Chavismo é uma ideologia política surgida na Venezuela em torno do culto à figura do ex‑presidente desse país, Hugo Chávez, que governou entre 1999 e 2013. O próprio chavismo identifica‑se como um movimento cívico‑militar de orientação socialista e bolivariano. Suas políticas governamentais foram denominadas como «Revolução bolivariana», inseridas no fenômeno político da «maré rosa». Atualmente, o chavismo é a ideologia oficial da República Bolivariana da Venezuela, sob o mandato de Nicolás Maduro.
Este movimento permaneceu no poder na Venezuela desde 2 de fevereiro de 1999, por meio dos governos do próprio Chávez (1999–2013) e de Nicolás Maduro (desde 2013). O chavismo divide‑se entre os partidários de Nicolás Maduro e aqueles que o rejeitam. Os seguidores de Maduro são denominados «maduristas».
Vários partidos políticos da Venezuela apoiam o chavismo. Mas o partido principal, diretamente relacionado com Chávez, é o Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV). Outros partidos e movimentos de apoio ao chavismo incluem Pátria para Todos e Tupamaros.
Maduro e Chávez foram apontados como autoritários, várias fontes também os consideram ditadores, especialmente após a suspensão do movimento para revogar o mandato de Maduro no final de 2016, e uma posterior crise institucional em 29 de março de 2017, na qual o Tribunal Supremo de Justiçaatribuiu a si mesmo as funções da Assembleia Nacional, sendo esta medida considerada pela própria Assembleia e pelo Ministério Público como uma "ruptura da ordem constitucional" e/ou até mesmo um autogolpe de Estado, sob condições eleitorais consideradas irregulares, incluindo a empresa das máquinas de votação Smartmatic. A oposição não participou das eleições e todos os membros eleitos eram pró-governo. Em 20 de maio de 2018, as eleições presidenciais foram convocadas prematuramente e Maduro foi reeleito por mais seis anos. Os líderes opositores foram presos, exilados ou impedidos de participar, não houve observação internacional, e foram utilizadas táticas que sugeriam aos eleitores que poderiam perder seus empregos ou benefícios sociais se não votassem no chavismo. A oposição venezuelana, cerca de 51 países, a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia (UE), o Grupo de Lima e o Grupo dos 7 (G7) não reconheceram sua reeleição, afirmando que essas eleições foram ilegais, careciam de garantias mínimas e não respeitavam as normas internacionais de processos eleitorais.
Etimologia
De acordo com Elías Jaua, inicialmente os seguidores de Hugo Chávez autodenominavam‑se «bolivarianos» até o ano 2001. O termo «chavista» surgiu originalmente como uma palavra pejorativa, que posteriormente foi reivindicada pelos setores que apoiam a figura de Hugo Chávez.
Críticas
Segundo artigo de opinião publicado no New York Sun em 2006, a vitória de candidatos "anti-Chávez" no Peru, na Colômbia e no México seria uma demonstração da baixa popularidade de Chávez na América Latina. No mesmo ano, segundo o jornal El Universal, de Caracas, o então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, distanciava-se do chavismo, tendo declarado que ele próprio não era Chávez, que o Brasil não era a Venezuela, e que as instituições brasileiras são "tradicionais".
Em abril de 2018, a principal revista de esquerda da França, Les Temps Modernes, fundada por Sartre e Simone de Beauvoir em 1945, apontou seu rompimento com o regime chavista venezuelano ao denunciar que a revolução bolivariana havia se revelado um grande fracasso. Em uma série de ensaios e entrevistas, a revista aborda os aspectos políticos, econômicos e sociais que levaram ao fracasso do modelo.
Os críticos acusaram Hugo Chávez de populista desde o início e apontaram que parte de sua política era uma nova forma de assistencialismo não religioso. A economia estava controlada por meio de decretos presidenciais na época de Chávez, que tinha pouca experiência. Embora a intenção fosse reduzir a dependência do petróleo, as poucas empresas rentáveis quebraram. Além disso, a petroeconomia era saqueada pelos funcionários instalados pelo regime: na Suíça, aproximadamente $100 milhões em possíveis subornos haviam sido bloqueados em 2014 por um caso que envolvia um bilhão de dólares. Os procedimentos contra a PDVSA estão pendentes nos tribunais americanos e no regulador bancário suíço. Segundo um relatório do Parlamento venezuelano, foram desviados no mínimo $11 bilhões entre 2004 e 2014. Nervis Villalobos, vice-ministro de Energia Elétrica de 2004-2006, foi preso com outros três funcionários da PDVSA na Espanha em outubro de 2017.
Apesar de exibir uma retórica socialista, os críticos classificaram o chavismo como capitalismo de Estado. Em uma entrevista de 2017, o filósofo Noam Chomsky, ao ser questionado se tomaria a economia falida da Venezuela como uma admissão de que o socialismo "destruiu a vida das pessoas", disse: "Nunca descrevi o governo capitalista de Estado de Chávez como 'socialista', nem sequer insinuei tal absurdo. Estava bastante longe do socialismo. O capitalismo privado se manteve. [...] Os capitalistas eram livres para minar a economia de todas as formas, como a exportação maciça de capital". Os críticos também frequentemente apontam para o grande setor privado da Venezuela: em 2009, aproximadamente 70% do produto interno bruto da Venezuela foi criado pelo setor privado.
Em abril de 2018, a principal revista esquerdista da França, Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em 1945, declarou sua ruptura com o regime chavista venezuelano ao denunciar que a Revolução Bolivariana havia resultado em um "grande fracasso"; em uma série de ensaios e entrevistas com intelectuais de esquerda, a revista abordou os aspectos políticos, econômicos e sociais que levaram ao fiasco do modelo.
Por sua vez, Eduardo Molina de La Izquierda Diario, jornal afiliado à Fração Trotskista - Quarta Internacional, acusou o chavismo de deixar a Venezuela em uma "abismal crise econômica e social" que é produto da falência do tradicional capitalismo dependente baseado no rentismo petrolífero que o próprio chavismo exacerbou, além de entregar recursos naturais ao capital estrangeiro, com pagamento "a rajatabla" da dívida externa, governando com um estado de exceção permanente que militariza bairros populares, que impede eleições sindicais livres, persegue ativistas e deixa sem legalidade correntes de esquerda.
Por outro lado, o economista venezuelano Manuel Sutherland afirmou que "mais do que uma transformação socialista (ou desenvolvimentista), a economia venezuelana viveu uma maciça transferência de renda para o capital importador e para uma casta burocrático-militar que vive às custas dos cofres públicos". Além disso, ele caracterizou o regime como um "nacional-populismo militarista" e mais parecido com uma variante do "rentismo petrolífero" do primeiro governo de Carlos Andrés Pérez (1974-1979).
O ex-presidente uruguaioJosé Mujica, que foi amigo de Chávez em vida e que atualmente se distanciou de Maduro (embora sem deixar de ser crítico de sua oposição), declarou sobre o chavismo e suas ramificações que "deve haver uma negociação política porque a longo prazo não há um chavismo, há vários chavismos" e afirmou que "há tantos chavistas, ou mais, fora do governo quanto há no governo [de Maduro]". Mesmo assim, comparou o fenômeno do chavismo com o do peronismo, e concluiu que "o chavismo na Venezuela pode desembocar em algo parecido ao peronismo na Argentina, que é um híbrido entre política e religião, com profundas raízes populares".
Por sua vez, Juan Guaidó afirmou que na Venezuela "não houve socialismo porque não há justiça social" nem traços de igualdade e "nem sequer de respeito à classe operária e trabalhadora, porque não há liberdade sindical", afirmando que há uma "ditadura desclassificada" em seu país.
Um elemento constante da retórica de Chávez, segundo alguns, foram as teorias da conspiração, geralmente misturadas com antisemitismo desde 2006, (embora Chávez tenha afirmado que era "totalmente falso" que fosse antissemita, chegando até a se reunir com representantes do judaísmo venezuelano). Em princípio, as conspirações e os países estrangeiros eram culpados por qualquer deficiência no país, acusações que continuaram e se intensificaram com seu sucessor na presidência. Nicolás Maduro insultou Barack Obama como o "chefe maior dos diabos" — de maneira semelhante aos exabruptos de Chávez contra George W. Bush — e comparou Donald Trump a Adolf Hitler. Em decorrência das declarações propagandísticas de Maduro em fevereiro de 2019 de que os suprimentos da ajuda humanitária estavam envenenados, também houve pessoas que se recusaram a aceitar comida de estranhos durante a escassez de alimentos pelos cortes de energia elétrica em nível nacional um mês depois.
As posições de Hugo Chávez em relação ao pensamento de Karl Marx mudaram ao longo de sua vida. Da mesma forma, ele rejeitou certas noções do marxismo ao formular sua ideia de socialismo.
Por outro lado, Hugo Chávez militou no nunca legalizado Partido da Revolução Venezuelana (PRV), fundado, entre outros, por ex‑guerrilheiros como Douglas Bravo e Fabricio Ojeda. Segundo Adán Chávez, o PRV tinha como tese fundamental a «insurreição cívico‑militar‑religiosa», que coincidia de certa forma com a concepção de Hugo Chávez do que mais tarde chamaria de «união cívico‑militar».
Em 1998, Chávez negou ser socialista e afirmou defender um projeto que ia além do socialismo e do capitalismo. No início de seu governo, ele defendia a terceira via e até declarou admirar o político britânico Tony Blair. Mais tarde, em 2004, afirmou ter «aproximações ao pensamento socialista e progressista». Nesse mesmo ano de 2004, Chávez manifestou que não era comunista, mas sim «nacionalista, revolucionário, bolivariano». No entanto, a partir de 2005, defendeu a ideia do socialismo do século XXI, inicialmente conceituado pelo sociólogo alemão Heinz Dieterich Steffan. Contudo, o próprio Dieterich rompeu com Chávez. Em 2007, Chávez rejeitou que o Partido Socialista Unido de Venezuela adotasse as bandeiras do marxismo‑leninismo, qualificando‑o como um «dogma que já passou». Posteriormente, declarou‑se marxista em 2010.
Por outro lado, Chávez afirmava que sua ideia de socialismo aceitava a propriedade privada, desde que esta não «degenerasse na acumulação egoísta»; embora defendesse a concretização da hegemonia da propriedade social. Igualmente, rejeitava o conceito marxista de ditadura do proletariado. Além disso, Chávez declarou ser partidário do socialismo democrático e sustentou que seu projeto «é um novo socialismo, de forma alguma é um comunismo clássico». Da mesma forma, negava querer copiar o modelo soviético ou cubano e afirmava que cada país poderia construir o socialismo à sua maneira.
É apontado o nacionalista argentino Norberto Ceresole, negacionista do Holocausto e assessor do ditador peruano Juan Velasco Alvarado como assessor de Hugo Chávez durante a campanha presidencial de 1998; contudo, embora Chávez o reconhecesse como amigo, negou que ele atuasse como seu assessor. O politólogo Jorge Verstrynge foi convidado para o Fórum Militar sobre Guerra de Quarta Geração e Conflito Assimétrico, realizado na Academia Militar da Venezuela Mais tarde, em maio de 2005, foram distribuídos 30.000 exemplares de seu livro La guerra periférica y el islam revolucionario, que foram distribuídos entre generais, chefes e oficiais da Força Armada Nacional (FAN) da Venezuela, e posteriormente publicados pelo exército para uso no Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional.
Política externa
Chávez promoveu alianças com países latino‑americanos, sobretudo com os governos mais alinhados à sua linha ideológica.
Chávez foi crítico do dinheiro fiduciário e, em seu lugar, defensor do dinheiro lastreado, como o padrão ouro ou, em sua proposta, o petro lastreado em petróleo.
Socialismo chavista
O chavismo defende a construção de um modelo próprio de socialismo na Venezuela.
Ao mesmo tempo, o socialismo chavista apoiou a formação de mecanismos próprios de planejamento econômico.
Igualmente, Chávez defendeu a intervenção do Estado na economia com políticas como o controle de preços, mas advertia que a construção do socialismo deveria ser realizada pelo Estado junto ao povo: «Nós não vamos rumo ao estatismo, vamos rumo ao socialismo». Por outro lado, afirmou que o estatismo conduz ao fracasso. Em defesa da intervenção estatal na economia, Chávez rejeitou o livre mercado por considerá‑lo como a lei da selva. Contudo, reconheceu que o mercado não pode ser ignorado e propôs, seguindo István Mészáros, um «mercado socialista» regulado por um Estado revolucionário e socialista.
Em outra linha de raciocínio, em 2019, Nicolás Maduro apoiou a instalação de facto do regime multimonetário, onde coexistem diversas moedas como o bolívar, o petro, o dólar, entre outras divisas estrangeiras e moedas digitais, reconhecendo que se consolida – produto da crise econômica – um processo que ele qualifica de «autorregulação» da economia, no qual a população optou pelo uso de facto do dólar e de outras moedas. Além disso, recomendou a leitura de Deng Xiaoping, líder da transformação da China rumo à chamada economia de mercado socialista. Por outro lado, sobretudo a partir de 2018, no âmbito econômico, o governo de Nicolás Maduro tem se caracterizado por flexibilizar os controles estatais sobre a economia, reduzir a carga tributária para empresas privadas, privatizar empresas estatais e aprofundar o investimento estrangeiro.
Logo, o chavismo passou a se projetar em maior dimensão em 4 de fevereiro de 1992, quando, em meio a uma tentativa de golpe fracassada contra o presidente Carlos Andrés Pérez, Hugo Chávez apareceu na mídia assumindo a responsabilidade pela ação e pedindo que seus seguidores se rendessem. Essa foi a primeira vez que Chávez se projetou para o mundo.
Após isso, Chávez foi preso e renunciou à sua carreira militar. Durante sua permanência na prisão, preparou a proposta ¿Y cómo salir del laberinto?. Quando saiu da prisão em 1994, graças a um indulto do então presidente Rafael Caldera, Chávez passou a percorrer a Venezuela.
A partir de então, Chávez começou a aglutinar o apoio de diversos setores da população venezuelana – incluindo grande parte da esquerda e parte do empresariado – com a intenção de reivindicar o pensamento bolivariano e refundar o Estado venezuelano por meio de uma assembleia constituinte. Em 1997, nasceu o Movimiento Quinta República (MVR), plataforma eleitoral que, juntamente com o apoio do Polo Patriótico, levou Chávez ao poder nas eleições presidenciais de 1998.
De acordo com o politólogo Jesús Azcargorta, durante sua primeira campanha presidencial Hugo Chávez «criticou ferozmente o status quo, que a maioria dos venezuelanos associava à corrupção e ao elitismo». Além disso, «atraiu diversos grupos sociais, utilizando de forma instrumental a noção de ‘povo’ para se aproximar do cidadão comum».
Durante sua presidência, Hugo Chávez transformaria profundamente a política venezuelana, bem como a dinâmica das relações latino-americanas e caribenhas. Da mesma forma, nenhum presidente venezuelano recente teve um perfil internacional tão elevado quanto o de Hugo Chávez. Para Jesús Azcargorta, o governo de Hugo Chávez caracterizou‑se por ter se formado durante um período de altos preços do petróleo – principal fonte de renda da Venezuela – e um boom da esquerda na América Latina, o que lhe garantiu «apoios duradouros». De fato, a BBC Mundo ressalta que Hugo Chávez foi «responsável por receber a liderança da esquerda latino‑americana e renová‑la» em seu tempo.
Por sua vez, Claudia Zilla, da Fundação Ciência e Política (SWP) de Berlim, afirma que, graças ao «boom petrolífero», Chávez pôde criar inúmeros programas sociais que se articularam com um discurso político convincente, o qual, entre outras coisas, «politizou fenômenos como a desigualdade econômica» e permitiu que a população se sentisse socialmente incluída. Contudo, Zilla argumenta que também foi gerada uma exclusão política contra o adversário devido a um discurso polarizador.
Em 16 de junho de 2013, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) concedeu um diploma de “Recognition of notable and exceptional progress in the fight against hunger” ao governo venezuelano, ressaltando que foi «por meio dos subsídios aos alimentos oferecidos através da rede de abastecimento estatal».
Após o falecimento de Hugo Chávez, Nicolás Maduro tornou‑se o principal líder da Revolução bolivariana.
Após o falecimento de Chávez, Nicolás Maduro comprometeu‑se a dar continuidade ao projeto chavista como presidente. Inclusive, o próprio Maduro afirma que não existe o «Madurismo». Por outro lado, também surgiu o termo «chavomadurismo», indicando simplesmente uma versão do mesmo chavismo.
A Venezuela, durante o governo de Maduro, tem sido caracterizada por uma crise econômica, política e social, mas o oficialismo defende a tese de que há uma «guerra econômica» contra o país. Contudo, mesmo setores de esquerda – tanto chavistas quanto não chavistas – rejeitam a existência dessa «guerra econômica», responsabilizando o governo e as elites "ligadas" pela crise.
Mural de Hugo Chávez
Da mesma forma, o governo de Maduro tem sido fortemente criticado por setores chavistas, que acusam o atual mandatário de ter se afastado do ideário revolucionário e de adotar uma política com tom burguesa. Outros acusam Maduro de usar as imagens de Bolívar e Chávez como «mascotes de campanha», desviando a atenção dos problemas atuais da população e ignorando deliberadamente a autocrítica de diversos críticos chavistas à gestão "madurista". Por outro lado, diversos meios de comunicação e cidadãos venezuelanos apontaram que, após o início da década de 2020, a imagem e o discurso de Chávez vêm desaparecendo da propaganda e do discurso governamental – o que, somado a mudanças nas medidas econômicas do Estado (denominadas por setores da oposição de esquerda como "restauradoras do neoliberalismo") – tem sido visto por alguns do "chavismo crítico" como reflexo de que Maduro estaria “enterrando e destruindo o legado” de Chávez.
Por sua vez, Nicolás Maduro reconhece que houve falhas no desenvolvimento das forças produtivas e admite que «o velho modelo de capitalismo de Estado – corrupto, ineficiente e corruptor – próprio do tradicional rentismo petrolífero venezuelano se conjugou de forma contraditória com um modelo estatista que “pretende ser socialista”».
Evolução do chavismo pós‑Chávez na população venezuelana:
No entanto, além de se identificar como chavista, de acordo com a instituição Datanálisis, a imagem de Hugo Chávez em 2018 era avaliada positivamente em 50%. Por outro lado, segundo uma reportagem da BBC Mundo às vésperas das eleições presidenciais de 2018, os chavistas que apoiaram Maduro nesses comícios o fizeram «por convicções políticas, por experiências pessoais, por não encontrar uma alternativa melhor ou por fidelidade a Hugo Chávez».
Chavismo crítico
Após a ascensão de Nicolás Maduro ao poder na Venezuela, surgiram diversos grupos chavistas com posições distintas em relação ao Governo de Nicolás Maduro e à oposição tradicional venezuelana. Entre esses grupos, alguns que se posicionaram contra Maduro são o Redes de Resposta de Mudanças Comunitárias, Marea Socialista e Unidad Política Popular 89. Além disso, alguns chavistas afirmam apoiar Maduro de forma crítica.
Em 10 de agosto de 2020, os partidos Partido Comunista de Venezuela (PCV) e Patria Para Todos (PPT) – dois dos maiores partidos políticos de esquerda do país, que por muito tempo foram aliados de Maduro – anunciaram um distanciamento parcial do PSUV e do GPP, a fim de formar uma nova coalizão de partidos denominada Alternativa Popular Revolucionaria (APR), postulando seus próprios candidatos para as eleições parlamentares daquele mesmo dezembro. Rafael Uzcátegui, secretário‑geral do PPT, argumentou que sua separação do PSUV se deu por «diferenças com suas políticas econômicas, seu tratamento da questão salarial, dos benefícios sociais, da luta pela terra e quanto à construção de uma economia produtiva, um socialismo ético e produtivo», ao mesmo tempo que advertiu que «a liberalização econômica [atribuída a Maduro] é a condenação dos trabalhadores». Em uma coletiva de imprensa, o novo bloco de partidos declarou que um de seus objetivos é «the re‑establishment of the rights won during the period of Commander Hugo Chávez».
Além disso, figuras importantes do mandato de Chávez que se opõem a Maduro, como Rafael Ramírez, Juan Barreto, Walter Martínez, Andrés Izarra, Jorge Giordani, Mary Pili Hernández, Eva Golinger e María Alejandra Díaz, entre outros, declararam‑se chavistas, apesar de terem se afastado das fileiras governamentais, e afirmaram que o madurismo e o chavismo são correntes antagônicas e opostas, apontando contradições ideológicas, diferenças na forma de governar entre Chávez e Maduro (principalmente criticando o autoritarismo madurista), o afastamento deste último de políticas de corte conservador e seu antagonismo com os chavistas críticos à sua gestão. Óscar Figuera, atual líder do Partido Comunista de Venezuela, declarou que o governo de Nicolás Maduro «for us, it is not chavista; it is a neoliberal government – Chávez came to reverse the neoliberal package. A neoliberal government cannot be chavista». Além disso, afirmou: «[Yes] we are witnessing an increasingly authoritarian drift in Nicolás Maduro’s government that corresponds with the application of neoliberal packages, because those who control power have to use political repression to maintain control over the people».
Por sua vez, o próprio Nicolás Maduro qualificou a esquerda que o opõe ou o critica como «an outdated, divisive and defeated left», bem como de «false chavistas» que teriam «sold their soul to the diabo» e que pretendem «confuse the people».
Os críticos acusaram Hugo Chávez de ser populista desde seus primórdios e apontaram que parte de sua política constituía uma nova forma de assistencialismo não religioso. A economia era controlada por meio de decretos presidenciais na época de Chávez, com pouca experiência. Embora a intenção fosse reduzir a dependência do petróleo, as poucas empresas lucrativas quebraram. Além disso, a petroeconomia foi saqueada por funcionários instalados pelo regime: na Suíça, aproximadamente $ 100 milhões em possíveis subornos foram bloqueados em 2014 por um caso envolvendo um bilhão de dólares. Os processos contra a PDVSA encontram‑se pendentes nos tribunais dos Estados Unidos e no órgão regulador bancário suíço. Segundo um relatório do Parlamento venezuelano, foram desviados não menos de $ 11 bilhões entre 2004 e 2014. Nervis Villalobos, vice‑ministro de Energia Elétrica (2004–2006) – do Ministério do Poder Popular para a Energia Elétrica – foi preso, juntamente com outros três funcionários da PDVSA, na Espanha em outubro de 2017.
Apesar de exibir uma retórica socialista, os críticos qualificaram o chavismo como capitalismo de Estado. Em entrevista em 2017, o filósofo Noam Chomsky afirmou, quando questionado se tomaria o colapso econômico da Venezuela como uma admissão de que o socialismo «destruiu a vida das pessoas», que: «I never described Chávez’s state‑controlled capitalist government as ‘socialist’, nor did I even imply such absurdity. It was far from socialism. Private capitalism remained. […] Capitalists were free to undermine the economy in all sorts of ways, such as massive capital exportation.» Os críticos também frequentemente apontam para o grande setor privado da Venezuela: em 2009, aproximadamente 70% do produto interno bruto venezuelano era gerado pelo setor privado.
Em abril de 2018, a principal revista de esquerda da França, Les Temps Modernes, fundada por Jean‑Paul Sartre e Simone de Beauvoir em 1945, declarou sua ruptura com o regime chavista venezuelano, denunciando que a Revolução Bolivariana se revelou um «grande fracasso»; em uma série de ensaios e entrevistas com intelectuais de esquerda, a revista abordou os aspectos políticos, econômicos e sociais que levaram ao fiasco do modelo.
Por sua vez, Eduardo Molina, do La Izquierda Diario, jornal afiliado à Fracción Trotskista – Cuarta Internacional, acusou o chavismo de deixar a Venezuela em uma «crise econômica e social abismal», produto tanto do colapso do tradicional capitalismo dependente do rentismo petrolífero exacerbado pelo próprio chavismo quanto da entrega de recursos naturais ao capital estrangeiro, com rigoroso pagamento da dívida externa, governando sob um estado de exceção permanente que militariza bairros populares, impede eleições sindicais livres, persegue ativistas e coloca correntes de esquerda fora da legalidade.
Por outro lado, o economista venezuelano Manuel Sutherland afirmou que «mais do que uma transformação socialista (or desenvolvimentismo), a economia venezuelana experimentou uma massiva transferência de renda para o capital importador e para uma casta burocrático‑militar que vive às custas dos cofres públicos». Além disso, ele caracterizou o fenômeno como um «nacional‑populismo militarista» e mais parecido com uma variante do «rentismo petrolífero» do primeiro governo de Carlos Andrés Pérez (1974–1979).
O ex‑presidente do UruguaiJosé Mujica, que foi amigo de Chávez em vida e atualmente se distanciou de Maduro (embora continue crítico em relação à sua oposição), declarou sobre o chavismo e suas ramificações que «deve haver uma negociação política porque, a longo prazo, não existe um chavismo, mas sim vários chavismos», e afirmou que «há tantos chavistas, ou até mais, fora do governo quanto os que estão no governo [de Maduro]». Mesmo assim, comparou o fenômeno do chavismo com o do peronismo, concluindo que «o chavismo na Venezuela pode desembocar em algo semelhante ao peronismo na Argentina, que é um híbrido entre política e religião, com profundas raízes populares».
Por sua vez, Juan Guaidó afirmou na Venezuela que «não houve socialismo porque não há justiça social» e que não há características de igualdade nem de respeito à classe operária e trabalhadora, pois não existe liberdade sindical, afirmando que há uma «ditadura desvinculada» em seu país.
Um elemento constante na retórica de Chávez foram as teorias da conspiração, geralmente misturadas com antissemitismo a partir de 2006, (embora Chávez tenha afirmado que era «completely false» que ele fosse antissemitista, chegando inclusive a realizar reuniões com representantes da comunidade judaica venezuelana). Inicialmente, as conspirações e os países estrangeiros eram responsabilizados por qualquer deficiência no país, Essas acusações continuaram e se intensificaram com seu sucessor na presidência. Nicolás Maduro insultou Barack Obama chamando‑o de “the chief of all devils” – de forma semelhante aos arranques de Chávez contra George W. Bush – e comparou Donald Trump com Adolf Hitler. Em decorrência das declarações propagandísticas de Maduro em fevereiro de 2019, afirmando que os suprimentos de ajuda humanitária na Venezuela estavam envenenados, também houve pessoas que se negaram a consumir alimentos de estranhos durante a escassez ocasionada pelos cortes de energia elétrica em nível nacional um mês depois.
Opiniões acadêmicas
A pesquisa acadêmica sobre o chavismo mostra um consenso considerável ao reconhecer sua virada precoce para a esquerda e seu forte componente populista. Contudo, além desses dois pontos, existe um desacordo significativo na literatura. Segundo Kirk A. Hawkins, os acadêmicos geralmente se dividem em dois campos: um «liberal democrático», que vê o chavismo como uma instância de retrocesso democrático, e um «democrático radical», que defende o chavismo como o cumprimento das aspirações de uma democracia participativa. Hawkins argumenta que a divisão mais importante entre esses dois grupos não é metodológica nem teórica, mas ideológica – trata‑se de uma divisão nos pressupostos normativos básicos da democracia: liberalismo versus radicalismo.
Os acadêmicos da «democracia liberal» aderem a uma ideologia clássica liberal que valoriza a democracia processual (como eleições competitivas em sistemas multipartidários, participação popular definida principalmente por votação e as liberdades civis) como o meio político mais adequado para alcançar o bem‑estar humano. Muitos desses acadêmicos possuem uma visão liberal da economia, embora alguns sejam socialdemocratas moderados que criticam o neoliberalismo. Eles veem o chavismo de forma majoritariamente negativa, como um caso de retrocesso democrático ou mesmo de autoritarismo competitivo ou regime autoritário eleitoral. Os pontos mais relevantes da crítica liberal ao chavismo são os seguintes:
Não garantir eleições livres e justas, devido a fraudes ou mudanças frequentes nas regras eleitorais. O governo também viola os princípios da liberdade eleitoral, especialmente durante e após o referendo revocatório da Venezuela de 2004. Muitas dessas violações ocorreram devido à parcialidade do Conselho Nacional Eleitoral (Venezuela).
Violação das liberdades civis. Diversas liberdades civis sofreram retrocessos significativos sob o regime de Chávez, como a liberdade de associação e a liberdade de expressão. Um dos retrocessos mais notórios ocorreu na liberdade de imprensa, com o chavismo utilizando diversos meios para restringir o funcionamento dos veículos de comunicação privados.
Infringir a separação de poderes. Os estudiosos liberais argumentam que o chavismo elimina a separação de poderes entre os ramos do governo, manipulando a formação de uma supermaioria no Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela. Além disso, em 2006, o governo removeu centenas de magistrados dos tribunais inferiores e ameaçou demitir e processar qualquer juiz que ousasse emitir uma decisão contrária ao regime.
Discriminação política e exclusão dos partidos de oposição. Sob o regime chavista, os recursos estatais são utilizados para favorecer o titular, enquanto os partidos de oposição ficam sem acesso aos meios de comunicação, e as instituições legais são capturadas pelo governo. Adicionalmente, diversas fontes sugerem que as iniciativas participativas do regime servem de infraestrutura para campanhas.
Minar o Estado de Direito. Os críticos liberais apontam três exemplos principais: (i) a politização do poder judiciário e da burocracia violou o devido processo e facilitou o aumento da corrupção política; (ii) a disposição do Estado de intervir e expropriação da indústria privada, muitas vezes através de métodos legalmente questionáveis, enfraqueceu os direitos de propriedade; e (iii) os níveis de crimes violentos dispararam.
Os acadêmicos da «democracia radical» geralmente aderem a uma ideologia socialista clássica que desconfia das instituições financeiras e do mercado financeiro. Eles consideram que a democracia processual é insuficiente para garantir a inclusão política – embora reconheçam a importância das instituições democráticas liberais – e enfatizam as formas participativas de democracia e a propriedade coletiva dos trabalhadores na economia. Em geral, esses estudiosos celebram as características participativas do movimento ou analisam suas potenciais fraquezas para alcançar seus objetivos revolucionários. Muitos desses acadêmicos apoiaram o chavismo e ajudaram a formar a ala civil do movimento. Para alguns, aprofundar a democracia significa adotar uma economia socialista, e alguns defendem que isso exige tomar o poder através de uma liderança carismática com apoio político suficiente para implementar reformas estruturais.
↑Flores, Vázquez; Antonio, Marco. «Venezuela: Los alcances y límites de la estrategia antiimperialista y anticapitalista del gobierno de Hugo Chávez». Cópia arquivada em 18 de agosto de 2026. La versión del "socialismo del siglo XXI" como transición estadocéntrica es más bien, una estrategia antimperialista que viene a reconfigurar el capitalismo venezolano bajo un nacionalismo estatal que utilice la renta petrolera para dotarse de un desarrollo económico que implique una distribución más equitativa de la riqueza, una forma que de manera contundente deja fuera la autogestión, para más bien establecer un movimiento estadocéntrico y colocarse como un Estado en busca de la defensa de la autonomía nacional.
↑Rory, Carroll. Comandante: Hugo Chavez's Venezuela. [S.l.]: Penguin Books: New York. ISBN978-0143124887
12Marcano, Christina; Tyszka, Alberto Barrera (2007). Hugo Chávez: The Definitive Biography of Venezuela's Controversial President. New York: Random House. [S.l.]: New York: Random House. ISBN978-0-679-45666-7
12Corrales, Javier; Penfold, Michael (2014). Dragon in the tropics: hugo chavez and the political economy of revolution in Venezuela. Second ed. [S.l.]: Brookings Institution Press. p.12. ISBN0815725930(em inglês)
12«Venezuela's sham presidential election». Financial Times (em inglês). 16 de maio de 2018. Consultado em 20 de maio de 2018. Cópia arquivada em 2 de março de 2026. The vote, of course, is a sham. Support is bought via ration cards issued to state workers with the implicit threat that both job and card are at risk if they vote against the government. Meanwhile, the country's highest‑profile opposition leaders are barred from running, in exile, or under arrest.
↑«Fidel Castro stated that Hugo Chávez was his "best friend" during his active political years». El Comercio. 14 de agosto de 2013. Consultado em 23 de junho de 2016. Castro, who due to an intestinal illness left the presidency of Cuba in 2006, praises Chávez as “a man of action and ideas” and points out that those who knew him “understand the priority he gave to those ideological challenges.”
↑n24fuente0 (24 de novembro de 2011). «Chávez speaks about Mao.mp4». Consultado em 23 de julho de 2018. Arquivado do original em 29 de fevereiro de 2020
↑«"We will fight against their war" (translated)». Novaya Gazeta (em russo). Moscou: NGPH. 24 de março de 2019. Consultado em 15 de março de 2020. Cópia arquivada em 5 de março de 2026. In Venezuela, the diagnosis of “malnutrition” is forbidden, women can be sterilized, a shopping center has turned into a torture center, and the regime accuses foreigners.
↑O movimento chavista experimentou uma retórica mais democrática sob Chávez, especialmente nos seus primeiros anos, enquanto se tornou visivelmente autoritário tanto na retórica como na prática sob Maduro (a facção autocrática do Madurismo), especialmente depois de 2017.