| Parque Peruche | |
|---|---|
| Bairro de São Paulo | |
| Arquidiocese | São Paulo (Santana) |
| Zona Eleitoral | 255ª |
| Distrito Policial (DP) | 13ª DP |
| Distrito | Casa Verde |
| Subprefeitura | Casa Verde/Limão/Cachoeirinha |
| Região Administrativa | Nordeste |
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Parque Peruche é um bairro localizado no distrito da Casa Verde, na Zona Norte da cidade de São Paulo. Sua formação urbana resultou do parcelamento do antigo Sítio do Mandaqui no final da década de 1930, quando a expansão da mancha urbana paulistana alcançava áreas situadas ao norte do Rio Tietê. Durante as décadas de 1940 e 1950, o primeiro contingente populacional expressivo do loteamento foi constituído por famílias negras procedentes de Minas Gerais e do interior paulista, além de moradores oriundos de bairros centrais como o Bixiga, a Barra Funda, o Lavapés e Santa Cecília.
Estudos acadêmicos caracterizam o Parque Peruche como um território negro, expressão empregada para designar um espaço constituído não apenas pela concentração residencial de uma população, mas também pelas relações sociais, formas de sociabilidade e instituições culturais criadas por esse grupo. A ocupação do bairro relacionou-se ao processo de periferização da população negra paulistana, que, depois de viver em cortiços, porões e habitações alugadas nas áreas centrais, passou a adquirir terrenos de menor custo nos loteamentos periféricos abertos a partir da década de 1930. Uma pesquisa geográfica da Universidade de São Paulo relaciona esse deslocamento às transformações urbanas da Barra Funda e de bairros próximos, onde demolições, intervenções viárias, valorização imobiliária e elevação dos aluguéis contribuíram para a mudança de moradores em direção à Casa Verde e a outras áreas da Zona Norte.
Nos primeiros anos de ocupação, o Parque Peruche apresentava infraestrutura urbana limitada. Cartas de moradores, reportagens publicadas na imprensa e atas da Câmara Municipal de São Paulo registraram problemas relacionados à ausência de transporte público adequado, calçamento, pavimentação e saneamento básico, além da ocorrência de enchentes. A aquisição da casa própria representava uma possibilidade de estabilidade para as famílias recém-chegadas, mas a precariedade anteriormente enfrentada nas habitações centrais foi, em parte, transferida para os loteamentos periféricos ainda desprovidos de serviços públicos. Uma planta da cidade produzida em 1943 já representava o Parque Peruche e os núcleos urbanos existentes em seu entorno, bem como o Córrego Mandaqui, posteriormente incorporado ao traçado da Avenida Engenheiro Caetano Álvares.
A análise demográfica do bairro ao longo do século XX é limitada pela inexistência de tabulações censitárias específicas para o Parque Peruche. Os recenseamentos de 1940 e 1950 não apresentaram dados raciais desagregados por distrito, enquanto o censo de 1970 não incluiu a variável cor; por essa razão, os estudos utilizaram os resultados do distrito da Casa Verde como referência territorial mais ampla. No censo de 1980 do IBGE, a Casa Verde possuía 110 633 habitantes, dos quais 22,1% foram classificados pela pesquisa como negros, mediante a soma das categorias preta e parda. O próprio estudo adverte, entretanto, que esses valores dizem respeito ao conjunto do distrito e não permitem determinar isoladamente a composição populacional do Parque Peruche.
A proximidade com o Rio Tietê e com sua antiga várzea exerceu influência sobre as formas de lazer e sociabilidade dos primeiros moradores. Memórias examinadas pela pesquisa acadêmica descrevem deslocamentos de moradores do Parque Peruche e da Casa Verde até os campos de várzea e as lagoas próximas ao rio, utilizados para a prática do futebol, da pesca e da natação. Entre as associações esportivas formadas no bairro encontravam-se o Monte Azul, a Ponte Preta do Parque Peruche, o Fluminense do Parque Peruche e o Alviverde, cujas atividades reuniam jogadores, familiares e moradores e contribuíam para a integração das famílias recém-chegadas. A atuação desses clubes também se relacionou ao desenvolvimento do samba local, uma vez que times de futebol de várzea emprestavam instrumentos às primeiras atividades da escola de samba do bairro.
A principal instituição carnavalesca associada ao bairro é a Unidos do Peruche, fundada em 1956. Suas primeiras reuniões foram realizadas em bares e residências do Parque Peruche, enquanto parte dos instrumentos era emprestada por times de futebol da região e as fantasias eram confeccionadas por costureiras residentes no próprio bairro. A agremiação utilizou inicialmente o Sítio do Caqui, também conhecido como Terreiro do Caqui, na rua Carlos Belmiro Correia, que funcionava como local de ensaios, convivência comunitária e encontro de representantes do samba paulistano. Depois da venda do espaço no início da década de 1960, os ensaios passaram pela rua Zilda e por uma quadra alugada na rua Lavínio Salles Arcuri, até que, em 1968, a Prefeitura de São Paulo concedeu à escola um terreno no vizinho distrito do Limão para a construção de seu barracão.
A história da Unidos do Peruche está associada a sambistas como Seu Carlão do Peruche e Geraldo Filme, cujas trajetórias estabeleceram relações entre o samba praticado no Parque Peruche e manifestações anteriores da Barra Funda, do Bixiga e da festa de Bom Jesus de Pirapora. Carlão participou da escola de samba Lavapés entre 1947 e 1949 antes de atuar na fundação da agremiação do Parque Peruche, enquanto Geraldo Filme compôs para a escola o samba-enredo “Tradições e Festas de Pirapora”, apresentado em 1971. Outro personagem relacionado à instituição foi José Lino dos Reis, conhecido como Manezinho, que se mudou para o Parque Peruche ainda jovem e introduziu nos desfiles paulistanos a função do mestre-sala, já presente no carnaval do Rio de Janeiro.
A religiosidade também desempenhou papel relevante na organização comunitária. A Irmandade de São Benedito do Parque Peruche foi fundada em 1941, durante a formação da primeira capela do bairro, na rua Valdemar Martins, na qual São Benedito foi escolhido como segundo padroeiro em razão da presença expressiva de devotos negros. A irmandade promovia assistência religiosa, atividades culturais e festividades que reuniam moradores e comunidades convidadas de outras localidades. Na década de 1960, a organização do Parque Peruche uniu-se à existente na Casa Verde, passando a atuar como Irmandade de São Benedito da Casa Verde e do Parque Peruche, com sede na Igreja de Nossa Senhora das Dores.
O bairro também abrigou o terreiro Ilè Ìyá Mí Òsún Mùíywá, estabelecido na rua Carlos Belmiro Correia durante a década de 1960. Antes da consolidação do candomblé no local, Isabel de Omulu praticava a umbanda no mesmo endereço; posteriormente, ela e sua filha, conhecida como Mãe Wanda, foram iniciadas no candomblé pelo babalorixá Joãozinho da Gomeia, cuja trajetória religiosa se desenvolveu entre Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. As relações mantidas pelo terreiro, pela irmandade e pela escola de samba com instituições de outras cidades fizeram parte de uma rede de circulação de práticas religiosas, musicais e comunitárias que ultrapassava os limites do Parque Peruche.
A implantação posterior de infraestrutura urbana foi acompanhada por valorização imobiliária e por novos deslocamentos populacionais. Entrevistas reunidas no estudo de Maria Gabriela Feitosa dos Santos indicam que algumas famílias negras venderam suas propriedades e se mudaram para áreas mais distantes, entre elas a Brasilândia, embora a própria pesquisa ressalte que as fontes disponíveis não permitem determinar com precisão todos os motivos, destinos ou dimensões desse processo. A mudança de parte dos primeiros moradores tampouco permite concluir que o bairro tenha perdido sua identidade histórica, pois a permanência da escola de samba, das instituições religiosas, das memórias do futebol de várzea e de outras formas de sociabilidade conserva a associação do Parque Peruche com a história da população negra paulistana.