Os liianitas ou Banu Liiane (em árabe: بنو لحيان; romaniz.: Banū Liḥyān) foram uma tribo árabe do Hejaz e um dos dois principais ramos dos hudailitas, ao lado dos descendentes de Sade ibne Hudail. Segundo a genealogia árabe tradicional, descendiam de Liiane, filho de Hudail, e pertenciam, por intermédio de Modar, Nizar, Maade e Adenane, ao conjunto das tribos adenanitas. Algumas tradições também os relacionaram aos antigos jurumitas, embora essa identificação seja considerada problemática e a relação entre os liianitas conhecidos pelas fontes islâmicas e populações mais antigas de mesmo nome permaneça incerta. Estabelecidos em parte do território montanhoso dos hudailitas entre Meca, Taife e Gidá, os liianitas permaneceram estreitamente integrados ao restante da tribo e, no período imediatamente anterior ao Islã, estiveram sob forte influência política dos coraixitas.
Participaram dos conflitos intertribais da Arábia pré-islâmica e aparecem nas tradições em confrontos com hauazinitas, cuzaaítas e outros grupos. Na religião árabe pré-islâmica, cabia-lhes a guarda de Suá, principal divindade cultuada pelos hudailitas. Durante o conflito entre Maomé e os coraixitas, os liianitas estiveram entre seus adversários. Após a Batalha de Uude, seu chefe Calide ibne Sufiane preparou uma ofensiva contra Medina, mas foi morto por Abedalá ibne Unais. Sua morte contribuiu para o episódio de Arraji, no qual uma missão enviada por Maomé foi emboscada por combatentes liianitas, e posteriormente motivou uma expedição muçulmana contra a tribo, que terminou sem combate após os liianitas se refugiarem nas montanhas. Com a Conquista de Meca e a submissão dos hudailitas, os liianitas aderiram ao Islã e deixaram de aparecer nas fontes como uma unidade política com história independente.
Segundo a tradição genealógica árabe, os liianitas descendiam de Liiane, filho de Hudail, ancestral epônimo dos hudailitas. A linhagem tradicional faz remontar sua ascendência a Adenane por meio da seguinte sucessão: Liiane ibne Hudail ibne Mudrica ibne Ilias ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Os liianitas constituíam um dos dois principais ramos dos hudailitas, juntamente com os descendentes de Sade ibne Hudail. A relação entre essa genealogia e os liianitas conhecidos em períodos mais antigos é, contudo, incerta. Della Vida observa que não é possível determinar, devido à completa ausência de documentação, quando ou de que maneira os liianitas passaram à posição em que aparecem no século VI, integrados aos hudailitas e estabelecidos numa região consideravelmente ao sul de sua antiga área de origem e a nordeste de Meca. Algumas tradições muçulmanas afirmavam que os liianitas eram remanescentes dos jurumitas, posteriormente integrados aos hudailitas, mas essa explicação não esclarece sua origem.
Ahmet Önkal igualmente considera incorreta a identificação dos liianitas da época de Maomé como descendentes dos jurumitas. As fontes genealógicas também preservam a divisão interna dos descendentes de Liiane. Ibne Hasme atribui-lhe dois filhos, Tabica e Dabiga, dos quais descendiam diferentes ramos dos liianitas. Entre os descendentes de Dabiga menciona Almuabique, cujo nome era Sacre ibne Ubaide ibne Alharite, e seu filho Salama, enquanto entre os descendentes de Tabica figuravam Uçama ibne Omeir, companheiro de Maomé, seu filho Abu Almali, conhecido como tradicionalista, e Abu Quilaba Alharite ibne Saçaa, a quem Ibne Hasme apresenta como o primeiro dos poetas hudailitas. Uma tradição genealógica mais extensa, atribuída por Albaladuri a Ibne Alcalbi, acrescenta um terceiro filho de Liiane, Moáuia, e atribui a Tabica três filhos, Hinde, Cabe e Taur, dos quais descendiam diferentes linhagens tabicaítas.
Os liianitas ocupavam parte do território tradicional dos hudailitas na região montanhosa do Hejaz, entre Meca, Taife e Gidá. Os domínios hudailitas abrangiam também os vales de Naquelate Axâmia e Naquelate Iamânia, ambos partes de Nacla, na direção de Medina. No período imediatamente anterior ao advento do Islã, os liianitas parecem não ter constituído uma unidade politicamente independente dos demais hudailitas, sendo mencionados separadamente pelas fontes apenas em algumas ocasiões. Como os demais hudailitas, encontravam-se sob a influência política dos coraixitas, circunstância que contribuiu para sua posição contrária a Maomé durante o conflito entre este e os habitantes de Meca. Na religião árabe pré-islâmica, os liianitas eram responsáveis pela guarda do ídolo Suá, divindade venerada pelos hudailitas e também por grupos como os quinanaítas, muzainaítas e amiritas. Os liianitas também participaram dos conflitos intertribais da Arábia pré-islâmica. Segundo a tradição, durante a Batalha de Albaube (ou Almulai), um grupo da tribo foi capturado por forças hauazinitas comandadas por Maleque ibne Aufe Anáceri, mas os demais hudailitas perseguiram os atacantes e conseguiram libertar os prisioneiros. Outras tradições preservam lembranças de combates nos quais os liianitas aparecem separadamente dos demais hudailitas, entre eles confrontos com o poeta e guerreiro Taabata Xarrane e com os cuzaaítas.
Após a Batalha de Uude, Calide ibne Sufiane, chefe dos liianitas, iniciou preparativos para atacar Medina, procurando reunir combatentes entre as tribos vizinhas. Informado desses movimentos, Maomé enviou Abedalá ibne Unais, que matou Calide nas proximidades de Uádi Urana, impedindo que a ofensiva fosse realizada. A morte de seu chefe intensificou a hostilidade dos liianitas contra os muçulmanos. Alguns membros da tribo entraram então em entendimento com seus parentes adalitas e caraítas, que se dirigiram a Medina sob o pretexto de solicitar instrutores para ensinar o Islã. O plano consistia em atrair um grupo de muçulmanos para uma emboscada, matar alguns deles em vingança pela morte de Calide e entregar os demais aos coraixitas que desejavam vingar parentes mortos nas batalhas de Badre e Uude. Maomé enviou uma missão cujo número é transmitido de maneira divergente pelas fontes, variando entre seis, sete e dez homens. O grupo acampou junto à fonte de Arraji, em território dos hudailitas, entre Meca e Usfã, onde foi cercado por cerca de cem liianitas. Segundo uma das versões, quatro integrantes da missão foram mortos ao resistirem e três aceitaram render-se após receberem garantia de que seriam poupados. Um deles, Abedalá ibne Tárique, conseguiu posteriormente libertar-se das amarras, mas foi perseguido e morto a pedradas. Os outros dois prisioneiros foram conduzidos a Meca, vendidos aos coraixitas e posteriormente executados.
O episódio, conhecido como Incidente de Arraji, constituiu um dos principais confrontos entre os liianitas e os muçulmanos nos primeiros anos após a Hégira. Posteriormente, Maomé dirigiu pessoalmente uma expedição contra os liianitas. Avisados de sua aproximação, os membros da tribo abandonaram seus assentamentos e refugiaram-se nas montanhas, impedindo que o exército muçulmano os alcançasse. As forças de Maomé permaneceram dois dias na região antes de regressarem a Medina sem que ocorresse combate. Após a vitória de Maomé sobre os coraixitas, os liianitas deixaram de apresentar uma história política independente nas fontes. Della Vida considera provável que tenham participado da submissão geral dos hudailitas ao Islã. Na Conquista de Meca, membros dos hudailitas ainda participaram da resistência contra as tropas comandadas por Calide ibne Alualide, mas a tribo aderiu ao Islã pouco depois. O ídolo Suá, cuja guarda tradicionalmente cabia aos liianitas, foi então destruído por Anre ibne Alas.