| Iracema | ||||
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Primeira edição de Iracema. | ||||
| Autor(es) | José de Alencar | |||
| Idioma | Língua portuguesa | |||
| País | ||||
| Assunto | indigenismo | |||
| Gênero | Romance indianista | |||
| Linha temporal | séc. XVII | |||
| Localização espacial | Ceará | |||
| Editora | Typographia de Vianna & Filhos | |||
| Lançamento | 1865 | |||
| Páginas | 202 (1865) | |||
| Cronologia | ||||
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| Transcrição | Iracema | |||
| Este artigo é parte da série Trilogia indianista de José de Alencar |
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| O Guarani (1857) Iracema (1865) Ubirajara (1874) Ver também: Indianismo | ||

Iracema (originalmente, Iracema: Lenda do Ceará) é um romance brasileiro publicado em 1865 e escrito por José de Alencar que faz parte da trilogia indianista do autor. Os outros dois romances pertencentes à trilogia são O Guarani e Ubirajara.
Em Iracema, Alencar criou uma lenda mitológica e poética para as origens de sua terra natal, o Ceará, conhecida como "a terra onde canta a jandaia". Por este mesmo motivo, a o título completo da obra é "Iracema: Lenda do Ceará". A história se inicia com o encontro entre a indígena Iracema, do povo tabajara, e um homem branco de olhos azuis chamado Martim.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. (Capítulo II)
Assustada com a presença do estrangeiro, Iracema, que descansava debaixo de uma árvore e brincava com um pássaro, atirou uma flecha contra Martim, que diante de sua educação e seu princípio de não atacar as mulheres, não se defendeu. Arrependendo-se de tê-lo atacado, Iracema o resgatou e quebrou a sua flecha ao meio, um gesto que Alencar explica ser um sinal de trégua e paz. Iracema então o leva até a sua aldeia, onde Martim conhece o chefe Araquém, pai de Iracema. Recebido com hospitalidade pelos tabajara, Araquém oferece a mão de suas filhas para Martim, que prefere pelo amor de Iracema. Nesse momento, o homem descobre então que Iracema não pode se relacionar com homens, pois preserva sua castidade por motivos religiosos e a proteção da jurema sagrada.
— As mais belas mulheres da grande taba contigo ficam.
— Para elas a filha de Araquém não devia ter conduzido o hóspede à cabana do pajé.
— Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o pajé a bebida de Tupã.
A partir de então, Iracema e Martim passam a viver um amor proibido e, sabendo das punições que Iracema pode sofrer por desrespeitar seus preceitos, Martim constantemente menciona deixar a aldeia para procurar por seus colegas. Mesmo não podendo se relacionar com Martim, Iracema se apaixona pelo homem e se chateia sempre que Martim menciona ir embora e abandoná-la.
Surge então Irapuã, um chefe dos tabajaras que é apaixonado por Iracema, mas não tem o seu amor correspondido. O mesmo ameaça atacar e "devorar o sangue" de Martim, o que a própria Iracema não o permite. Em uma situação, Irapuã e Martim se encontram, após Martim deixar a aldeia tabajara e ser guiado na mata por Caubi, irmão de Iracema que havia retornado de uma longa caçada. Em meio ao combate, Iracema se coloca entre Martim e Irapuã, impedindo que o guerreiro fizesse qualquer mal ao homem branco.
A "virgem dos lábios de mel" tornou-se símbolo do Ceará, e seu filho, Moacir, nascido de seus amores com o colonizador português Martim, representa o primeiro cearense, fruto da união das duas raças. A história é uma representação do que aconteceu com a América na época de colonização europeia.
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Para José de Alencar, como explicita o subtítulo de seu romance, Iracema é uma "Lenda do Ceará". É também, segundo diferentes críticos e historiadores, um poema em prosa, um romance poemático, um exemplo de prosa poética, um romance histórico-indianista, uma narrativa épico-lírica ou mitopoética. Cada uma dessas definições põe em relevo um aspecto da obra e nenhuma a esgota: a lenda, a narrativa, a poesia, o heroísmo, o lirismo, a história, o mito.
O encontro da natureza (Iracema) e da civilização (Martim) projeta-se na duplicidade da marcação temporal. Há, em Iracema, um tempo poético marcado pelos ritmos da natureza e pela percepção sensorial de sua passagem (as estações, a Lua, o Sol, a brisa), que predomina no corpo da narrativa, e um tempo histórico, cronológico. O tempo histórico situa-se nos primeiros anos do século XVII, quando Portugal ainda estava sob o domínio espanhol (União Ibérica), e, por forças da união das coroas ibéricas, a dinastia castelhana ou filipina reinava em Portugal e em suas colônias ultramarinas.
A ação inicia-se entre 1603 e o começo de 1604, e prolonga-se até 1611. O episódio amoroso entre Martim e Iracema, do encontro à morte da protagonista, dá-se em 1604 e ocupa quase todo o romance, do capítulo II ao XXXII. A valorização da cor local, do típico, do exótico, inscreve-se na intenção nacionalista de embelezar a terra natal por meio de metáforas e comparações que ampliam as imagens de um Nordeste paradisíaco, primitivo. É o Nordeste das praias e das serras (Ibiapaba), dos rios (Parnaíba e Jaguaribe) e da Bica do Ipu ou "bica".
Há uma falsa etimologia popular que atribui o nome "Iracema" como sendo um anagrama da palavra "América", mas o próprio autor, José de Alencar, desmentiu o boato e explicou a real inspiração por trás do nome. Em uma nota de rodapé na primeira edição do romance, o autor afirma que o nome tem origem na língua tupi e significa "lábios de mel", pois "Iracema" seria a junção das palavras "ira" (mel) e "tembé" (lábios). Esta última palavra poderia se alternar em "ceme", e Alencar justifica essa mudança por meio da palavra "ceme-iba". Esta afirmação, contudo, é atualmente questionada por muitos linguistas brasileiros. De acordo com o tupinólogo Eduardo Navarro, "iracema" é, na verdade, um termo nheengatu que significa "enxame", pois "cema" significa "saída".
É possível que Alencar tenha se inspirado em uma outra personagem histórica do período colonial também conhecida como Lábios de mel e que também se envolveu com um homem estrangeiro. Diferente da versão romântica de Alencar, contudo, a Lábios de mel histórica foi raptada e mantida cativa pelos colonizadores portugueses, o que provocou o ataque ao engenho Tracunhaém.
A personagem que dá nome ao livro é tema de várias pinturas e esculturas no Brasil.
Em 1951, pela Editora Brasil-América Limitada, André Le Blanc ilustrou uma adaptação de Iracema. Em 1957, Gedeone Malagola adaptou o romance para a revista Vida Juvenil da editora Vida Doméstica, para a mesma revista também adaptou O Guarani e Ubirajara.
A história foi transformada em poesia de cordel por Alfredo Pessoa Lima e Stelio Torquato Lima.
O romance foi adaptado em 1917 como um filme mudo dirigido por Vittorio Capellaro e estrelado por Iracema de Alencar, e em 1949 como um filme dirigido por Vittorio Cardineli e Gino Talamo, estrelado por Ilka Soares. Em 1979, lançou-se o filme Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel, dirigido pelo cineasta Carlos Coimbra.
Em 2017, a escola de samba Beija-Flor apresentou o enredo "A Virgem dos lábios de mel - Iracema", baseado no livro.

A obra foi traduzida para alguns idiomas:
| Idioma | Título(s) | Tradutor(a) | Dados de publicação |
|---|---|---|---|
| Inglês | Iraçéma, the honey-lips: a legend of Brazil | Lady Isabel Burton | London: Bickers, 1886. |
| Iracema: a novel | Clifford E. Landers | Oxford; New York: Oxford University Press, 2000. | |
| Espanhol | Iracema | María Torres Frias | Buenos Aires: Ferrari, 1944. |
| Iracema: leyenda de Ceará | Félix E. Etchegoyen | Madrid: Cupsa, 1984. | |
| Iracema | José Luis Sánchez | Barcelona: Obelisco, 2000. | |
| Latim | Iracema | Remígio Fernandez e Heloísa Coelho de Souza | Belém: Oficial, 1950. |
| Esperanto | Iracema: legendo pri Cearao | Benedicto Silva | Rio-de-Ĵanejro: Kultura Koop. de Esperantistoj, 1974. |
| Russo | Ирасема: повесть (Irasema: povest') | Inna Tynjanova | Moskva: Izd. Chudozestvennaja Literatura, 1989. |