| Ohnet dos Santos | |
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| Nascimento | 1931 |
| Cidadania | São Tomé e Príncipe |
| Ocupação | locutor de rádio, professor, político |
António Barreto Pires dos Santos, mais conhecido como Ohnet dos Santos ou simplesmente Oné (São Tomé, 1931), é um radialista, professor e político de São Tomé e Príncipe.
É uma figura histórica de relevo no nacionalismo santomense e no processo que culminou na independência do país. É, ainda, uma das principais referências do pensamento marxista no país.
António Barreto Pires dos Santos nasceu em São Tomé, filho de Albertino Pires dos Santos e de Maria Cândida Barreto Pires dos Santos. Aos 5 anos de idade mudou-se com a família para a Ilha do Príncipe, regressando definitivamente à cidade de São Tomé aos 15 anos. Seu apelido "Ohnet" foi dado na juventude por seu pai, um admirador do escritor francês Georges Ohnet.
Concluiu o ensino liceau no Colégio-Liceu de São Tomé, e foi admitido como aspirante nos Serviços de Fazenda e Finanças, atuando como controlador de despesas do Hospital Central de São Tomé. Acabou exonerado do cargo público após protestar junto à direção e ao governador colonial sobre irregularidades na instituição.
Esteve entre os nomes que se reuniam em Bobo Forro e em Boa Morte, movimentos cruciais para a criação da Convergência de Lutas em 1958, o primeiro agrupamento do moderno movimento nacionalista santomense. Esse grupo era liderado por Guadalupe de Ceita, e tinha outros nomes como Miguel Trovoada, Leonel Mário d'Alva, João Junqueiro d'Alva, João Manuel Will, Manuel de Nazaré Mendes, Armindo Monteiro, Ohnet dos Santos e Marcelo da Veiga.
Em setembro de 1960, em Librevile, tornou-se um dos fundadores do Comitê de Libertação de São Tomé e Príncipe (CLSTP). Retornou a São Tomé para fazer trabalho de mobilização junto a outros nomes, como Alda do Espírito Santo. Nesse mesmo ano, pouco após a fundação formal do CLSTP, houve uma reunião clandestina em Água Porca, Mé-Zóchi, liderada por Ceita, Ohnet e Manuel de Nazaré Mendes, e que contou com Quintero Aguiar, Lereno da Mata, Pedro Gomes, Políbio Salvaterra e Óscar Santos. Nessa reunião ficou definida a criação do núcleo clandestino do CLSTP na ilha de São Tomé, sob liderança de Ohnet, João d'Alva Torres, Quintero Aguiar e de Lereno da Mata. Entretanto, tal núcleo não desenvolveu atividades por conta da perseguição da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).
Em 1963, devido às pressões da PIDE, deixou o arquipélago e foi contratado como marinheiro-lavadeiro num navio da Companhia Nacional de Navegação denominado Índia, iniciando uma longa jornada internacional que passou por Lisboa, Porto Saíde, Goa, Singapura, Díli e Honguecongue. Nesta cidade, abandonou o navio e acabou por ficar encarcerado por 52 dias pelas autoridades locais até receber apoio de redes de esquerda europeias.
Após ser libertado, viajou por Calcutá e Nova Deli até alcançar o exílio em Librevile, no Gabão, no final de 1963. Na cidade, trabalhou como professor de inglês no liceu local e buscou estabelecer pontes de comunicação com o exterior a partir de Calabar, na Nigéria. Em 1965, fez parte do grupo que organizou o primeiro escritório internacional do CLSTP, localizado em Acra, no Gana. No mesmo período, juntamente a Ceita, António Tomás Medeiros e Virgilio Carvalho, passa a ser um dos principais articuladores da "tendência de Acra", que apregoava visões mais radicais e socialistas no seio do CLSTP. Passou a ser encarregado do setor de comunicação do partido, assumindo o papel de locutor em língua portuguesa na Rádio Acra para difundir a causa nacionalista. Em janeiro de 1966, representou o CLSTP na Conferência Tricontinental, realizada em Havana, em Cuba, seguindo até Moscovo para receber treinamento em comunicação e angariar fundos para o partido.
Enquanto estava na União Soviética, ocorreu um golpe de Estado no Gana (1966). Resolveu voltar para reorganizar o CLSTP, realizando passagens por Argel, Conacri e Lomé (no intuito de arrecadar fundos), até chegar em Malabo. Nesta cidade, se fixou a partir de 1968, passando novamente a lecionar inglês. Juntamente com Ceita, João d'Alva Torres, Tomé Ganga das Neves, Manuel Freitas e Agostinho Inácio da Silveira Rita, estabelece um escritório do CLSTP em Malabo, contando com cerca de 300 pessoas, entre militantes e simpatizantes, com essa representação ficando principalmente aos seus cuidados. Em Malabo, organizou um programa radiofônico de propaganda nacionalista e anticolonial transmitido às ilhas santomenses em língua portuguesa e em crioulo-forro pela Radio Nacional da Guiné Equatorial, programa depois transformado na Rádio Livre do MLSTP. Era o diretor e ao mesmo tempo o próprio locutor radialista. Com Ceita, a partir de 1968, reorganizou também a "tendência de Acra" em Malabo.
Participou da conferência de Malabo entre 8 e 12 de julho de 1972, que transformou o CLSTP no Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP). Passou a ser o Comissário Político Chefe do partido e membro do Bureau do MLSTP.
Com a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal, regressou a Librevile. Graças à sua forte atuação na Rádio Livre do MLSTP, o domínio dos idiomas locais e o profundo conhecimento sobre a cultura santomense, foi o elemento escolhido pelo MLSTP para viajar a São Tomé e Príncipe em 14 de dezembro de 1974 para mobilizar a população para o processo do Governo de Transição. Foi, assim, o primeiro membro do Bureau a retornar à ilha desde 1963, sendo recebido em grande êxtase pela população. Na sua chegada proferiu o famoso discurso "Independência total, ça quá pôvô mêcê".
Tornou-se um dos referenciais teóricos marxistas da Associação Cívica Pró-MLSTP e, juntamente com Gastão d'Alva Torres e Pedro Umbelina, um dos membros do Bureau do MLSTP que dava apoio irrestrito aos "Cívicos". No seio do partido, passou a defender propostas cada vez mais alinhadas aos seguimentos radicais, tais como a dissolução da Companhia de Caçadores Nº 7, a criação de um milícia popular que assegurasse a integridade territorial em caso de agressão estrangeira e a exigência de que os dirigentes declarassem os seus bens antes da independência para evitar desvios no tesouro público.
Tendo ido à Librevile para participar de uma reunião do MLSTP, em março de 1975, Ceita, Miguel Trovoada e Ohnet dos Santos são impedidos de retornar à São Tomé e Príncipe sob argumento de que deveriam ir à Portugal, em nome do MLSTP, para exigir a dissolução da Companhia de Caçadores Nº 7. Quando Ceita e Ohnet (alegando doença, Trovoada não embarcou) aportaram em Lisboa, foram informados de que não possuíam credencial para falar em nome do MLSTP (mesmo ainda sendo membros do Bureau). No mesmo mês, Manuel Pinto da Costa produziu estratagema semelhante com outros líderes do partido. Ao contrário de Ceita, Ohnet dos Santos, ainda assim, insistiu e retornou à São Tomé.
Às vésperas da independência formal do país, programada para 12 de julho de 1975, Ohnet, Torres, Umbelina e outros jovens da Cívica sofreram perseguições políticas promovidas pela ala dominante do MLSTP em cooperação com o governador colonial António Pires Veloso. Impedido de permanecer no território e rotulado como inimigo da revolução, exilou-se temporariamente em Luanda e, posteriormente, em Maputo, onde obteve proteção de Marcelino dos Santos graças à mediação de sua amiga Alda do Espírito Santo.
Impossibilitado de regressar a São Tomé sob risco de prisão, fixou residência em Madri, na Espanha, onde voltou a trabalhar como professor de idiomas.
Retornou temporariamente ao seu país natal na década de 1990 para apoiar publicamente a candidatura presidencial de Guadalupe de Ceita e proferir palestras universitárias.