Ijelitas

 Nota: Para outros significados, veja Alijeli.

Os ijelitas ou Banu Ijel (em árabe: بنو عجل; romaniz.: Banū ʿIjl) eram uma tribo árabe pertencente aos becritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, segundo a genealogia tradicional, integrante do ramo nizarita dos adenanitas. Descendiam de Ijel ibne Lujaime ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail e constituíam um dos cinco principais ramos becritas, juntamente com os xaibanitas, dulitas, caicitas e hanifaítas. Integravam ainda a confederação dos alaazimitas, ao lado dos caicitas, taimalatitas e anazaítas. Seus principais agrupamentos internos eram os saditas e os rebiaítas, cujas linhagens conservaram posição de destaque desde o período pré-islâmico até as primeiras décadas do domínio muçulmano.

Às vésperas do advento do Islã, os ijelitas estavam entre os mais poderosos grupos becritas, sendo provavelmente inferiores em influência apenas aos xaibanitas. Ocupavam sobretudo uma faixa entre os territórios destes e dos dulitas, estendendo-se pelas regiões próximas ao Eufrates e a Alubula, embora alguns de seus ramos também estivessem presentes na Iamama. A maior parte da tribo era formada por pastores nômades, coexistindo com comunidades sedentárias, e o cristianismo havia alcançado presença significativa entre seus integrantes. Os ijelitas participaram da Batalha de Di Car contra os sassânidas no início do século VII, ocasião em que a tradição atribui o comando das forças árabes ao chefe ijelita Hanzala ibne Talaba.

Durante as Guerras da Apostasia e a conquista muçulmana do Iraque, os ijelitas não adotaram uma posição política uniforme. Enquanto contingentes da tribo se associaram aos muçulmanos e participaram das campanhas de Calide ibne Alualide, outros combateram-nos, entre eles grupos cristãos e o destacado chefe rebiaíta Abejar ibne Jabir. Na Batalha de Ualaja, membros da própria tribo chegaram a lutar em lados opostos. Para Fred Donner, essa cisão demonstra que a participação anterior dos ijelitas em Di Car não pode ser interpretada como evidência de uma orientação permanentemente antissassânida, pois diferentes segmentos seguiram suas próprias alianças políticas e sociais. Apesar dessas divisões, os saditas e rebiaítas conservaram sua proeminência após as conquistas e continuaram a fornecer personagens destacados no primeiro período islâmico.

Genealogia

Os ijelitas (Banu Ijel) eram uma tribo árabe pertencente aos becritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, pela genealogia tradicional, integrante do ramo nizarita dos adenanitas. Sua linhagem era apresentada como Ijel ibne Lujaime ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail. Por meio de Uail ibne Cácite, sua ascendência prosseguia por Cácite ibne Himbe ibne Afexa ibne Dumi ibne Jadila ibne Açade ibne Rebia ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Dessa forma, seu ancestral epônimo, Ijel, era apresentado como irmão de Hanifa, ancestral dos hanifaítas, ambos filhos de Lujaime ibne Sabe. Os ijelitas constituíam um dos cinco principais ramos atribuídos aos becritas no esquema genealógico apresentado por Fred Donner, juntamente com os xaibanitas, dulitas, caicitas e hanifaítas. Além de sua inserção genealógica entre os becritas, os ijelitas integravam a confederação dos alaazimitas (Alaazim), que reunia também os caicitas, taimalatitas e anazaítas, estes últimos pertencentes aos rebiaítas, mas não aos becritas. As fontes utilizadas por Donner indicam que os principais agrupamentos internos da tribo eram os descendentes de Sade e de Rebia ibne Ijel, tendo alcançado particular destaque entre os primeiros o ramo de Jadima ibne Sade. A preeminência dos saditas e rebiaítas é perceptível tanto nos relatos dos Dias Árabes quanto durante o surgimento do Islã e nas primeiras décadas das conquistas muçulmanas, enquanto outros clãs, como os dubaiaítas (Banu Dubaia ibne Ijel), parecem ter ocupado posição comparativamente menos importante.

História

Às vésperas do advento do Islã, os ijelitas constituíam um dos mais importantes agrupamentos dos becritas. Segundo Fred Donner, eram provavelmente inferiores em poder e influência apenas aos xaibanitas, ocupando territórios imediatamente ao sul das áreas dominadas por estes e ao norte ou entremeados às regiões associadas aos dulitas. A maior parte da tribo parece ter sido formada por pastores nômades, embora existissem grupos sedentários estabelecidos ao longo do Eufrates, e Donner considera possível que os ijelitas mantivessem relações particularmente estreitas com Alubula. Os relatos dos Dias Árabes sugerem que seu território se estendia aproximadamente de Alubula para sudoeste até Adana ou Xaquique. As narrativas da conquista muçulmana do Iraque situam-nos sobretudo nos arredores de Alubula e, para noroeste, ao longo da margem direita do Eufrates até algum ponto entre Alubula e Hira, enquanto alguns ramos da tribo parecem ter residido também na Iamama. A liderança interna da tribo parece ter se concentrado sobretudo nos saditas e nos rebiaítas sendo possível que entre os primeiros o ramo de Jadima ibne Sade tivesse particular proeminência. Essa distribuição da liderança aparece nos relatos dos Dias Árabes. Hanzala ibne Saiar, dos saditas, é mencionado como chefe nos confrontos de Falaje e Zuairaine, enquanto Abejar ibne Jabir, dos rebiaítas, comandou toda a confederação de Alaazim no Du Tulu. A proeminência dessas duas linhagens parece ter sobrevivido às transformações associadas ao surgimento do Islã: Abejar continuou a exercer posição de chefia em Cufa, enquanto diversos saditas ocuparam posições destacadas nas décadas posteriores às conquistas. Outros ramos e indivíduos também alcançaram alguma projeção, mas Donner considera que os dubaiaítas, por exemplo, possuíam estatuto geralmente inferior ao dos saditas e rebiaítas.

O cristianismo havia alcançado presença significativa entre os ijelitas antes do advento do Islã. Donner observa que as narrativas da conquista descrevem como cristã uma parcela considerável da tribo, e o chefe rebiaíta Abejar ibne Jabir era cristão quando o Islã surgiu. Os ijelitas estiveram entre os principais grupos becritas que participaram da Batalha de Di Car, travada contra os sassânidas no início do século VII. Ao lado dos xaibanitas, dulitas, caicitas, taimalatitas e iascuritas, enfrentaram o exército enviado de Hira, que reunia forças persas e contingentes de tribos árabes associadas ao poder sassânida. A tradição atribui posição particularmente destacada no confronto a Hanzala ibne Talaba, dos saditas, apresentado como comandante das forças árabes em Di Car. Alguns ijelitas estabeleceram vínculos com os muçulmanos ainda antes da submissão geral das tribos do nordeste da Arábia. Dois irmãos pertencentes à tribo teriam combatido ao lado dos muçulmanos já na Batalha de Badre, em 624, embora Donner ressalte que ambos eram aliados (hulafa) dos aditas, dos coraixitas, de modo que sua participação não permite inferir qualquer aproximação entre a totalidade dos ijelitas e o Estado islâmico. Outro personagem de destaque foi Furate ibne Haiane, dos rebiaítas de Ijel, que anteriormente servira como guia dos coraixitas numa tentativa de contornar o bloqueio comercial imposto por Maomé mediante o envio de uma caravana de Meca ao Iraque. Para Donner, esses episódios sugerem a existência de vínculos entre determinados ijelitas e os coraixitas de Meca, relações que podem ter beneficiado o Estado islâmico depois da conquista de Meca e da incorporação dos coraixitas à elite dirigente. O próprio Furate recebeu de Maomé uma concessão de terras na Iamama e viria a desempenhar papel importante na conquista muçulmana do Iraque.

A atitude dos ijelitas durante as Guerras da Apostasia e a subsequente conquista do Iraque esteve longe de ser uniforme. Um dos principais chefes da tribo, Abejar ibne Jabir, pertencente aos rebiaítas, apoiou a revolta de Alhutame no Barém. O movimento procurava restabelecer na região um governante lácmida e, portanto, restaurar uma autoridade tradicionalmente associada à esfera de influência sassânida. Depois que a revolta foi derrotada por Alalá ibne Alhadrami, Abejar aparentemente fugiu para o norte, em direção ao Iraque, onde continuou a combater os muçulmanos. A participação de um importante chefe ijelita nesse movimento constitui, para Donner, uma advertência contra a interpretação da presença da tribo em Di Car como manifestação de uma hostilidade permanente aos sassânidas ou a seus aliados. Ao mesmo tempo, outros segmentos dos ijelitas alinharam-se precocemente aos muçulmanos. Durante a conquista muçulmana do Iraque, contingentes importantes da tribo integraram o exército de Calide ibne Alualide e combateram nas batalhas de Ualaja e Ulais. Uma parcela dos ijelitas, comandada por Madur ibne Adi, parece inclusive ter se associado aos muçulmanos antes da chegada do exército de Calide. Entre os comandantes ijelitas que serviram nas forças muçulmanas encontrava-se Utaiba ibne Anaás, neto de Hanzala ibne Talaba, o chefe sadita que comandara as forças árabes em Di Car, evidenciando a continuidade da projeção dessa linhagem no período das conquistas. A participação ijelita nas conquistas, contudo, não representou uma adesão coletiva da tribo ao Estado islâmico. Na Batalha de Ualaja, enquanto contingentes ijelitas combatiam no exército de Calide, outros membros da própria tribo enfrentavam-nos ao lado das forças adversárias. Abejar encontrava-se entre estes últimos, e as fontes descrevem os ijelitas muçulmanos combatendo duramente seus companheiros tribais cristãos. Outro comandante, Abede Alaçuade Alijeli, comandava cristãos dos ijelitas, taimalatitas e caicitas contra os muçulmanos. As tradições divergem sobre o destino religioso de Abejar: uma afirma que somente abraçou o islão durante o califado de Omar (r. 634–644), depois que o nordeste da Arábia já estava firmemente submetido ao domínio muçulmano, enquanto outras sustentam que permaneceu cristão até morrer em Cufa, em 666.

Donner conclui, portanto, que os ijelitas, assim como os xaibanitas, apresentaram lealdades políticas divergentes durante a expansão islâmica. Parte da tribo aderiu aos conquistadores, ao passo que outra permaneceu ligada aos persas ou a seus aliados. O autor considera possível que essa cisão tivesse também um componente religioso, uma vez que os grupos que combateram os muçulmanos em Ualaja são identificados pelas fontes como cristãos, mas não considera as evidências suficientes para estabelecer essa associação como regra geral. A atuação dos ijelitas nesse período não pode, assim, ser explicada como simples continuação de sua participação contra os sassânidas em Di Car: diferentes segmentos da tribo adotaram posições distintas conforme suas próprias relações políticas e sociais. Apesar dessas divergências durante as Guerras da Apostasia e a conquista do Iraque, as linhagens que haviam exercido maior influência entre os ijelitas antes do Islã conservaram posição destacada depois da implantação do domínio muçulmano. Donner observa que os saditas e rebiaítas, que aparecem como os principais grupos dirigentes da tribo nos relatos dos Dias Árabes, continuaram proeminentes no primeiro período islâmico. Abejar ibne Jabir, chefe dos rebiaítas que inicialmente se opusera aos muçulmanos, é posteriormente mencionado como chefe em Cufa, enquanto diversos membros dos saditas ocuparam posições de destaque nas décadas posteriores às conquistas.

Referências

  1. 1 2 Lecker 2000, p. 89.
  2. ↑ Donner 1980, p. 16.
  3. ↑ Donner 1980, p. 17.
  4. 1 2 Donner 1980, pp. 21–22.
  5. 1 2 Donner 1980, p. 21.
  6. ↑ Donner 1980, p. 26.
  7. ↑ Donner 1980, pp. 28–29.
  8. 1 2 3 Donner 1980, p. 31.
  9. ↑ Donner 1980, p. 36.
  10. 1 2 3 Donner 1980, pp. 31–32.

Bibliografia