| Verso e Reverso | ||||
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Capa da 2ª edição - 1864 | ||||
| Autor(es) | José de Alencar | |||
| Idioma | Língua portuguesa | |||
| País | ||||
| Lançamento | 1857 | |||
| Cronologia | ||||
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| Transcrição | Verso e Reverso | |||
Verso e Reverso (também conhecida como O Rio de Janeiro: Verso e Reverso) é uma comédia em dois atos de José de Alencar, sua primeira peça teatral. Foi representada pela primeira vez em 28 de outubro de 1857, no Teatro do Ginásio, no Rio de Janeiro, marcando a estreia do autor como dramaturgo, carreira que ele então iniciava paralelamente ao sucesso já conquistado como romancista, no mesmo ano de publicação de O Guarani.
A peça estreou sem indicação de autoria, mas os aplausos com que foi recebida animaram Alencar a prosseguir na carreira dramática, que resultaria, ainda no mesmo ano, em O Demônio Familiar e O Crédito. No prefácio da peça, o próprio autor relata a origem de sua vocação teatral: teria sentido o desejo de "fazer sorrir sem obrigar a corar" uma jovem por quem se interessava, ao assistir com ela a uma comédia "um pouco livre" no mesmo Ginásio Dramático.
A comédia é ambientada no Rio de Janeiro contemporâneo ao autor e narra a estada de um jovem estudante paulista na capital do Império, contrapondo, como sugere o título: o "verso", a face hostil e desagradável da cidade, vista pelos olhos de um forasteiro; ao seu "reverso", a face que se revela agradável e sedutora à medida que o protagonista nela se instala.
Ernesto, estudante de Direito de São Paulo, vem passar as férias do quinto ano na casa do tio, o capitalista Teixeira, no Rio de Janeiro. Logo na primeira cena, em uma loja de fazendas na Rua do Ouvidor, o rapaz mostra-se irritado com os incômodos da vida na Corte: é abordado por vendedores insistentes, sujado por uma carroça na rua e induzido pelo amigo Henrique a contribuir, contra a vontade, para a publicação de versos do poeta Pereira, sob pretexto de um "benefício" social ao qual não pode recusar-se. Decepcionado, Ernesto decide antecipar sua viagem de volta a São Paulo, chegando a declarar que prefere o suicídio a permanecer "nesta terra".
Seu tio Teixeira, entretanto, proíbe-o de partir, e é nesse contexto que se desenvolve a relação entre Ernesto e sua prima Júlia, filha de Teixeira, por quem o rapaz nutre um afeto que precisa ocultar do tio até obter licença para namorá-la abertamente. Passados alguns meses, a ação retoma, já em princípio de março, na casa de Teixeira nas Laranjeiras. Ernesto revela-se um jovem transformado: onde antes via apenas o "verso" de uma cidade hostil, hospeda agora, por meio do amor por Júlia, uma percepção mais benevolente do Rio de Janeiro, seu "reverso". A peça termina com a expectativa do casamento entre os primos, anunciada de forma jocosa pelo poeta Pereira diante da família reunida.
Um artigo de Mariana Amorim analisa Verso e Reverso como uma "chave de leitura" do cotidiano do Rio de Janeiro oitocentista, valendo-se do conceito de alteridade e da noção de práticas cotidianas de Michel de Certeau. Segundo essa leitura, a peça constrói o Rio de Janeiro a partir do "olhar do outro", o do estudante paulista habituado a outro ritmo de vida, oferecendo à plateia carioca, majoritariamente formada pela elite da Corte, uma visão de sua própria cidade que dificilmente perceberiam por si mesmos, precisamente por lhe serem tão familiarizados os seus costumes. A estrutura em dois tempos da peça, o "verso", de crítica e estranhamento, seguido do "reverso", de reconciliação e elogio, é interpretada como uma estratégia dramática para conduzir tanto a personagem quanto o público a uma reavaliação afetiva da cidade.
Do ponto de vista da história do teatro brasileiro, um estudo publicado por Douglas Ricardo Hermínio Reis situa Verso e Reverso na origem do projeto de Alencar de criar, nos moldes do realismo francês, uma "alta comédia" nacional, um teatro capaz de retratar com naturalidade os costumes e a "vida em ação" da sociedade brasileira contemporânea, em contraste com o teatro romântico então dominante nos palcos cariocas, associado sobretudo ao ator João Caetano.
A recepção contemporânea à peça, registrada por Machado de Assis no Diário do Rio de Janeiro, já reconhecia em Verso e Reverso os traços que marcariam toda a futura produção dramática de Alencar, embora a considerasse ainda uma "comédia elegante" e não propriamente a "alta comédia" que o autor viria a realizar pouco depois, com O Demônio Familiar. Para Machado, a peça se recomendava sobretudo pela "fiel pintura de alguns hábitos e tipos da época" e por uma observação minuciosa da vida cotidiana, qualidade que, segundo o texto, o autor soube conter sem deixá-la resvalar em excesso descritivo.
Também é registrado, na fortuna crítica sobre o conjunto da obra teatral de Alencar, que a experiência de Verso e Reverso e das peças imediatamente seguintes levou o próprio autor a refletir publicamente sobre os rumos do teatro nacional: no artigo "A Comédia Brasileira" (posteriormente reeditado como "Como e Porque Sou Dramaturgo"), escrito ao final de 1857 após a encenação de suas duas primeiras peças, Alencar avaliou a literatura dramática então vigente no país, contrapondo-se aos modelos de Martins Pena e Joaquim Manuel de Macedo e defendendo a introdução, no Brasil, da escola realista de que Verso e Reverso seria o primeiro passo.