Micate (islamismo)

Micate (em árabe: ميقات; romaniz.: mīqāt; pl. mawāqīt) é, no direito islâmico, o tempo ou lugar estabelecido para a entrada no irame daqueles que pretendem realizar o haje ou a unra. Embora possa designar tanto os períodos determinados para a peregrinação quanto os lugares em que o estado ritual deve ser assumido, o termo é particularmente associado aos micates espaciais que delimitam as diferentes rotas de acesso a Meca. O micate temporal do haje compreende Xaual, Dulcada e parte de Dulrija, enquanto a unra pode, em princípio, ser realizada ao longo de todo o ano.

Os micates espaciais são determinados de acordo com a procedência do peregrino e com sua posição em relação ao harame de Meca. Para aqueles que chegam das regiões exteriores, cinco pontos principais são tradicionalmente estabelecidos: Dul Hulaifa, Aljufa, Date Irque, Carne Almanazil e Ialanlame. O peregrino não precisa necessariamente passar pelo local exato do micate, devendo assumir o irame quando sua rota alcança a linha correspondente a ele, princípio que permite a aplicação dessas delimitações às diferentes rotas terrestres e marítimas.

Conceito

Micate é um termo derivado da mesma raiz de waqt ("tempo") e designa, em sentido geral, um tempo ou lugar determinado para a realização de uma atividade. No direito islâmico, refere-se aos tempos (al-mīqāt al-zamānī) e lugares (al-mīqāt al-makānī) estabelecidos para a entrada no irame daqueles que pretendem realizar o haje ou a unra. O termo tornou-se particularmente associado aos micates espaciais, isto é, aos pontos a partir dos quais o peregrino deve assumir o estado de irame. O micate temporal do haje corresponde aos meses de Xaual e Dulcada e aos primeiros dez dias de Dulrija, enquanto o da unra abrange, em princípio, todo o ano. Wensinck e Jomier registram diferenças entre as escolas jurídicas quanto à delimitação precisa do período de entrada no irame para o haje e às ocasiões em que a unra pode ser realizada.

Delimitação territorial

As regras relativas aos micates espaciais estão relacionadas à divisão jurídica do território em torno de Meca. O harame constitui o território sagrado e inviolável que compreende Meca e seus arredores; em torno dele encontra-se uma segunda zona denominada hil, enquanto as regiões exteriores a ambas são denominadas āfāq. Essa divisão determina o local no qual cada peregrino deve assumir o irame. Os habitantes do harame entram em irame no lugar onde se encontram quando pretendem realizar o haje. Para a unra, porém, devem sair do harame e entrar no hil antes de assumir o estado ritual. Entre os locais tradicionalmente utilizados para esse fim estão Tanim e Aljirana. Os habitantes do hil podem assumir o irame no próprio lugar onde residem tanto para o haje quanto para a unra. Aqueles que procedem das regiões exteriores ao harame e ao hil, por sua vez, devem entrar em irame nos micates estabelecidos para a direção de onde chegam.

Micates espaciais

Segundo a tradição islâmica, Maomé estabeleceu cinco pontos principais para a entrada no irame dos peregrinos provenientes das regiões exteriores a Meca. Esses lugares não precisam necessariamente ser alcançados fisicamente pelo peregrino: a obrigação de entrar em irame também se aplica quando sua rota passa por um ponto situado na mesma altura do micate correspondente. Dul Hulaifa é o micate dos habitantes de Medina e daqueles que chegam a Meca por essa direção. Situa-se a cerca de 11 quilômetros da Mesquita do Profeta e constitui o mais distante de Meca entre os cinco micates. Maomé entrou em irame nesse local durante a Peregrinação de Despedida. Na atualidade, o lugar também é conhecido como Abār ʿAlī ou Abyār ʿAlī. Wensinck e Jomier igualmente identificam Dul Hulaifa como o micate dos medinenses e daqueles que seguem a rota de Uádi Alcura.

Aljufa, uma localidade situada próximo à costa do mar Vermelho, era tradicionalmente o micate dos peregrinos procedentes da Síria e das regiões situadas nessa direção. Com o declínio da localidade, sua função foi assumida na prática pela cidade vizinha de Rabigue, situada aproximadamente à mesma altura. Esta passou a servir de micate aos peregrinos provenientes de diversas regiões a norte e oeste de Meca. Date Irque, atualmente conhecida como Dariba, é o micate associado aos peregrinos procedentes do Iraque. Sua origem foi objeto de divergência entre os juristas islâmicos. Uma tradição atribui seu estabelecimento ao califa Omar (r. 634–644), depois da fundação de Baçorá e Cufa. Seus habitantes teriam explicado ao califa que Carne Almanazil, estabelecido para os habitantes de Négede, ficava fora da rota utilizada pelos iraquianos e exigia um desvio difícil. Omar teria então ordenado que procurassem em sua própria rota um ponto situado à mesma altura de Carne Almanazil, estabelecendo-se assim Date Irque como seu micate.

A interpretação da origem dessa determinação varia entre as escolas jurídicas. Maleque ibne Anas e Axafii — juntamente com alguns juristas xafeítas — consideraram que Date Irque não havia sido estabelecido diretamente por Maomé, mas posteriormente por consenso, enquanto os hanafitas, os hambalitas e a maioria dos xafeítas aceitaram como autênticas as tradições que atribuem a determinação do local ao próprio Maomé. Carne Almanazil, situado a cerca de 94 quilômetros de Meca, é o micate tradicional dos habitantes de Négede e daqueles que chegam das regiões orientais. A localidade é atualmente conhecida como Assail Alcabir. Em sua parte superior encontra-se Uádi Muarrim, que passou a ser utilizado por numerosos peregrinos depois da construção da estrada entre Taife e Meca. Embora anteriormente fosse pouco frequentado, Uádi Muarrim é considerado situado à mesma altura de Carne Almanazil e, por isso, tornou-se também um ponto de entrada no irame. Ialanlame é o micate dos peregrinos provenientes do Iêmem e das regiões meridionais da Arábia. Situa-se aproximadamente 54 quilômetros ao sul de Meca. A linha correspondente ao lugar também passou a servir de micate para peregrinos provenientes por via marítima de regiões mais distantes da Ásia.

Travessia dos micates

A determinação dos micates não significa que o peregrino precise necessariamente entrar em irame no ponto exato representado pela localidade tradicional. A regra aplica-se também à linha correspondente ao micate, permitindo que o estado ritual seja assumido em outro lugar situado à sua altura. As distâncias atribuídas aos diferentes micates em relação a Meca também variam nas fontes e nas medições modernas, em parte porque a topografia montanhosa da região fez com que antigas rotas fossem substituídas por novas estradas de extensão diferente. Essa regra permite aplicar o sistema dos micates a diferentes meios e rotas de transporte. Wensinck e Jomier registram que os peregrinos que viajavam por mar deveriam assumir o irame quando sua embarcação alcançasse a altura do micate correspondente.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 Öğüt 2005, p. 48.
  2. 1 2 3 Wensinck & Jomier 1971, p. 1052.
  3. 1 2 3 Wensinck & Jomier 1971, p. 1053.
  4. ↑ Öğüt 2005, pp. 48–49.
  5. ↑ Wensinck & Jomier 1971, pp. 1052–1053.
  6. 1 2 Öğüt 2005, p. 49.

Bibliografia