Ibne Adi

Ibne Adi (em árabe: ابن عدي; romaniz.: Ibn ʿAdī), nome completo Abu Amade Abedalá ibne Adi ibne Abedalá Aljurjani (em árabe: أبو أحمد عبد الله بن عدي بن عبد الله الجرجاني; romaniz.: Abū Aḥmad ʿAbd Allāh ibn ʿAdī ibn ʿAbd Allāh al-Jurjānī; Gurgã, fevereiro de 891 (1135 anos) – fevereiro de 976), também conhecido como Ibne Alcatane, foi um tradicionalista, estudioso de hádices e crítico de narradores do Califado Abássida. Vinculado ao sunismo e à escola jurídica xafeíta, destacou-se no campo do jarḥ wa-taʿdīl, dedicado à avaliação da confiabilidade dos transmissores de tradições islâmicas. Sua principal obra, al-Kāmil fī ḍuʿafāʾ al-rijāl, tornou-se uma referência para a identificação de narradores considerados fracos ou contestados, exercendo influência duradoura sobre os estudos de hádices.

Nascido numa família dedicada aos estudos religiosos, iniciou sua formação aos treze anos e empreendeu extensas viagens em busca de conhecimento, percorrendo regiões que se estendiam do Egito à Transoxiana. Estudou com numerosos tradicionalistas, entre os quais Anaçai e Ibne Cuzaima, e formou discípulos como Aláqueme Anixapuri. Reconhecido por sua memória e pelo conhecimento das cadeias de transmissão, desenvolveu uma terminologia abrangente para classificar os narradores e investigar as falhas ocultas dos hádices. Embora suas avaliações fossem respeitadas por estudiosos posteriores, também recebeu críticas pela severidade de determinados julgamentos e por uma suposta parcialidade em favor dos juristas xafeítas.

Sua produção intelectual compreendeu compilações de hádices, catálogos biográficos e escritos de jurisprudência, destacando-se al-Kāmil fī ḍuʿafāʾ al-rijāl, que reúne informações sobre mais de 2 200 transmissores. Nessa obra, apresentou avaliações de especialistas anteriores, examinou tradições atribuídas aos narradores e estabeleceu critérios para identificar deficiências nas cadeias de transmissão. Também escreveu Asāmī man rawā ʿanhum Muḥammad ibn Ismāʿīl al-Bukhārī, dedicado aos professores de Albucari, e obras como Musnad Abī Ḥanīfa e Asmāʾ al-ṣaḥāba. Seus escritos foram utilizados, resumidos e complementados por gerações posteriores de estudiosos, entre os quais Adaabi, consolidando sua importância na tradição islâmica de crítica dos hádices.

Biografia

Abu Amade Abedalá ibne Adi ibne Abedalá Aljurjani nasceu em Gurgã, no mês de Dulcada de 277 A.H. (fevereiro de 891). Em sua região natal, era conhecido como Ibne Alcatane, enquanto entre os estudiosos de hádices ficou conhecido como Ibne Adi. Alguns relatos sobre seu conhecimento limitado da língua árabe levaram à hipótese de que não fosse de origem árabe, mas descendesse de uma família turca. Cresceu num ambiente familiar dedicado aos estudos religiosos. Seu pai havia sido discípulo de Abu Zura Arrazi, enquanto seu avô materno, Calile ibne Amade Alhamedani, e seu irmão, Abu Abedalá Maomé ibne Adi, também eram estudiosos reconhecidos. Seus filhos Adi, Mançor e Abu Zura igualmente se dedicaram à transmissão de hádices.

Iniciou seus estudos de hádices aos treze anos, em Gurgã. Depois de completar a primeira etapa de sua formação, empreendeu sua primeira viagem de estudos em 297 A.H. (909–910), dirigindo-se ao Egito. Em 305 A.H. (917–918), já havia percorrido numerosas regiões do mundo islâmico, numa área que se estendia de Alexandria a Samarcanda. Suas viagens abrangeram especialmente a Síria, o Iraque, o Coração, o Jibal, Meca e Medina, além de cidades como Adana, Antioquia, Harrã e Nísibis. Tajadim Açubequi descreveu-o como um estudioso eminente que percorreu diferentes países em busca de conhecimento. Durante essas viagens, reuniu tradições transmitidas por numerosos estudiosos, incluindo Maleque ibne Anas, Alauzai, Sufiane Atauri, Xuba ibne Alhajaje e Ismail ibne Abi Calide. Entre seus professores encontravam-se Abu Ialá Almaucili, Anaçai, Haçane ibne Sufiane Anaçaui, Abedane Alauazi, Jafar ibne Maomé Alfiriabi, Ibne Cuzaima, Zacaria ibne Iáia Açaji, Abu Alcácime Albagaui, Ibne Saíde Alhaximi, Maomé ibne Otomão ibne Abi Xaiba e Abu Aruba Aljazari.

Ibne Adi também formou numerosos discípulos. Entre aqueles que receberam seus ensinamentos estavam Ibne Uqueda, Aláqueme Anixapuri, Abu Sade Almalini, Hâmeza Açami, Abu Abedalá Axirazi, Abu Hamide Alasfaraini e Abu Alhoceine Amade Alcoraçani. Sua reputação como autoridade em hádices contribuiu para atrair estudantes interessados especialmente na avaliação da confiabilidade dos transmissores. No campo religioso, Ibne Adi era associado ao sunismo e seguia a escola jurídica xafeíta. Sua adesão à tradição sunita pode ser percebida nas observações que fez em sua principal obra, Alcamil, sobre narradores considerados pouco confiáveis em razão de sua vinculação a correntes religiosas classificadas como inovadoras. Morreu em Gurgã, no mês de Jumada II de 365 A.H. (fevereiro de 976), e foi sepultado nas proximidades da mesquita de Curze ibne Uabra. O historiador Abede Alcarime Açamani, falecido em 1166, afirmou ter visitado seu túmulo.

Atividade intelectual

Ibne Adi destacou-se como especialista na crítica dos transmissores de hádices, particularmente no campo conhecido como jarḥ wa-taʿdīl, dedicado à avaliação da confiabilidade dos narradores. Possuía uma memória considerada excepcional e amplo conhecimento das falhas ocultas das tradições, denominadas ʿilal, e das biografias dos transmissores. Sua atividade compreendia tanto a transmissão de hádices quanto a investigação das cadeias de autoridades responsáveis por sua preservação. Alguns relatos foram transmitidos exclusivamente por ele, sendo posteriormente divulgados por seus filhos Adi, Abu Zura e Mançor. Sua contribuição à crítica dos narradores também se manifestou na terminologia que empregava. Em suas avaliações, utilizou aproximadamente 224 expressões distintas para classificar os transmissores. Embora frequentemente adotasse os termos empregados pela maioria dos especialistas, também introduziu algumas designações próprias e atribuiu significados diferentes a expressões já conhecidas. Suas opiniões foram amplamente consideradas pelos estudiosos posteriores, e Adaabi incluiu-o entre os críticos moderados e imparciais, ao lado de Amade ibne Hambal, Albucari e Adaracutni.

A capacidade de memorização de Ibne Adi foi particularmente elogiada por seus contemporâneos. Seu discípulo Hâmeza Açami e Abu Ialá Alcalili ressaltaram a solidez de sua memória, enquanto Amade ibne Abi Muslim Alfarici afirmou não ter conhecido outro estudioso com capacidade semelhante. Ibne Naceradim considerou-o um grande conhecedor de hádices e uma autoridade confiável. Sua reputação, entretanto, não esteve isenta de críticas. Abu Alualide Albaji classificou-o como um transmissor aceitável, mas não pertencente ao grau mais elevado de confiabilidade. Outras objeções concentraram-se na severidade de seus julgamentos sobre os narradores. Embora Alcamil fosse dedicado aos transmissores considerados fracos, Ibne Adi incluiu nele alguns companheiros de Maomé e importantes juristas, o que provocou questionamentos sobre os critérios utilizados.

Uma das críticas dirigidas à sua metodologia dizia respeito à apresentação de hádices fracos nas biografias dos narradores. Em certos casos, a deficiência de uma tradição poderia decorrer de outro integrante da cadeia de transmissão, mas sua inclusão na biografia de determinado transmissor criava a impressão de que este era o responsável pelo problema. Ibne Adi também foi acusado de parcialidade jurídica, especialmente por alguns críticos que consideravam suas avaliações excessivamente rigorosas com estudiosos hanafitas e relativamente favoráveis a determinados xafeítas. Apesar dessas controvérsias, sua autoridade na crítica dos narradores foi reconhecida por sucessivas gerações de estudiosos. Seus julgamentos constituíram uma referência importante para a literatura dedicada à identificação de transmissores fracos e à análise da autenticidade dos hádices, sobretudo por meio da influência exercida por Alcamil.

Obras

Ibne Adi escreveu principalmente sobre a transmissão e a crítica dos hádices, reunindo informações biográficas, avaliações de confiabilidade e tradições atribuídas a diferentes autoridades. Sua obra mais conhecida é Alcamil, mas as fontes também lhe atribuem compilações de hádices, catálogos de transmissores e escritos de jurisprudência.

Alcamil

al-Kāmil fī ḍuʿafāʾ al-rijāl (Alcamil), também conhecido por títulos alternativos como al-Kāmil fī al-jarḥ wa-l-taʿdīl, al-Kāmil fī maʿrifat al-ḍuʿafāʾ wa-l-matrūkīn min al-ruwāt e al-Kāmil fī maʿrifat ḍuʿafāʾ al-muḥaddithīn, é sua principal contribuição à literatura de crítica dos transmissores. A obra reúne as biografias de mais de 2 200 narradores considerados fracos ou submetidos a algum tipo de contestação. Algumas fontes também identificam com ela um escrito intitulado ʿIlal al-ḥadīth, atribuído a Ibne Adi. Na introdução, o autor apresenta tradições e relatos contrários à mentira e à fabricação de hádices. Examina também a importância atribuída à transmissão das tradições pelas primeiras gerações de muçulmanos, a prática de registrá-las por escrito, os principais especialistas em crítica dos narradores e os critérios utilizados para aceitar ou rejeitar uma transmissão. Depois dessa exposição, organiza as biografias dos narradores segundo uma disposição parcialmente alfabética, incluindo praticamente todos aqueles que haviam recebido alguma avaliação negativa, mesmo que limitada. Para cada personagem, registra opiniões de estudiosos anteriores, explica as razões das críticas e apresenta exemplos de hádices transmitidos por seu intermédio.

A abrangência desses critérios levou à inclusão de transmissores considerados confiáveis, pois Ibne Adi não excluía aqueles que haviam recebido críticas isoladas, mesmo quando suas tradições eram utilizadas por compiladores de coleções de hádices autênticos. Entre as autoridades frequentemente citadas em suas avaliações encontravam-se Iáia ibne Maim, Albucari, Amade ibne Hambal, Anaçai, Ibraim ibne Iacube Aljuzajani, Iáia ibne Saíde Alcatane e Anre ibne Ali Alfalas. Também utilizou ocasionalmente avaliações de Xuba ibne Alhajaje, Sufiane ibne Uiaina, Ibne Almadaíni e outros especialistas. Embora já existissem obras sobre narradores fracos, Alcamil distinguiu-se pela extensão de seu conteúdo. Tajadim Açubequi considerou que nenhum trabalho anterior havia alcançado abrangência comparável. Adaracutni também reconheceu sua importância: quando Hâmeza Açami lhe pediu que escrevesse um livro sobre transmissores fracos, respondeu que a obra de Ibne Adi já era suficiente e dificilmente poderia ser superada. Outros estudiosos, como Açacaui, questionaram a conveniência de atribuir o título Alcamil, que significa «o completo», a uma obra dedicada aos narradores considerados deficientes.

A introdução de Alcamil foi publicada por Subi Badri Açamarrai em Baguedade, em 1977. Posteriormente, a obra completa foi publicada em sete volumes em Beirute, em 1984 e 1985. Essa edição utilizou manuscritos conservados na biblioteca do Palácio de Topcapi, na Biblioteca Azairia e na Biblioteca Millet, mas recebeu críticas por omitir nove narradores presentes nos manuscritos e por conter numerosos erros de leitura. Foi publicado ainda um volume suplementar com índices dos 8 231 hádices incluídos na obra e dos nomes dos transmissores. A influência de Alcamil estendeu-se a numerosas compilações posteriores. Adaabi utilizou-a como uma das principais fontes de seu Mīzān al-iʿtidāl, embora tenha criticado algumas avaliações de Ibne Adi e deixado de incluir certos companheiros de Maomé e juristas cuja memória havia sido questionada. Ibne Alcaicerani reuniu os hádices fracos e fabricados presentes na obra em al-Dhakhīra fī al-aḥādīth al-mawḍūʿa, organizando-os alfabeticamente, e escreveu também um suplemento intitulado Takmilat al-Kāmil.

Outros estudiosos produziram resumos e continuações do trabalho. Ibne Arrumia preparou uma versão abreviada e escreveu o suplemento al-Ḥāfil fī takmilat al-Kāmil. Ziadim Almaquedici organizou uma seleção intitulada al-Muntakhab min kitāb al-Kāmil, enquanto Amade ibne Aibaque Adimiati elaborou o resumo ʿUmdat al-fāḍil fī ikhtiṣār al-Kāmil, cujo manuscrito autógrafo é conservado em Berlim. Almacrizi também preparou uma versão abreviada, publicada no Cairo em 1994 com base num manuscrito autógrafo preservado na Biblioteca Millet. A importância de Alcamil para os estudos modernos também se manifesta na produção acadêmica dedicada à obra. Zuair Otomão Ali Nur elaborou uma tese de doutorado na Universidade Ume Alcura, em Meca, sobre Ibne Adi e sua metodologia de crítica dos narradores. O estudo foi publicado em dois volumes, em Riade, em 1997.

Outras obras

As fontes também atribuem a Ibne Adi al-Intiṣār ʿalā mukhtaṣar al-Muzanī fī furūʿ al-fiqh al-Shāfiʿī, dedicado à jurisprudência xafeíta; Muʿjam fī asmāʾ shuyūkhihi, que reunia informações sobre numerosos estudiosos dos quais recebeu ensinamentos; Jamʿ aḥādīth al-Awzāʿī wa-Sufyān al-Thawrī wa-Shuʿba wa-Ismāʿīl ibn Abī Khālid wa-jamāʿa min al-muqillīn, coletânea de tradições transmitidas por diferentes autoridades; e Musnad ḥadīth Mālik ibn Anas, dedicado aos hádices transmitidos por Maleque ibne Anas.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 Başaran 1999, p. 296.
  2. 1 2 3 4 5 Başaran 1999, p. 297.
  3. 1 2 Başaran 1999, pp. 296–297.
  4. 1 2 Başaran 1999, pp. 297–298.
  5. 1 2 3 4 5 Başaran 1999, p. 298.

Bibliografia