Léon Walras

Léon Walras
NascimentoLéon Walras
16 de dezembro de 1834
Évreux
Morte5 de janeiro de 1910 (75 anos)
Clarens
SepultamentoCemetery of Clarens
CidadaniaFrança
Progenitores
  • Auguste Walras
Alma mater
Ocupaçãoeconomista, professor, matemático, economista, professor universitário
Empregador(a)Universidade de Lausanne
Movimento estéticoEscola de Lausanne
Religiãocatolicismo

Léon Walras (Évreux, 16 de dezembro de 1834 – Montreux, 5 de janeiro de 1910) foi um economista francês cuja carreira acadêmica ocorreu integralmente na Universidade de Lausanne, na Suíça.

Embora tenha marcado profundamente a história da ciência econômica, seu pensamento teve dificuldades para se firmar na França. Tendo como única titulação acadêmica dois diplomas de baccalauréat, Walras contou, apesar de tudo, com o constante apoio de seu pai, Auguste Walras, um inspetor escolar apaixonado por economia, de quem herdou em grande medida a doutrina econômica. Foi graças a Louis Ruchonnet, um político radical do cantão de Vaud que também ocupou funções públicas nacionais na Suíça, que foi nomeado professor nessa instituição. Foi ainda Ruchonnet quem o auxiliou a divulgar sua obra. Para o líder político suíço, tratava-se também de consolidar a reputação da Universidade de Lausanne.

Para compreender a obra completa de Walras — e não apenas a sua parte mais conhecida, centrada na noção de equilíbrio geral —, é importante recordar que ele distinguia três tipos de economia: a economia pura, a economia social e a economia aplicada. A economia pura é o objeto de uma ciência pura que estuda fatos naturais dependentes de forças cegas e fatais. A economia social, objeto de uma ciência pura moral e de uma ciência pura aplicada, visa definir um ideal de justiça. Já a economia política aplicada tem como propósito fornecer diretrizes para a ação.

Walras é conhecido sobretudo por seu livro Éléments d'économie politique pure, obra na qual as trocas só se realizam após um tateamento (denominado walrasiano), conduzido por um hipotético leiloeiro, permitir atingir o equilíbrio de mercado. Com base nisso, ele demonstra matematicamente, a partir de uma única hipótese — a escassez —, a existência de um equilíbrio geral. É esse conceito de equilíbrio geral que levou Joseph Schumpeter a considerar Walras como

o maior de todos os economistas

"The greatest of all economists." Schumpeter, Joseph (1954). History of Economic Analysis (em inglês). [S.l.: s.n.] 827 páginas .. A noção de equilíbrio geral foi rapidamente adotada por grandes economistas, como Vilfredo Pareto, Knut Wicksell e Gustav Cassel. Situando-se principalmente no campo da análise econômica, John Hicks e Paul Samuelson utilizaram a contribuição walrasiana na elaboração da síntese neoclássica. Por sua vez, Kenneth Arrow e Gérard Debreu, adotando a perspectiva da lógica e da matemática, procuraram determinar as condições necessárias para que haja equilíbrio.

Os escritos de Walras sobre a economia social e a economia aplicada foram bem menos apreciados por Schumpeter e por Vilfredo Pareto, o sucessor de Walras em Lausanne, que considerava a economia social walrasiana uma obra de metafísica. Essa vertente de sua obra passou a ser examinada de forma sistemática de modo tardio, sobretudo graças às pesquisas realizadas a partir da década de 1980 pelo Centro Auguste e Léon Walras da Universidade de Lyon II. Essa parte de sua produção, profundamente marcada pela economia política em oposição à ciência econômica pura, ofereceu ao economista de Lausanne a oportunidade de se posicionar em relação aos seus contemporâneos. Ele criticou Proudhon, os saint-simonianos, os fourieristas e os marxistas, sofrendo, porém, influência da escola democrática de Étienne Vacherot. Essa faceta levou os especialistas em Walras a debaterem se ele deveria ser considerado liberal ou socialista.

Para Pierre Dockès, Walras foi um socialista singular, ao passo que para Pierre Herland ele teria sido sobretudo liberal, e para Jean-Pierre Potier, um socialista liberal. Seu liberalismo, contudo, não se confunde com o da escola austríaca, a qual, em geral, tem pouca simpatia pelo equilíbrio geral. Para delinear alguns dos traços fundamentais do pensamento de Walras nesse campo, convém lembrar que, a seu ver, o Estado detém uma racionalidade superior à dos indivíduos no domínio que lhe é próprio. O seu papel consiste essencialmente em regular a economia de mercado, combatendo os monopólios e gerindo de forma direta os monopólios naturais. Do ponto de vista social, Walras mantinha uma visão meritocrática do mundo. Assim, segundo ele, o Estado não tem o dever de corrigir as desigualdades naturais, cabendo-lhe apenas assegurar que as regras do jogo sejam iguais para todos. Por fim, acreditava que, por meio do crédito, seria possível democratizar simultaneamente o capital e a sociedade.

Biografia

Estudos

curso d'água
O Gave de Pau ao sair do circo de Gavarnie.

Nascido em 1834, Léon Walras era filho de Auguste Walras, um ex-aluno da Escola Normal Superior apaixonado por economia, professor de filosofia e posteriormente inspetor escolar. Léon Walras cursou os estudos secundários no colégio de Caen (atual Lycée Malherbe) e, a partir de 1850, no liceu de Douai. Após obter os diplomas de bachelier ès lettres em 1851 e de bachelier ès sciences em 1853, foi reprovado pela primeira vez no exame de admissão à École Polytechnique. Em 1854, tentou novamente a aprovação, sem sucesso. A pedido do pai, matriculou-se então como aluno externo na École des Mines de Paris, mas também fracassou nos estudos.

Em 1856, decidiu dedicar-se à literatura e enviou seu romance Francis SauveurWalras, Léon (1858). Francis Sauveur (em francês). [S.l.: s.n.] Consultado em 10 de novembro de 2019. Cópia arquivada em 14 de novembro de 2025 . à Revue des Deux Mondes. O manuscrito foi recusado e acabou sendo publicado em edição paga pelo próprio autor. Nessa época, seu pai sofria com os insucessos do filho, especialmente porque precisava prover o sustento de Léon e da companheira com quem este convivia maritalmente, uma mãe solo. Léon Walras era então o único filho sobrevivente de Auguste Walras, após a morte de seus outros filhos, Henri (nascido em 1836 e falecido em 1847) e Louis (nascido em 1844 e falecido em 1858). Foi durante uma conversa entre pai e filho, em um passeio às margens do Gave de Pau, que Léon Walras decidiu dedicar-se à economia.

Meu pai afirmou-me com energia que havia duas grandes tarefas a serem cumpridas no século XIX: terminar de criar a história e começar a criar a ciência social. Ele não suspeitava então de quanto Ernest Renan lhe daria satisfação sobre o primeiro ponto. O segundo, que o havia preocupado por toda a vida, o tocava de forma ainda mais sensível. Insistia nisso com uma convicção que transmitiu a mim. E foi então que, diante do portão de uma propriedade rural chamada “Les Roseaux”, prometi-lhe deixar a literatura e a crítica de arte para me dedicar inteiramente à continuação de sua obra.

— «Autobiografia», Jaffé, tomo 1, p. 2

Walras do final dos anos 1850 a 1869

fotografia de um homem barbudo
Jules Simon, conhecido de Léon Walras, fotografado por Nadar, c. 1855–1859.

Após essa «iluminação», Walras começou a redigir artigos para o jornal La Presse, de Émile de Girardin, e para o Journal des économistes, além de livros dedicados à economia política. Ao escrever L'Économie politique et la Justice, obra de refutação das teses de Proudhon, teve a sua segunda iluminação. Ele escreveu:

transcrevi ali as leis de variação de valor dos capitais e dos serviços fundiários, pessoais e mobiliários em uma sociedade progressiva, tais como meu pai as havia fornecido em sua Théorie de la richesse sociale; contudo, pareceu-me desde então que, feita na linguagem ordinária, a demonstração dessas leis era insuficiente e que, para torná-la rigorosa, teria sido necessário dar-lhe a forma matemática.

— Études d'économie appliquée, p. 466

Essa conversão à matematização da economia deveu-se também, em grande medida, a uma conversa que manteve com o engenheiro politécnico saint-simoniano Lambert-Bey. Quando Léon Walras lhe apresentou sua primeira obra econômica, Lambert-Bey enfatizou que não bastava afirmar

que a livre concorrência proporciona o máximo de utilidade

, sendo imperioso prová-lo matematicamente.

Em 1860, os radicais que ascenderam ao poder em Lausanne, na Suíça, organizaram um congresso sobre tributação. Estimulado pelo pai, Léon Walras participou do evento para apresentar a tese paterna de que a nacionalização das terras seguida de seu arrendamento deveria custear as despesas do Estado. A defesa dessa proposta levou-o a criticar outros modelos de financiamento das contas públicas, inclusive o imposto sobre o capital defendido por Émile de Girardin, proprietário do La Presse, e o imposto sobre a renda, advogado no mesmo congresso por Joseph Garnier, diretor do Journal des économistes. Durante o congresso, ele conseguiu a façanha de indispor-se com seus dois principais empregadores e obteve apenas uma modesta menção honrosa (quarto lugar), enquanto o primeiro prêmio coube a seu adversário, Proudhon. Apesar disso, sua atuação chamou a atenção de Louis Ruchonnet, líder político de Lausanne com promissora trajetória pública.

Em 1861, Walras solicitou autorização governamental para publicar um periódico semanal de trinta páginas intitulado L'Économiste, mas o pedido foi negado pelo Ministério do Interior francês. Em 1862, graças aos laços do pai com a família Say, ingressou na secretaria da Companhia dos Caminhos de Ferro do Norte, um emprego pouco rentável. Nessa época, tentou também escrever, em colaboração com o politécnico Jules du Mesnil-Marigny, um Traité d'économie politique.

Durante a década de 1860, a questão social e a sua superação por meio da associação e da cooperação estiveram no centro das reflexões dos círculos frequentados pelos Walras. Em 1864, por exemplo, o primeiro titular da cátedra de economia política da Faculdade de Direito de Paris, Batbie, estudou as propostas reformistas alemãs em busca de inspiração. Foi nesse contexto que surgiu a Caisse d'Escompte des Associations populaires, da qual Léon Walras assumiu a diretoria. A diretoria da instituição contava com diversas figuras que viriam a ter expressivo papel político: Léon Say (1826–1896), futuro ministro das Finanças; Jules Simon, futuro presidente do Conselho; e o duque Louis Decazes, futuro ministro das Relações Exteriores. A partir de 1868, a instituição enfrentou dificuldades financeiras que resultaram na sua liquidação em 1869. Esse episódio encerrou a amizade entre Léon Walras e Léon Say, ganhando nova repercussão quando o jornal Le Figaro, em 1883, moveu uma campanha pública contra Say.

Em 1869, Walras casou-se, reconhecendo o filho de sua esposa e a filha que tiveram juntos. Em 1870, sua trajetória, até então marcada por revezes, tomou um novo rumo quando Louis Ruchonnet lhe propôs concorrer à cátedra de economia política da Universidade de Lausanne.

Universidade de Lausanne

retrato de um homem usando monóculo
Louis Ruchonnet, advogado, político, duas vezes presidente da Confederação Suíça: o homem que apostou em Léon Walras.

Louis Ruchonnet, amigo de Jules Ferry e membro do Partido Radical do cantão de Vaud, na época Conselheiro de Estado responsável pela Instrução Pública e Cultos do cantão de Vaud, pretendia transformar a instituição em uma universidade voltada à pesquisa. No discurso de posse de Walras no corpo docente, declarou:

É preciso que a ciência aborde resolutamente o problema do futuro e fale com essa inteira liberdade da qual a ciência tem o privilégio. Esse estudo... onde será feito? Será nessas grandes cidades...? Não penso assim, e permito-me perguntar se a nossa pequena pátria não seria talvez um solo propício para a ciência social.

Em sua carta de candidatura, Walras posicionou-se mais como pesquisador do que como docente, numa época em que a França da Terceira República, por meio do concurso de agrégation, fazia a escolha oposta. Seu programa de pesquisa pretendia substituir a clássica divisão produção/distribuição/consumo pela divisão economia pura/economia aplicada/economia social, além de promover a economia matemática. Além de Walras, outros dois candidatos — um francês e um italiano — concorreram à vaga. Diante da divisão da banca examinadora, Walras foi admitido inicialmente como professor extraordinário, tornando-se professor ordinário somente em julho de 1871, após comprovar sua competência.

Em 1872, tendo resolvido teoricamente

o problema da teoria matemática da troca

, Walras expôs suas conclusões durante quatro horas a Ruchonnet, que em consequência lhe concedeu um aumento salarial. Foram também as autoridades do cantão de Vaud que encontraram o editor para o seu primeiro grande livro, Éléments d'économie politique pure, e adquiriram a centena de exemplares que Walras enviou a colegas estrangeiros. Em 1875, publicou Équations de l'échange; em 1876, Équations de la production e Équations de la capitalisation, obras que seriam reunidas num único volume: a Théorie mathématique de la richesse sociale. Em 1877, publicou a segunda edição, substancialmente reformulada, dos Éléments d'économie politique pure.

No final da década de 1870, com a ascensão dos republicanos ao poder na França, Walras cogitou retornar a seu país natal. Contudo, apesar da simpatia de Jules Ferry, o retorno revelou-se inviável. Vários fatores explicam essa impossibilidade, entre os quais sua falta de títulos do ensino superior. Além disso, as concepções de Walras a respeito do ensino universitário e, em particular, do ensino da economia colidiam frontalmente com o projeto republicano francês. Com efeito, para Walras, cumpria estabelecer uma distinção nítida entre economia pura e prática econômica, confiando o ensino da disciplina a novas faculdades de ciências políticas, em detrimento das faculdades de direito e da recém-criada École Libre des Sciences Politiques. A Terceira República, por sua vez, adotou o caminho oposto: fortaleceu a École Libre des Sciences Politiques e transferiu o ensino de economia para as faculdades de direito. Se as instituições francesas não manifestavam entusiasmo em recebê-lo, as autoridades de Vaud, por outro lado, mostravam-se satisfeitas em mantê-lo, concordando inclusive em elevar sua remuneração em 1880.

Em Lausanne, Walras desfrutava de plena liberdade acadêmica, da qual muito se orgulhava. Quando surgia um problema em sua área de competência, era ocasionalmente consultado, como na

revisão da lei de 8 de março de 1881 sobre a emissão e o resgate de notas bancárias

. Em outras ocasiões, manifestava-se espontaneamente. Foi o que ocorreu em 1881 quando, após a suspensão da cunhagem de moedas de prata pelos países da União Latina, formulou uma teoria matemática do bimetalismo, solicitando a Ruchonnet que a defendesse na conferência monetária internacional de abril de 1881.

Em 1883, lançou uma segunda edição ampliada da Théorie mathématique du bimétallisme, acompanhada da Théorie mathématique du billet de banque e da Théorie mathématique du prix des terres et de leur rachat par l'État.

Últimos anos (1893–1910)

retrato de um homem
Theodore Roosevelt, Prêmio Nobel da Paz em 1906, ano em que Walras se candidatou à honraria.

Em 1893, Vilfredo Pareto o sucedeu na Universidade de Lausanne. Em 1896, Walras publicou sua segunda grande obra, os Études d'économie sociale, e, em 1898, a terceira: os Études d'économie politique appliquée. Por fim, em 1900, lançou uma versão revisada dos Éléments d'économie politique pure.

Nos últimos anos de vida, praticamente arruinado pelos gastos realizados para divulgar suas ideias, procurou uma solução para preservar seus manuscritos e arquivos. Para obter os recursos necessários e assegurar a estabilidade financeira de sua filha, Aline Walras, candidatou-se em 1906 ao Prêmio Nobel da Paz[carece de fontes]?. Embora a iniciativa pudesse soar inusitada, deve-se recordar que, em 1901, o Nobel da Paz fora concedido a um economista francês, Frédéric Passy. De qualquer forma, não obteve a láurea, concedida naquele ano a Theodore Roosevelt. O resultado duradouro desse projeto foi o livro escrito para fundamentar sua candidatura, La Paix par la justice sociale et l'échange, publicado em 1907. Em 1908, publicou um de seus últimos trabalhos: Économique et mécanique.

Ainda em 1908, a Universidade de Lausanne planejou homenageá-lo por meio de um jubileu, celebrado em junho de 1909. Na ocasião, foi descerrado um medalhão de bronze com sua efígie, no qual se lia:

A Marie Esprit Léon Walras
Nascido em Évreux em 1834
Professor na Academia e na Universidade de Lausanne que estabeleceu pela primeira vez as condições gerais do equilíbrio econômico, fundando assim a Escola de Lausanne,
Para homenagear 50 anos de trabalho desinteressado.

Contexto histórico de seu pensamento

Influência do pai sobre o filho

retrato de um homem
Henry George em 1886.

O pai de Walras elaborou uma doutrina de economia política assentada essencialmente em três pontos capitais: pôr fim à divisão da economia introduzida por Jean-Baptiste Say entre produção, distribuição e consumo da riqueza; construir uma teoria do valor baseada na utilidade e na escassez; e fundamentar as receitas do Estado na nacionalização das terras e em seu arrendamento. Estabeleceu as bases do segundo ponto em conferência proferida na Academia de Ciências Morais e Políticas intitulada Mémoire sur l'origine de la valeur d'échange - Exposition critique et réfutation des opinions les plus accréditées chez les économistes sur cette question. O terceiro ponto — seu modelo de financiamento estatal — gozava de certa popularidade à época, surgindo com diferentes formulações em Herbert Spencer, Henry George e Tolstói, mas despertou forte resistência na França, onde metade da produção nacional vinha da agricultura e a propriedade agrária era tida como sustentáculo da ordem social.

Em carta de 1.º de abril de 1860, Auguste Walras delineou, em certa medida, as metas que o filho deveria perseguir para dar continuidade e grandeza à sua doutrina:

Imagina que, com as ideias que tens na cabeça, estás destinado a empunhar e carregar o cetro da economia política. De todos os que hoje se ocupam dessa ciência, uns, e é a maioria, não entendem absolutamente nada dela; os outros, desprovidos de qualquer originalidade e de qualquer invenção, remoem, a perder de vista, as ideias que tomaram emprestadas de seus mestres, e obstinam-se em defender teorias que os deixariam sem chão caso tivessem o bom senso de abandoná-las. A nossa doutrina é a única ampla, elevada e completa.

Na década de 1860, era o pai quem, de certo modo, orientava a estratégia do filho. Foi ele quem o instigou a submeter artigos ao Journal des Économistes, atenuando certas ideias para facilitar a aceitação. Foi ele também quem primeiro planejou escrever uma refutação a Proudhon, repassando o projeto ao filho, que resultou no livro L'économie politique et la justice. Foi ainda Auguste quem elaborou o esboço do documento apresentado por Léon no Congresso de Lausanne sobre a tributação. Se o pai, para resguardar a carreira funcional na administração pública, velava o seu pensamento ou, como no caso da Mémoire sur l'origine de la valeur d'échange, recuava no momento em que o tema se tornava explosivo, não hesitava em fazer com que o filho assumisse riscos muito maiores. Por fim, foi ele quem incentivou a partida para a Suíça. Não surpreende, pois, que mais tarde Léon Walras nunca perdesse a oportunidade de prestar tributo à memória do pai.

Walras e a fisiocracia

Jean-Georges Wille, François Quesnay, gravado a partir de Jean Chevalier.

Para vários autores, como William Jaffé, Jean-Pierre Potier, Pierre Dockès e Joseph Schumpeter, foram Turgot e os fisiocratas que exerceram a maior influência sobre Walras depois de seu pai. A proposta do imposto único que Walras defendia, herdada do pai, vinha também dos fisiocratas:

Nosso imposto único sobre os arrendamentos não é outra coisa senão o imposto único territorial dos fisiocratas

. Se após 1820 poucos eram os que se reivindicavam fisiocratas, Eugène Daire publicou, em 1846, seus principais textos, ainda que negligenciando o Quadro Econômico (Tableau économique), do qual é improvável, segundo Christophe Salvat, que tenha desempenhado

um papel relevante na formulação do sistema de equilíbrio geral de Walras

. O que realmente aproximava Walras e Quesnay era antes uma afinidade epistemológica. De fato, em carta a seu correspondente Oncken, Walras escreveu:

A observação que fazeis a respeito dos direitos dos fisiocratas no que tange à criação da economia matemática é perfeitamente fundada. Essa circunstância nos vincula incontestavelmente a Quesnay e à sua escola.

O fato de Walras considerar Quesnay, e não Adam Smith, o fundador da economia política devia-se principalmente a três razões: o enfoque matemático, o destaque atribuído pelos fisiocratas à concorrência e o desejo do fundador da Escola de Lausanne de se distanciar de Jean-Baptiste Say, a quem vinculava à tradição do filósofo escocês. Não obstante, em termos conceituais, Walras devia muito mais a Say do que a Quesnay, assimilando do primeiro conceitos essenciais como os de equilíbrio, empresário e produção.

Pensamento econômico na época de Walras

retrato de um homem
Karl Knies, membro da escola histórica alemã. Ele também foi o orientador de tese de dois fundadores da ciência econômica norte-americana: John Bates Clark e Richard T. Ely.

Quando Walras começou a se interessar por economia, o pensamento liberal de Jean-Baptiste Say, antigo professor do Conservatoire national des arts et métiers e, posteriormente, do Collège de France, predominava na França. Os continuadores de Say detinham, pelo controle de instituições decisivas como o Collège de France e a Sociedade de Economia Política, o monopólio do pensamento econômico, hegemonia que persistiria até a criação das cátedras de economia política nas faculdades de direito em 1877. Pellegrino Rossi, de viés liberal, sucedeu Say no Collège de France em 1832; seguiram-se Michel Chevalier, outro liberal, em 1864, e o genro deste, Paul Leroy-Beaulieu, em 1879. Por volta de 1870, a ideia de que a economia era uma

ciência estagnada

achava-se bastante disseminada na França. Jean-Gustave Courcelle-Seneuil, por exemplo, escreveu que

a tarefa da economia política está hoje cumprida, ou quase. Dificilmente se poderia acrescentar a ela algo que não fossem controvérsias desprovidas de interesse ou desvios temíveis

.

Na Alemanha, estruturou-se por volta de 1850 a escola histórica alemã, ao passo que na Inglaterra, entre o fim dos anos 1860 e o início dos anos 1870, o modelo de Ricardo e Mill perdia fôlego, sem que a vertente histórica inglesa, nucleada em torno de Cliffe Leslie, conseguisse se impor. No final, a escola de Alfred Marshall e de Cambridge consolidou sua hegemonia, tanto no cenário nacional quanto no internacional.

Walras, em especial em suas aulas reunidas no Cours d'économie sociale, combateu a escola histórica alemã, acusando-a de excesso descritivo e de restringir a economia política ao horizonte estritamente nacional. Em sentido oposto, sustentava que a verdade é una e não se altera conforme as fronteiras. Em Mélanges d'économie politique et sociale, escreveu:

uma ciência que não quer ser nem latina, nem anglo-saxônica, nem eslava, mas exclusivamente germânica, não é uma ciência

. Embora tenha registrado em seu manuscrito Exposition et conciliation des doctrines sociales que

a economia política esclarece a história (e não a história a economia política)

, Walras atribuía à história ao menos duas funções: fornecer os fatos que servem de base à construção teórica e permitir a checagem empírica das teorias. Mais do que isso, concebia que o Ideal social formulado pela teoria deveria concretizar-se no desenrolar histórico, ainda que, diferentemente de Hayek ou Adam Ferguson, essa realização não ocorresse de forma espontânea, mas por meio da vontade consciente e da razão humana.

Demanda por economia na época de Walras

retrato de um homem barbudo
Jules Ferry, amigo de Léon Walras e de Louis Ruchonnet.

Na segunda metade do século XIX, três grandes setores demandavam economistas especializados: a administração pública, as ferrovias e as instituições financeiras. Na França, a Terceira República preferiu não seguir a experiência da Segunda República, optando por não instituir uma escola nacional de administração para a formação de quadros políticos e burocráticos. Optou por atribuir tal função às faculdades de direito, criando, em 1877, cerca de quinze cátedras de economia nessas faculdades. Como tais postos eram destinados exclusivamente a doutores em direito ou portadores do título de agrégé, Walras, dispondo apenas do título de bachelier, ficava de facto excluído. A escolha das faculdades de direito para abrigar o ensino econômico decorreu em parte do prestígio da escola histórica alemã, que oferecia aos governantes franceses um tríplice atrativo: debruçava-se sobre a questão social, desfrutava da imensa autoridade atribuída à ciência alemã no século XIX e era eminentemente empírica, ajustando-se à postura dos juristas que dominavam a disciplina na França. Todavia, esse empirismo provocou a paralisia da pesquisa teórica no país, panorama lastimado por Charles Gide em 1881:

As pesquisas especulativas sobre os princípios da ciência econômica caíram, na França, em profundo descrédito... O que é isso: a teoria da economia política? Não se quer mais, ao menos na França, teoria econômica e já não se faz mais nenhuma. Ocupa-se com estatística, demografia, finanças, legislação econômica, talvez sociologia, com tudo o que se parece com a economia política sem sê-lo.

As necessidades do setor ferroviário e dos bancos foram supridas pelas escolas de engenharia, as quais formaram os técnicos que sucederiam os economistas liberais de formação literária. Também nesse ponto o arranjo institucional prejudicou Walras: no contexto acadêmico francês, era improvável nomear um mero bachelier para lecionar nessas instituições de elite quando se dispunha de engenheiros habilitados para as funções.

Walras, ciência e modelagem

capa de um livro
Théorie mathématique de la richesse sociale, 1883.

Ciência, arte e prática em Walras

Ciências e fatos em Walras

Para Walras, seguindo a tradição de Platão,

a ciência não estuda os corpos, mas os fatos dos quais os corpos são o palco

- Segundo ele, uma investigação científica estuda

os fatos, suas relações e suas leis

- Ele distinguia duas categorias de fatos: os fatos naturais, que têm origem

no jogo das forças da natureza, que são forças cegas e fatais

- constituindo o objeto da

ciência pura natural ou da ciência propriamente dita

- os fatos humanitários, que têm por

palco a humanidade

- nos quais ocorre a intervenção da vontade humana. Dentre estes, ele distinguia: os fatos humanitários

que resultam da vontade dos homens exercendo-se sobre as forças naturais, em outros termos, as relações entre pessoas e coisas

- cujo conjunto forma a indústria, objeto da teoria da indústria, também chamada de ciência aplicada ou arte; os fatos humanitários resultantes

da atividade do homem exercendo-se sobre a vontade e a atividade de outros homens, em outros termos, as relações de pessoa a pessoa

- cujo conjunto forma os costumes, objeto da ciência moral ou da moral. O fato de Walras ter introduzido, a partir da segunda edição dos Éléments d'économie politique pure, a noção de

ciência moral pura ou história

— incorporada em 1898 em seu Esquisse d'une doctrine économique et sociale no âmbito da cenônica geral (ciência abstrata e racional que engloba

a ética pura e a economia pura

) — provoca certo embaraço entre os especialistas. Com efeito, a partir daí, já não parece possível equiparar estritamente ciência pura e ciência natural, uma vez que a moral também é considerada pura, abrindo margem à indagação sobre se a economia pura não seria igualmente uma ciência social. Para Michele Bee, esse dilema dissipa-se ao se considerar que, se todas as ciências aplicadas são humanitárias no sentido de buscarem o melhor para o ser humano, a ciência moral pura debruça-se sobre a «natureza» humana, isto é, sobre o seu aspecto não humanitário.

Tripartição da economia e tipos de ciência

Assim como seu pai, Walras dividia a economia em três campos: a economia pura, domínio da verdade; a economia aplicada, domínio do útil; e a economia social, domínio do justo. Segundo Jérôme Lallement, essa tripartição e o apelo a três modalidades de ciência (natural, moral e aplicada) decorrem da intenção walrasiana de harmonizar

o postulado da liberdade das pessoas e a existência de leis econômicas necessárias

.

Tipo de economiaObjetoTipo de ciênciaDetalhes sobre a eventual relação
1. Economia política puraA riqueza social em si mesma. Tem por objetivo principal demonstrar a existência de um sistema de equilíbrio.Ciência puraHá divergência entre especialistas sobre se a economia pura é uma ciência descritiva pura ou normativa (1).
2. Economia socialA repartição da riqueza social. Visa sobretudo

definir o que é um preço justo a partir de critérios de justiça

. Tem por objeto as relações entre indivíduos.
Ciência moral pura / Ciência moral aplicada (2)A ciência moral pura define um ideal de justiça; a ciência moral aplicada consiste na aplicação prática desse ideal.
3. Economia aplicadaA produção da riqueza social. Trata-se de colocar em prática resultados verdadeiros e justos. Situa-se no domínio do útil, tratando das relações dos homens com as coisas.Ciência aplicada ou arteA ciência aplicada diz respeito à ação, visando elaborar regras. Não se refere à prática em si, sendo antes um guia para a ação. Segundo Pierre Dockès, ela provém

da razão walrasiana

aplicada.
  • (1) Segundo Jérôme Lallement, a economia política pura é uma ciência pura em Walras, enquanto para Roberto Baranzini e Elena Tati (2002), ela se aproximaria mais de uma ciência normativa. Para sustentar sua posição, Lallement salienta que o equilíbrio em todos os mercados

    é o resultado de uma demonstração matemática e tem o estatuto de um teorema

. Nessas condições, Debreu (1959) estaria em plena sintonia com a linhagem de Walras. Lallement defende ainda que foi justamente por ser a economia pura uma ciência natural em Walras, e não uma ciência moral voltada às relações inter-humanas, que a matematização da disciplina acabou rejeitada por seus contemporâneos.

  • (2) A distinção entre ciência moral pura e ciência moral aplicada surge em apenas dois textos: De la culture et de l'enseignement des sciences morales et politiques (1879) e Esquisse d'une doctrine (1898).

Prática e homem de Estado

caricatura de um homem corpulento
Léon Say: caricatura de Carlo Pellegrini, conhecido como «Ape», publicada na revista Vanity Fair em 1880.

Em artigo de 1875 intitulado L'État et les chemins de fer, Walras separou com clareza a análise econômica técnica (decorrente da modelagem) da decisão política prática. A seu ver, a análise econômica estabelece princípios gerais, cabendo ao homem prático delimitar sua esfera de validade, isto é, determinar as situações em que tais princípios se aplicam e aquelas em que deixam de ser válidos. Hervé Dumez ressalta que Walras circunscrevia a atuação do economista à docência e à pesquisa, recusando

a figura do economista 'pau para toda obra', simultaneamente presidente de empresas, ministro e professor com pretensões de grande teórico, a exemplo de Léon Say

.

Em Esquisse (1898), Walras defendeu que, enquanto a ciência trata de verdades perenes, a prática — diferenciada da arte — depende das circunstâncias:

[O] papel do homem de Estado é conduzir uma determinada sociedade em direção a esse ideal indicado pelo homem de ciência; ele deve situar-se sob o ponto de vista relativo e buscar um compromisso entre as exigências da ciência e as circunstâncias em que se encontra. Toda reforma social séria e duradoura é uma transação entre as condições de um ponto de partida e as de uma meta que se quer alcançar.

— Esquisse, 1898, p. 410

Ciência pura, economia pura e modelagem em Walras

Segundo Walras,

a economia política pura é essencialmente a teoria da determinação dos preços sob um regime hipotético de livre concorrência absoluta

. Ela constitui o campo do modelo, entendido como um processo simplificado que espelha a realidade e opera

um distanciamento dos fatos e da concretude que, constantemente, brotam em uma selva intrincada

. O modelo filia-se ao método matemático, que não decorre do método experimental, mas da

metodologia racional

. A dedução a partir de premissas abstratas, como o

regime hipotético de livre concorrência absoluta

, situa-se, de certo modo, acima dos fatos empíricos imediatos. A esse respeito, escreveu:

O que é certo é que as ciências físico-matemáticas, como as ciências matemáticas propriamente ditas, distanciam-se da experiência assim que dela extraem seus modelos. Elas abstraem desses modelos reais tipos ideais que definem, e constroem a priori todo o edifício de seus teoremas e de suas demonstrações. Retornam, depois disso, à experiência, não para confirmar, mas para aplicar suas conclusões.

A economia pura existe, portanto, para fundamentar a resolução dos problemas centrais e ainda em aberto da economia aplicada e da economia social:

Para seguir esse método, a economia política pura deve extrair da experiência modelos de trocas, de oferta, de demanda, de mercados, de capitais, de rendimentos, de serviços produtivos e de produtos. Desses modelos, deve abstrair, por definição, tipos ideais e raciocinar sobre estes últimos, para só retornar à realidade depois que a ciência estiver consolidada tendo em vista suas aplicações. Temos assim, em um mercado ideal, preços ideais que estarão em uma relação rigorosa com uma demanda e uma oferta ideais. E assim sucessivamente. Terão essas verdades puras uma aplicação frequente? A rigor, seria direito do cientista fazer a ciência pela ciência. [...] Mas ver-se-á que essas verdades de economia política pura fornecerão a solução dos problemas mais importantes, mais debatidos e menos esclarecidos da economia aplicada e da economia social.

Conforme apontado por contemporâneos, Walras — assim como David Ricardo e François Quesnay antes dele — depositava ampla confiança no raciocínio abstrato. Charles Gide, em seu curso de 1909, assinalava que

o método abstrato de Ricardo renasce nas escolas matemática e psicológica

, referindo-se diretamente à Escola de Lausanne e à Escola Austríaca.

A modelagem walrasiana diante de suas concorrentes

retrato de um homem
Alfred Marshall, outro grande nome da escola neoclássica.

Ao contrário de Walras, a escola austríaca adotou uma modelagem desprovida do recurso aos instrumentos matemáticos formais. De acordo com Hervé Dumez, isso representou tanto um ponto forte — por cativar com maior facilidade os intelectuais de formação humanística — quanto uma fragilidade, por limitar o alcance na explicação de determinados fenômenos econômicos.

A escola inglesa de Cambridge, sob a liderança de Alfred Marshall, utilizou uma modelagem que relegava a formulação matemática a um plano secundário, garantindo maior acessibilidade ao leitor comum. Walras, diversamente, colocou a matemática no centro de seu método. Ainda de acordo com Hervé Dumez, essa postura explica-se em grande parte por

sua trajetória pessoal: toda a sua juventude foi marcada pelo fascínio pela história da ciência, habitada pelas figuras tutelares de Kepler, Newton, Laplace e Lagrange

. Eram esses os vultos que Walras almejava igualar, e não os grandes economistas do passado, cuja obra ele parecia conhecer apenas de forma superficial.

A escassez como única hipótese da modelagem walrasiana

O elemento que diferencia Walras e os teóricos neoclássicos (como Jevons e Menger) dos clássicos (como Ricardo) é o número de hipóteses de partida. Entre os clássicos, nota Hervé Dumez, encontra-se

uma teoria da renda fundiária com hipóteses próprias (como em Ricardo), uma teoria do salário também alicerçada em pressupostos específicos (demográficos e sociais) e uma teoria do juro erguida sobre princípios autônomos

. Em contrapartida, em Walras e nos neoclássicos vigora uma única hipótese unificadora, o que, na visão de Schumpeter, confere grandeza a essa formulação: ela permite edificar uma teoria consistente dos preços, reduzindo o modelo clássico a um mero caso particular.

retrato de um homem de peruca
Jean-Jacques Burlamaqui, um dos primeiros a destacar a importância da escassez na economia.

O pilar conceitual do sistema walrasiano é a escassez. L'économie politique pure debruça-se sobre a Riqueza social, definida como

o conjunto de todas as coisas, materiais ou imateriais, que são suscetíveis de ter um preço por serem escassas, isto é, simultaneamente úteis e limitadas em quantidade

. Conforme observa Ghislain Deleplace em sua história do pensamento econômico,

a escassez é o conceito sintético que sintetiza [...] os dois aspectos da definição de riqueza: a utilidade e a limitação quantitativa

. Para Walras, a escassez possui rigoroso significado científico, análogo à velocidade na mecânica ou ao calor na física:

Para o matemático e para o físico, a velocidade não se opõe à lentidão, nem o calor ao frio, como ocorre na linguagem vulgar: a lentidão não é para um senão uma velocidade menor, o frio não é para o outro senão um menor calor. Um corpo, na linguagem da ciência, tem velocidade assim que se move, e calor assim que se encontra a qualquer temperatura. Do mesmo modo aqui, a escassez e a abundância não se opõem uma à outra: por mais abundante que seja [uma coisa], ela é escassa, em economia política, desde que seja útil e limitada em quantidade, exatamente como um corpo possui velocidade, na mecânica, logo que percorre determinado espaço em determinado tempo.

É da escassez — fenômeno de alcance universal — que deriva, em Walras, a apropriação, igualmente observada em todas as sociedades. Da escassez decorre também o valor de troca:

Se o trigo e a prata têm valor, é porque são escassos, ou seja, úteis e limitados em quantidade

. Por fim, a escassez impulsiona a atividade produtiva e a indústria visando à ampliação da oferta. Segundo Walras,

os preços correntes ou preços de equilíbrio são iguais às razões das intensidades de escassez. Dito de outro modo: os valores de troca são proporcionais às escassezes

.

Assim como para seu pai, Auguste Walras, e para Jean-Jacques Burlamaqui, a fonte do valor reside na escassez, e não na utilidade isolada (como em Jean-Baptiste Say e Condillac) nem no trabalho (como em Adam Smith e David Ricardo). O mestre de Lausanne observava:

Há, na ciência, três soluções principais para o problema da origem do valor. A primeira é a de A. Smith, de Ricardo, de Mac-Culloch; é a solução inglesa: ela situa a origem do valor no trabalho... A segunda é a de Condillac e de J.-B. Say; é antes a solução francesa: ela situa a origem do valor na utilidade... Por fim, a terceira, que é a correta, é a de Burlamaqui e de meu pai A.-A. Walras: ela situa a origem do valor na escassez.

Equilíbrio geral e ciência econômica nos Elementos de Economia Política Pura (EEPP)

Capa da primeira edição de Éléments d'économie politique pure.

Nessa obra, Walras procurou oferecer uma resposta teórica ao debate sobre a economia política travado entre Proudhon e Bastiat por volta de 1848. O primeiro sustentava a existência de um conflito irreconciliável entre a justiça e o interesse econômico, enquanto o segundo afirmava o oposto. Walras assumiu o propósito de retomar

a tese de Bastiat para defendê-la a partir de outros fundamentos

Mercado perfeitamente organizado e mecânica pura

O objetivo central de Walras nos EEPP consistia em analisar a economia com o mesmo rigor conceitual aplicado à mecânica pura. Por essa razão, admitia metodologicamente

um mercado perfeitamente organizado do ponto de vista da concorrência, assim como na mecânica pura se admitem inicialmente máquinas isentas de atrito

Introduziu a figura teórica do leiloeiro inspirando-se em sua atuação no

mercado de títulos públicos de um grande centro financeiro, como Paris ou Londres

que ele tomava como parâmetro de mercado organizado.

Walras identificou quatro grandes mercados interdependentes: o de produtos, o de serviços produtivos, o de capitais e o de meios de pagamento. Adotou o mesmo procedimento investigativo para todos eles: começava estabelecendo a solução teórica do problema de equilíbrio para, em seguida, examinar como as operações transcorriam na prática. Nos mercados walrasianos, os agentes econômicos não fecham negócios de imediato — para usar a expressão de Schumpeter —, mas apregoam preços a título de teste, até que, sob a mediação do leiloeiro, alcancem-se o preço e as quantidades de equilíbrio. Somente nesse instante as transações são de fato liquidadas.

O mercado walrasiano difere substancialmente do modelo smithiano. Com efeito, em Adam Smith os preços emergem diretamente da prática e convergem gradualmente para o equilíbrio, não havendo equilíbrio prévio à troca. Conforme observa Mathiot, em Smith

o interesse individual só corrige e acomoda as flutuações dos preços de mercado à medida que um desvio inicial o constitui como agente que reage, mais do que como ator autônomo. Esse desvio primordial adquire sentido econômico na dualidade entre preço e rendimento

.

O modelo de concorrência perfeita delineado por Walras foi refinado e axiomatizado nos anos 1950 por Kenneth Arrow e Gérard Debreu. Esse modelo supõe cinco condições simultâneas: livre acesso ao mercado, homogeneidade dos produtos, transparência da informação, atomicidade dos agentes e perfeita mobilidade dos fatores de produção«Cours 2 : Le fonctionnement de l'économie de marché». melchior.fr (em francês). Consultado em 16 de fevereiro de 2026. Cópia arquivada em 14 de novembro de 2025 ..

Os agentes econômicos

Diferentemente das formulações de Marx e, em menor grau, de Ricardo, a divisão do trabalho no modelo de Walras é

puramente funcional, não correspondendo a uma clivagem da sociedade em classes estanques

. A produção é realizada pelas empresas, controladas pelas famílias. Walras concedeu atenção destacada aos empresários, embora não lhes atribuísse a autonomia inovadora descrita por Joseph Schumpeter. Conforme assinala Schumpeter, o termo empresário é empregado por Walras em substituição ao conceito de empresa, limitando-se ao exercício de funções econômicas estritas:

O empresário é, portanto, a personagem (indivíduo ou sociedade) que compra matérias-primas de outros empresários, aluga em seguida, mediante arrendamento, a terra do proprietário fundiário, mediante salário as faculdades pessoais do trabalhador, mediante juros o capital do capitalista e, finalmente, tendo aplicado serviços produtivos às matérias-primas, vende por sua conta os produtos obtidos.

As trocas e o equilíbrio de mercado

Grupo de homens sentados ao redor de uma mesa
A assinatura da Magna Carta vista pelos românticos do século XIX. Segundo Schumpeter, Walras redigiu «a Magna Carta da ciência econômica».

Os primeiros dezesseis capítulos dos EEPP destinam-se ao estudo das trocas de bens de consumo. Walras analisa inicialmente a troca bilateral de duas mercadorias na seção II e, na seção III, avança para a troca multilateral de múltiplas mercadorias. Daí formula a noção de equilíbrio geral, conceito que não apenas pressupõe o equilíbrio simultâneo de todos os mercados, mas serve de instrumento para analisar a interdependência entre eles. Para haver equilíbrio, é necessário que a oferta efetiva iguale a demanda efetiva, resultado proporcionado pelo mecanismo de ajuste dos preços:

Dadas várias mercadorias cuja troca se realiza com a intervenção da moeda de conta (numérario), para que haja equilíbrio de mercado a seu respeito, ou preço estacionário de todas essas mercadorias em numérario, é necessário e suficiente que, a esses preços, a demanda efetiva de cada mercadoria seja igual à sua oferta efetiva. Quando essa igualdade não existe, faz-se necessária, para chegar aos preços de equilíbrio, uma elevação no preço das mercadorias cuja demanda efetiva supere a oferta efetiva e uma redução no preço daquelas cuja oferta efetiva seja superior à demanda efetiva.

O cerne analítico reside no sistema de equações que Schumpeter denominou

a Magna Carta da ciência econômica

, mediante o qual Walras demonstra a viabilidade matemática do equilíbrio econômico:

Supõe-se que n agentes possuem m mercadorias que podem trocar para elevar sua satisfação pessoal, gerando n(m−1) equações de comportamento. Postula-se a existência de n equações orçamentárias expressando que a soma de tudo o que um indivíduo vende iguala tudo o que ele adquire. Estabelecem-se m condições de compensação agregada, garantindo que para cada bem o total vendido corresponda ao total comprado. Chega-se assim a m(n+1) condições ou equações. Contudo, uma dessas equações — a condição de equilíbrio do último mercado — decorre necessariamente das demais e das restrições orçamentárias dos agentes (lei de Walras). Restam, portanto, m(n+1)−1 equações independentes para determinar os m preços de equilíbrio e as m⋅n quantidades transacionadas. Na realidade, há apenas m−1 preços relativos a determinar, servindo uma mercadoria como padrão de conta (numérario) com preço unitário igual a 1. Havendo igualdade entre o número de equações independentes e o número de variáveis a determinar, o sistema matemático admite solução, atestando a existência teórica do equilíbrio geral. Embora Walras reconhecesse a possibilidade de múltiplos equilíbrios, considerava que, com grande quantidade de mercadorias no mercado, a regra seria a convergência para um equilíbrio unívoco.

Teoria da produção

Na seção IV, consagrada à teoria da produção, Walras distingue três tipos de capitais: os capitais fundiários (a terra), providos pela natureza; os capitais pessoais (as pessoas), remunerados por meio de salários; e os capitais em sentido estrito, produzidos como bens e, por conseguinte, de quantidade variável. A conjugação desses capitais torna viável o processo produtivo. No mercado de serviços produtivos,

confrontam-se os proprietários fundiários e os trabalhadores, como ofertantes, e os empresários, como demandantes de serviços produtivos — isto é, de renda da terra, de trabalho e de lucro do capital

. No mercado de produtos acabados, os empresários figuram como ofertantes, ao passo que proprietários de terras, trabalhadores e capitalistas atuam como adquirentes. Para Walras:

A produção em um mercado regido pela livre concorrência é uma operação pela qual os serviços podem combinar-se nos produtos da natureza e da quantidade adequadas a propiciar a maior satisfação possível das necessidades, nos limites desta dupla condição: que cada serviço, assim como cada produto, tenha apenas um único preço no mercado — aquele em que a oferta e a demanda são iguais — e que o seu preço seja igual ao seu custo de produção em serviços.

No modelo de Walras,

no estado de equilíbrio da produção, os empresários não obtêm lucros extraordinários nem sofrem prejuízos

. Eles obtêm rendimentos não na condição de empresários, mas como proprietários de terras, trabalhadores ou capitalistas atuando em suas próprias empresas ou em empreendimentos de terceiros. Nessa modelagem, Walras abstraiu os prazos dinâmicos de maturação da produção (que abordaria parcialmente em sua teoria monetária) e formulou um sistema de equações simultâneas no qual expressa a igualdade entre a demanda e a oferta de serviços em todos os setores, bem como a conformidade entre os preços dos bens finais e seus respectivos custos de produção, demonstrando mais uma vez a viabilidade matemática do equilíbrio.

Teoria da circulação e da moeda

Léon Walras na maturidade.

A teoria da circulação da moeda é tratada na seção VI dos Éléments d'économie politique pure. Ali, Walras concebe a moeda e o crédito como

peças integrantes de sua teoria geral do equilíbrio

. Na avaliação de Schumpeter, Walras lançou, com isso, as bases da

teoria monetária moderna

. Na primeira edição do texto, enfatizou a necessidade transacional da moeda. Na segunda, passou a destacar os saldos monetários desejados pelos agentes econômicos, embora só tenha integrado plenamente a moeda ao modelo geral de equilíbrio a partir da quarta edição. Para Antoine Rebeyrol, Walras não elaborou três teorias monetárias contraditórias, mas apresentou três formulações sucessivas de uma mesma premissa: a moeda existe porque, sem ela, as transações econômicas seriam inviáveis. Schumpeter argumentava que a teoria monetária coroa o edifício conceitual walrasiano: a base é constituída pelo mercado de bens de consumo; o primeiro andar, pela produção e pelo mercado de serviços produtivos; e o terceiro nível, pelo mercado de

capital circulante, isto é, pelos estoques de bens necessários à operação contínua do sistema

. A formação de estoques assegura a sincronização temporal do processo econômico, resolvendo defasagens de fluxo. O custo dos estoques difere dos serviços imediatos por eles prestados, pois envolve capital imobilizado que exige remuneração. O estoque forneceu a Walras o caminho para introduzir a moeda substantiva, superando o uso anterior restrito a padrão de medida e troca (numérario). Introduziu também a distinção entre a acumulação de capital monetário e o mercado de bens de capital propriamente dito, notando que os capitalistas poupam em moeda, e não em máquinas. Estabelece-se, assim, uma taxa de juros de equilíbrio que equaliza a moeda retida desejada e a oferta de moeda existente. Schumpeter apontou, contudo, que Walras subestimou

a influência das oscilações da taxa de juros sobre o volume global de transações e, portanto, sobre o saldo monetário desejado

.

Teoria da capitalização e do crédito, progresso econômico e democratização

Teoria da capitalização e do crédito

A teoria da capitalização e do crédito forma a seção V dos Éléments d'économie politique pure. Nela, Walras separa o mercado de capitais físicos (bens de capital duráveis) do mercado financeiro de fundos emprestáveis,

onde se contrata o capital monetário

Os capitais não são demandados por si mesmos, mas pelo fluxo de receitas futuras que geram. Ele distingue os rendimentos brutos dos rendimentos líquidos, obtidos após a dedução da depreciação e dos custos de seguro. A formação dos preços dos bens de capital ocorre no mercado de bens de capital novos, onde os empresários que expandem sua capacidade adquirem novos equipamentos de outros fabricantes. Como o objetivo primordial do investidor é a remuneração, o

mercado de bens de capital opera essencialmente como um mercado de fluxos perpétuos de rendimento líquido

Essa formulação permitiu a Walras concentrar-se na taxa de rendimento líquido — que Schumpeter equiparou à taxa de juros pura em uma economia desprovida de moeda —, contornando a fixação direta dos preços nominais dos bens de capital físicos. As variações nessa taxa de rendimento orientam a tomada de decisão dos capitalistas, assegurando o equilíbrio nesse segmento.

Progresso econômico e democratização

A seção VII dos Éléments d'économie politique pure aborda as condições e os impactos do progresso econômico, além de conter uma avaliação crítica dos sistemas de economia política pura concorrentes. Walras revisita criticamente a doutrina fisiocrática e contesta as formulações inglesas relativas aos preços, à renda fundiária, aos salários e aos juros. Nas lições 35 e 36, sustenta que o progresso econômico só pode ser apreendido em uma dinâmica de longo prazo na qual ocorrem mutações nos coeficientes técnicos de produção. Ele distingue duas formas de alteração: as variações em valor, associadas ao progresso econômico impulsionado pela acumulação de poupança, e as mudanças qualitativas nas funções de produção, decorrentes do progresso técnico trazido pela ciência:

todas as vezes em que a função de produção sofre alteração, tem-se o caso do progresso técnico trazido pela ciência; e todas as vezes em que, sem alteração da função, os coeficientes de emprego da renda da terra diminuem e os de emprego do lucro aumentam, tem-se o caso do progresso econômico propiciado pela poupança

— Walras, 1988, pp. 591–592

A esse respeito, Pierre Dockès observa que Walras desconsiderou a primazia do progresso técnico por permanecer atrelado a um modelo dinâmico ricardiano de longo prazo, caracterizado pela alta das rendas fundiárias, queda da taxa de lucro e estabilidade salarial. Para Dockès, Walras insistiu nessa abordagem porque ela respaldava a proposta herdada de seu pai, segundo a qual o Estado deveria estatizar as terras agrícolas, muito embora soubesse das resistências a essa proposta na França. Conforme assinala Vincent Bourdeau, a visão walrasiana de progresso contrapunha-se ao pessimismo malthusiano. O foco consistia em

produzir para expandir a produção, e não apenas para o consumo imediato

. Sob esse prisma, o acúmulo contínuo de capital físico permitiria contornar os limites impostos pela disponibilidade finita da terra:

[...] pode-se, na confecção dos produtos e dos novos capitais, fazer entrar quantidades cada vez menores de renda da terra, sob a condição de nelas introduzir quantidades cada vez maiores de rendimento dos capitais propriamente ditos. Daí a possibilidade de progresso indefinido.

— Éléments d'économie politique pure, 1877

A ênfase atribuída ao capital e aos instrumentos de crédito reflete a ambição de Walras de promover a democratização social pela via da democratização do acesso aos recursos produtivos, razão pela qual priorizou o progresso econômico em relação ao mero progresso técnico. Para Bourdeau,

ancorar ou «enraizar» o ideal democrático em condições materiais e econômicas constituiu o objetivo basilar de todo o esforço teórico de Léon Walras

.

A economia social e aplicada em Walras

retrato de um homem
Pierre-Joseph Proudhon na juventude.

Walras dedicou-se à economia social e à economia aplicada principalmente em L'économie politique et la justice, nos Études d'économie sociale (EES), no Cours d'économie sociale e nos Éléments d'économie politique appliquée (EPA).

L'économie politique et la justice

Publicado em 1860, trata-se de seu primeiro livro de economia, subdividido em duas partes. Na primeira, intitulada Introduction à la question sociale, Walras discute as origens da sociedade, o interesse coletivo e o conceito de justiça, desenhando os fundamentos de sua visão meritocrática. Na segunda parte, dedica-se a combater Pierre-Joseph Proudhon, a quem reprova por confundir leis sociais com fenômenos da natureza física, nos quais operam forças irrevogáveis.

Os Études d'économie sociale e os Cours d'économie sociale

Os Études d'économie sociale foram publicados em 1896, enquanto o Cours d'économie sociale permaneceu inédito até a edição das Œuvres économiques complètes de Auguste e Léon Walras organizada por Pierre Dockès e Jean-Pierre Potier (1987–2005). Esses textos voltam-se ao problema da partilha equitativa da riqueza social, examinando a natureza humana, a concepção de justiça, a missão e os meios de receita do Estado, além da relevância da história.

Para Walras, o processo de abstração possibilita conceber o indivíduo isolado da esfera estatal e desprovido de sociabilidade. No mundo concreto, contudo, essa separação inexiste; somente o método abstrato permite distinguir

a atividade individual do homem das condições nas quais tal atividade se desenvolve

e apartar

a moral individual da moral social

. Em termos analíticos, a moral individual enquadra-se no âmbito da economia pura, ao passo que a moral social materializa-se na economia social, devendo atender a imperativos de justiça.

Os Éléments d'économie politique appliquée (EPA)

Nessa obra, Walras não se detém na repartição das riquezas, mas na

produção da riqueza pelos homens em sociedade

. Trata-se, especificamente, de impedir

que determinados empresários aufiram lucros fora das condições regulares da livre concorrência

. O papel da autoridade pública

é indispensável para instituir e preservar a livre concorrência onde quer que ela se mostre viável

.

Walras defendia a regulação do mercado de trabalho pelo poder público, estipulando limites à jornada laboral (apoiava a jornada diária de oito horas), padrões mínimos de salubridade e higiene e diretrizes para a remuneração. O Estado deveria também fomentar a requalificação e a mobilidade setorial dos trabalhadores, condição necessária ao equilíbrio concorrencial. Observando que greves não ocorriam entre tomadores e fornecedores de capital devido ao alto nível de organização dos mercados financeiros, preconizava organização análoga para o mercado de trabalho, no qual ajustes salariais flexíveis estimulariam a realocação espontânea da mão de obra, evitando confrontos e paralisações.

Embora coubesse ao Estado assegurar o ambiente concorrencial, a assistência aos desvalidos deveria permanecer a cargo de associações voluntárias, fora do escopo governamental:

Queremos que o exército social recolha seus retardatários, exigimos apenas que ele não regule sua marcha pela deles, sob pena de em breve contar apenas com retardatários.

— EPA, p. 284

Justiça e meritocracia em Walras

gráfico
A justiça comutativa.

Walras estabeleceu distinção entre a justiça comutativa e a justiça distributiva:

A justiça comutativa é a que preside as trocas e que se representa segurando uma balança: é ela que determina que, em uma corrida, seja designado a todos os corredores um mesmo ponto de partida. A justiça distributiva é a que preside as competições e que se representa com uma coroa na mão; é ela que determina que os corredores sejam premiados em razão de sua agilidade, isto é, na ordem em que alcançaram sua meta.

— EES, p. 160; CES, p. 215

No sistema walrasiano, a justiça estatal não tem a finalidade de atenuar desigualdades inatas, físicas ou de fortuna pessoal. Sua atribuição exclusiva consiste em zelar pela isonomia das regras de disputa, abstendo-se de intervenções compensatórias em favor dos menos favorecidos. Prevalecia em Walras uma concepção estritamente meritocrática:

Nem todos os homens são igualmente sensíveis, inteligentes ou decididos, mas todos são livres para moralizar-se pela prática da virtude e desmoralizar-se pela prática do vício. Portanto, é algo essencialmente oposto à justiça comutativa que todos os homens não desfrutem, no Estado, das mesmas condições sociais gerais, pois assim uns são favorecidos e outros entravados na realização de seu destino. Do mesmo modo, é algo essencialmente oposto à justiça distributiva que todos os homens não desfrutem, como indivíduos, de posições pessoais particulares que correspondam à diferença de seu mérito ou de seu demérito, pois assim nem uns nem outros arcam com a responsabilidade de seu destino.

— EES, p. 140

Walras e o livre-comércio

Se para Walras

o livre-comércio é o ideal almejado pela ciência

, ele alertava que a especialização produtiva entre as nações não podia atingir o mesmo grau observado entre os indivíduos. Sustentava que, para colher os frutos do livre-câmbio, um país precisava dispor de setores produtivos dinâmicos — a exemplo da agricultura francesa. Daí sua insistência na estatização das terras e na formação de grandes unidades rurais exploradas em regime intensivo, visando dinamizar a produtividade agrária. Por essa mesma linha de raciocínio, criticou o Tratado Cobden-Chevalier, que abriu as fronteiras comerciais entre França e Reino Unido, argumentando que acordos tarifários dessa magnitude demandavam reformas estruturais prévias para não deteriorar a subsistência de empresários e empregados nacionais.

Os monopólios

Walras colocou-se abertamente contra os monopólios privados que penalizam os consumidores, tolerando unicamente aqueles que resultassem de inovações tecnológicas protegidas por patentes temporárias. Em sua análise, os monopólios naturais deviam ser geridos diretamente pelo Estado ou submetidos a rigoroso controle público via concessões contratuais.

Na seção VIII dos Éléments d'économie politique pure, tratou conjuntamente das tarifas e dos monopólios porque em ambas as situações constata-se a fixação discricionária dos volumes negociados: na fixação de tarifa, dita-se arbitrariamente o preço, que determina a quantidade; no monopólio, manipula-se a quantidade para determinar o preço. Walras demonstrou que o regime de monopólio rompe com dois princípios fundamentais da concorrência perfeita: a coincidência do preço de venda com o custo de produção e o postulado de preço unívoco no mercado.

A natureza humana em Walras

Natureza humana, ciência e livre-arbítrio

retrato de um homem
Retrato de John Stuart Mill por George Frederic Watts (1873).

Walras estabeleceu uma demarcação precisa entre a natureza biológica do homem físico e sua dimensão moral e social. A esfera moral e social apresentava-se plástica e dependente das instituições sociais vigentes. Ele apontava, por exemplo, que a sociedade francesa de seu tempo condicionava os indivíduos de tal forma que

nada se obtém na França sem recurso à lisonja

. Se a personalidade varia, é porque o homem tem capacidade de disciplinar seus impulsos imediatos. Em relação ao talento e às aptidões, Walras manteve certa ambiguidade, considerando ora que emanavam do esforço e da vontade deliberada, ora que representavam atributos inatos. A unidade básica do gênero humano

expressa-se no exercício das faculdades intelectuais, na arte, na ciência, no trabalho produtivo e na ética

, capacitando indivíduos de qualquer sociedade a praticar a cooperação, desenvolver laços de empatia e empregar a razão na busca do conhecimento sistemático.

Rejeitando o materialismo reducionista, Walras sustentava a existência do livre-arbítrio. Na fase madura, tratou a vontade livre como fato empírico verificável:

Sempre encarei a vontade livre humana como um dado da experiência, sem atribuir-lhe maior relevância metafísica nem menor dignidade científica do que atribuo aos fatos do crescimento vegetal ou da vida animal.

Sendo também um sujeito moral e social, o indivíduo pode traçar o próprio caminho. Walras reconhecia a presença de

uma sensibilidade superior que une o homem ao seu destino, de uma inteligência superior que o torna capaz de compreendê-lo e de uma vontade livre que lhe possibilita assumir compromissos voluntários

. Procurou conciliar livre-arbítrio e determinismo, estimando que as escolhas autônomas respondem por cerca de 30% a 40% das decisões cotidianas, operando dentro de balizas impostas por normas e limites naturais. Esse debate insere-se no diálogo com Marx e Mill. Enquanto para Marx a formulação científica exigia prescindir do livre-arbítrio em favor das forças mecânicas materiais, para John Stuart Mill os atos humanos integram a causalidade causal que fundamenta as ciências sociais. Em Walras, a ciência é plenamente capaz de mensurar os desdobramentos de uma ação, uma vez desencadeado o processo econômico:

jamais tentamos calcular os atos da liberdade humana; procuramos apenas expressar matematicamente as suas consequências

. Por essa razão, a ciência econômica não depende ontologicamente da comprovação do livre-arbítrio para validar seus teoremas:

a ciência econômica subsiste, no que concerne a grande parcela do comportamento material, quer o livre-arbítrio exista ou não

.

Homo œconomicus

retrato de um homem sentado
Retrato de Charles Renouvier por Henri Bouchet-Doumenq, cujo pai era amigo do filósofo.

Segundo Donald Walker, o conceito walrasiano de Homo œconomicus guarda similitude com a formulação de John Stuart Mill, que destacava que a economia

não trata da totalidade da natureza humana modificada pelas relações sociais, tampouco abrange o homem em sua plenitude societal

. Walras recorre a essa abstração teórica por entender, nas palavras de Mill, que

este é o procedimento obrigatório que a ciência deve adotar

. Em resposta ao filósofo Charles Renouvier, que afirmava que

fatores psicológicos, costumes e contingências sociais provocam desvios entre as previsões da economia matemática e a realidade dos fatos observados

, Walras replicou que seu tratado Éléments d'économie politique pure

é uma construção teórica estrita, na qual se julgou legítimo abstrair as variáveis psicológicas e sociais que operam como perturbações secundárias

. Cumpre destacar que, no modelo de Walras, o homo œconomicus é concebido como agente probo, desconsiderando-se comportamentos fraudulentos ou violações contratuais — elementos que a economia formal só incorporaria décadas mais tarde.

O conceito de utilidade em Walras assenta-se na existência de carências e aspirações humanas, sendo tratada como grandeza mensurável e derivável matematicamente. A utilidade marginal revela-se decrescente: o ganho subjetivo decai à medida que a quantidade disponível da mercadoria se expande. Supondo que os indivíduos buscam a maximização da utilidade agregada, a troca mercantil viabiliza-se, fundamentando o instrumental microeconômico de curvas de oferta e procura.

Nos Éléments d'économie politique appliquée, contudo, Walras reconheceu que os seres humanos sofrem de limitações cognitivas e nem sempre discernem com clareza seus próprios interesses materiais, dando ensejo a crises de liquidez e instabilidade financeira. Todavia, para viabilizar o método científico, cumpre partir do postulado de que os

homens são capazes de identificar e buscar seus objetivos, atuando como indivíduos racionais e dotados de livre iniciativa

.

O Estado e o indivíduo

Em Walras, vigora um nexo de causalidade mútua entre Estado e cidadão:

Se cada pessoa moral é um elemento constitutivo da sociedade, a sociedade é igualmente um elemento constitutivo da pessoa moral

. Nas palavras de Cyrille Rouge-Pullon, constituem

duas entidades sociais de idêntico valor que compartilham a riqueza social

. O poder público deve preservar sua autonomia frente às pressões corporativas e econômicas particulares. Por esse motivo, os Walras prescreviam que o Estado não deveria lançar mão da cobrança sistemática de impostos, devendo antes converter-se em proprietário coletivo das terras, custeando suas funções públicas por meio do recebimento dos arrendamentos agrários.

Para compatibilizar a conveniência estatal e o bem-estar particular, Walras apostava na aplicação da justiça universal e na oferta de instrução pública gratuita. Esquivou-se, contudo, de aprofundar os problemas relativos à burocracia e ao funcionamento prático da máquina estatal, lacuna notável diante da independência que conferia à autoridade governamental.

Walras diante dos pensamentos liberal, socialista e democrático

Walras e Proudhon

retrato de um homem
Retrato de Pierre-Joseph Proudhon por Gustave Courbet (1866).

Na segunda seção de sua obra inaugural, Walras criticou Pierre-Joseph Proudhon por não apreender que a economia pura funciona à semelhança de uma ciência natural, governada por leis imutáveis. Nos Éléments d'économie sociale, caracterizou a proposta proudhoniana como contraditória, visto que

reivindica a liberdade ilimitada sem admitir seu fruto inescapável, a desigualdade

. Para Walras, tratava-se de um ideário:

que aspira à igualdade absoluta recusando seu instrumento indispensável, a autoridade; que elimina o Estado sem emancipar o indivíduo; que almeja o nivelamento das condições pessoais destruindo a ordem social; e que, em suma, absorve do individualismo e do comunismo unicamente os equívocos, conciliando somente os exageros.

Walras rejeitou a teoria proudhoniana do valor, particularmente a equiparação entre o preço justo e o custo estrito de produção. Argumentou ser impossível determinar fora dos mecanismos concorrenciais de mercado o real custo dos fatores originários — trabalho e recursos naturais. Sob concorrência perfeita, o preço de equilíbrio é concomitantemente o preço verdadeiro e o preço justo. Condenou ainda a bandeira de eliminar a cobrança de juros e criticou o projeto de crédito recíproco gratuito defendido pelos mutualistas franceses colaboradores do periódico Le Courrier français, asseverando a indispensabilidade técnica da moeda.

Walras e os programas de equidade saint-simonianos, fourieristas e radicais

A principal divergência de Léon Walras em relação aos saint-simonianos incidia sobre a abolição da herança familiar. Sua oposição fundava-se em dois argumentos: extinguir o direito sucessório equivaleria a golpear o direito de propriedade individual (Walras subtraía da esfera privada unicamente o solo agrário, reservado ao domínio público); ademais, o fim da herança desestimularia a propensão à poupança, estancando a acumulação de capital.

O pensador rechaçava também o fourierismo por considerá-lo ingênuo quanto às motivações humanas, ao erigir todo o modelo econômico na fraternidade espontânea. Sua crítica mais enfática dirigiu-se à tese do «direito ao trabalho» formulada por Victor Considerant. Considerant sustentava que a humanidade detinha a propriedade originária comum da terra, propondo que a compensação pela privatização do solo (cláusula lockeana) consistisse na garantia estatal de emprego aos desprovidos. Walras refutou essa solução alegando que ela não satisfaria os excluídos, cujo anseio por justiça exigia o acesso real à propriedade privada transmissível aos filhos. Ademais, o direito formal ao trabalho obrigaria o Estado a recrutar os indivíduos menos qualificados, prejudicando o serviço público e dissociando liberdade de responsabilidade individual.

Walras censurava igualmente as bandeiras dos políticos radicais franceses favoráveis à tributação progressiva sobre a renda e aos programas de assistência pública discricionária. A tributação fortemente progressiva incentivaria o desperdício fiscal do Estado, abateria a iniciativa individual, atenuaria a emulação competitiva e imporia compulsoriamente a filantropia coletiva. As dotações de assistência, por sua vez, desconsideravam o mérito pessoal. Em seu lugar, propunha que bens e serviços de natureza verdadeiramente pública fossem ofertados de modo universal e gratuito pelo Estado.

Walras e o comunismo

retrato de um homem
Louis Blanc fotografado por volta de 1850–1860.

Comunismo de Louis Blanc

Embora considerasse articulado o modelo socialista proposto por Louis Blanc, Walras apontava-lhe a falha de apoiar a engrenagem econômica na fraternidade moral — sentimento relevante, mas subordinado ao interesse pessoal no terreno dos negócios. Ademais, ao transformar o Estado em empresário universal monopolista, Blanc deixava de demonstrar a superioridade produtiva dessa gestão em cotejo com a concorrência descentralizada. Por fim, sob o preceito de distribuição de riquezas resumido no lema

a cada qual segundo suas necessidades

, o homem perderia sua autonomia ao desvincular-se da responsabilidade moral por suas ações.

Comunismo marxista

Walras passou a rebater os preceitos marxistas na década de 1890, período em que essa vertente suplantou as antigas linhagens do socialismo utópico de 1848. Muito embora admitisse a viabilidade matemática de um planejamento coletivista sob condições muito estritas, negava-lhe eficiência alocativa e justiça distributiva. O edifício marxista repousava sobre uma concepção equivocada de determinação econômica — a teoria do valor-trabalho —, que distorcia os preços relativos e inviabilizava o alcance do equilíbrio geral, restringindo-se a acomodações setoriais imperfeitas. Ademais, ainda que preconizasse a municipalização e nacionalização do solo agrário, rejeitava categoricamente a expropriação dos capitais produtivos, sustentando que os grandes patrimônios não decorriam da poupança de capital, mas de distorções monopolistas ou da apropriação imerecida da renda fundiária.

Walras, o crédito e a escola democrática de Étienne Vacherot

retrato de um homem
Étienne Vacherot influenciou Walras sobre a democracia e fez parte da Comissão dos Trinta, que elaborou as leis constitucionais da Terceira República.

Em seu livro La Démocratie (1860), Étienne Vacherot distinguiu duas correntes: a que preconizava o laissez-faire integral, rotulada de

escola liberal estrita

, e a

escola democrática liberal

. O jovem Walras leu e anotou minuciosamente essa obra, recomendando-a inclusive a seu pai. O debate levantado por Vacherot versava sobre o modo de articular os objetivos morais da justiça social (formulados no terreno político) com os mecanismos práticos de alocação (fornecidos pela economia política). Vacherot advertia que a política pura

limita-se a apontar a meta; cabe à economia política encontrar os instrumentos. A Revolução, estranha aos saberes econômicos, não logrou prever esses desdobramentos

. Para prevenir uma arregimentação autoritária da produção, recomendava o associativismo popular alicerçado na

institucionalização de um sistema de crédito popular

. Essa tese ganhou fôlego em um momento em que a economia francesa constituía suas primeiras grandes redes bancárias e de poupança.

Em suas formulações sobre o crédito, Walras apartou o crédito pessoal (baseado na reputação e na confiança moral) do crédito real (amparado em hipotecas ou garantias reais). Rejeitou tanto o dogma liberal de que o crédito seguro exige lastro patrimonial tangível exclusivo quanto a fantasia proudhoniana de empréstimos a custo zero. Contrapôs-se também a Batbie e a Horn, que pretendiam converter o crédito em ferramenta de catequese moral. Para o professor de Lausanne, os juros representavam o preço justo pela assunção do risco e pela cessão temporária do recurso, sendo imperativo prover garantias seguras por meio de cooperativas de crédito. Nos Éléments d'économie politique appliquée, voltou-se com especial atenção ao crédito de longo prazo, entendendo que a articulação fluida entre liquidez imediata, financiamento prolongado e remuneração da poupança viabilizava a ascensão social e o acesso autônomo dos trabalhadores ao capital.

Socialismo e liberalismo: o socialismo singular de Walras

Pesquisadores debatem se a síntese walrasiana inclina-se preferencialmente ao liberalismo ou ao socialismo. Se para Pierre Dockès Walras estruturou um socialismo singular, Pierre Herland sustenta seu enquadramento essencialmente liberal. Dockès argumenta que essa singularidade brota da busca incansável por:

uma conciliação harmônica entre o interesse (ou a utilidade) e a justiça (ou a moral), isto é, entre a economia política (em sua face de ciência aplicada) e a ciência moral (ou social).

Tal amálgama não operava pela subordinação do interesse à moral (como em Bastiat), nem por um ecletismo casuístico, mas pela convicção teórica na possibilidade de alcançar concomitantemente a utilidade máxima e a justiça plena. Para Jean-Pierre Potier, essa proposta aproxima-se do que hoje se designa como social-liberalismo · .

O Estado era visto como depositário de uma racionalidade superior à dos indivíduos no exercício das atribuições coletivas. A sociedade e o poder público possuem finalidades distintas das ambições estritamente privadas. O Estado deve atuar calcado nas formulações da economia pura: cabe-lhe combater monopólios artificiais na raiz, estatizar ou regular minuciosamente os monopólios naturais e, em contrapartida, assegurar ampla autonomia à livre iniciativa privada nos mercados competitivos.

Recepção e influência do pensamento de Walras

Recepção da obra

Na França

Sua produção teórica enfrentou severas resistências na França a partir do lançamento dos Éléments d'économie politique pure. O influente periódico Journal des économistes adotou inicialmente a tática do silêncio; em seguida, à medida que suas ideias ganharam visibilidade a partir de resenha favorável de Charles Gide em 1883 sobre a Théorie mathématique de la richesse sociale Charles Gide (julho de 1883). «Théorie mathématique de la richesse sociale». Journal des économistes. 4 (em francês). 23: 444–448. Cópia arquivada em 26 de abril de 2025 ., o periódico encomendou uma apreciação crítica de Auguste OttAuguste Ott (janeiro de 1890). «Comptes-rendus Éléments d'économie de politique pure». Journal des économistes. 5 (em francês). 1: 98–114. Cópia arquivada em 14 de setembro de 2025 ., qualificada por Hervé Dumez como uma verdadeira tentativa de demolição teórica. Censurava-se a pretensão de submeter a liberdade de escolha a formulações algébricas, acusando-se o modelo de dissociar a economia de sua base social concreta. O próprio respaldo manifestado por Gide permaneceu eivado de ambiguidades, tanto em 1883 quanto em sua resenha de 1897 aos Études d'économie sociale.

retrato de um homem sentado
Charles Péguy fez uma resenha do pensamento de Walras e da economia matemática.

Walras remeteu seus Études d'économie sociale a expoentes socialistas como Jean Jaurès e Alexandre Millerand, que demonstraram frieza diante do conteúdo. Georges Renard auxiliou na recepção de seus escritos entre estudantes da Escola Normal Superior, em particular junto a Charles Péguy, Georges Weulersse, François Simiand e Adolphe Landry. Os dois primeiros manifestaram acolhida entusiástica. Péguy redigiu na Revue socialiste o ensaio «Un économiste socialiste, M. Léon Walras», no qual celebrava a introdução do cálculo e da matemática como marcos fundacionais de uma verdadeira ciência, censurando contudo a pouca atenção dispensada à coesão orgânica e solidária do corpo social. Mais adiante, Péguy adotaria a própria metodologia abstrata de Walras na formulação de seus modelos de cidade ideal em diálogos filosóficos posteriores. Por sua vez, Weulersse redigiu resenha laudatória nos Études d'économie sociale, saudando a fundamentação matemática em sua articulação com a superação dos dilemas sociais.

Por outro lado, os normalistas que se voltaram à economia — Simiand e Landry — mantiveram postura reticente. Landry, alinhado à tradição utilitarista, rejeitava o conflito apontado por Walras entre utilidade e justiça; Simiand, adepto de uma sociologia empírica positiva, combatia o viés dedutivo e normativo do economista de Lausanne. Fora dos quadros universitários, o escritor Paul Valéry publicou em 1896 uma análise da terceira edição dos Éléments d'économie politique pure, difundindo seus postulados nos círculos estéticos e literários.

A aceitação institucional das formulações walrasianas esbarrou ainda na hostilidade dos docentes franceses de economia. Albert Aupetit (1876–1943), discípulo direto de Walras e autor de tese sobre a moeda, foi reprovado duas vezes nas provas de agrégation (em 1901 e 1903) devido à sua adesão ao método matemático. Na segunda ocasião, Charles Gide declinou da participação na banca examinadora e seu substituto desempatou o resultado contra o candidato. Aupetit ingressou posteriormente na assessoria econômica do Banco da França. O veto acadêmico imposto a Aupetit e, em 1910, a Étienne Antonelli (que só lograria a cátedra em 1920) esteve capitaneado por Paul Cauwès (1843–1917), ligado à escola histórica que enxergava no equilíbrio geral uma apologia do liberalismo sem peias. Como salientou décadas depois André Zylberberg,

raros foram os pensadores liberais que buscaram no equilíbrio geral uma apologia doutrinária do capitalismo

. Para economistas como Serge-Christophe Kolm · , foram sobretudo os críticos do liberalismo que tomaram o modelo neoclássico como reduto doutrinário liberal, e não seus formuladores.

Influência sobre Pareto e a Escola de Lausanne

Vilfredo Pareto, sucessor imediato de Walras na cátedra de Lausanne, encontrou dificuldades iniciais para assimilar a teoria do antecessor. Foi somente após a leitura dos Princípios de Maffeo Pantaleoni que vislumbrou a relevância dos Éléments d'économie politique pure e adotou o conceito de equilíbrio geral. O mérito de Pareto residiu em tornar o equilíbrio acessível ao público acadêmico por meio de artigos em inglês e de afastar demonstrações matemáticas excessivas para notas de rodapé, preservando a fluidez expositiva. Diferentemente de Walras, concentrado na teoria pura, Pareto fez largo uso de análises estatísticas empíricas. Outra divergência capital residiu no fato de Pareto banir a filosofia moral da análise econômica, desqualificando a economia social walrasiana como mero exercício de metafísica. Não obstante, ambos convergiam na convicção da existência de leis naturais inescapáveis na economia. Questionado ironicamente pelo historicista Gustav von Schmoller sobre onde se situava a ação dessas pretendidas leis universais, Pareto perguntou se o interlocutor conhecia algum restaurante que distribuísse refeições gratuitas; diante da resposta negativa, arrematou:

Pois aí mesmo o senhor constata a atuação inelutável das leis naturais da economia

.

O sucessor de Walras e Pareto na Suíça, Pasquale Boninsegni, deu prosseguimento às investigações sobre equilíbrio geral até a década de 1930. Com o passar do tempo, a Escola de Lausanne passou a ser identificada mais com a abordagem de Pareto do que com a de Walras, em particular entre economistas italianos como Umberto Ricci, Luigi Einaudi, Gustavo Del Vecchio e Costantino Bresciani Turroni.

Na Inglaterra

retrato de um homem
Francis Ysidro Edgeworth.

Walras manteve correspondência com William Stanley Jevons, pioneiro neoclássico na Grã-Bretanha, e com Alfred Marshall, a quem enviava cópias de suas publicações. Marshall consolidou-se como a voz dominante no meio acadêmico britânico: além do prestígio da cátedra em Cambridge, evitou o rompimento com a tradição clássica — apresentando-se como seu continuador — e confinou as formulações matemáticas a apêndices técnicos. Em carta dirigida a Walras, resumiu sua posição metodológica:

Pessoalmente, mantenho o convencimento, que creio já lhe ter transmitido, de que a matemática deve figurar nos bastidores de um tratado de economia.

Francis Ysidro Edgeworth enalteceu a concepção walrasiana de empresário, muito embora contestasse a hipótese de lucro nulo no estado de equilíbrio perfeito:

O professor Walras figura entre os primeiros a conceber com exatidão a função do empresário como um intermediário que adquire fatores produtivos em determinados mercados e negocia bens de consumo em mercados correlatos interdependentes.

— Edgeworth, 1889, p. 435

A recepção plena do equilíbrio geral em terras inglesas tardaria até 1924, quando Arthur Lyon Bowley publicou obra sintetizando as contribuições de Walras e Edgeworth.

Estados Unidos

O primeiro economista norte-americano a empregar o instrumental walrasiano de forma sistemática foi Irving Fisher na década de 1890. A partir do final dos anos 1920, Henry Ludwell Moore debruçou-se sobre a interdependência mútua de preços e produtos, buscando conferir dinâmica temporal ao modelo estático de Walras e testá-lo econometricamente.

Todavia, foi a docência de Henry Schultz na Universidade de Chicago, durante os anos 1930, que projetou definitivamente o modelo walrasiano na academia dos Estados Unidos. Schultz incentivou William Jaffé a realizar a tradução e o estudo crítico integral dos Éléments d'économie politique pure.

Schumpeter, por sua vez, resgatou a figura do empresário descrita por Walras, conferindo-lhe papel dinâmico na inovação técnica. Para Schumpeter, o fato de o empresário auferir remuneração extraordinária unicamente no desequilíbrio esclarece a origem econômica do lucro e a razão pela qual monopólios transitórios gerados por novas tecnologias acabam erodidos pelo ingresso de empresas concorrentes.

Suécia

Knut Wicksell
retrato de um homem
Knut Wicksell.

Knut Wicksell assimilou detalhadamente o arcabouço walrasiano. Em correspondência de 1893 remetida com a entrega de um de seus livros, expressou seu débito intelectual:

Não consigo acompanhá-lo no que tange à produção, à capitalização e ao crédito, mas isso não impede que, fundamentalmente, seja sempre o seu método geral de tratamento do problema em questão que eu emprego, com a única modificação de ter introduzido a nova concepção de capital e juros [...]. Minha dívida de gratidão para com o senhor é, portanto, imensa, e espero não ter deixado de mencioná-la ao longo do meu livro.

— Wicksell, 1893

Embora partisse do modelo walrasiano — nomeadamente ao distinguir a taxa de juros monetária da taxa natural de juros —, Wicksell incorporou à teoria do capital a dimensão temporal desenvolvida por Eugen von Böhm-Bawerk. Ademais, embora endossasse a eficiência da livre concorrência, divergia de Walras quanto à equivalência automática entre equilíbrio e bem-estar coletivo pleno, em razão de concepções distintas sobre a mensuração interpessoal de utilidade e de divergências quanto a postulados de justiça social.

Influência nos desenvolvimentos da noção de equilíbrio geral

retrato de um homem
Gustav Cassel.

Influência sobre Karl Gustav Cassel

Em seu primeiro tratado, publicado em 1899, Gustav Cassel propôs-se a apresentar os teoremas walrasianos sob forma simplificada, omitindo com frequência menções diretas a Walras e Pareto. Cassel contrapôs-se a ambos no tocante à utilidade marginal, alegando que esta só se define a partir da fixação do preço de mercado, sendo antes uma incógnita do que uma variável dada. Recusou também a premissa de que a concorrência pura garanta a satisfação máxima agregada, sustentando que grandes unidades produtivas operam com ganhos de eficiência superiores aos de pequenas firmas. Não obstante, a utilização do sistema simultâneo de equações em suas obras redigidas em alemão e vertidas para o inglês cumpriu papel relevante na divulgação do equilíbrio geral na literatura anglo-saxônica e na Europa Central.

Cassel articulou três modelos explicativos, considerados por Donald Walker metodologicamente inferiores aos de Walras: no primeiro, admitiu a oferta de bens fixa e postulou funções de procura agregada, concluindo pela existência do equilíbrio pela simples igualdade entre o número de equações e de variáveis; no segundo, assumiu níveis constantes de produção; no terceiro, inspirado nas notas de Walras sobre dinâmica, concebeu um modelo de expansão balanceada que antecipou o Modelo Harrod-Domar. Nesses ensaios, contudo, limitava-se a supor a existência prévia do equilíbrio, em vez de demonstrá-la rigorosamente.

Influência sobre os vienenses, especialmente Neumann

Na década de 1930, economistas e matemáticos radicados em Viena retomaram a análise formal do equilíbrio geral. Em 1914, Karl Schlesinger (1889–1939) havia ampliado a teoria monetária walrasiana e, nos anos 1930, acolheu as observações de Frederik Zeuthen, notando que Walras e Cassel superestimavam a produção ao ignorar a restrição de não-negatividade dos preços. John von Neumann, ao elaborar seu modelo multissetorial de expansão proporcional com fatores inesgotáveis, introduziu o teorema do ponto fixo, ferramenta matemática decisiva que revolucionaria a comprovação rigorosa da existência de equilíbrio geral na ciência econômica.

John Hicks

retrato de um homem
John Hicks em 1972.

Em seu tratado Value and Capital (1939), John Hicks foi o principal responsável por entronizar o equilíbrio geral de Walras no núcleo da teoria econômica do século XX. Concordando com a relevância do mercado concorrencial, Hicks enfatizou o estudo sistemático das inter-relações de mercado:

O método do Equilíbrio Geral, elaborado por esses autores, foi especialmente concebido para expor o sistema econômico como um todo, sob a forma de um padrão complexo de inter-relações de mercados. Nosso próprio trabalho está necessariamente vinculado a essa tradição e a ser uma continuação dos seus.

— Hicks, 1939, p. 2

Hicks afastou-se de Walras em dois aspectos essenciais: buscou desenvolver uma formulação dinâmica mais aprofundada do capital e prescindiu do artifício mecânico do leiloeiro mediador, postulando que as trocas efetivas fora da posição de equilíbrio ocorrem a preços próximos aos do vetor final, concentrando seu foco nas interdependências estruturais dos setores.

Arrow, Debreu, Hahn

Enquanto Hicks preocupou-se menos em provar formalmente a existência matemática do equilíbrio, Kenneth Arrow e Gérard Debreu empreenderam essa tarefa axiomática a partir do início dos anos 1950. Utilizaram os desenvolvimentos da teoria dos jogos e os resultados obtidos por John Nash na determinação de equilíbrios estratégicos. Em 1971, Arrow e Frank Hahn estruturaram um modelo de inspiração puramente walrasiana no qual o ajustamento de mercado opera por meio de um leiloeiro central abstrato.

Entre 1972 e 1974, artigos independentes de Hugo Sonnenschein, Rolf Mantel e Gérard Debreu culminaram na formulação do Teorema de Sonnenschein-Mantel-Debreu. O resultado matemático estabeleceu que, muito embora seja possível demonstrar a existência de um vetor de preços de equilíbrio geral, as hipóteses microeconômicas padrão de otimização individual não impõem restrições suficientes sobre o comportamento das funções de excesso de demanda agregada para garantir sua estabilidade e unicidade. A partir de então, o programa de pesquisa desdobrou-se em quatro vertentes: a continuidade axiomática tradicional; a via instrumental da computação de equilíbrio geral aplicado liderada por Herbert Scarf; a busca por restrições empiricamente falseáveis articulada por Donald Brown, Rosa Matzkin e Pierre-André Chiappori; e a introdução de distribuições populacionais heterogêneas associada a Werner Hildenbrand e Jean-Michel Grandmont.

Obras

Francis Sauveur, edição do autor, 1858 (ler online)

«De la propriété intellectuelle». Journal des économistes (em francês). 24. 1859. Cópia arquivada em 25 de janeiro de 2026 

L'Économie politique et la justice. examen critique et réfutation des doctrines économiques de M. P. J. Proudhon précédé d'une introduction à l'étude de la question sociale (em francês). [S.l.]: Guillaumin. 1860. Cópia arquivada em 17 de novembro de 2025 

«Paradoxes économiques I». Journal des économistes (em francês). 1860 

Théorie critique de l'impôt. précédée de Souvenirs du Congrès de Lausanne (em francês). [S.l.]: Guillaumin. 1861. Cópia arquivada em 3 de novembro de 2025 

Les Associations populaires de consommation, de production et de crédit. leçons publiques faites à Paris en janvier et février 1865 (em francês). [S.l.]: Dentu. 1865. Cópia arquivada em 2 de novembro de 2025 

La Bourse et le crédit (em francês). [S.l.]: Paris Guide. 1867 

Recherche de l'idéal social. leçons publiques faites à Paris (em francês). [S.l.]: Guillaumin. 1868. Cópia arquivada em 21 de agosto de 2023 

«Principe d'une théorie mathématique de l'échange». Journal des économistes (em francês). 34. 1874. Cópia arquivada em 9 de setembro de 2026 

Éléments d'économie politique pure, ou théorie de la richesse sociale (em francês). [S.l.]: Guillaumin. 1874. Cópia arquivada em 3 de novembro de 2025 

«Théorie mathématique de l'échange - Question de priorité». Journal des économistes (em francês). 34. 1874. Cópia arquivada em 22 de janeiro de 2025 

«L'État et le chemin de fer». Le Nouvelliste Vaudois (em francês). 1875. Cópia arquivada em 13 de setembro de 2006 

Théorie mathématique de la richesse sociale (em francês). [S.l.]: Guillaumin. 1883 

Notice autobiographique de Léon Walras, 1893.

Études d'économie sociale. Théorie de la répartition de la richesse sociale (em francês). [S.l.]: Pichon. 1896. Cópia arquivada em 9 de novembro de 2025 

Études d'économie politique appliquée. Théorie de la production de la richesse sociale (em francês). [S.l.]: Pichon. 1898. Cópia arquivada em 9 de novembro de 2025 

«Théorie du crédit». Revue d'économie politique (em francês). 1896. Cópia arquivada em 20 de janeiro de 2025 

«Sur les équations de la circulation». Bulletin de la Société vaudoise des sciences naturelles (em francês). 35. 1899. Cópia arquivada em 19 de dezembro de 2025 

«Cournot et l'économique mathématique». La Gazette de Lausanne (em francês). 1905. Cópia arquivada em 3 de novembro de 2025 

«La Paix par la justice sociale et le libre-échange». Questions pratiques de législation ouvrière et d'économie sociale (em francês). VIII. 1907. Cópia arquivada em 5 de novembro de 2025 

Léon Walras, autobiographie (1908)

«Économique et mécanique». Bulletin de la Société vaudoise de sciences naturelles (em francês). 45. 1909. Cópia arquivada em 19 de dezembro de 2025 

Œuvres économiques complètes de Auguste e Léon Walras

14 volumes editados por Pierre Dockès, Pierre-Henri Goutte, Claude Hébert, Claude Mouchot, Jean-Pierre Potier e Jean-Michel Servet. Paris: Economica, 1987–2005.

Auguste Walras:

I - Richesse, liberté et société

II - La vérité sociale

III - Cours et pièces diverses

IV - Correspondance

Léon Walras:

V - L’économie politique et la justice

VI - Les associations populaires coopératives

VII - Mélanges d’économie politique et sociale

VIII - Éléments d’économie politique pure ou Théorie de la richesse sociale

IX - Études d’économie sociale : Théorie de la répartition de la richesse sociale

X - Études d’économie politique appliquée : Théorie de la production de la richesse sociale

XI - Théorie mathématique de la richesse sociale (et autres écrits d’économie pure)

XII - Cours

XIII - Œuvres diverses

XIV - Tables et index

Ver também

Referências

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