A Leopoldis-Som foi uma empresa cinematográfica gaúcha localizada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ela foi fundada na década de 1920 por Italo Victor Emmanuel Majeroni e funcionou até 1981.
Somando longas-metragens de ficção, curtas-metragens documentais e propagandas, a filmografia da Leopoldis-Som chegou a cerca de mil títulos. O acervo ainda existente pertence, atualmente, ao Museu do Trabalho, em Porto Alegre.
Entre a década de 1920 e o início dos anos 1980, a Leopoldis-Som produziu filmes que registraram a vida e a história do Rio Grande do Sul. O poder público foi o principal cliente da empresa, que produziu muitos filmes institucionais, especialmente de obras públicas, para o governo estadual e suas secretarias, órgãos e departamentos, como o Daer, a CEEE e a Brigada Militar. Além disso, atendeu empresas como a Varig, filmando chegadas e partidas em aeroportos, e personalidades políticas. Registrou, também, festas e eventos.
Chamou-se Leopoldis-Film na fase do cinema mudo, até 1937. Depois, do início do período sonoro até 1961, foi Leopoldis-Som Produtora Cinematográfica Brasileira. Por fim, foi a Cinegráfica Leopoldis-Som.
Italo Majeroni nasceu em Nápoles, na Itália, em 1888, em uma família de artistas. Seus avós e pais eram atores e os tios e irmãos eram mágicos, ilusionistas ou hipnotizadores. Aos 12 anos já se apresentava com seus parentes. Viajou por diversos países da Europa e da América do Sul, como o Brasil, integrando a companhia de seu irmão.
Adotou o pseudônimo Leopoldis em homenagem ao seu ídolo, o transformista italiano Leopoldo Fregoli (1867-1936), o “grande Fregoli”. Por sentir que não estava ainda à altura de Fregoli, escolheu assinar como “Il Piccolo Fregoli” (“O pequeno Fregoli”).
Em 1915, em uma das temporadas no Brasil, passando por Recife, Majeroni teve seu primeiro contato com o cinema, que o encantou. Naquele ano, montou um laboratório na capital pernambucana, produzindo ao menos duas edições do cinejornal Pernambuco-Jornal ou Atualidades Pernambucanas, entre 1915 e 1917. No Rio de Janeiro, em 1916, participou como ator do longa dramático mudo Vivo ou morto, de Luiz de Barros.
A data de sua primeira vinda a Porto Alegre é incerta, variando entre diferentes fontes. Pode ter sido em 1912, apresentando-se no Theatro São Pedro, ou em 1915, estreando no Cinema Avenida. Apresentou-se, ainda, em 1918, como The Great Leopoldis, no Peti Casino e no Orion. Na década de 1920, estabeleceu-se na capital gaúcha. Em Porto Alegre, abriu um laboratório nas margens do rio Guaíba, na avenida Praia de Belas, 1.066. Não há informações conclusivas sobre a data exata. Em 1924, porém, ele já estava em atividade, tendo filmado as obras do cais de Porto Alegre sob encomenda do presidente do Estado, Borges de Medeiros. Suas primeiras obras fora documentais.
Durante o período do cinema mudo, a empresa se chamou Leopoldis-Film. Nessa época, era utilizado o sistema vitafone, em que uma vitrola tocava a parte sonora enquanto o filme era projetado.
Não há registros de outras obras da Leopoldis nos anos 1920. O próximo título sobrevivente, apesar de só restarem fragmentos, é o longa documental A revolução de 3 de outubro, de 1930.
No início das atividades da empresa, Majeroni fazia, sozinho, quase todas as etapas da produção dos filmes: roteiro, filmagem, legendas e montagem. Na década de 1930, a empresa iniciou a produção do Atualidades Gaúchas, repetindo a ideia que já havia executado em Recife. A data de lançamento é incerta, possivelmente ocorrendo entre 1932 e 1942, quando há um registro de Certificado de Censura Federal para o programa. O cinejornal era exibido junto a longas estrangeiros nos cinemas gaúchos. Na fase muda, estima-se, foram pouco mais de 20 programas. No período sonoro, entre 1942 e 1979, somam-se 477 episódios, com 10 minutos cada e uma média de cinco assuntos em cada, totalizando mais de 2 mil temas abordados.
Com a chegada do sistema movietone ao Brasil, em 1935, passou a ser necessário enviar os filmes para estúdios em São Paulo, onde o som era gravado em película, o que tornava o processo demorado e caro. Para evitar o problema, Majeroni fabricou um gravador de áudio usando um torno mecânico para produzir as peças de precisão.
O primeiro filme lançado com o novo sistema foi A Festa da Uva de 1937, também o primeiro sonoro produzido no Rio Grande do Sul. Com as inovações, Majeroni decidiu mudar o nome da empresa para Leopoldis-Som Produtora Cinematográfica Brasileira, em 1937.
Majeroni fabricou diversos equipamentos próprios, contando com a ajuda do amigo Erni Peixoto, engenheiro da Varig.
A partir de 1937, Majeroni contou com o auxílio de Fleury Bianchi, que foi corresponsável pela fotografia de vários trabalhos.
Na década de 1940, Derly Martinez ingressa na empresa. Com 14 anos, já fazia iluminação e câmera nos filmes. Em menos de dez anos, passou por todas as funções até tornar-se sócio.
Em 1940, a Leopoldis-Som filmou a primeira Exposição Estadual de Animais e Produtos Derivados, que posteriormente viria a se chamar Expointer. No ano seguinte, registrou a enchente em Porto Alegre.
Na década de 1950, Fleury assume, junto de Majeroni, a presidência da empresa. Com ele, a produção da Leopoldis-Som vai se intensificar, exigindo que se aumentasse a equipe.
Foi nesses anos que foi criada a série Mostrando o Rio Grande. Com a chegada da televisão, a empresa começou a produzir publicidade.
Em 1961, a empresa passa a se chamar Cinegráfica Leopoldis-Som. Nessa década, entrou no mercado de longas-metragens de ficção. A primeira obra foi Coração de Luto (1967), do músico Teixeirinha. Para este filme, a Leopoldis-Som precisou alugar equipamentos que não possuía.
Coração de Luto marcou o início do “Ciclo da Bombacha e Chimarrão” no cinema gaúcho, obtendo sucesso em todo o país. O diretor, Eduardo Llorente, era espanhol e estava radicado no Brasil desde os anos 1950, tendo experiência com o “Cinema Caipira” que estava em alta naquele momento.
Seguiram-se, então, adentrando a década de 1970, as produções Pára, Pedro! (1969), Não aperta Aparício (1970), Janjão não dispara... foge! (1970) e O amor em quatro tempos (1970), sem repetir o sucesso do primeiro filme.
Em 1965, um incêndio destruiu a maioria da produção anterior a 1961. O material, em boa parte feito do altamente inflamável nitrato, estava armazenado no depósito da empresa, na rua Gonçalves Dias, bairro Menino Deus.
A Leopoldis-Som adentrou os anos 1970 envolvida em problemas financeiros. Os filmes não rendiam dinheiro e a televisão estava tomando o lugar dos cinejornais. Além disso, Majeroni faleceu em 21 de fevereiro de 1974.
A Leopoldis-Som fechou em 1981, quando contava ainda somente com Fleury Bianchi e alguns funcionários na empresa.
O destino do acervo da Leopoldis-Som, após alguns anos desde o encerramento das atividades da empresa, é incerto. Em 1986, no entanto, o que restava foi comprado pelo Museu do Trabalho, de Porto Alegre, por 15 mil cruzeiros.
A negociação começou no Chalé da Praça XV, na Praça da Alfândega, entre o fundador e diretor do Museu, Marcos Flávio Soares, e Fleury Bianchi. Após as tratativas junto ao outro sócio ainda vivo à época e de mudanças do local de arquivamento, o Museu incorporou a coleção da Leopoldis-Som ao seu acervo.
Além dos filmes, o material incluía equipamentos, como câmeras, e documentos como roteiros e folhas com descrição dos planos filmados.
As peças chegaram em péssimo estado de conservação devido à falta de cuidado durante vários anos. Nesse tempo entre o encerramento das atividades da empresa e a incorporação ao acervo do Museu do Trabalho, possivelmente muito do material se perdeu, inclusive algumas filmadoras. Ainda assim, foi possível exibir grande parte do acervo no Festival de Cinema de Gramado.
Em 2001, o Museu firmou parceria com a RBS TV para conservar e documentar adequadamente os filmes. Foram contabilizados 477 edições do cinejornal Atualidades Gaúchas, 380 documentários de curta-metragem, três longas-metragens de documentário e cinco longas-metragens de ficção. Em torno de mil rolos foram copiados em película 35mm e telecinados para fitas Betacam.
Alguns filmes de nitrato estão guardados na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, fazendo parte do Projeto Nitratos que, desde 2023, conserva, cataloga e digitaliza filmes feitos desse material.
Entre os equipamentos utilizados pela Leopoldis-Som encontram-se: