Terepaima

Terepaima
Medalhão da série Caciques de Venezuela dedicado a Terepaima, com desenho de Pedro Centeno Vallenilla.
Ocupaçãodirigente indígena

Terepaima, também grafado Terepayma nas fontes antigas, foi um principal indígena activo na região centro-norte da actual Venezuela durante a segunda metade do século XVI. Uma relação do governador Juan de Pimentel, datada de 1578 e conservada numa cópia autenticada de 1585, chama-lhe expressamente «indio principal», explicando que uma elevação conhecida como lomba de Terepayma recebia esse nome porque o principal vivia nela ou nas suas proximidades.

As fontes e a historiografia atribuem-lhe papéis diferentes nos conflitos que acompanharam a expansão espanhola na região de Caracas. Juan de Castellanos, na primeira edição das Elegías de varones ilustres de Indias (1589), individualizou Terepayma como combatente e atribuiu-lhe a morte de Carpío, trespassado por uma longa lança; na própria sequência de Castellanos, Carpío é uma personagem distinta de Juan Rodríguez Suárez. Mais de um século depois, José de Oviedo y Baños associou Terepaima aos arbacos, descrevendo uma acção coordenada com Guaicaipuro. No século XX, Nectario María passou a apresentá-lo como cacique dos meregotos e comandante de um grande contingente indígena contra Luis de Narváez.

A documentação e as tradições posteriores não permitem fixar com segurança uma data ou circunstância única para a sua morte. Autores do século XX transmitiram versões incompatíveis, ora colocando-a até 1573 e relacionando-a com as campanhas de Diego de Losada, ora situando-a em meados da década de 1570 depois de uma paz e de um novo conflito atribuídos a Garci González de Silva.

Registo documental do século XVI

Pimentel e a lomba de Terepaima

A Relación de Nuestra Señora de Caraballeda y Santiago de León, preparada em 1578 sob o governo de Juan de Pimentel, constitui uma das fontes documentais mais importantes para identificar Terepaima como pessoa histórica. O texto conservado usa as formas Terepaima e Terepayma e, ao explicar a origem de um topónimo, declara que a lomba se chamava Terepayma por um «indio principal» desse nome que vivia nela ou junto dela.

A mesma passagem enquadra a lomba nos acontecimentos ligados a Juan Rodríguez Suárez e a Luis de Narváez. Segundo Pimentel, Rodríguez Suárez, depois de sair para combater Lope de Aguirre, foi morto com seis soldados pelos indígenas naturais da província na lomba de Terepaima, após dois ou três dias de combate. O texto acrescenta que, depois da sua morte, Francisco Fajardo continuou como capitão na região; posteriormente, o governador Alonso Bernáldez enviou Narváez com sessenta homens para pacificar os indígenas e socorrer Fajardo, mas Narváez e quase todos os seus homens foram mortos, escapando apenas seis ou sete, numa acção também situada na lomba de Terepayma.

Pimentel não individualiza Terepaima como comandante desses dois confrontos. Depois de narrar a derrota de Narváez e explicar o nome da lomba, atribui a acção subsequente aos «dichos indios naturales», que, animados pela vitória, avançaram contra o povoado de San Francisco. A edição documental da relação, publicada por Antonio Arellano Moreno em 1964, permite consultar o texto no conjunto das relações geográficas da província.

Outros testemunhos administrativos e judiciais próximos dos acontecimentos também descrevem a derrota de Narváez em termos colectivos. Numa informação de 1564, Alonso Bernáldez situou o local aproximadamente a meia légua do rio Tuy, também chamado vale do Câncer, sem nomear Terepaima. Uma relação de Antonio Barbudo de 1574 atribuiu igualmente aos naturais das serranias de Caracas as mortes de Rodríguez Suárez e Narváez, sem individualizar Terepaima.

Castellanos e Carpío

A tradição impressa quinhentista introduz uma atribuição pessoal que não aparece na formulação de Pimentel. Na primeira parte das Elegías de varones ilustres de Indias, publicada em Madrid em 1589, Juan de Castellanos inclui Terepayma no episódio de Rodríguez Suárez, afirmando que o indígena trespassou Carpío com uma longa lança, fazendo-o cair morto. Na sequência do poema, Rodríguez Suárez, Carpío e, logo depois, o «mancebo Fajardo de Guevara» são figuras diferentes. A primeira edição lê ainda «cuerpo mortal»; a forma «cuerpo carnal», presente em algumas transmissões historiográficas posteriores, não corresponde ao texto da edição de 1589. A fonte quinhentista individualiza Terepaima como combatente, mas conserva os dois homens como personagens distintas.

A pacificação recordada em 1603

Outra referência documental a Terepaima surge numa informação de méritos de Sebastián Díaz de Alfaro. Em 22 de Dezembro de 1603, Alonso Ruiz de Vallejo declarou ter visto Sebastián participar na «pasificación del Principal Terepaima», mencionando no mesmo bloco outros principais. A declaração encontra-se na documentação de encomiendas do antigo Archivo Nacional de Venezuela, tendo sido publicada por Vicente Dávila. Ruiz de Vallejo afirma ter visto ele próprio Sebastián presente na pacificação.

No início do século XVII, Antonio Vázquez de Espinosa empregou ainda a forma plural «Caracas Terepaimas» ao recordar a rebelião de populações da região de Caracas.

Tradição historiográfica dos conflitos

Francisco Fajardo

Oviedo y Baños, escrevendo em 1723, desenvolveu uma narrativa pormenorizada da relação de Terepaima com Francisco Fajardo. Segundo o cronista, ambos mantinham amizade e «estrecha correspondencia». Quando Fajardo regressava em direcção ao vale de Caracas, encontrou Terepayma na lomba das Cocuizas; Oviedo afirma que lhe ofereceu uma vaca e que a relação amistosa lhe permitiu prosseguir a viagem. Esta versão foi amplamente retomada pela historiografia posterior. No século XIX, Baralt e Díaz já descreviam Terepaima como dirigente dos arbacos, referindo as pazes ajustadas por Fajardo no seu trajecto para o vale de San Francisco.

Juan Rodríguez Suárez e Guaicaipuro

No episódio de Rodríguez Suárez, Oviedo apresenta Terepaima como cacique dos arbacos, descrevendo uma acção coordenada com Guaicaipuro. O cronista afirma que Guaicaipuro convocou Terepayma; este teria inicialmente recusado por causa da sua amizade com Fajardo, mas acabou convencido a participar. Terepayma aproximou-se «con las tropas de sus Arbacos», enquanto Guaicaipuro o seguia com os seus teques.

A historiografia do século XIX também consolidou a atribuição de comando pessoal. Baralt e Díaz escreveram em 1841 sobre «arbacos mandados por Terepaima» no complexo narrativo de Rodríguez Suárez, formulação mais específica do que a de Pimentel, que atribui os acontecimentos aos indígenas colectivamente.

Luis de Narváez

As versões sobre a derrota de Luis de Narváez mostram uma diferença semelhante entre documentação e historiografia. Pimentel coloca o desastre na lomba de Terepayma, mas atribui a acção aos indígenas sem nomear Terepaima como comandante. A informação de Bernáldez de 1564 situa geograficamente a derrota junto do Tuy ou vale do Câncer e também não o nomeia.

Oviedo y Baños associa o conflito aos meregotos chamados pelos arbacos, não nomeando Terepaima na frase relativa à acção contra Narváez. Na monografia especializada de 1966, Nectario reformulou a identificação: chamou Terepaima de «cacique de los Meregotos», colocou os meregotos «al mando de Terepaima» e atribuiu-lhe a reunião de cerca de quatro mil indígenas que teriam esperado o momento favorável para atacar Narváez. A actual entrada do Diccionario de Historia de Venezuela, da Fundación Empresas Polar, conserva a mesma associação geral, apresentando Terepaima como cacique dos meregotos e atribuindo-lhe a derrota de Narváez na região do Tuy.

Diego de Losada e Garci González de Silva

A biografia moderna de Terepaima prolonga a resistência para além das campanhas de Rodríguez Suárez e Narváez. A entrada da Fundación Empresas Polar afirma que, quando Diego de Losada avançou para a região central em 1567, encontrou primeiro a «tribo de Terepaima», não conseguiu submetê-lo e que apenas Garci González de Silva teria conseguido fazê-lo.

A documentação quinhentista recuperada para as campanhas de Garci entre os meregotos é mais limitada quanto à identificação pessoal. Na informação de méritos de Garci González de Silva, formada em 1590, as passagens legíveis falam de um «cacique dellos», «un principal» e «su principal», sem fornecer o nome desse dirigente. Referem ainda uma filha, também sem nome, cuja captura foi relacionada pelas testemunhas com a paz dada colectivamente pelos meregotos e com a sua posterior prestação de serviço. O expediente sustenta, portanto, uma campanha de Garci González contra os meregotos e uma paz atribuída colectivamente a esses indígenas, mas as passagens legíveis não identificam o principal anónimo como Terepaima.

Identidade, autoridade e território

«Principal» e «cacique»

A designação directamente documentada para Terepaima em Pimentel é principal. O termo «cacique», embora corrente na historiografia e na memória venezuelanas, pertence a um vocabulário colonial usado de maneira variável para traduzir formas indígenas de autoridade.

Horacio Biord Castillo chama a atenção para os problemas de interpretar as chefias indígenas centro-venezuelanas através de categorias políticas rígidas. Ao discutir os teques e grupos vizinhos, recorda que a relação de Pimentel negava a existência, na província de Caracas, de caciques ou senhores com propriedade e senhorio equivalentes às instituições espanholas, admitindo formas de liderança cuja extensão podia variar em função do contexto.

Arbacos e meregotos

Não há uniformidade nas fontes quanto à associação étnica de Terepaima. A documentação quinhentista aqui utilizada chama-lhe principal, mas não lhe atribui explicitamente um etnónimo pessoal. Oviedo y Baños é uma fonte muito posterior e apresenta-o como cacique dos arbacos, chegando a falar das «tropas de sus Arbacos».

Nectario María, pelo contrário, reinterpretou no século XX essa arquitectura étnica. Na obra de 1966 sustentou que os grupos chamados arbacos ou aruacos por Oviedo eram, na realidade, meregotos, e passou a designar Terepaima como cacique dos meregotos. Esta identificação tornou-se influente e está presente na actual entrada da Fundación Empresas Polar.

Lomba, serranias e reconstruções territoriais

O território que pode ser ligado directamente ao nome de Terepaima no século XVI é, antes de mais, a lomba de Terepayma: Pimentel explica a própria denominação pela residência do principal no local ou nas suas proximidades.

A entrada moderna do Diccionario de Historia de Venezuela propõe uma área mais extensa, desde o vale superior do rio Tuy, passando pelas Lagunetas e serranias de Terepaima, até San Pedro, nos actuais estados de Arágua e Miranda.

Tradições sobre a morte

A data e as circunstâncias da morte de Terepaima são transmitidas de forma contraditória. Vicente Dávila, em Investigaciones históricas, afirmou em 1923 que em 1573 já haviam morrido Rodríguez Suárez às mãos de Guaicaipuro e Terepaima e, por sua vez, estes às de Diego de Losada. Uma tradição diferente aparece na família textual associada a Carlos Alarico Gómez. Em Los caciques de Venezuela (1996), Terepaima é apresentado numa sequência em que Garci González de Silva estabelece tratos ou paz com ele, o principal volta posteriormente à guerra e morre em combate em meados da década de 1570.

Formação da imagem historiográfica

A figura conhecida modernamente como «cacique Terepaima» resulta de uma tradição historiográfica desenvolvida durante vários séculos. Pimentel documenta um principal e uma lomba epónima; Castellanos individualiza-o como combatente; Oviedo y Baños acrescenta a associação aos arbacos, a amizade com Fajardo e a coordenação com Guaicaipuro; e a historiografia do século XIX passa a expressar mais directamente o comando sobre forças arbacas.

No século XX, Nectario María produziu uma das reconstruções mais influentes, convertendo a associação arbaca da tradição de Oviedo numa identificação meregota e atribuindo pessoalmente a Terepaima o comando do contingente que combateu Narváez. A síntese moderna da Fundación Empresas Polar conserva vários desses elementos e acrescenta a sequência Losada–Garci à biografia.

As diferenças entre estas camadas explicam por que razão alguns elementos muito divulgados — como a identificação simultânea com arbacos e meregotos, o comando de milhares de combatentes, uma posição formal subordinada a Guaicaipuro ou uma morte em data exacta — não devem ser apresentados como se constassem conjuntamente das fontes do século XVI.

Memória e representações culturais

Pintura e educação

Em 1943, o pintor venezuelano Pedro Centeno Vallenilla realizou a obra Cacique Terepaima. O historiador Roldán Esteva-Grillet explica que Centeno desenvolveu a sua série de caciques a partir dos relatos de Antonio Reyes e introduziu atributos destinados a diferenciar cada personagem segundo «a história ou a lenda». A composição de Terepaima contrapõe visualmente o dirigente indígena e Rodríguez Suárez e constitui uma representação artística moderna, não um retrato histórico do século XVI.

O nome Terepaima foi também utilizado no ensino. Segundo o inventário patrimonial IAM Venezuela, a antiga escola da Colónia Tovar passou a usar em Abril de 1943 a denominação Escuela Federal Rural Terepaima, registada na Gaceta Oficial n.º 21.074; por volta de 1962 aparece nas fotografias como Escuela Nacional Terepaima.

Literatura e medalhística

Em 1948, Obdulio Pulido publicou em Caracas o romance Terepaima.

Em 14 de Janeiro de 1955 entrou em circulação uma série de peças de ouro dedicada a doze chefes indígenas venezuelanos, entre eles Terepaima. A Cronología de historia de Venezuela, da Fundación Empresas Polar, informa que a série foi mandada cunhar no Inter Change Bank da Suíça e que os desenhos eram de Pedro Centeno Vallenilla.

Vista do Parque Nacional Terepaima

O catálogo especializado Numista classifica a peça de Terepaima como medalhão de colecção em ouro de 900 milésimos, desenhado por Centeno Vallenilla e gravado por V. Murolo e Luis Mandelli. No anverso aparece uma efígie moderna de Terepaima e a inscrição «CACIQUES DE VENEZUELA / "HUAYRA!" / TEREPAIMA».

Parque Nacional Terepaima

Selo venezuelano de 1991 dedicado a Terepaima, com ilustração de Anisia Zavarse Gilly.

O Parque Nacional Terepaima foi criado pelo Decreto n.º 1.519 de 14 de Abril de 1976, publicado na Gaceta Oficial n.º 31.000 de 10 de Junho daquele ano. O próprio decreto descreve a área protegida como a «región conocida como Terepaima», pertencente à Serra de Portuguesa, nos então distritos Palavecino e Iribarren do estado Lara e Araure do estado Portuguesa. Uma publicação de INPARQUES de 1983 refere igualmente a Fila Terepaima como a parte mais elevada do parque.

Banda desenhada e filatelia

Em 1982, a Editorial del Lago, de Maracaibo, lançou a colecção ilustrada Caciques de Venezuela. O n.º 1 foi dedicado a Terepaima e creditou os desenhos a Fernando Daza. A existência de texto narrativo próprio da colecção é confirmada por uma crítica publicada em 1983 ao fascículo dedicado a Murachí, na qual Andrés Márquez Carrero distingue expressamente «el autor del texto» do trabalho gráfico e critica erros históricos da narrativa.

Em 24 de Outubro de 1991 circulou na Venezuela uma emissão filatélica da série América 1991 UPAEP composta por dois selos dedicados a Terepaima e Paramaconi. O selo de Terepaima tinha valor facial de 12 e uma tiragem catalogada de 250.000 exemplares; o desenho ou ilustração da emissão é atribuído a Anisia Zavarse Gilly.

Referências

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  4. ↑ Nectario María 1966, pp. 36–39.
  5. ↑ Dávila 1923, «El Manco Sorocaima».
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  8. ↑ Arquivo Geral das Índias (AGI), JUSTICIA,93,N.1, f. 1029r, pergunta 4 da informação de Alonso Bernáldez, 1564.
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  10. ↑ Castellanos 1589, p. 374.
  11. ↑ Castellanos 1589, p. 374.
  12. ↑ Castellanos 1589, p. 374.
  13. ↑ Castellanos 1589, p. 374.
  14. ↑ Dávila 1927, p. 86.
  15. ↑ Dávila 1927, pp. 83–87.
  16. ↑ Dávila 1927, p. 86.
  17. ↑ Vázquez de Espinosa 1948, § 262.
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  22. ↑ Arquivo Geral das Índias (AGI), JUSTICIA,93,N.1, f. 1029r, pergunta 4, 1564.
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Bibliografia