Sindemia caracteriza a interação mutuamente agravante entre problemas de saúde em populações e seus contextos social, econômico e ambiental. O conceito, neologismo formado por meio da aglutinação dos termos "sinergia" e "epidemia", foi originalmente cunhado por Merrill Singer a partir do estudo sobre o entrelaçamento entre a síndrome da imunodeficiência adquirida e a violência em cidades estadunidenses. Sob essa percepção, problemas de saúde não existem de forma isolada, mas sim se agrupam a partir de fatores sociais, psicológicos e biológicos, e se abatem de forma desigual sobre comunidades. Não deve ser confundido com o conceito de comorbidade, que descreve a ocorrência simultânea de duas ou mais doenças em um mesmo indivíduo, sem interação comprovada entre elas.
No início de 2019, o relatório "A Sindemia Global da Obesidade, da Desnutrição e das Mudanças Climáticas" foi lançado pela Comissão de Obesidade do periódico The Lancet na Conferência PMAC 2019, realizada na Tailândia. O relatório denominou de "sindemia global" a combinação sinérgica entre pandemias da fome, da obesidade e da mudança climática, as três decorrentes, principalmente, do sistema agroalimentar global. Nessa sindemia global, problemas de saúde pública que coexistem na maioria dos países do mundo atualmente combinam-se sinérgicamente e são produzidas consequências tanto para a saúde humana quanto para o meio ambiente.
A desnutrição, a obesidade e as mudanças climáticas, quando combinadas, constituem uma sindemia visto que coexistem no tempo e espaço, bem como compartilham determinantes, como aqueles presentes nos sistemas de alimentação, transporte, desenho urbano e uso do solo. Os fatores que compõem tal sindemia global ainda interagem entre si, produzindo sequelas complexas.
As pandemias de desnutrição e obesidade são formas da má nutrição, que também inclui carências nutricionais específicas, sobrepeso e doenças crônicas não transmissíveis. Há um amplo reconhecimento de que o sistema agroalimentar global impulsiona a má nutrição, além de ser um dos principais contribuintes para mudanças climáticas, uso da terra, poluição da água e do ar — gerando cerca de 25 — 30% das emissões de gases do efeito estufa, sendo a produção de gado a principal responsável pelas emissões.

Sistemas alimentares são formados por um conjunto de fatores do processo alimentar, desde as etapas de produção, processamento e distribuição até o consumo de alimentos e o seu impacto socioeconômico e ambiental. Contribuem no desdobramento de adversidades climáticas e ambientais da mesma forma que são, também, afetados por estas.
Considera-se um sistema alimentar sustentável aquele que, além de reconhecer o acesso à alimentação como direito fundamental, possui a capacidade de manter-se por longo prazo sem comprometer ecossistemas, economias e a segurança alimentar e nutricional dos indivíduos.
Os sistemas alimentares dominantes possuem íntima relação com o padrão de consumo alimentar dos indivíduos. Do mesmo modo que o sistema alimentar disponibiliza os alimentos para o consumo, compondo a dieta e as preferências alimentares, estas criam demandas que direcionam os sistemas alimentares. Assim, as preferências alimentares são responsáveis por guiar o processo de produção, fomentando um sistema alimentar específico.
O sistema alimentar dominante decorre de escolhas políticas e econômicas, que moldam os sistemas naturais e resultam nas pandemias de obesidade, de desnutrição e de mudanças climáticas predominantes em todo o mundo. A interação simultânea dos fatores que constituem a sindemia global tem como efeito a influência mútua entre eles. Eventos climáticos podem, por exemplo, afetar a agricultura e a segurança alimentar de uma ou mais populações. Da mesma forma, a desnutrição na infância está associada a maior risco de incidência de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis na idade adulta.
A abordagem que emprega a ideia de sindemia global visa o encaminhamento de novas políticas públicas, que levem em consideração aspectos sociais, econômicos, ambientais e políticos como fatores que contribuem para o quadro de saúde de uma população. Nessa lógica, o combate à determinada enfermidade ou comorbidade não deve se limitar a questões simplesmente biológicas, mas sim englobar ações que solucionem desigualdades sociais e seus efeitos.
No Brasil, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada nos anos de 2017 e 2018, 4,9% da população (10,3 milhões de pessoas) viviam sob condições de insegurança alimentar grave. Paralelamente, dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2019 mostram que 25,9% da população acima de 18 anos (41,2 milhões de pessoas) estavam obesas. A associação entre má nutrição e alimentação não saudável culminam no avanço das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e resultam em impacto socioeconômico negativo, através de gastos despendidos com sistemas de saúde (no caso, o Sistema Único de Saúde, SUS) que são sobrecarregados pelas duas vias. Além disso, a insustentabilidade do sistema de produção de alimentos atual está intimamente ligada à emissão de gases de efeito estufa, que contribuem diretamente para as mudanças climáticas.
Os problemas de insegurança alimentar e fome no Brasil são situados em um contexto econômico global, no qual a produção de alimentos é sustentada principalmente pelo modelo produtivo de grande escala do agronegócio e pelo uso de agroquímicos. Essas substâncias químicas estão relacionadas a distúrbios metabólicos, incluindo obesidade e debilidade do sistema imunológico, associados à maior vulnerabilidade do organismo a doenças diversas, inclusive a COVID-19.
Em setembro de 2020, durante a pandemia de COVID-19, Richard Horton, editor-chefe do The Lancet, publicou um comentário neste mesmo periódico argumentando que o impacto observado em escala mundial desta doença e a forma que foi inicialmente combatida indicavam que o surgimento de um tratamento ou vacina, por mais eficaz que fosse, não seria suficiente. A vulnerabilidade ao patógeno, nos Estados Unidos, era principalmente observada entre os mais idosos, em pessoas de comunidades étnicas minoritárias, e entre trabalhadores que eram comumente mal pagos e menos contemplados por programas governamentais assistencialistas. O pesquisador argumentou que o avanço da COVID-19 deveria ser entendido então como uma sindemia, pois possuía suas origens no âmbito socioeconômico, e a busca por uma solução para a doença não deveria ser puramente biomédica, mas seria necessária maior atenção às doenças não transmissíveis (DNT) e à desigualdade social.
A correlação entre a infecção pelo SARS-CoV-2 e doenças não transmissíveis em populações específicas indica que o combate a COVID-19 também deve contemplar quadros de saúde pública diversos, como a hipertensão, a obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias crônicas e o câncer. Isto é, essas patologias crônicas não apenas ocorrem simultaneamente à infecção de um indivíduo por COVID-19, mas interagem de maneira a agravarssem mutuamente. A relação sindêmica com a COVID-19 também é afetada por problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e transtornos de estresse pós-traumático. Além disso, os problemas psicológicos, para além do distanciamento e solidão, podem estar conectados com dificuldades financeiras e econômicas. Como forma de ilustrar essa perspectiva, o grupo com maior risco dessas doenças é composto por mulheres com baixo nível educacional, desempregadas ou de baixa renda.
Para Horton, a menos que os governos elaborem políticas e programas em escala federal para reverter as profundas desigualdades sociais e econômicas encontradas nos países que administram, o mundo nunca estaria verdadeiramente protegido da COVID-19. Isso demonstra a forma não só as origens sociais da doenças, mas também a forma homogênea como pode se abater sobre comunidades, o que envolve condições prévias de vida e trabalho.
No Brasil, a pandemia de COVID-19 teve efeitos mais agudos na região Norte do país e a maior taxa de óbitos corresponde a populações pretas e pardas. Essa relação entre os efeitos da doença e os índices de vulnerabilidade econômica e social indica que diferentes grupos foram afetados de forma desigual pela pandemia, mesmo dentro de um mesmo país.
Dados epidemiológicos têm demonstrado que indivíduos com doenças não transmissíveis são significativamente mais suscetíveis a efeitos mais severos a partir do contágio de COVID-19. Estudos conduzidos em vários países sugerem maiores índices de hositalização e mortalidade entre pacientes sob efeito de comorbidades. Diferenças também foram observadas entre grupos raciais e étnicos, sendo que populações marginalizadas experienciam maior grau de complicações relacionadas a doenças crônicas e COVID-19. Esses padrões apontam para a intersecção entre vulnerabilidade biológica e desigualdade social.
A análise de crises de saúde pública a partir do conceito de sindemia tem impactos estruturais na formulação de políticas públicas, ao destacar a necessidade de ações integralmente articuladas. O indivíduo ou comunidade que é alvo de determinada política pública passa a ser entendido como um sujeito histórico em sua complexidade social, econômica e política, e não somente um hospedeiro de determinado patógeno. Essa abordagem também valoriza as medidas voltadas à garantia de moradia e alimentação saudáveis, considerando-as políticas de saúde pública. Sua aplicação também se relaciona com uma nova perspectiva capaz de englobar questões de equidade e acesso, redirecionando o olhar político para questões além dos processos biológicos ou controle de contágio.
O conceito de sindemia, em sua concepção original, depende do levantamento de dados e do trabalho próximo às populações analisadas, como o estudo de caso de Singer da relação entre a síndrome da imunodeficiência adquirida e a violência urbana nos Estados Unidos. Em grande medida, a utilização do conceito para o estudo de sociedades do passado é limitada devido ao caráter fragmentário dos relatos em fontes de tempos recuados relativos a temas de saúde pública e organização social, particularmente para o caso das sociedades pré-modernas. Timothy Newfield, historiador estadunidense, sugere que o estudo de epidemias passadas como sindemias pode beneficiar o campo da história social, ao chamar atenção para os fatores socioeconômicos causadores de comorbidades, e a maneira desigual como patógenos afetam determinadas comunidades, em vez do foco habitual da historiografia em diagnósticos e genealogias de doenças passadas.
|editora2= ignorado (ajuda); Parâmetro desconhecido |editora1= ignorado (ajuda)