Quintero Aguiar

Quintero Aguiar
Nascimento29 de novembro de 1923
Almas
Morte29 de novembro de 2017
São Tomé e Príncipe
CidadaniaSão Tomé e Príncipe
Ocupaçãomúsico, dramaturga, ator, servidor público

Quintero de Barros Amaral Aguiar (Almas, 29 de novembro de 1923 — 29 de novembro de 2017) foi um funcionário público, músico, ator, dramaturgo e ativista político anticolonial de São Tomé e Príncipe.

Ficou amplamente conhecido como o "pai" da música tradicional santomense e foi o fundador do histórico Conjunto Leonino, que desempenhou um papel crucial na contestação ao regime colonial por meio da música de intervenção. Foi também um dos fundadores da santomensidade musical e dramatúrgica.

Biografia

Nascido na localidade de Almas, a 6 quilómetros da capital São Tomé, em 1923, Quintero Aguiar cresceu em um ambiente musical. Seus pais, António Manuel Adolónimo Aguiar e Maria de Assunção Barros (conhecida artisticamente como San Fineza) eram músicos, assim como seu tio João Monarquino dos Santos Aguiar, sua prima Dulce dos Santos France de Aguiar e o seu sobrinho Dani Aguiar.

Por conta do trabalho do pai (servidor público), mudou-se para a ilha do Príncipe, onde iniciou o ensino primário, concluídos quando retornou para São Tomé. Prosseguiu os estudos até finalizar o ciclo liceal. No período em que estudava na ilha do Príncipe, aprendeu a tocar bandolim utilizando os livros do músico português João Victória. No retorno à São Tomé, aperfeiçoou sua prática com o mestre Sô Barrinho, e integrou os grupos musicais Buzilense e Almense.

Ingressou no serviço público na década de 1940, onde fez toda a sua carreira profissional. Inicialmente foi designado para trabalhar na Curadoria dos Serviçais e Colonos de São Tomé e Príncipe. Neste ofício, mantinha contato diário com a realidade da classe trabalhadora urbana e camponesa santomense, principalmente o aspecto da subalternização imprimida contra esta nas relações coloniais. Os abusos contra os trabalhadores das roças impulsionou sua militância anticolonial.

Durante o massacre de Batepá, em fevereiro de 1953, protestou em seu trabalho contra as perseguições, as torturas e as matanças conduzidas pelos portugueses ao que foi censurado, e depois preso, torturado e submetido a trabalhos forçados desumanos na Ponta Fernão Dias. Sofreu enormes abusos físicos juntamente com seu companheiro de trabalho, José Rodrigues Pedronho.

Liberto da prisão e dos castigos, foi designado ao trabalho na Repartição Central dos Serviços de Administração Civil. Envolveu-se também como desportista no Sporting Clube de São Tomé (SCST), entidade que desenvolvia actividades esportivas, culturais e sociais, como o futebol, a realização de peças de teatro e manutenção de círculo de poemas e poesias. A dramaturgia no SCST passou a chamar a atenção de Quintero Aguiar, que assinava peças e também encenava no Cinema Império (actual Cinema Marcelo da Veiga). Nessa entidade, conheceu inicialmente a Alda do Espírito Santo e a Olívio Tiny, e depois a Carlos Tiny, a Edgar Neves, a António Lima e a Norberto Costa Alegre.

Em 1959 foi criado o grupo musical "Quintero e o seu conjunto", que incluía Quintero Aguiar (bandolim), Hidemburgo (viola), Gaspar Ramos (viola), Juvenal Lopes (bateria), Pinho (flauta), José Canzá (ganzá) e José Aragão (vocal), renomeado no mesmo ano para Conjunto Leonino. O Leonino destacou-se por introduzir a música tradicional em língua forro em espaços de elite e empregar metáforas de intervenção política. Sua mais marcante música de intervenção foi "Gandú" (Tubarão), canção escrita por Olívio Tiny e com música de Soares Zarco, interpretada por Quintero Aguiar e José Aragão, que tornou-se símbolo de resistência e crítica à exploração colonial. Denunciado por um tradutor e intérprete da Rádio Clube de São Tomé, a música foi banida das transmissões radiofônicas, por ordem do governador da colónia, por "contornos terroristas" e por ser "contra Portugal".

Em 1960, pouco após a fundação formal do Comité pela Libertação de São Tomé e Príncipe (CLSTP) em Librevile (ocorrida em setembro), participou de uma reunião em Água Porca, Mé-Zóchi, liderada por Guadalupe de Ceita, Ohnet dos Santos e Manuel de Nazaré Mendes, e que contou com Lereno da Mata, Pedro Gomes, Políbio Salvaterra e Óscar Santos. Nessa reunião ficou definida a criação do núcleo clandestino do CLSTP na ilha de São Tomé, sob liderança de Ohnet dos Santos, João d'Alva Torres, Quintero Aguiar e Lereno da Mata. Entretanto, tal núcleo não desenvolveu atividades por conta da perseguição da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).

Após o banimento da rádio, Quintero Aguiar foi sistematicamente perseguido pela PIDE, que o indiciou como subversivo, sendo forçado a se apresentar diversas vezes em interrogatórios. Teve suas liberdades suspensas em São Tomé e foi obrigado a seguir para Lisboa. Esse, inclusive, foi um dos fatores que desmantelou o efêmero núcleo do CLSTP no arquipélago.

Por outro lado, sua mudança para Lisboa também advinha da necessidade de cuidados de saúde de sua esposa, Odete Barros Aguiar. Juntamente com Gastão d'Alva Torres, o casal Aguiar criou na capital portuguesa um grupo cultural chamado "Zona de Lisboa", integrando diversos nomes santomenses como António Pires Lombá, António Espírito Santo, Olívio Tiny, Ambrósio Rosamonte, Sabino dos Santos, Maurício dos Santos e António Gentil. O Grupo Zona de Lisboa criou e manteu uma importante rede de contatos com o Clube Marítimo Africano para troca de correspondências e comunicação clandestina sobre as pautas anticoloniais e o CLSTP. Sua esposa Odete Barros Aguiar acabou presa em Portugal em 1965 por atividades políticas relacionadas ao Grupo Zona de Lisboa e ao CLSTP.

Após a libertação de Odete, conseguiu retornar à São Tomé e Príncipe, com permissão para voltar ao seu emprego civil. Reuniu-se novamente com o Conjunto Leonino, agregando Argentino Graça (bateria), Óscar Santos e Tomé de Roque (vocais), com colaborações de Sum Yana e Soares Zarco. No entanto, o Conjunto Leonino encerrou as atividades no final da década de 1960 devido a divergências sobre a introdução de instrumentos elétricos. Uma música muito aclamada desse segundo período foi "Quatro estudantes, Quatro Filhos de São Tomé e Príncipe" (em forro: Quatlu Studantxi, Quatlu Anzu de Santomé). Nesse segundo período, por iniciativa de Quintero Aguiar, o Conjunto Leonino também inovou ao conjugar música e cenografia teatral, inspirado no tchiloli. Voltou também às suas actividades desportivas (como árbitro), culturais e tetrais no SCST.

Após a Revolução dos Cravos em 1974, por indicação de Álvaro Cunhal, Salgado Zenha e Jorge Campinos, foi nomeado por Ernesto Melo Antunes e Vasco Gonçalves para liderar as missões de transição política ao lado de António Figueiredo da Graça do Espírito Santo, António Pires Lombá e Gastão d'Alva Torres. Sua indicação se deu pelo seu profundo conhecimento dos aspectos socioculturais santomenses e pela sua vasta experiência no serviço público do arquipélago. Esse grupo foi designado como primeiro elo de contato junto ao Bureau Político do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP). O trabalho do grupo daria margem para o Protocolo Complementar ao Acordo de Argel, ao final de 1974.

Concluída sua missão diplomática em novembro de 1974, torna-se uma das vozes mais vocais no seio do MLSTP em favor da manutenção da estrutura da Associação Cívica Pró-MLSTP, aproximando-se, assim, da ala mais à esquerda do partido. Na iminência da independência nacional, em 1975, foi designado pelo Bureau Político do MLSTP para compor as melodias do Hino Nacional, denominado "Independência Total", a partir da letra de Alda do Espírito Santo. Coube ao maestro da Banda da Polícia, Manuel dos Santos Barreto de Sousa e Almeida, os arranjos finais e a primeira execução do hino.

Após a independência nacional, passou a ser funcionário do Ministério da Administração Interna e depois do Ministério da Justiça e do Trabalho. Enquanto isso, dedicava também energias para a escrita de peças teatrais, à música, à formação de novas gerações santomenses nas artes cênicas e ao trabalho como ator, tendo papeis na minissérie "O Café do Ambriz" (1991) e no filme "Laços de Sangue" (1994). Na música, consolidou esforços nas décadas seguintes na difusão nacional e internacional dos gêneros socopé, ússua, samba-socopé e rumba-santomé, valorizando a percussão e o uso de tambores, do ganzá (reco-reco) e da sacaia (chocalhos).

Colaborou na concepção e nas primeiras duas edições da Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe. Aposentado do serviço público, retirou-se a uma vida privada a partir da década de 2000.

Quintero Aguiar morreu em 2017.

Vida pessoal

Foi casado com Odete Quaresma Soares de Barros Aguiar. Leonel Cipriano Amaral Aguiar, seu filho, também seguiu carreira na música, tocando viola solo no conjunto "Os Untués".

Homenagens

Foi homenageado postumamente em 2022 na V Edição do São Tomé FestFilm - Festival Internacional de Cinema de São Tomé e Príncipe, no longa-metragem/documentário "SERVIÇAIS das memórias à identidade".

Referências

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