Ibne Hibane

Ibne Hibane (em árabe: محمد بن حبان; romaniz.: Muḥammad ibn Ḥibbān), de nome completo Abu Hatime Maomé ibne Hibane ibne Amade Albusti (em árabe: أبو حاتم محمد بن حبان بن أحمد البستي; romaniz.: Abū Ḥātim Muḥammad ibn Ḥibbān ibn Aḥmad al-Bustī; Buste, 890 – Buste, 20 de outubro de 965), foi um estudioso muçulmano do hádice, crítico de transmissores e cádi originário do Sistão. Tamimita por origem tribal, desenvolveu sua atividade durante o século X, sobretudo nos territórios orientais do mundo islâmico, e tornou-se conhecido por seus trabalhos de compilação, classificação e avaliação das tradições e de seus transmissores.

Iniciou seus estudos em Buste e, ainda jovem, empreendeu extensas viagens de formação que o levaram do Coração e da Transoxiana ao Iraque, Hejaz, Síria e Egito. Estudou hádice e jurisprudência com numerosos mestres, entre eles Abu Becre ibne Cuzaima, e posteriormente ensinou em centros como Samarcanda e Nixapur. No Império Samânida, exerceu funções judiciais como cádi de Samarcanda, Nasa e outras localidades. Sua atividade intelectual também provocou controvérsias, sobretudo em razão de suas posições acerca da profecia e de seu envolvimento com o calâm e a filosofia.

A produção de Ibne Hibane concentrou-se particularmente no hádice e na crítica dos transmissores. Entre suas obras conservadas ou parcialmente preservadas encontram-se o Kitāb al-Thiqāt, sobre transmissores considerados confiáveis, o Kitāb al-Majrūḥīn min al-muḥaddithīn wa-l-ḍuʿafāʾ wa-l-matrūkīn, dedicado aos transmissores criticados, e sua coletânea de hádices conhecida como Ṣaḥīḥ Ibn Ḥibbān. Escreveu ainda trabalhos de história, biografia, crítica do hádice e outros campos das ciências islâmicas, muitos dos quais se perderam. Antes de morrer, destinou sua biblioteca e outros recursos à manutenção de uma escola de hádice e de estudantes em sua cidade natal.

Biografia

Ibne Hibane nasceu em Buste, no Sistão, em 277 A.H. (890). Por pertencer à tribo árabe dos tamimitas, era também conhecido pela nisba Atamimi. Iniciou sua formação em Buste e seus arredores e, por volta dos 23 anos, empreendeu extensas viagens em busca de conhecimento, partindo de Ispijabe, na região de Xaxe, e percorrendo o Coração, Transoxiana, Iraque, Hejaz, Síria, Egito e Alexandria. Ao longo dessas viagens, estudou não apenas hádice, mas também jurisprudência, língua árabe, calâm, filosofia, medicina e astronomia, além de ter obtido a possibilidade de transmitir tradições por cadeias de transmissão elevadas. Entre seus numerosos mestres estiveram Abu Califa Alfadle ibne Hubabe Aljumai, em Baçorá, Zacaria Assaji, Anaçai, no Egito, Abu Iala Almaucili, em Moçul, Haçane ibne Sufiane, em Nasa, Abu Aruba, em Harã, Bujairi, em Bucara, e Maomé ibne Isaque Açarraje, em Nixapur. Nesta última cidade, estudou hádice e jurisprudência com Abu Becre ibne Cuzaima, cujo método adotou. Também estudou com Almufadal ibne Maomé Aljanadi, Abu Alabás Adaguli, Ibne Abi Daúde, Ibne Jauça e Ibne Abi Hatime. Entre os estudiosos que posteriormente aprenderam com Ibne Hibane estiveram Adaracutni, Abu Abedalá ibne Manda, Aláqueme Anixaburi, Ibne Habibe Anixaburi, Maomé ibne Amade Anucati, Abederramão ibne Maomé Alidrissi e Gunjare.

Além de sua atividade como estudioso do hádice, Ibne Hibane exerceu funções judiciais. No Império Samânida, foi nomeado pelos emires como cádi de Samarcanda, Nasa e outras localidades. Em Samarcanda, o emir samânida Almuzafar ibne Amade mandou construir em seu nome uma suffa destinada aos estudantes de hádice, onde Ibne Hibane ensinou hádice e jurisprudência até 330 A.H. (941–942). Em 334 A.H. (945–946) e novamente em 337 A.H. (948–949), estabeleceu sessões de ditado em Nixapur e ministrou aulas de hádice, ditando também algumas de suas obras na khanqah construída em seu nome. Na primeira dessas sessões, Aláqueme Anixaburi, então com apenas treze anos, atuou como seu müstemlî, encarregado de repetir em voz alta o material ditado aos participantes. Sua atuação intelectual, contudo, suscitou controvérsias. Alguns de seus adversários afirmaram que ele reduzia a profecia ao conhecimento e à ação. Adaabi, que o considerava um grande imame, sustentou que sua afirmação havia sido mal interpretada: segundo sua explicação, Ibne Hibane pretendia dizer que ninguém desprovido de conhecimento e ação poderia ser profeta e que ambas as qualidades se encontravam nos profetas em seu grau mais perfeito. Ibne Hajar de Ascalão também o defendeu, rejeitando que um estudioso de crenças sólidas como Ibne Hibane pretendesse sustentar a concepção filosófica de que a profecia poderia ser adquirida.

Durante sua permanência no Sistão, partidários dos muxabiatas também o acusaram de zandaqa por seu envolvimento com o calâm e a filosofia, e teria sido solicitado ao califa que autorizasse sua execução. Ibne Hibane deixou então o Sistão e refugiou-se em Samarcanda, mas, segundo a TDV, acabou sendo igualmente hostilizado ali pelos mesmos círculos e teve de abandonar a cidade. Açubequi, contudo, preserva uma versão diferente, segundo a qual o personagem expulso do Sistão não teria sido Ibne Hibane, mas Abedalá Alharaui, acusado de pertencer aos mujassimitas. Antes de morrer, Ibne Hibane legou todos os seus livros à escola de hádice e à sua residência em Buste, conhecida como dār al-ʿilm, que havia transformado em hospedaria para estudantes de hádice vindos de outras regiões. Deixou também rendimentos de uma dotação destinados a cobrir as despesas da instituição, nomeou um responsável pela conservação dos livros e determinou que eles não fossem retirados da biblioteca, embora cerca de um século depois restassem poucos exemplares de sua coleção. Morreu em Buste em 21 de Xaual de 354 A.H. (20 de outubro de 965) e foi sepultado na escola de hádice situada nas proximidades de sua residência.

Atividade intelectual

Ibne Hibane destacou-se sobretudo como estudioso do hádice e da crítica dos transmissores. Sua reputação nesse campo já era considerável entre seus contemporâneos: Abu Becre ibne Cuzaima, um de seus mestres em Nixapur, teria reconhecido nele uma capacidade superior à de outros estudiosos que o procuravam. A amplitude de suas viagens permitiu-lhe reunir tradições provenientes de numerosos centros do mundo islâmico e estabelecer contato com grande número de transmissores. Sua produção refletiu particularmente o interesse pela avaliação da confiabilidade dos homens que integravam as cadeias de transmissão, tanto daqueles considerados dignos de confiança quanto dos julgados fracos ou pouco confiáveis. Uma característica importante de sua atividade nesse domínio foi a tentativa de organizar sistematicamente o material biográfico relativo aos transmissores. Fück considera que suas obras apresentam uma ordenação mais sistemática que a encontrada nos trabalhos de seus predecessores. Essa preocupação manifesta-se sobretudo em duas obras complementares: o Kitāb al-Thiqāt, dedicado aos transmissores considerados confiáveis, e o Kitāb al-Majrūḥīn min al-muḥaddithīn wa-l-ḍuʿafāʾ wa-l-matrūkīn, dedicado aos transmissores cuja autoridade era objeto de crítica.

Na avaliação dos transmissores, Ibne Hibane considerava o conhecimento uma condição necessária para que se completassem a veracidade e a probidade do transmissor. Considerava problemática a transmissão de memória por um transmissor confiável que não fosse versado em jurisprudência, pela possibilidade de cometer erros no texto do hádice, e também a transmissão de memória por um jurista confiável, pela possibilidade de erro na cadeia de transmissão. Admitia em seu al-Musnad al-ṣaḥīḥ as tradições de indivíduos contra os quais não se conhecesse crítica, desde que o transmissor de quem recebessem a tradição fosse considerado probo, e sustentava que as tradições de adeptos de inovações religiosas que propagassem suas próprias doutrinas não poderiam ser utilizadas como prova. Embora fosse considerado tolerante na declaração de confiabilidade dos transmissores, era tido como rigoroso em sua crítica negativa. O próprio Ibne Hibane afirmava proceder com grande cautela e somente classificar alguém como confiável ou fraco quando dispunha de provas sólidas, mas algumas de suas avaliações não foram aceitas por outros estudiosos do hádice. Adaabi criticou-o por considerar excessivo e precipitado em algumas de suas censuras, e Ibne Hajar de Ascalão formulou objeções semelhantes a determinadas avaliações de transmissores.

Obras

Ibne Hibane foi um autor prolífico, embora grande parte de sua produção tenha se perdido. Fück observa que algumas de suas obras desapareceram pouco depois de sua morte, apesar das medidas tomadas para conservar sua biblioteca e permitir que estudiosos copiassem seus escritos. Entre as obras que sobreviveram, destacam-se Kitāb al-Thiqāt, repertório biográfico dedicado a transmissores considerados confiáveis, e Kitāb al-Majrūḥīn min al-muḥaddithīn wa-l-ḍuʿafāʾ wa-l-matrūkīn, dedicado à avaliação crítica de transmissores considerados fracos ou rejeitados. Seu trabalho nesse campo distingue-se pela organização sistemática do material, mais desenvolvida que a encontrada em várias obras de seus predecessores.

Outra de suas obras mais importantes é sua coletânea de hádices autênticos, conhecida posteriormente como Ṣaḥīḥ Ibn Ḥibbān e originalmente intitulada al-Musnad al-ṣaḥīḥ ʿalā al-taqāsīm wa-l-anwāʿ. Ao contrário das coleções organizadas predominantemente segundo capítulos jurídicos, Ibne Hibane adotou para ela um sistema próprio de classificação, dividindo o material em cinco categorias: ordens, proibições, informações, permissões e atos de Maomé. A obra, que reúne hádices considerados autênticos e ḥasan, não chegou integralmente aos tempos modernos. Posteriormente, Ibne Balabane reorganizou seu conteúdo segundo capítulos jurídicos sob o título al-Iḥsān fī taqrīb Ṣaḥīḥ Ibn Ḥibbān.

Além do Kitāb al-Thiqāt e do Kitāb al-Majrūḥīn, sua produção conservada ou conhecida inclui Tārīkh al-ṣaḥāba alladhīna ruwiya ʿanhum al-akhbār, dedicado aos companheiros de Maomé; Rawḍat al-ʿuqalāʾ wa-nuzhat al-fuḍalāʾ; Mashāhīr ʿulamāʾ al-amṣār; al-Sīra al-nabawiyya wa-akhbār al-khulafāʾ; Mukhtaṣar fī al-ḥudūd; e Ḥadīth al-aqrān. A produção de Ibne Hibane não se restringiu às coletâneas de hádice e aos repertórios de transmissores. Escreveu também sobre história, biografia e outros ramos das ciências islâmicas, embora parte considerável desses trabalhos seja conhecida apenas por referências bibliográficas posteriores. Entre os títulos registrados pelas fontes estão obras sobre os sinais da profecia, crítica e transmissão do hádice, particularidades das tradições transmitidas em diferentes regiões e estudos sobre Ibne Xiabe Azuri, Maleque ibne Anas, Abu Hanifa e Axafii. A perda de numerosos títulos contrasta com a influência exercida pelas obras conservadas, particularmente seus repertórios de transmissores e sua coletânea de hádices.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 Sönmez 1999, p. 63.
  2. 1 2 3 4 5 Sönmez 1999, p. 64.
  3. 1 2 3 Fück 1986, p. 799.

Bibliografia