Almadaini (em árabe: المدائني; romaniz.: al-Madāʾinī), nome completo Abu Alhaçane Ali ibne Maomé ibne Abedalá Almadaini (em árabe: أبو الحسن علي بن محمد بن عبد الله المدائني; romaniz.: Abū al-Ḥasan ʿAlī ibn Muḥammad ibn ʿAbd Allāh al-Madāʾinī; Baçorá, c. 752 ou 753 – c. 842 ou 843), foi um historiador, genealogista e transmissor de tradições árabes do Califado Abássida. Também conhecido pelas nisbas Albáceri e Alcoraixita, destacou-se como um dos principais representantes da historiografia iraquiana e da tradição dos acbaritas, dedicada à preservação e transmissão de relatos históricos. Sua produção compreendeu mais de 240 obras sobre a história política, militar, social e cultural dos árabes, desde o período pré-islâmico até o século IX, abrangendo as conquistas islâmicas, os conflitos entre os primeiros muçulmanos, as genealogias tribais e a história dos califas.
Nascido em Baçorá, transferiu-se posteriormente para Almadaim e Baguedade, onde manteve contato com estudiosos, tradicionalistas e figuras da vida intelectual abássida. Entre suas fontes e autoridades encontravam-se Abu Miquenafe, Auana ibne Aláqueme e Aluaquidi, enquanto seus discípulos incluíram Ibne Sade e Califa ibne Caiate. Sua atividade historiográfica caracterizou-se pela seleção e comparação de tradições provenientes de diferentes transmissores, pela utilização de cadeias de transmissão e pela organização sistemática de narrativas frequentemente divergentes. Embora tenha recebido críticas relacionadas à confiabilidade de algumas de suas fontes e às suas possíveis inclinações religiosas, foi reconhecido por estudiosos posteriores como uma autoridade na história árabe, nas genealogias e na transmissão de poesias.
A maior parte de sua produção desapareceu como obra independente, mas numerosos fragmentos foram preservados nas compilações de historiadores posteriores, especialmente Albaladuri, Atabari, Almaçudi e Aliacubi. Entre seus escritos mais abrangentes encontrava-se Akhbār al-khulafāʾ al-kabīr, dedicado à história dos califas desde Abu Becre até Almotácime, enquanto Al-Murdifāt min Quraysh e Kitāb al-Taʿāzī figuram entre as poucas obras preservadas independentemente. Sua influência sobre a historiografia islâmica decorreu tanto da amplitude dos temas abordados quanto de seus procedimentos de reunião, comparação e reorganização de materiais históricos, que contribuíram para a formação das grandes compilações dos séculos seguintes.
Almadaini nasceu em Baçorá, provavelmente em 135 A.H. (752–753), segundo uma informação atribuída ao próprio historiador e preservada por Ibne Anadim. Era cliente (maula) de Abederramão ibne Samura, pertencente aos coraixitas. Sua vinculação à família de Abederramão decorria da condição de cliente de seu pai, Maomé ibne Abedalá, associado à família de Samura ibne Abederramão. A origem de sua nisba Almadaini, por sua vez, não é inteiramente esclarecida pelas fontes, que não permitem determinar se derivava de sua própria permanência em Almadaim ou de uma ligação familiar anterior com a cidade. Provavelmente depois de 153 A.H. (770), mudou-se para Almadaim, onde residiu durante algum tempo, estabelecendo-se posteriormente em Baguedade. Durante sua formação, estudou com Isaque Almaucili, músico, poeta e importante figura da vida cultural abássida. Entre os demais estudiosos dos quais recebeu ensinamentos ou transmitiu relatos encontravam-se Abu Miquenafe, Almufadal Adabi, Auana ibne Aláqueme, Curra ibne Calide, Ibne Abi Dibe e Hamade ibne Salama. Também utilizou escritos de historiadores anteriores, como Ibne Isaque e Aluaquidi, e frequentou o círculo intelectual do teólogo mutazilita Muamar ibne Abade Açulami. Seu nome aparece entre os cadaritas de Cufa, associação reforçada pela composição de uma obra dedicada aos sermões de Uacil ibne Ata, intitulada Kitāb Khuṭbat Wāṣil ou Kitāb Khuṭab Wāṣil.
Almadaini formou numerosos discípulos, entre os quais Azobair ibne Bacar, Ibne Sade, Ibne Abi Caitama, Ibne Anata, Alharite ibne Abi Uçama, Califa ibne Caiate} e Ibne Xaba. Sua reputação como transmissor de tradições recebeu avaliações geralmente favoráveis. Iáia ibne Maim classificou-o como confiável (sica), enquanto Abu Caitama Zuair ibne Harbe considerou-o verídico e confiável. Alcatibe Albaguedadi também o descreveu como verídico, especialmente no campo da história árabe, das genealogias e da transmissão de poesias. Entretanto, foi acusado de recorrer a narradores pouco confiáveis, circunstância que provavelmente levou Ibne Adi a afirmar que não era suficientemente sólido como transmissor de hádices. Sua orientação religiosa também foi objeto de interpretações divergentes. Aljaiz acusou-o de simpatias xiitas e de não distinguir adequadamente os relatos contraditórios que transmitia. Em contrapartida, o historiador xiita Abu Jafar Atuci e Haçane ibne Ali ibne Daúde Alhili consideravam-no sunita e autor de escritos de mérito. Essas avaliações refletem a diversidade de interpretações sobre suas posições religiosas e a natureza de suas narrativas.
São escassas as informações sobre seus deslocamentos depois de deixar Baçorá. Além de suas permanências em Almadaim e Baguedade, há notícia de que esteve, em 202 A.H. (817–818), no acampamento militar de Haçane ibne Sale, instalado em Fame Acil, nas proximidades de Uacite. Não há registros seguros de outras viagens, o que sugere que não participou extensamente da prática de deslocamentos em busca de hádices que se difundia entre os tradicionalistas de sua época. Almadaini estabeleceu uma relação de amizade e proteção com Isaque Almaucili, em cuja residência, segundo algumas tradições, teria falecido. Embora tenha mantido contatos com figuras próximas ao poder, não parece ter procurado sistematicamente o patrocínio dos governantes. Compareceu a um encontro com o califa Almamune (r. 813–833) a convite deste, mas viveu com recursos modestos e dependeu em parte do auxílio financeiro de Isaque. Sua relativa independência dos círculos políticos pode ter contribuído para a confiança depositada em suas narrativas. A data de sua morte é controversa. Algumas fontes situam seu falecimento em 215 A.H. (830), 224 A.H. (839), 225 A.H. (840) ou 231 A.H. (845–846). Ursula Sezgin considera mais provável o ano de 228 A.H. (842–843), observando que Almadaini teria ultrapassado os noventa anos de idade e que seus escritos históricos abrangiam acontecimentos do reinado do califa Almotácime (r. 833–842). Além disso, Iacute Alhamaui preservou uma informação atribuída ao historiador sobre as receitas fiscais de 226 A.H. (840–841), o que torna improváveis algumas das datas anteriores atribuídas à sua morte.
Almadaini destacou-se como um dos mais prolíficos historiadores dos primeiros séculos islâmicos. Sua produção abrangia a história política, social, cultural e literária dos árabes, desde o período pré-islâmico até o século IX. Também se dedicou às genealogias (ansabe), à poesia e às tradições relativas aos conflitos tribais. Na historiografia islâmica, é considerado um dos principais representantes da tradição dos acbaritas, que incluía autores como Abu Miquenafe, Auana ibne Aláqueme e Ceife ibne Omar. Sua contribuição caracterizou-se pela ampliação temática e cronológica das narrativas históricas, incorporando acontecimentos políticos, instituições, costumes e manifestações culturais. Embora pertencesse à escola historiográfica iraquiana, Almadaini utilizou procedimentos críticos associados à tradição de Medina. Ao contrário de outros acbaritas, cujas narrativas de batalhas ainda conservavam elementos das antigas tradições dos Dias Árabes, procurou examinar os relatos de maneira mais sistemática. Uma de suas principais características foi a apresentação de versões divergentes ou contraditórias de um mesmo acontecimento, permitindo comparar diferentes testemunhos. Também demonstrou especial cuidado na determinação das datas dos episódios narrados. Essas práticas contribuíram para o desenvolvimento de uma historiografia mais rigorosa e menos dependente de narrativas isoladas.
Seu método historiográfico baseava-se na seleção de informações provenientes de diferentes autoridades, que eram reunidas em narrativas relativamente sistemáticas. Almadaini frequentemente introduzia os relatos por meio de cadeias de transmissão (isnades), embora algumas delas mencionassem apenas a fonte imediata. Em outros casos, incorporava informações de autores anteriores sem indicar expressamente sua procedência. A organização de seus escritos resultava, assim, da combinação de tradições transmitidas oralmente, materiais escritos e compilações historiográficas preexistentes. A diversidade de suas fontes era considerável. Entre os autores utilizados encontravam-se Abu Miquenafe, Auana ibne Aláqueme, Abu Becre Alhuzali e Hamade ibne Salama, além de outros transmissores de tradições históricas e literárias. Apesar dessa variedade, suas narrativas não se limitavam à reprodução de informações recebidas: ele selecionava, comparava e reorganizava os materiais disponíveis, produzindo versões próprias de acontecimentos já descritos por outros autores.
Uma característica de seus escritos era a apresentação de acontecimentos relacionados entre si mediante uma sequência narrativa contínua. Para isso, utilizava frequentemente informações provenientes de um número relativamente reduzido de autoridades, o que lhe permitia desenvolver relatos mais extensos e coerentes. Ao mesmo tempo, preservava versões divergentes de determinados episódios, nem sempre procurando conciliá-las. A coexistência dessas narrativas demonstra que sua atividade não consistia apenas em transmitir tradições, mas também em organizar materiais históricos cuja procedência e interpretação podiam variar. Almadaini também empregava materiais literários como instrumentos de reconstrução histórica. Seus relatos incorporavam poemas, discursos, explicações filológicas e informações genealógicas, embora essas inserções fossem menos frequentes do que em outras compilações do gênero. Ursula Sezgin observa que o historiador tendia a privilegiar a descrição dos acontecimentos, evitando longas digressões e comentários interpretativos. Essa característica contribuiu para que seus escritos fossem utilizados por autores posteriores interessados na reconstrução cronológica dos conflitos políticos e militares dos primeiros séculos islâmicos.
A comparação entre passagens preservadas por diferentes historiadores sugere que Almadaini revisou e ampliou algumas de suas narrativas ao longo do tempo. Determinados relatos apresentam informações parcialmente coincidentes, mas divergem na extensão, na organização dos episódios ou na identificação das autoridades utilizadas. Essas diferenças podem refletir tanto a existência de versões sucessivas de seus escritos quanto intervenções dos autores que posteriormente os transmitiram. Sua reputação foi reconhecida por estudiosos posteriores. Talabe considerou-o o historiador mais destacado de sua época. A confiança depositada em suas informações relacionava-se tanto à diversidade de suas fontes quanto ao emprego de métodos críticos de avaliação das tradições. Apesar disso, a utilização de narradores pouco confiáveis e a reprodução de relatos contraditórios motivaram objeções de alguns contemporâneos, especialmente no âmbito da crítica dos hádices.
Outra característica de sua atividade intelectual foi a composição de monografias relativamente breves sobre acontecimentos ou temas específicos. Segundo Franz Rosenthal, Almadaini figurou entre os pioneiros desse tipo de produção historiográfica. Seus escritos reuniam informações históricas e literárias, frequentemente organizadas em torno de episódios, personagens, instituições ou grupos sociais. Sua obra mais abrangente foi Akhbār al-khulafāʾ al-kabīr, dedicada à história dos califas desde Abu Becre até Almotácime. Os escritos de Almadaini exerceram influência considerável sobre a historiografia posterior. Suas narrativas foram utilizadas por autores como Califa ibne Caiate, Aljaiz, Albaladuri, Almubarrade, Aliacubi, Uaqui, Atabari, Almaçudi, Abu Alfaraje Alisfaani, Alcatibe Albaguedadi, Iacute Alhamaui, Ibne Abede Rabi, Ibne Hajar de Ascalão e Abede Alcadir Albaguedadi. Esses autores incorporaram informações provenientes de seus escritos, algumas vezes identificando expressamente a fonte e, em outras, reproduzindo os materiais sem atribuição direta. A ampla circulação de suas narrativas contribuiu paradoxalmente para o desaparecimento da maior parte de sua produção independente. As compilações mais sistemáticas e abrangentes elaboradas pelas gerações seguintes acabaram substituindo suas monografias como obras de consulta. Além disso, como grande parte do material reunido por Almadaini foi incorporada aos escritos de historiadores posteriores, a conservação dos textos originais deixou de ser considerada indispensável. Apesar dessas perdas, sua contribuição permaneceu fundamental para a reconstrução da história dos primeiros séculos islâmicos.
A produção literária de Almadaini compreendeu mais de 240 obras, muitas delas monografias dedicadas a acontecimentos ou personagens específicos. Seus escritos abordavam a biografia de Maomé, incluindo suas características físicas e pessoais, a história das instituições islâmicas, os conflitos tribais pré-islâmicos, as conquistas muçulmanas, a história dos califas, as genealogias coraixitas e diversos aspectos da vida social e cultural. Também escreveu sobre juízes de Baçorá e Medina, secretários de Meca e Medina, cunhagem e circulação monetária, regiões tributárias, arrecadação de impostos, cavalos, competições, a construção da Caaba, revoltas carijitas, as Guerras da Apostasia e as batalhas do Camelo, de Sifim e de Narauã. Outros temas incluíam as biografias de personalidades políticas e religiosas, a história da poesia, as tradições sobre famílias nobres, os casamentos de mulheres coraixitas e uniões matrimoniais consideradas incomuns. Essa diversidade temática demonstra a amplitude de seus interesses e sua tentativa de integrar informações históricas, genealógicas e literárias numa produção voltada à preservação das tradições árabes.
Embora lhe sejam atribuídos mais de 240 escritos, apenas duas obras de Almadaini são conhecidas por terem sido preservadas independentemente das compilações posteriores. Ambas pertencem ao campo da literatura histórica e biográfica, demonstrando seu interesse por episódios particulares da vida social e cultural dos árabes.
Além dessas obras, numerosas passagens atribuídas a Almadaini foram preservadas em compilações posteriores, especialmente nos escritos de Almubarrade, Atabari e outros historiadores. A comparação entre esses fragmentos permite reconstruir parcialmente o conteúdo de algumas monografias perdidas, embora não seja possível determinar com segurança sua extensão ou organização originais.
A mais importante e abrangente obra histórica de Almadaini foi Akhbār al-khulafāʾ al-kabīr, dedicada à história dos califas desde Abu Becre até Almotácime. Embora não tenha sido preservada como obra independente, sua abrangência cronológica é particularmente relevante para a discussão sobre a data de morte do autor, pois inclui acontecimentos posteriores a algumas das datas tradicionalmente atribuídas ao seu falecimento. Entre os demais escritos conhecidos por referências de autores posteriores encontra-se Kitāb Khuṭbat Wāṣil, também mencionado como Kitāb Khuṭab Wāṣil, que reunia sermões do teólogo mutazilita Uacil ibne Ata. A existência dessa obra é considerada um dos indícios de sua aproximação com círculos intelectuais associados ao mutazilismo. Outras obras atribuídas a Almadaini incluem Kitāb Akhbār al-Ḥajjāj, dedicada a Alhajaje ibne Iúçufe, e Kitāb al-Ṭāʾif, relacionada à história de Taife. Esses escritos são conhecidos por referências e fragmentos preservados em compilações posteriores. Uma obra intitulada ʿIlm al-khawāṣṣ também foi atribuída a Almadaini e publicada por Sāmī Makkī al-ʿĀnī numa revista acadêmica do Cuaite, em 1982. Entretanto, essa atribuição é considerada incorreta, pois o texto contém referências a Arrazi, falecido em 925, várias décadas depois da morte de Almadaini. Além disso, o manuscrito identifica seu autor como Abu Alhaçane Ali ibne Maomé ibne Xuaibe Almadaini, nome que corresponde a outra pessoa. Por essas razões, a obra não pode ser incluída com segurança entre os escritos do historiador.