Ibne Xiabe Azuri

Ibne Xiabe Azuri, cujo nome completo era Abu Becre Maomé ibne Muslim ibne Ubaide Alá ibne Xiabe Azuri (em árabe: أبو بكر محمد بن مسلم بن عبيد الله بن شهاب الزهري; romaniz.: Abū Bakr Muḥammad ibn Muslim ibn ʿUbayd Allāh ibn Shihāb al-Zuhrī; 671–742), foi um tabi, tradicionalista, jurista e historiador muçulmano dos zuraítas, ramo dos coraixitas. Natural de Medina, estudou com numerosos companheiros de Maomé e representantes da geração mais velha dos tabis e tornou-se mestre de estudiosos como Mamar ibne Raxide, Sufiane ibne Uiaina e Maleque ibne Anas. Estabeleceu posteriormente estreitas relações com a corte do Califado Omíada, exercendo funções administrativas e judiciais e contribuindo para a circulação das tradições entre o Hejaz e a Síria.

Considerado uma das principais autoridades do hádice de sua época, Ibne Xiabe Azuri teve papel destacado no desenvolvimento do isnade e sobretudo na compilação escrita das tradições. Durante o califado de Omar II, participou da iniciativa oficial de reunir e registrar hádices, sendo apresentado pelas fontes como um dos primeiros, ou o primeiro, a realizar sua compilação sistemática. Sua proximidade com os governantes omíadas provocou críticas entre alguns contemporâneos, mas não impediu que fosse amplamente reconhecido como transmissor confiável. Além do hádice e do fiqh, destacou-se na genealogia, recitação do Alcorão e historiografia, tendo reunido numerosas tradições sobre a vida e as campanhas de Maomé que exerceram influência sobre o desenvolvimento posterior da sira e dos magazi.

Vida

Ibne Xiabe Azuri nasceu em Medina em 51 A.H. (671), embora as fontes também forneçam os anos 50, 56 e 58 A.H. para seu nascimento. Pertencia aos zuraítas, ramo dos coraixitas. Seu bisavô, Abedalá ibne Xiabe, combateu contra os muçulmanos nas batalhas de Badre e Uude e, nesta última, teria jurado matar Maomé e chegado a feri-lo na testa, convertendo-se posteriormente ao Islã. O pai de Azuri, Muslim, e outros membros de sua família apoiaram Abedalá ibne Azobair em sua revolta contra o governo do Califado Omíada. As fontes divergem sobre a identidade de sua mãe, identificada como Aixa binte Abedalá Alaquebar ou como uma filha de Abane ibne Áfeça Alquinani. Seu irmão mais velho, Abu Maomé Abedalá, foi considerado um transmissor confiável, embora tenha transmitido poucos hádices, e morreu antes dele.

Azuri iniciou sua formação pelo estudo do Alcorão, que, segundo uma tradição, teria memorizado em oitenta dias. Estudou genealogia com seu tio materno Abedalá ibne Talaba ibne Suair e recebeu tradições de vários companheiros de Maomé, entre eles Anas ibne Maleque, Mamude ibne Rebia, Sal ibne Sade, Abu Atufail, Saíbe ibne Iázide e Abederramão ibne Azar. Suas principais influências, contudo, foram estudiosos da geração mais velha dos tabis. Estudou com todos os chamados sete juristas de Medina, beneficiando-se especialmente dos ensinamentos de Saíde ibne Almuçaíbe, Urua ibne Azobair, Ubaide Alá ibne Abedalá e Abu Becre ibne Abederramão. Com Saíde, de quem foi discípulo durante oito anos, estudou jurisprudência, recitação do Alcorão e as decisões jurídicas atribuídas a Maomé e aos califas Abu Becre, Omar e Otomão; de Urua recebeu conhecimentos de hádice e história. Estudou ainda com Abederramão ibne Hurmuz, Atá ibne Abi Rabá, os filhos de Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe Salime, Hâmeza e Ubaide Alá, e Anra binte Abederramão.

Desde jovem, Azuri distinguiu-se entre seus contemporâneos pela disposição de interrogar os mestres e aprender tanto com estudiosos mais velhos quanto com os mais jovens. Ao contrário de alguns de seus colegas, que desaprovavam a prática, costumava levar consigo material de escrita e registrar aquilo que ouvia, utilizando especialmente suas anotações para memorizar tradições extensas. Tornou-se posteriormente mestre de numerosos estudiosos, entre os quais Maomé ibne Alualide Azubaidi, Xuaibe ibne Abi Hâmeza, Ucail ibne Calide, Iunus ibne Iázide, Mamar ibne Raxide, Sufiane ibne Uiaina e Maleque ibne Anas. A família de Azuri atravessou dificuldades financeiras depois de apoiar Abedalá ibne Azobair e ser excluída dos registros de pagamento do Estado. Em 82 A.H. (701), quando tinha pouco mais de trinta anos, Azuri dirigiu-se a Damasco em busca de uma solução para seus problemas materiais. Nessa ocasião, o califa Abalmaleque ibne Maruane procurava esclarecer uma questão jurídica relativa a uma decisão de Omar, mas os estudiosos de Damasco não haviam conseguido fornecer a informação desejada. Azuri conheceu então Cabiça ibne Duaibe, um dos homens próximos ao califa, informou-lhe que conhecia a tradição procurada e foi apresentado a Abalmaleque. Impressionado com seus conhecimentos, o califa incorporou-o ao seu círculo, reintegrou-o aos registros de pagamento, concedeu-lhe uma remuneração elevada e posteriormente confiou-lhe funções oficiais e terras.

Azuri estabeleceu-se em Damasco e, durante aproximadamente quarenta e cinco anos, deslocou-se entre a Síria e o Hejaz, contribuindo para a circulação das tradições entre as duas regiões. Depois da morte de Abalmaleque, permaneceu próximo da corte durante os califados de Alualide I, Solimão ibne Abalmaleque, Omar II, Iázide II e Hixame ibne Abalmaleque. Exerceu diferentes funções a serviço do governo omíada, sendo mencionado como coletor de zacate, integrante da xurta e cádi. Durante o reinado de Hixame, tornou-se também preceptor dos filhos do califa e passou parte de seus últimos anos na corte de Rusafa. Sua associação prolongada com os governantes omíadas provocou críticas entre alguns de seus contemporâneos. Saíde ibne Almuçaíbe e Macul ibne Abi Muslim criticaram-no por transmitir hádices aos governantes, e foram-lhe aplicadas designações depreciativas relacionadas à sua proximidade com o poder. Maleque ibne Anas também o censurou por obter benefícios materiais por meio de sua atividade. Outros estudiosos, contudo, ressaltaram que Azuri não se submetia incondicionalmente aos governantes e podia contradizê-los quando julgava necessário. Adaabi, embora reconhecesse sua proximidade com a corte, rejeitou que isso constituísse motivo para desconsiderar suas transmissões e enfatizou sua confiabilidade como tradicionalista.

Segundo Lecker, Azuri manteve durante muitos anos uma relação particularmente estreita com a casa omíada e desempenhou funções oficiais como cádi, coletor de impostos e chefe da xurta. A proximidade não significava necessariamente submissão: numa ocasião teria se recusado a cumprir uma ordem do califa, preferindo seguir a opinião da maioria dos juristas. Sua posição diante da corte foi igualmente marcada pela franqueza, e uma tradição afirma que o próprio Hixame chegou a removê-lo temporariamente de uma função depois de Azuri se recusar a agir conforme exigido. Azuri morreu em 17 de Ramadã de 124 A.H. (25 de julho de 742), em uma propriedade sua chamada Xague, nas proximidades de Uádi Alcura, onde foi sepultado. Era conhecido por sua generosidade e pela pouca preocupação com a acumulação de riquezas. Frequentemente contraía dívidas para auxiliar outras pessoas, e os califas omíadas pagaram suas dívidas em diversas ocasiões. Apesar das promessas de não voltar a se endividar, morreu deixando obrigações consideráveis, que foram quitadas mediante a venda de suas terras.

Atividade como tradicionalista

A importância de Azuri na história do hádice está relacionada tanto à amplitude de suas transmissões quanto ao papel desempenhado na sistematização e registro escrito das tradições. Era considerado uma das maiores autoridades nos hádices do Hejaz e de Medina e, durante as décadas em que circulou entre o Hejaz e a Síria, tornou-se um importante elo entre as tradições das duas regiões. São-lhe atribuídos cerca de 2 200 hádices, aproximadamente metade dos quais musnade ou marfu. Também teve papel importante na difusão do uso do isnade na Síria. Ao observar que os habitantes de Damasco transmitiam tradições sem cadeias de autoridades, teria insistido na indicação dos transmissores, contribuindo para que essa prática se estabelecesse na região.

Azuri atribuía grande importância ao isnade, comparando-o a uma rédea que impedia que as tradições se dispersassem sem controle. Apesar disso, foi criticado por transmitir ocasionalmente hádices murçal. Algumas dessas tradições não foram consideradas probatórias por estudiosos posteriores, enquanto outras continuaram a ser utilizadas, inclusive por Maleque ibne Anas no Almuwatta. Também desenvolveu posições próprias sobre os métodos de recepção e transmissão dos hádices. Não estabelecia distinção entre a audição direta do mestre e a leitura diante dele para fins de emprego da fórmula haddathanā, e admitiu posteriormente a transmissão de textos escritos mediante autorização, inclusive em determinadas circunstâncias sem que fossem lidos integralmente diante dele.

As fontes preservam relatos aparentemente divergentes acerca de sua atitude diante da escrita. Na juventude, Azuri registrava aquilo que aprendia, embora também existam tradições segundo as quais utilizava a escrita sobretudo para memorizar textos longos e depois destruía as anotações. Como mestre, teria inicialmente preferido que seus discípulos memorizassem as tradições e empregado o método de perguntas e respostas em vez do ditado. Sua atitude mudou quando o califa Hixame o encarregou de ditar hádices para seus filhos. A partir de então, passou a permitir mais amplamente que suas tradições fossem registradas. A crescente circulação de relatos que considerava alterados, sobretudo provenientes do Oriente, também teria contribuído para sua aceitação da escrita como meio de preservação.

Compilação dos hádices

Azuri tornou-se particularmente célebre por seu papel na compilação (tadwīn) dos hádices. Durante o califado de Omar ibne Abedalazize, recebeu, juntamente com outros estudiosos, a incumbência oficial de reunir as tradições e registrá-las por escrito. Sua importância nesse processo derivava não apenas de seus conhecimentos, mas também de sua posição entre o Hejaz e a Síria e do acesso aos recursos administrativos do Estado. Ao contrário de alguns contemporâneos que concentravam a coleta nas tradições marfu relacionadas à jurisprudência, Azuri adotou uma concepção mais abrangente, registrando tradições de diferentes assuntos e incluindo materiais marfu, mauquf e mactu. Por essa razão, tornou-se conhecido nas fontes como o primeiro estudioso a realizar uma compilação sistemática dos hádices. Lecker observa igualmente que Omar ibne Abedalazize ordenou a Azuri e a outros estudiosos que reunissem as sunan, que foram registradas em livros e enviadas às diferentes províncias. A concepção de suna empregada por Azuri não se limitava necessariamente às tradições diretamente atribuídas a Maomé: incluía também tradições provenientes dos companheiros, que ele considerava parte da suna. Em contraste com estudiosos que se restringiam às tradições proféticas, Azuri registrava também as autoridades dos companheiros.

A escala de sua atividade escrita foi favorecida pela corte omíada. Durante o reinado de Hixame, dois escribas foram encarregados durante um ano inteiro de registrar suas tradições. Segundo Lecker, as sessões de ditado de Azuri começaram a assumir caráter oficial, com a presença de funcionários do Estado, e em determinadas ocasiões foram organizadas especificamente para estudiosos não ligados ao aparelho estatal. Xuaibe ibne Abi Hâmeza, escriba de Hixame e um dos principais discípulos de Azuri, teria conservado aproximadamente 1 700 de seus hádices, número que oferece uma indicação da quantidade de material processada nas sessões ao longo dos anos. A dimensão dessa atividade é sugerida também pelos relatos sobre livros provenientes da corte que eram designados coletivamente como o "conhecimento de Azuri". Esse material não constituía necessariamente uma biblioteca pessoal do estudioso, mas registros oficiais de suas transmissões produzidos com os recursos administrativos omíadas. A TDV considera esse apoio estatal um elemento fundamental para compreender o sucesso alcançado por Azuri na compilação dos hádices, em vez de interpretar o processo exclusivamente como resultado de iniciativas privadas dos estudiosos.

Jurisprudência e outros campos

Azuri foi também uma autoridade em fiqh. Sua formação com os principais juristas de Medina permitiu-lhe reunir tradições jurídicas relativas a Maomé, aos primeiros califas e às gerações seguintes. Seu conhecimento da chamada sunna māḍiya, isto é, dos precedentes estabelecidos no passado, constituía uma das características pelas quais era procurado pelos governantes. Sua atividade jurídica esteve estreitamente relacionada à transmissão de tradições, e sua longa presença junto à corte omíada fez com que fosse consultado em questões legais e exercesse funções judiciais. Além do hádice e da jurisprudência, Azuri possuía conhecimentos de genealogia, história, recitação do Alcorão e outros campos. Lecker registra que demonstrava interesse também por escatologia, tradições relativas aos profetas e aos Povos do Livro, além do Alcorão, da suna e das genealogias dos beduínos. Uma tradição afirma que, quando lhe perguntavam sobre escatologia, respondia que conhecia muito pouco do assunto; em contrapartida, quando o tema eram os profetas e os Povos do Livro, ou o Alcorão e a suna, era capaz de fornecer amplas genealogias e narrativas.

Historiografia

Azuri ocupa igualmente posição importante no desenvolvimento inicial da historiografia islâmica. Aprendeu história com Urua ibne Azobair e reuniu numerosas tradições referentes à vida de Maomé, às primeiras campanhas islâmicas e aos acontecimentos das gerações iniciais do Islã. Seu método consistia frequentemente em combinar diferentes relatos relativos ao mesmo acontecimento numa narrativa contínua, procedimento que influenciou historiadores posteriores. Seu material histórico foi transmitido por discípulos como Mamar ibne Raxide e posteriormente incorporado a obras de sira e magazi. É atribuída a Azuri uma obra sobre as campanhas de Maomé, conhecida como Maghāzī al-Zuhrī. O texto não se conservou como obra independente, mas grande quantidade de material atribuído a ele sobreviveu em compilações posteriores. A partir desses fragmentos, Süheyl Zekkâr publicou uma reconstrução sob o título al-Maghāzī al-nabawiyya. Também lhe foram atribuídos trabalhos sobre genealogia e outros assuntos, embora a autoria de algumas obras transmitidas sob seu nome seja considerada incerta.

Referências

  1. ↑ Özkan 2013, p. 544.
  2. ↑ Özkan 2013, pp. 544–545.
  3. 1 2 Özkan 2013, p. 545.
  4. 1 2 Özkan 2013, pp. 545–546.
  5. 1 2 3 4 Lecker 2002, p. 565.
  6. 1 2 Özkan 2013, p. 546.
  7. 1 2 3 Özkan 2013, pp. 546–547.
  8. 1 2 Özkan 2013, p. 547.
  9. ↑ Lecker 2002, pp. 565–566.
  10. ↑ Özkan 2013, pp. 547–548.
  11. ↑ Lecker 2002, p. 566.
  12. ↑ Özkan 2013, p. 548.
  13. ↑ Özkan 2013, pp. 548–549.

Bibliografia