Minderico

O minderico ou piação dos charales do Ninhou (língua dos habitantes de Minde, Código ISO 639-3 DRC), é a variante linguística falada em Minde desde o século XVIII. Inicialmente esta variante funcionava como código conhecido apenas pelos fabricantes e comerciantes das mantas de Minde. Como era utilizada apenas por um grupo restrito, era até então um sociolecto. Está ameaçado de extinção e tem duas variantes regionais: a de Minde e a de Mira de Aire (este último, menos comum, é por vezes designado calão mirense).

Fruto de uma comunidade isolada, localizada numa depressão fechada entre os Planaltos de Santo António e de São Mamede, em pleno Maciço Calcário Estremenho, o minderico, inicialmente na qualidade de língua secreta, era semelhante a variantes que encontramos noutros grupos e comunidades étnicas específicas espalhadas pelo mundo que usam "termos e expressões de defesa", isto é, palavras e expressões que permitem aos membros dessa comunidade falar entre si sem darem a conhecer o significado dessa comunicação a outros. Porém, o minderico ultrapassou as barreiras do secretismo e alargou-se não só a todos os grupos sociais da comunidade minderica como passou a ser usado em todos os contextos sociais (não só para o negócio). Esta evolução - de língua secreta a língua do quotidiano - não é exclusiva do minderico, tendo-se registado já noutras comunidades em diferentes partes do mundo.

Em muitos dos lexemas mindericos é notória a sua origem em imagens do quotidiano, que passam de forma figurativa para a linguagem, mas também, embora em menor quantidade, através de alterações do português vernáculo, não esquecendo também os desenvolvimentos propriamente mindericos. Nomes de pessoas da terra deram origem a expressões que designam profissões ou atributos humanos. O minderico é ainda hoje conhecido pela maioria da população adulta, embora por influência da alteração dos costumes, haja uma acentuada tendência para o seu desuso e esquecimento entre os mais jovens.

Existem cinco edições de um glossário minderico, onde se encontram as palavras traduzidas de português para minderico e minderico para português. A edição de 2004, a mais completa e actual, está disponível no Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro. O Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS), um centro de investigação que se dedica ao estudo e documentação de línguas ameaçadas na Europa e ao desenvolvimento de tecnologias da linguagem para línguas menos usadas, é a instituição que tem trabalhado na documentação linguística e divulgação do minderico, bem como na sua revitalização, isto em colaboração directa com a comunidade de falantes.

Medidas de defesa

Actualmente o minderico está a ser alvo de alguns projectos como forma de revitalização,de forma a que não caia no esquecimento. Como exemplo temos:

Palavras em minderico

abobrar - descansar;
alexandrinas - fotografias;
ambrosiar - pensar, cismar, achar;
albertinas - bolachas;
babosas - cervejas;
badelo - língua;
bodelha - mentira;
borboleta - luz;
brancano – leite;
bruxo - computador;
Casal Médio - Santarém;
cabaneira - vaca;
campinos - melões;
carranchano - amigo;
fusca - noite;
gargantear – cantar;
jordar – fazer, gastar, despejar, desperdiçar;
latina - missa;
Casal Grande - Lisboa; Segundo Casal Grande - Porto;
mioleira – testa;
mirantar – ver, observar;
Ninhou - Minde;
nazaré - banho;
neto - dinheiro;
mané fezes - cigarro;
patarraz da ladina - genro;
perneiras - peúgas;
piação - conversa;
pirota - motorizada;
quadrazal - mês;
remexido - negócio;
renhomnhom - gaita de foles ;
rinchão - comboio;
rodilha - sogra;
ronquinho - surdo;
senhor antónio - marido atraiçoado pela esposa, corno;
sesta - semana
soletra - livro;
tarrantar - dormir;
tece-tece - Internet;
terraizinho - criança;
Terraizinho Judaico - Menino Jesus;
tosadeira - boca;
toupeira do ferreiro - charrua;
videira - mãe;
videiro - pai;
vista-baixa - porco;
Zé Pedro/Rodapé - bigode

Ver também

Notas e referências

  1. ↑ Código ISO 639-3 para o minderico em SIL International
  2. ↑ O minderico é por vezes considerado calão, linguajar e erradamente dialecto, quando na verdade o que temos é uma língua (veja-se Minderico como língua individual e viva), embora sem reconhecimento oficial.
  3. 1 2 Vicente, Manuel Fernandes (17 de agosto de 2009). «Minderico renasce com apoio da Volkswagen a línguas ameaçadas». PÚBLICO. Consultado em 16 de janeiro de 2010
  4. ↑ Oliveira, Sara R. (14 de dezembro de 2009). «Minderico em ementas e placas da escola». Educare.pt. Consultado em 16 de janeiro de 2010
  5. ↑ Minderico renasce com apoio da Volkswagen a línguas ameaçadas, Público
  6. ↑ Minderico é Piação na Memória do Mundo da UNESCO, RTP Ensina

Ligações externas

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