro de 2023). «A literatura da Guiné-Bissau»
  12. 1 2 Silva 2023, p. 27.
  13. 1 2 Silva 2023, p. 30.
  14. ↑ «British English Pronunciations». Oxford English Dictionary. Consultado em 9 de março de 2026
  15. ↑ Silva 2023, p. 52.
  16. ↑ «Língua portuguesa: artigo definido e indefinido - Portal de Educação do Instituto Claro». Portal de Educação do Instituto Claro. Consultado em 28 de fevereiro de 2026
  17. ↑ Kihm 1994, pp. 135-140.
  18. 1 2 3 Kihm 1994, pp. 150–168.
  19. ↑ Olhar Por Além (5 de abril de 2020), Aula - 3 - Pronomes e prefixos pessoais em criolo da Guine-Bissau, consultado em 25 de fevereiro de 2026
  20. 1 2 Olhar Por Além (16 de setembro de 2020), Aula Criolo mês, semana, pronomes possessivos e exercício de aplicação, consultado em 26 de fevereiro de 2026
  21. 1 2 Kihm 1994, pp. 140-141.
  22. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Scantamburlo, pp. 39–674.
  23. 1 2 Kihm 1994, pp. 132–135.
  24. 1 2 Olhar Por Além (10 de abril de 2020), Aula - 5 - regra da conjugação de verbos em criolo (presente), consultado em 19 de fevereiro de 2026
  25. ↑ Declaração Universal dos Direitos Humanos em Crioulo Guineense
  26. ↑ Couto 2008, p. 91.
  27. ↑ Scantamburlo, p. 18.
  28. ↑ Olhar Por Além (3 de maio de 2020), Aula 7 - A forma negativa em criolo., consultado em 19 de fevereiro de 2026
  29. ↑ Repat Bissau (12 de março de 2023), Créole/Kriol Leçon 1: Presentation, consultado em 19 de fevereiro de 2026

Bibliografia