| Federação desportiva mais alta | World Sailing (por meio da International Kiteboarding Association) |
|---|---|
| Outros nomes | Kiteboarding, kitesurfe, flysurfing |
| Jogado pela primeira vez | Década de 1980, França |
| Características | |
| Contacto | Não |
| Membros de equipa | Individual |
| Género misto | Competições separadas |
| Tipo | Desporto aquático, esporte de vento |
| Equipamento | Pipa (kite), barra e linhas, trapézio, prancha |
| Presença | |
| País ou região | Mundial |
| Olímpico | Sim, desde 2024 (Formula Kite) |
| Paralímpico | Não |
Kitesurf (também grafado kitesurfe e conhecido como kiteboarding e, originalmente, flysurfing) é um desporto aquático em que o praticante, de pé sobre uma prancha, é tracionado pelo vento por meio de uma pipa de grande porte, comandada por uma barra ligada a linhas e presa ao corpo por um trapézio. A modalidade se desenvolveu a partir de experimentos na França e nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990, e estreou nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 com a classe Formula Kite.
O Brasil tornou-se um dos principais polos mundiais da modalidade, sobretudo o litoral do Nordeste, onde os alísios sopram de forma constante no segundo semestre. O Ceará recebe etapas do circuito mundial e, segundo a Secretaria do Turismo do estado (Setur-CE), atraiu mais de 347 mil turistas de esportes e aventura em 2025, metade deles motivada principalmente pelo kitesurf. Atletas brasileiros conquistaram títulos mundiais nas modalidades freestyle, ondas e big air.
O nome resulta da junção de duas palavras da língua inglesa: kite (pipa; papagaio, em Portugal; pandorga, no Sul do Brasil) e surf, do verbo to surf (deslizar sobre as ondas). Na imprensa brasileira são correntes as formas kitesurf e kitesurfe; o praticante é chamado de kitesurfista ou, informalmente, kiter.
O passo decisivo foi dado pelos irmãos franceses Bruno e Dominique Legaignoux, de Quimper, que conceberam em 1984 uma pipa de duas linhas para propulsão na água e registraram a primeira patente em 1985. A patente norte-americana da invenção, descrita como uma "asa propulsora com armação inflável", foi concedida em 1987. As primeiras pipas comerciais dos irmãos chegaram ao mercado em 1995–1996 com a marca Wipika.
Nos Estados Unidos, o engenheiro aeroespacial Bill Roeseler e seu filho Cory, que faziam experimentos desde o fim dos anos 1970, fundaram no início da década de 1990 a Kiteski, que vendia conjuntos de pipa para deslizar sobre a água. Em meados daquela década, surfistas como Laird Hamilton ajudaram a difundir a prática no Havaí sob o nome flysurfing.
A partir dos anos 2000, sucessivas gerações de pipas infláveis — com formato em "C", depois as chamadas bow, delta e híbridas — ampliaram a capacidade de reduzir a potência da pipa (depower) e tornaram a modalidade mais acessível e segura. Mais recentemente difundiu-se o uso do hidrofólio (foil) sob a prancha, que permite navegar com ventos mais fracos e em velocidades mais altas. O hidrofólio é o equipamento da classe olímpica Formula Kite, cujas pipas e fólios precisam ser modelos de série registrados pela International Kiteboarding Association.

As pipas de kitesurf dividem-se em dois grandes grupos:
O praticante comanda a pipa por uma barra ligada a ela por quatro ou cinco linhas com dezenas de metros de comprimento. A barra se prende ao trapézio — cinto ou cadeirinha usado na cintura — por uma alça com gancho (chicken loop), de modo que a tração seja suportada pelo corpo e não pelos braços. As barras modernas têm sistema de liberação rápida (quick release), que desconecta a pipa em emergências, e um cabo de regulagem que reduz o ângulo de ataque da pipa e, portanto, a força de tração.
As principais modalidades praticadas e disputadas são:
O kitesurf competitivo é regido pela World Sailing, que delega a gestão das classes à International Kiteboarding Association (IKA). O circuito profissional de freestyle, ondas e big air é organizado pela Global Kitesports Association (GKA), reconhecida pela World Sailing. Fora dos circuitos, o Red Bull King of the Air, na Cidade do Cabo, é a competição de big air de maior projeção; sua 11.ª edição foi disputada em 2023.
O kitesurf estreou em competições olímpicas nos Jogos Olímpicos de Verão da Juventude de 2018, em Buenos Aires, com provas masculina e feminina na modalidade twin tip racing. Em 2019 a World Sailing escolheu a Formula Kite para o programa da vela em Paris 2024, inicialmente num formato de revezamento misto; em junho de 2021 o Comité Olímpico Internacional aprovou a troca por provas individuais masculina e feminina, que substituíram o kite misto e a vela oceânica mista.
Na estreia olímpica, disputada em Marselha em agosto de 2024, a britânica Ellie Aldridge conquistou o ouro feminino, à frente da francesa Lauriane Nolot e da neerlandesa Annelous Lammerts; no masculino venceu o austríaco Valentin Bontus, seguido do esloveno Toni Vodisek e de Maximilian Maeder, de Singapura. O único representante brasileiro, o maranhense Bruno Lobo, bicampeão pan-americano da classe, chegou à semifinal e terminou em sexto lugar.
A Formula Kite segue no programa dos Jogos de Los Angeles 2028, com as provas masculina e feminina marcadas para Belmont Shore, em Long Beach, como as primeiras disputas de medalha da vela, entre 16 e 19 de julho de 2028.

O kitesurf começou a ser praticado no Brasil por volta de 1996 e ganhou projeção em vários estados depois que uma etapa do circuito mundial foi realizada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, na década de 2000. Nos anos seguintes, o esporte se difundiu por vilas de pescadores do litoral nordestino, como as do entorno da Lagoa do Cauípe, em Caucaia (CE), e a Barra Grande, em Cajueiro da Praia (PI), onde a primeira pousada voltada a kitesurfistas foi aberta em 2005. Em 2026, a operadora Vivo estimava em cerca de 110 mil o número de praticantes no país.
O litoral do Nordeste reúne ventos alísios fortes e regulares, água quente, praias extensas, lagoas costeiras e estuários. No Ceará, que tem 573 km de costa, os ventos são mais constantes de agosto a novembro e as rajadas costumam ficar entre 40 e 60 km/h, segundo meteorologistas da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). No Piauí, os ventos mais intensos ocorrem entre agosto e outubro. A temporada de ventos, que concentra o turismo da modalidade, vai aproximadamente de julho a janeiro.

O Ceará é sede frequente do circuito mundial da GKA. Em novembro de 2025, a Praia da Taíba recebeu etapas de ondas e de freestyle, esta última encerrando a temporada e definindo os campeões mundiais. A etapa final do circuito mundial de 2026, o GKA World Kite Fest, foi marcada para 20 a 24 de outubro na Ilha do Guajiru, em Itarema.
Desde 2021 o Instituto Sertões, organizador do Rally dos Sertões, promove o Sertões Kitesurf, rali de downwind em etapas diárias pelo litoral. As edições de 2024 e 2025 ligaram Fortim, no litoral leste do Ceará, à Praia do Preá, no litoral oeste; a sexta edição, de 25 a 28 de novembro de 2026, foi programada de Touros (RN) a Fortim, passando por São Miguel do Gostoso, Galinhos e Grossos.
Em 25 de setembro de 2022, 884 kitesurfistas navegaram juntos na Praia do Cumbuco e estabeleceram o recorde do Guinness World Records de maior desfile de kitesurf, em ação do movimento Winds For Future; uma tentativa anterior, em 2019, havia reunido 596 participantes.
O kitesurf tornou-se um dos motores do turismo no litoral do Nordeste. Segundo a Setur-CE, o turismo de esportes e aventura gerou cerca de R$ 1,14 bilhão de renda no Ceará em 2024, com 297,5 mil visitantes, e cerca de R$ 1,38 bilhão em 2025, com mais de 347 mil; para 2026, a projeção era de 410 mil turistas. Um levantamento da Setur-CE divulgado pelo Visite Ceará atribuiu ao kitesurf, isoladamente, R$ 210 milhões injetados na economia cearense em 2025.
O público é majoritariamente adulto, de 30 a 50 anos e de maior poder aquisitivo, segundo a Associação Brasileira de Kitesurf (ABK). Entre os estrangeiros, os principais mercados emissores para o Ceará são França, Argentina, Portugal e Itália; entre os brasileiros, destacam-se visitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Paraná. Segundo a Setur-CE, cada turista kitesurfista movimenta em média quase R$ 4 mil.
A atividade estimulou escolas, lojas, serviços de guarda e reparo de equipamentos e uma cadeia de hotelaria de alto padrão. Só na região de Caucaia funcionavam, em 2024, cerca de 50 escolas de kitesurf. Na Praia do Preá, a pousada Rancho do Peixe é apontada como pioneira na projeção internacional do destino. Em junho de 2026 começaram ali as obras do primeiro hotel no Brasil da rede tailandesa Anantara, um resort de R$ 150 milhões com previsão de abertura no segundo semestre de 2028, parte de um projeto imobiliário de até R$ 5 bilhões; o governo do estado anunciou R$ 99 milhões em saneamento, drenagem e abastecimento de água na localidade.
O Aeroporto de Jericoacoara, inaugurado em 2017 em Cruz, encurtou o acesso ao litoral oeste cearense; em 2026 o terminal recebia cerca de 265 mil passageiros por ano em voos domésticos e passou, em setembro daquele ano, à administração da Fraport, que prometeu R$ 101,1 milhões em obras.
O crescimento também atraiu marcas e patrocinadores: fabricantes de equipamento mantêm operações e eventos no país, e em 2026 a operadora Vivo passou a patrocinar Bruna Kajiya e Bruno Lobo como embaixadores da modalidade.
Estudos acadêmicos sobre Barra Grande (PI) registram, ao lado da geração de renda, a chegada de empresas estrangeiras, a especulação imobiliária e a absorção da população local sobretudo em postos de baixa remuneração. No Ceará, a imprensa aponta a falta de saneamento e de abastecimento de água em vilas litorâneas, a escassez de mão de obra qualificada e a informalidade como gargalos, além da ausência de regulamentação estadual específica para o kitesurf e o wing foil.
Em unidades de conservação, a atividade é disciplinada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 2016, uma portaria passou a exigir cadastro e autorização anual das escolas de windsurf e kitesurf que operam no Parque Nacional de Jericoacoara; nos Lençóis Maranhenses, o órgão permite a prática em uma das lagoas do parque.
Em 2024 o Senado aprovou, em caráter terminativo na Comissão de Esporte, o Projeto de Lei n.º 2.260/2024, do senador Eduardo Girão, que confere a Caucaia o título de "Capital Nacional do Kitesurf"; a proposta seguiu para a Câmara dos Deputados. No mesmo ano, uma escola pública de Caucaia, na região do Cumbuco, incluiu o kitesurf como disciplina eletiva.