Zainabe binte Jaxe Alaçadia (em árabe: زَيْنَب بِنْت جَحْش ٱلْأَسَدِيَّة; c. 591 – 641) foi uma companheira de Maomé e uma de suas esposas. Filha de Jaxe ibne Riabe e de Umaima binte Abede Almotalibe, tia paterna de Maomé, pertenceu aos primeiros muçulmanos e participou da Hégira para Medina com sua família. Casou-se inicialmente com Zaíde ibne Harita, escravo libertado e filho adotivo de Maomé, união promovida pelo próprio profeta como demonstração de que a origem social não constituía impedimento para o casamento entre os muçulmanos.
Após divorciar-se de Zaíde, casou-se com Maomé, episódio relacionado à revelação de versículos do Alcorão que aboliram os efeitos jurídicos da adoção e permitiram o casamento com a ex-esposa de um filho adotivo. Segundo a tradição islâmica, costumava afirmar que seu matrimônio havia sido celebrado pelo próprio Deus, circunstância que considerava um privilégio entre as esposas do profeta. A revelação do chamado versículo do véu também é tradicionalmente associada ao banquete realizado por ocasião de seu casamento.
Reconhecida por sua dedicação ao culto, generosidade e obras de caridade, destacou-se entre as esposas de Maomé pela assistência prestada aos pobres. Após a morte do profeta, continuou distribuindo quase integralmente os recursos que recebia, falecendo sem deixar bens. Transmitiu diversos hádices e sua biografia permaneceu ligada tanto às discussões jurídicas sobre a adoção no islão quanto às controvérsias historiográficas em torno de seu casamento com Maomé.
Zainabe era filha de Jaxe ibne Riabe e de Umaima binte Abede Almotalibe, tia paterna de Maomé, pertencendo, por parte de pai, ao ramo dos açaditas. Seu avô, Riabe, deixou a terra natal durante um dos conflitos tribais da Arábia e estabeleceu-se em Meca, onde passou a manter relações de aliança com os abedexemecitas. Seu pai morreu antes do início da missão profética de Maomé. Todos os seus irmãos abraçaram o islão e, posteriormente, emigraram para Medina, perdendo os bens que haviam deixado em Meca, os quais foram confiscados pelos coraixitas. Figura entre os primeiros muçulmanos e participou da Hégira juntamente com sua família. As fontes divergem quanto ao seu estado civil antes do casamento com Zaíde ibne Harita. A tradição predominante a apresenta como solteira, enquanto alguns relatos mencionam que poderia ser viúva. À época de seu casamento com Zaíde, tinha aproximadamente trinta anos ou pouco mais, sendo posteriormente descrita como uma mulher de forte personalidade, intensa dedicação religiosa e reconhecida por sua franqueza.
Após a Hégira, Maomé informou a Zainabe que pretendia providenciar seu casamento. Segundo a tradição, ela inicialmente imaginou que a proposta fosse dirigida a si própria, respondendo que aceitaria aquilo que o profeta julgasse conveniente. Quando Maomé revelou que o pretendente era Zaíde ibne Harita, seu escravo libertado e filho adotivo, Zainabe recusou a proposta, posição compartilhada por seu irmão. De acordo com a tradição preservada nas fontes islâmicas, Maomé pretendia demonstrar, por meio dessa união, que a antiga distinção social entre pessoas livres e escravos libertados não deveria constituir obstáculo ao casamento entre os muçulmanos. Enquanto Zainabe refletia sobre a proposta, foi revelado o versículo: "Quando Deus e Seu Mensageiro decidem uma questão, não cabe ao crente, homem ou mulher, escolher de outra maneira" ([Alcorão 33:36]). Após ouvir essa revelação e ser assegurada por Maomé de que Zaíde era um marido apropriado, Zainabe aceitou o casamento, decisão que acabou sendo igualmente aceita por sua família. O contrato matrimonial estipulou um dote composto por dez dinares, sessenta dirrãs, um lençol, um manto, uma túnica feminina, cinquenta mudd de cereais e trinta mudd de tâmaras. À época, Zaíde já havia sido casado com Ume Aimane, de quem tivera Uçama ibne Zaíde. As fontes descrevem o casamento de Zaíde e Zainabe como difícil. Segundo Hamîdullah, Zainabe possuía temperamento forte e, desde o início, ambos percebiam que a convivência seria problemática. Cerca de um ano depois da cerimônia, Zaíde procurou Maomé para relatar os frequentes desentendimentos entre o casal e manifestou o desejo de separar-se. O profeta procurou repetidamente persuadi-lo a preservar o casamento, aconselhando-o a temer a Deus e permanecer com a esposa, mas as divergências continuaram até que o divórcio se tornou inevitável.
Após o divórcio, foi revelada a passagem do Alcorão que declara: "... Quando Zaíde completou sua relação com ela, Nós a demos em casamento a ti, para que os crentes não encontrem dificuldade em casar-se com as ex-esposas de seus filhos adotivos, depois que estes tenham encerrado sua relação com elas..." ([Alcorão 33:37–38]). Segundo a tradição islâmica, essa revelação aboliu o costume pré-islâmico que equiparava juridicamente o filho adotivo ao filho consanguíneo, eliminando a proibição de casamento com a ex-esposa de um filho adotivo. As fontes islâmicas preservam diferentes relatos sobre os acontecimentos que antecederam esse casamento. Segundo uma tradição amplamente difundida, Maomé dirigiu-se à casa de Zaíde para tratar de um assunto, mas não o encontrou. Enquanto aguardava do lado de fora, uma cortina movida pelo vento permitiu-lhe ver Zainabe no interior da residência. Ela saiu apressadamente para recebê-lo e convidou-o a entrar, mas o profeta recusou o convite e retirou-se pronunciando palavras em louvor a Deus. Quando Zaíde regressou, Zainabe relatou o ocorrido, levando-o a concluir que chegara o momento de divorciar-se da esposa. Procurou então Maomé para comunicar sua decisão, mas, segundo as tradições, o profeta procurou demovê-lo diversas vezes, aconselhando-o a permanecer casado e a temer a Deus. Somente após a consumação do divórcio foi celebrado o casamento entre Maomé e Zainabe.
A interpretação desse episódio varia entre os autores. A versão resumida preservada na Encyclopaedia of Islam registra a tradição segundo a qual Maomé teria se encantado por Zainabe ao vê-la e desejado desposá-la, circunstância que teria levado Zaíde a divorciar-se dela, relacionando esse episódio à revelação dos versículos [Alcorão 33:37–38]. Hamîdullah, por sua vez, considera pouco confiáveis as narrativas que atribuem a Maomé a intenção de provocar o divórcio ou um enamoramento súbito por Zainabe. O autor observa que o profeta já conhecia a prima desde a infância e interpreta sua visita à residência do casal e as palavras então pronunciadas como expressão de surpresa diante das circunstâncias do matrimônio, sustentando que o casamento teve como principal finalidade abolir um costume jurídico herdado da Arábia pré-islâmica. Após o casamento, Zainabe costumava afirmar que, ao contrário das demais esposas de Maomé, cujo matrimônio fora celebrado por seus familiares, o seu havia sido realizado pelo próprio Deus, em alusão ao conteúdo do versículo corânico. Recebeu um dote de quatrocentos dirrãs e, segundo a tradição, durante o banquete nupcial foi revelado o chamado versículo do véu ([Alcorão 33:53]), que estabeleceu normas de etiqueta para as visitas à casa do profeta e passou a fundamentar a prática do recolhimento de suas esposas. Algumas tradições também relacionam a Zainabe e ao ciúme despertado entre as demais esposas a revelação de [Alcorão 66:1].
As fontes descrevem Zainabe como uma mulher profundamente dedicada ao culto religioso, às práticas ascéticas e às obras de caridade. Segundo Hamîdullah, Maomé apreciava especialmente sua devoção, circunstância que teria despertado ciúmes em algumas de suas outras esposas, particularmente Aixa e Háfeça binte Omar. Zainabe acompanhou Maomé durante o Cerco de Taife. Em outra ocasião, durante uma viagem, o profeta sugeriu que ela cedesse um de seus camelos excedentes a Safia binte Huiai, cuja montaria adoecera. Zainabe recusou-se, afirmando que não desejava entregar seu animal "a uma judia". A resposta desagradou a Maomé, que, segundo a tradição, deixou de visitá-la durante cerca de três meses. Apesar de seu temperamento firme, Zainabe era amplamente reconhecida por sua generosidade. Trabalhava com curtimento e costura de couro, além da confecção de adornos, destinando aos necessitados praticamente toda a renda obtida com essas atividades. Durante o califado de Omar, recebeu uma pensão anual de doze mil dirrãs, mas distribuiu integralmente essa quantia entre os pobres antes mesmo de utilizá-la. Em razão dessa liberalidade, foi identificada pelos companheiros como a esposa de "mão mais longa" mencionada por Maomé quando afirmou que a primeira de suas esposas a reunir-se com ele seria aquela cuja mão fosse a mais longa, expressão posteriormente interpretada como referência à generosidade, e não ao comprimento físico dos braços. Zainabe manteve boas relações com Aixa e apoiou-a durante o Incidente da Calúnia, episódio em que a esposa de Maomé foi acusada de adultério. Sua honestidade nesse episódio foi frequentemente destacada pelas fontes islâmicas.
Zainabe morreu em 20 A.H. (641), aos cinquenta e três anos de idade, sendo a primeira das esposas de Maomé a falecer depois dele. Seu corpo foi transportado em um esquife coberto, segundo costume então associado aos abissínios, de modo a preservar sua privacidade durante o funeral. Embora tivesse recebido recursos consideráveis ao longo da vida, morreu sem deixar fortuna, por haver distribuído praticamente todos os seus bens em esmolas. Transmitiu cerca de vinte hádices e permaneceu lembrada na tradição islâmica tanto por sua intensa atividade beneficente quanto pelo papel desempenhado nas transformações jurídicas relacionadas à adoção e ao casamento ocorridas durante a vida de Maomé. O casamento de Zainabe com Maomé também exerceu influência duradoura na historiografia. Conforme observa Clifford Edmund Bosworth, o episódio foi amplamente explorado por polemistas cristãos medievais como argumento contra Maomé, enquanto autores muçulmanos modernos procuraram reinterpretá-lo à luz do contexto jurídico e social da Arábia do século VII, enfatizando sua relação com a reforma das normas relativas à adoção.