Microfundamentos | |
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| Fluxo circular da renda entre famílias, empresas e outros setores da economia. | |
| Campo | Macroeconomia e Microeconomia |
| Unidades estudadas | Agentes econômicos e suas interações |
| Objeto | Relações entre decisões individuais e resultados agregados |
Os microfundamentos são explicações de fenômenos macroeconômicos construídas a partir das decisões e das interações de agentes econômicos, como famílias e empresas. A microeconomia estuda essas decisões individuais, enquanto a macroeconomia examina resultados para o conjunto da economia, como o consumo total e o nível de emprego. A pesquisa sobre microfundamentos procura estabelecer como um nível de análise se relaciona com o outro.
Nos modelos macroeconômicos com microfundamentos, hipóteses sobre o comportamento dos agentes dão origem a relações entre variáveis agregadas, que podem ser confrontadas com dados individuais e da economia como um todo. Esses modelos são usados para estudar mudanças na política econômica, mas a escolha das hipóteses e a passagem das decisões individuais aos resultados agregados são objeto de debate.
Na administração, o estudo dos microfundamentos examina como as ações das pessoas e suas interações afetam as empresas e outras organizações. Essa abordagem também é usada em gestão de operações e de projetos, incluindo pesquisas sobre inovação em grandes empreendimentos.
Os primeiros modelos macroeconômicos, entre eles os keynesianos, partiam de hipóteses sobre relações entre grandezas agregadas, como produção, emprego, consumo e investimento. O debate sobre a compatibilidade dessas relações com o comportamento individual levou à busca de modelos que chegassem às variáveis macroeconômicas a partir das decisões de famílias e empresas. Neles, a agregação reúne as decisões individuais para obter resultados para o conjunto da economia.
As escolhas de consumo e de produção dos agentes entram em modelos de diferentes correntes teóricas para explicar as oscilações da atividade econômica e examinar a política monetária. Suas hipóteses podem ser avaliadas com dados microeconômicos e macroeconômicos, mas a coerência entre os dois níveis não depende apenas da escolha de uma teoria do comportamento individual. Também é necessário especificar como os agentes interagem e como suas decisões são agregadas.
Os modelos de equilíbrio geral dinâmico estocástico, chamados de DSGE pela sigla em inglês, calculam como as decisões dos agentes e os resultados da economia mudam ao longo do tempo diante de acontecimentos incertos. Uma formulação frequente reúne o comportamento de um setor, como o de consumidores, bancos ou empresas, em um agente representativo. Esse agente hipotético escolhe o consumo ou a produção de modo a maximizar a utilidade ou o lucro, dentro das restrições do modelo. Os modelos DSGE são uma forma de construir microfundamentos, mas a pesquisa também abrange agentes com comportamentos diferentes e interações diretas entre eles.
A busca de microfundamentos para a macroeconomia ganhou espaço na síntese neoclássica posterior à Segunda Guerra Mundial, que procurou conciliar a microeconomia neoclássica com a macroeconomia keynesiana. A análise de equilíbrio parcial de Alfred Marshall examinava mercados separadamente, enquanto a teoria do equilíbrio geral de Léon Walras estudava a compatibilidade das decisões nos mercados da economia inteira. As duas abordagens surgiram na revolução marginalista do final do século XIX, e o equilíbrio geral ofereceu um caminho para investigar a economia como um todo a partir das escolhas individuais.
Na hipótese da renda permanente de Milton Friedman, as pessoas escolhem quanto consumir com base na renda que esperam receber ao longo da vida. Um aumento passageiro da renda pode provocar uma elevação menor do consumo do que aquela prevista por uma relação simples entre consumo e renda corrente nos modelos keynesianos. Essa diferença afeta o multiplicador fiscal, cujo resultado depende da propensão marginal a consumir, a parcela de uma renda adicional destinada ao consumo.
As tentativas de medir a propensão marginal a consumir foram acompanhadas por modelos que incorporavam dificuldades de acesso ao crédito e a poupança por precaução, feita diante da incerteza sobre a renda futura. Nessas condições, o consumo pode responder mais a um aumento passageiro da renda do que prevê a hipótese da renda permanente sem essas restrições.
Na década de 1970, a mudança na relação observada entre inflação e desemprego, expressa pela curva de Phillips, alimentou o debate sobre a previsão dos efeitos de políticas econômicas. Na crítica de Lucas, Robert Lucas Jr. argumentou que as relações entre variáveis agregadas podem mudar quando o governo altera sua política, porque os agentes também ajustam suas decisões. Modelos com microfundamentos procuram enfrentar esse problema ao distinguir as respostas às políticas dos parâmetros que governam as escolhas individuais. Sua utilização para comparar políticas depende de que esses parâmetros permaneçam estáveis diante das mudanças examinadas.
Os bancos centrais usam modelos DSGE para analisar a política monetária e elaborar projeções, e o modelo de Smets e Wouters tornou-se uma referência para avaliar políticas monetárias e fiscais. Sua estrutura permite relacionar decisões de consumo e produção com variáveis agregadas, sem depender apenas das correlações observadas nos dados.
A formulação do modelo de Smets e Wouters apresenta três razões para o uso de microfundamentos na análise de políticas econômicas.
As previsões de variáveis isoladas em modelos DSGE podem ter desempenho insatisfatório, e o uso de microfundamentos não garante que um modelo preveja melhor ou avalie corretamente uma mudança de política. Para utilizar esses modelos, é necessário escolher quais mecanismos incluir e confrontar os resultados com os dados.
Na administração e no estudo das organizações, a pesquisa no nível macro examina empresas e organizações, como ocorre na gestão estratégica de empresas e na teoria das organizações. A especialização da pesquisa também separou áreas voltadas às pessoas e aos grupos dentro delas, chamadas de micro, como o comportamento organizacional e a gestão de recursos humanos.
Na gestão estratégica e na teoria das organizações, há desacordo sobre quais comportamentos individuais e interações entre pessoas e grupos devem entrar nas explicações dos resultados de uma organização e como combiná-los.
Na economia, o programa de microfundamentos exige que os modelos de grandezas agregadas tenham fundamentos no comportamento das famílias e das empresas. Na gestão estratégica, essa investigação examina como ações e interações individuais podem explicar diferenças entre empresas, incluindo a maneira como trabalham e os resultados que obtêm.
A pesquisa parte dos indivíduos que formam uma organização e examina as hipóteses necessárias para passar de suas decisões e interações à explicação do funcionamento da organização.
Uma formulação do programa de microfundamentos apoia-se em duas hipóteses sobre a possibilidade de passar do comportamento individual à economia como um todo.
A exigência de microfundamentos também é discutida como uma aplicação do individualismo metodológico, que procura explicar fenômenos sociais a partir das ações individuais. O alcance dessa exigência varia entre uma condição de coerência, na qual as relações macroeconômicas precisam ser compatíveis com o comportamento dos agentes, e uma condição mais forte, na qual essas relações devem ser inteiramente derivadas dele. A escolha entre essas interpretações e a necessidade de reduzir um nível de análise ao outro são pontos de desacordo.
Alan Kirman criticou o uso de um agente representativo para obter resultados macroeconômicos a partir do comportamento de um único indivíduo que maximiza sua utilidade. O teorema de Sonnenschein–Mantel–Debreu estabelece limites à passagem das propriedades das escolhas individuais às propriedades da demanda agregada. Kirman argumentou que a racionalidade de cada agente não basta para atribuir o mesmo comportamento ao conjunto da economia e que a agregação não justifica, de forma geral, substituir pessoas diferentes por um único agente. Defendeu o estudo da atividade agregada que resulta das interações entre indivíduos.
Robert Solow defendia a investigação dos fundamentos microeconômicos, mas não via razão para exigir que essas explicações fossem construídas sobre o equilíbrio geral walrasiano. Comparou a exigência de redução ao nível individual com a de explicar todos os fenômenos das ciências naturais no nível molecular, que não é necessária em toda investigação.
S. Abu Turab Rizvi criticou o programa de microfundamentos baseado na teoria do equilíbrio geral, examinando as dificuldades de obter relações macroeconômicas a partir das hipóteses sobre o comportamento individual. Sua crítica à agregação, assim como a de Kirman, questiona a possibilidade de transportar diretamente propriedades dos agentes para o conjunto da economia.