Guy Mollet

Guy Mollet
Primeiro-ministro da França
Período31 de janeiro de 1956 até 12 de junho de 1957
Antecessor(a)Edgar Faure
Sucessor(a)Maurice Bourgès-Maunoury
Dados pessoais
Nascimento31 de dezembro de 1905
Flers
Morte3 de outubro de 1975 (69 anos)
Paris
PartidoSFIO
ProfissãoProfessor

Guy Alcide Mollet (Flers, 31 de dezembro de 1905 – Paris, 3 de outubro de 1975) foi um professor e político francês, secretário-geral da Secção Francesa da Internacional Operária (SFIO) entre 1946 e 1969 e presidente da câmara municipal de Arras entre 1945 e 1975.

Ocupou o cargo de presidente do Conselho de Ministros — título correspondente, na época, ao de primeiro-ministro — entre 31 de janeiro de 1956 e 12 de junho de 1957, à frente do governo mais duradouro da Quarta República Francesa. Esse governo obteve, em 12 de março de 1956, plenos poderes especiais da Assembleia Nacional para conduzir a guerra da Argélia, negociou o reconhecimento da independência de Marrocos e da Tunísia em março de 1956, promoveu reformas sociais como a terceira e a quarta semanas de férias pagas e autorizou o início do programa francês de armamento nuclear. O seu governo envolveu ainda a França, ao lado do Reino Unido e de Israel, numa intervenção militar mal sucedida no canal do Suez, em outubro e novembro de 1956, e assinou, em 25 de março de 1957, o Tratado de Roma, que instituiu a Comunidade Económica Europeia.

Depois da queda do seu governo, aproximou-se do general Charles de Gaulle por ocasião do regresso deste ao poder em 1958, tendo integrado o seu governo como ministro de Estado entre junho de 1958 e janeiro de 1959, antes de passar a uma posição de oposição ao longo da década de 1960.

Juventude e formação

Guy Mollet nasceu em Flers, no departamento do Orne, numa família modesta, tendo sido criado como pupilo da nação. Bolseiro, estudou na Faculdade de Letras de Lille e tornou-se professor de inglês, exercendo funções no liceu de Arras a partir de 1924. Aderiu à SFIO em 1921 e, a partir de 1936, acumulou o ensino com funções sindicais, tendo sido nomeado, em 1939, secretário-geral da Federação do Ensino, sindicato ligado à SFIO.

Segunda Guerra Mundial e Resistência

Mobilizado em 1939, foi feito prisioneiro pelas forças alemãs em 1940 e libertado em 1942, após o que se juntou à Resistência Francesa. Entre 1942 e 1944, dirigiu, no departamento do Pas-de-Calais, uma organização de resistência civil e militar.

Ascensão política e liderança da SFIO (1945-1955)

Guy Mollet em 1956, ano em que se tornou presidente do Conselho de Ministros

Na Libertação, Mollet foi eleito presidente da câmara municipal de Arras em 5 de maio de 1945, cargo que manteve, por reeleições sucessivas, até à morte, e foi eleito, em outubro seguinte, presidente do conselho geral do Pas-de-Calais. Eleito deputado pelo Pas-de-Calais para a Assembleia Constituinte em outubro de 1945, participou na elaboração das constituições de 1946 e, mais tarde, de 1958. Tornou-se secretário-geral da SFIO em 4 de setembro de 1946, cargo que ocupou sem interrupção até 1969, opondo-se sistematicamente a alianças eleitorais com o Partido Comunista Francês. Foi ministro de Estado no governo de Léon Blum entre dezembro de 1946 e janeiro de 1947, ministro de Estado para os Assuntos do Conselho da Europa no governo de René Pleven entre julho de 1950 e março de 1951, e vice-presidente do Conselho no governo de Henri Queuille entre março e agosto de 1951.

Governo Mollet (1956-1957)

Investidura e Frente Republicana

Na sequência da vitória eleitoral da Frente Republicana — coligação que incluía a SFIO e o Partido Radical de Pierre Mendès France — nas eleições legislativas de janeiro de 1956, Mollet obteve a investidura como presidente do Conselho em 31 de janeiro de 1956, tendo integrado Mendès France no seu governo como ministro de Estado sem pasta.

Argélia: incidente das tomates e poderes especiais

Em deslocação a Argel, em 6 de fevereiro de 1956, para anunciar a nomeação de um novo ministro-residente favorável a negociações com os nacionalistas argelinos, Mollet foi recebido por uma manifestação hostil de colonos europeus, que o vaiaram e atingiram com tomates, episódio que ficou conhecido como "a jornada das tomates". Na sequência do incidente, o governo endureceu a sua política argelina, nomeando Robert Lacoste ministro-residente em 9 de fevereiro de 1956 e obtendo, em 12 de março seguinte, por 455 votos contra 76, a aprovação pela Assembleia Nacional de plenos poderes especiais para tomar, na Argélia, todas as medidas excecionais consideradas necessárias à manutenção da ordem e à proteção de pessoas e bens.

Independência de Marrocos e da Tunísia

O governo Mollet concluiu o processo de descolonização do protetorado francês em Marrocos e do protetorado francês na Tunísia, reconhecendo, por declaração conjunta de 2 de março de 1956, a independência de Marrocos — formalizada por convenção assinada em Paris a 28 de março de 1956 — e, por protocolo de 20 de março de 1956, a independência da Tunísia.

Reformas sociais e política nuclear

No plano interno, o governo aprovou a "lei-quadro" proposta pelo ministro Gaston Defferre para os territórios ultramarinos franceses, concedendo-lhes um grau alargado de autonomia administrativa, e instituiu a terceira e, pouco depois, a quarta semana de férias pagas para os trabalhadores franceses. Foi ainda sob o governo Mollet que a França autorizou o início do desenvolvimento de um programa de armamento nuclear militar, embrião da futura força de dissuasão nuclear francesa.

Crise do Suez

Considerando o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, que nacionalizara o canal do Suez em julho de 1956, um dos principais apoiantes externos da Frente de Libertação Nacional argelina, o governo Mollet associou-se ao Reino Unido e a Israel numa operação militar secreta contra o Egito. Após o desembarque de tropas franco-britânicas em Porto Saíde, em 5 de novembro de 1956, a operação foi interrompida sob forte pressão diplomática dos Estados Unidos e da União Soviética, obrigando Paris e Londres a um cessar-fogo humilhante.

Tratado de Roma

Por iniciativa do próprio Mollet, a França participou ativamente nas negociações que conduziram, em 25 de março de 1957, à assinatura em Roma, por seis países europeus, dos tratados que instituíram a Comunidade Económica Europeia e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom).

Queda do governo

Fragilizado pelo custo político e financeiro da guerra da Argélia e da expedição do Suez, bem como pelas críticas da direita às suas reformas sociais, o governo Mollet foi derrubado pela Assembleia Nacional em maio de 1957, mantendo-se em gestão de assuntos correntes até 12 de junho de 1957, data em que lhe sucedeu Maurice Bourgès-Maunoury.

Entre a Quarta e a Quinta República (1958-1969)

Por ocasião da Crise de maio de 1958, Mollet contribuiu para atenuar as reticências de parte da esquerda socialista ao regresso ao poder do general de Gaulle, tendo integrado o seu governo como ministro de Estado entre junho de 1958 e janeiro de 1959. Manteve depois uma posição de "oposição construtiva" a de Gaulle, continuando a exercer os mandatos de deputado do Pas-de-Calais e de presidente da câmara de Arras, e contribuiu, em 1965, para a criação da Federação da Esquerda Democrática e Socialista. Manteve-se secretário-geral da SFIO até 1969, ano em que a organização deu origem ao novo Partido Socialista francês.

Últimos anos e morte

Já afastado da liderança do partido, Mollet fundou, em 1969, o Escritório Universitário de Investigação Socialista (OURS) e publicou obras de reflexão socialista, entre as quais Le socialisme selon Tito (1971). Morreu em Paris em 3 de outubro de 1975, com 69 anos, sem ter assistido à renovação do Partido Socialista operada no Congresso de Épinay. Está sepultado em Arras, cidade que lhe dedicou uma praça junto à câmara municipal e um liceu com o seu nome, inaugurado em 1967.

Legado

A ação de Guy Mollet como chefe de governo é objeto de avaliações contrastantes: por um lado, ficou associado a avanços sociais como a quarta semana de férias pagas e a autonomia concedida aos territórios ultramarinos, bem como ao papel pioneiro da França na construção europeia; por outro, a intensificação da guerra da Argélia sob o seu governo e o fracasso da expedição do Suez marcaram duradouramente a sua imagem pública.

Ver também

Referências

  1. 1 2 «Guy Mollet». Encyclopédie Larousse (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  2. 1 2 3 «Guy Mollet : le député-maire d'Arras au destin national». Ville d'Arras (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  3. 1 2 3 4 5 6 7 «Guy, Alcide Mollet». Base de dados dos deputados franceses desde 1789, Assembleia Nacional Francesa (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  4. 1 2 «Allocution télévisée de Guy Mollet et Robert Lacoste sur les pouvoirs spéciaux en Algérie». Ina.fr, Fresques (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  5. 1 2 «1956, année charnière dans le Maghreb». FranceArchives (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  6. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 «Guy Mollet | French Prime Minister & Socialist Leader». Encyclopædia Britannica (em inglês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  7. 1 2 «6 novembre 1956 - L'expédition de Suez tourne au fiasco». Herodote.net (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  8. 1 2 «25 mars 1957 - Le traité de Rome fonde la Communauté économique européenne». Herodote.net (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  9. 1 2 3 «Guy Mollet». Fondation Charles de Gaulle (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  10. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 «Guy Mollet». Encyclopædia Universalis (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026
  11. ↑ «Affaire de Suez (1956)». Encyclopædia Universalis (em francês). Consultado em 30 de agosto de 2026

Precedido por
Edgar Faure
Primeiro-ministro da França
1956 - 1957
Sucedido por
Maurice Bourgès-Maunoury