| Mecânica do contínuo |
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Um líquido é um estado da matéria com volume aproximadamente definido, mas sem forma fixa. Quando confinado em um recipiente e submetido à gravidade, um líquido em repouso ocupa sua parte inferior e se adapta às paredes que o contêm. Os líquidos têm baixa compressibilidade e seu volume varia relativamente pouco com a pressão. A densidade de um líquido costuma ser próxima à de um sólido e muito maior que a de um gás longe do ponto crítico. Os líquidos são uma forma de matéria condensada, assim como os sólidos, e uma forma de fluido, assim como os gases.
Em um líquido, as partículas constituintes permanecem próximas umas das outras, mas conservam mobilidade suficiente para mudar continuamente de posição e de vizinhança. As interações entre elas mantêm a coesão do líquido sem fixá-las em posições permanentes. Nos sólidos cristalinos, as partículas ocupam posições ordenadas e seu movimento térmico ocorre em torno dessas posições. Nos gases diluídos, as partículas ficam muito mais afastadas e se movem livremente entre colisões.
Com o aumento da temperatura, a energia térmica e, em geral, a mobilidade das partículas aumentam. A pressão de vapor também cresce. Para uma substância pura, a temperatura de ebulição de equilíbrio corresponde àquela em que a pressão de vapor alcança a pressão externa. Com o resfriamento, a mobilidade das partículas diminui. A cristalização pode ocorrer na temperatura de congelamento correspondente à pressão considerada ou ser retardada por sobre-resfriamento.
A estabilidade da fase líquida depende da temperatura e da pressão. Fora da região líquida de um diagrama de fase, uma substância pode solidificar, vaporizar ou, acima de sua temperatura e pressão críticas, formar um fluido supercrítico.
Apenas dois elementos químicos são líquidos nas condições padrão de temperatura e pressão: mercúrio e bromo. Césio, gálio e rubídio têm pontos de fusão medidos pouco acima da temperatura ambiente. O frâncio também costuma ser incluído entre os elementos com ponto de fusão próximo à temperatura ambiente, mas esse valor não foi medido diretamente, pois o elemento não possui isótopos estáveis e não pode ser isolado em quantidade macroscópica. Uma avaliação do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos recomenda o valor estimado de 300 ± 3 K.
Em fórmulas e equações químicas, o estado líquido pode ser indicado pelo símbolo (l) após a fórmula da substância, como em H2O(l).
Entre as substâncias puras líquidas em condições próximas às ambientes estão a água, o etanol e muitos outros solventes orgânicos. A água líquida é necessária para todas as formas de vida conhecidas. Entre os líquidos inorgânicos dessa categoria estão os solventes inorgânicos não aquosos e muitos ácidos.
Entre as misturas líquidas à temperatura ambiente estão ligas como o Galinstan, composto por gálio, índio e estanho, e alguns amálgamas, ligas que contêm mercúrio. A liga eutética de gálio, índio e estanho pode apresentar sobrefusão. Em amostras estudadas, a fusão ocorreu perto de 10 °C, mas o líquido permaneceu sobre-resfriado até cerca de −10 °C antes de solidificar. Certas misturas, como a liga metálica de sódio e potássio NaK, são líquidas à temperatura ambiente mesmo quando os elementos individuais são sólidos nas mesmas condições, como ocorre em uma mistura eutética. Entre as misturas líquidas cotidianas estão soluções aquosas, como a lixívia doméstica, outras misturas de substâncias diferentes, como óleo mineral e gasolina, emulsões como vinagrete ou maionese, suspensões como o sangue e coloides como tinta e leite.
Muitos gases podem ser liquefeitos por resfriamento e compressão, produzindo líquidos como oxigênio líquido, nitrogênio líquido, hidrogênio líquido e hélio líquido. Nem todos os gases podem formar uma fase líquida a qualquer pressão e temperatura. O dióxido de carbono, por exemplo, não possui fase líquida estável à pressão atmosférica. Seu ponto triplo ocorre a cerca de 0,5185 MPa e 216,58 K. Para obter a fase líquida, é necessário alcançar essa pressão e permanecer na região apropriada de seu diagrama de fases, abaixo da temperatura crítica. O hélio-4 é excepcional: à pressão atmosférica permanece líquido quando resfriado em direção a 0 K e, a temperaturas muito baixas, requer pressão da ordem de 2,5 MPa para solidificar.

Quantidades de líquidos são medidas em unidades de volume. Entre elas estão o metro cúbico, unidade do SI, e seus submúltiplos. O decímetro cúbico corresponde a um litro, com 1 dm3 = 1 L = 0,001 m3. O centímetro cúbico corresponde a um mililitro, com 1 cm3 = 1 mL = 0,001 L = 10−6 m3.
O volume de uma quantidade de líquido de composição fixa é determinado por sua temperatura e pressão. Em geral, os líquidos se expandem quando aquecidos e se contraem quando resfriados. A água entre 0 °C e aproximadamente 4 °C, à pressão atmosférica, é uma exceção.
Os líquidos apresentam pouca compressibilidade. Perto da temperatura ambiente e para pequenos aumentos de pressão, a água comprime-se cerca de 45,8 partes por milhão para cada aumento de 1 bar. Sob cerca de 400 MPa de pressão à temperatura ambiente, a água sofre redução de volume de cerca de 11%. A baixa compressibilidade é útil em sistemas hidráulicos porque limita a energia armazenada na compressão do fluido. Em um fluido confinado em equilíbrio, uma variação de pressão aplicada é transmitida a todas as partes do fluido e às paredes do recipiente, princípio conhecido como princípio de Pascal.
A compressibilidade, embora pequena, não é nula. No golpe de aríete, uma mudança rápida na velocidade do escoamento, como a causada pelo fechamento súbito de uma válvula, produz uma onda de pressão cuja velocidade depende da compressibilidade do líquido e da elasticidade da tubulação. A cavitação tem origem diferente. Ela ocorre quando a pressão local cai suficientemente abaixo da pressão de vapor do líquido, permitindo a formação e o crescimento de cavidades de vapor. Quando essas cavidades chegam a regiões de pressão maior, colapsam e podem produzir jatos, ondas de choque e erosão em superfícies sólidas próximas.
Em um campo gravitacional, os líquidos exercem pressão sobre as paredes do recipiente e sobre qualquer objeto no interior do líquido. Em repouso, a pressão em um ponto atua igualmente em todas as direções e aumenta com a profundidade. Se um líquido está em repouso em um campo gravitacional uniforme, a pressão a uma profundidade é dada por
Nessa expressão, é a pressão na superfície, é a densidade do líquido, suposta uniforme com a profundidade, e é a aceleração gravitacional. Em um corpo de água aberto ao ar, é a pressão atmosférica.
Líquidos estáticos em campos gravitacionais uniformes também apresentam empuxo. A variação da pressão com a profundidade produz sobre um objeto imerso uma força de pressão resultante dirigida para cima, cuja intensidade é igual ao peso do líquido deslocado. Esse é o princípio de Arquimedes. Para um objeto inteiramente submerso, sujeito apenas ao peso e ao empuxo, a força resultante aponta para cima quando sua densidade média é menor que a do líquido e para baixo quando é maior. Ao flutuar em equilíbrio na superfície, o objeto desloca uma quantidade de líquido cujo peso iguala seu próprio peso.

A interface entre um líquido e o gás ou vapor acima dele, quando não é delimitada por uma parede sólida, é chamada superfície livre.
Quando um líquido não ocupa todo o recipiente, pode haver uma superfície livre além das interfaces com as paredes. A presença de uma superfície introduz fenômenos diferentes daqueles encontrados no interior do líquido. Uma molécula na superfície possui um ambiente molecular diferente daquele encontrado no interior. Em termos energéticos, a criação de área interfacial exige energia livre. A tensão superficial corresponde à variação dessa energia livre por unidade de área, sob condições termodinâmicas especificadas, e pode ser expressa em J/m2, equivalentes dimensionalmente a N/m. Líquidos com forças coesivas fortes tendem a apresentar tensões superficiais elevadas.
Em uma interface curva em equilíbrio, com tensão superficial uniforme, a equação de Young-Laplace relaciona o salto de pressão à tensão superficial e aos dois raios principais de curvatura, e :
Os sinais dos raios dependem da convenção adotada. Para uma gota esférica de raio , o módulo do salto de pressão é .
Uma consequência prática da tensão superficial é que os líquidos tendem a minimizar sua área superficial, formando gotas e bolhas aproximadamente esféricas quando outros efeitos, como a gravidade, são pequenos. A tensão superficial também está envolvida em fenômenos como ondas superficiais, capilaridade, molhabilidade e ondulações capilares. Em líquidos sob confinamento em nanoescala, os efeitos de superfície podem predominar porque uma fração muito maior das partículas fica próxima a uma interface.
A molhabilidade de um sólido por um líquido não é determinada apenas pela tensão superficial do líquido. Em uma superfície sólida ideal, o ângulo de contato depende do balanço entre as tensões interfaciais sólido-vapor, sólido-líquido e líquido-vapor. Um líquido de alta tensão superficial, como o mercúrio, pode formar gotas de grande ângulo de contato sobre certos substratos, mas o grau de molhamento depende do par líquido-superfície considerado.
As tensões superficiais de líquidos comuns ocupam uma faixa relativamente estreita de valores quando comparadas à variação de outras propriedades mecânicas, como a viscosidade.

Em uma descrição macroscópica, um líquido simples em repouso não sustenta uma tensão de cisalhamento estática. Quando submetido continuamente a esse tipo de tensão, ele se deforma e escoa. A distinção entre comportamento sólido e fluido pode depender da escala de tempo de observação.
Uma propriedade física que caracteriza o escoamento dos líquidos é a viscosidade. Em termos intuitivos, ela expressa a resistência de um líquido ao escoamento. De forma mais técnica, mede a resistência à deformação a uma determinada taxa, como no cisalhamento causado por um gradiente de velocidade. Um exemplo é o líquido que flui por uma tubulação. Nesse caso, o líquido sofre deformação por cisalhamento porque se move mais devagar junto às paredes do tubo que perto do centro. Como resultado, apresenta resistência viscosa ao escoamento. Para manter o fluxo, é necessário aplicar uma força externa, como uma diferença de pressão entre as extremidades do tubo.
Em 1900, durante a construção do dirigível SDN-4, Santos Dumont adotou lastros líquidos e precisou lidar com a instabilidade causada pelo movimento do líquido.
A viscosidade da maioria dos líquidos diminui com o aumento da temperatura.
O controle preciso da viscosidade é usado em muitas aplicações, em especial na indústria de lubrificantes. Uma forma de obtê-lo é misturar dois ou mais líquidos com viscosidades diferentes em proporções determinadas. Também existem aditivos capazes de alterar a dependência entre temperatura e viscosidade nos óleos lubrificantes. Essa capacidade é útil porque máquinas costumam operar em uma faixa de temperaturas. Ver também índice de viscosidade.
O comportamento viscoso de um líquido pode ser newtoniano ou não newtoniano. Em um fluido newtoniano, a tensão de cisalhamento é proporcional à taxa de cisalhamento e a viscosidade, sob condições fixas de temperatura e pressão, não depende dessa taxa. Água, glicerol e mercúrio apresentam comportamento aproximadamente newtoniano em condições usuais. Em fluidos não newtonianos, a relação entre tensão e taxa de cisalhamento não é linear ou pode depender do histórico de deformação. Ketchup é um exemplo de material com comportamento de afinamento por cisalhamento, enquanto suspensões concentradas de amido podem apresentar espessamento por cisalhamento.
Para ondas sonoras de pequena amplitude e grande comprimento de onda em um líquido, a velocidade adiabática do som pode ser escrita como
em que é o módulo volumétrico adiabático e é a densidade de massa. Para a água em condições próximas às ambientes, o módulo volumétrico é da ordem de 2,2 GPa e a densidade é de aproximadamente 1.000 kg/m3, resultando em velocidade do som da ordem de 1,5 km/s.
A estrutura microscópica dos líquidos foi objeto de intensa pesquisa e debate. Os líquidos consistem em um empacotamento denso e desordenado de partículas. Isso difere das outras duas fases comuns da matéria, gases e sólidos. Embora os gases diluídos sejam desordenados, suas partículas ficam bem separadas no espaço e interagem principalmente por colisões. Nos sólidos cristalinos, as partículas ocupam uma estrutura com ordem de longo alcance, organizada sobre uma rede cristalina. Os vidros são uma exceção a esse último padrão.

Embora os líquidos isotrópicos não apresentem ordem de longo alcance como uma rede cristalina, possuem ordem de curto alcance, que persiste por alguns diâmetros moleculares.
Nos líquidos, interações de volume excluído induzem ordenamento de curto alcance nas posições das partículas. Líquidos monoatômicos clássicos, como argônio e criptônio, são os exemplos mais simples. Eles podem ser modelados como empacotamentos desordenados de esferas, nos quais os primeiros vizinhos ocupam distâncias preferenciais determinadas pelo tamanho das partículas e por suas interações.
Na maioria dos líquidos moleculares, as moléculas não são esféricas, e as forças intermoleculares têm direcionalidade, isto é, dependem da orientação relativa das moléculas. Por isso, existe ordenamento orientacional de curto alcance além do ordenamento posicional. O ordenamento orientacional tem especial relevância em líquidos com ligação de hidrogênio, como a água. A intensidade e o caráter direcional das ligações de hidrogênio levam à formação de redes locais de moléculas. Essas estruturas são dinâmicas e se deformam, rompem e voltam a se formar continuamente sob a ação do movimento térmico.
Embora líquidos comuns não tenham ordenamento de longo alcance, alguns materiais apresentam comportamento intermediário. Os cristais líquidos, por exemplo, escoam como líquidos, mas podem apresentar alinhamento orientacional de longo alcance de suas moléculas. O ordenamento posicional depende da fase: é ausente nos nemáticos, enquanto fases como as esméticas apresentam organização em camadas. Suas propriedades anisotrópicas os distinguem dos líquidos isotrópicos convencionais. Os cristais líquidos são empregados em tecnologias como telas de cristal líquido.
As características microscópicas dos líquidos decorrem da competição entre interações intermoleculares e efeitos entrópicos.
As interações atrativas favorecem configurações nas quais as partículas permanecem próximas, enquanto as interações repulsivas de curto alcance impedem sua sobreposição. Os efeitos entrópicos não são forças mecânicas adicionais no sentido usual. Eles expressam a tendência estatística de o sistema ocupar configurações compatíveis com maior número de microestados. Em gases, isso favorece a dispersão das partículas pelo volume disponível. Nos líquidos, as contribuições energéticas e entrópicas competem, de modo que nenhuma delas pode ser desprezada. Em modelos de líquidos simples, a escala característica de energia das interações pode ter a mesma ordem de grandeza que a energia térmica .
A competição entre energia e entropia torna difícil modelar líquidos em escala molecular, pois não existe um estado de referência idealizado universal que possa ser usado como ponto de partida para descrições teóricas simples. Em termos matemáticos, não há em geral um parâmetro pequeno a partir do qual se possa desenvolver de modo sistemático uma teoria das perturbações. Nos gases, o estado de referência é o gás ideal, e a densidade pode ser usada como parâmetro pequeno para construir uma teoria de gases reais, ou não ideais, como na expansão virial. Para sólidos cristalinos, o estado de referência é uma rede cristalina perfeita, e os possíveis parâmetros pequenos são os movimentos térmicos e os defeitos da rede.
Como todas as formas conhecidas de matéria, os líquidos são, em seu nível fundamental, sistemas de mecânica quântica. Em condições próximas da temperatura e da pressão ambientes, grande parte do movimento de seus átomos ou moléculas pode ser modelada pela mecânica clássica. Na descrição clássica, essas partículas são entidades discretas que interagem por forças interatômicas ou intermoleculares de acordo com as leis de Newton. Suas propriedades podem então ser calculadas pela mecânica estatística clássica. Embora as interações derivem em última análise da mecânica quântica, elas costumam entrar na teoria clássica como dados do modelo, obtidos por ajuste a dados experimentais ou por cálculos eletrônicos. Um exemplo simplificado é um conjunto de moléculas esféricas que interagem pelo potencial de Lennard-Jones.
| Líquido | Temperatura, em K | , em nm | |
|---|---|---|---|
| Hidrogênio, H2 | 14,1 | 0,33 | 0,97 |
| Néon | 24,5 | 0,078 | 0,26 |
| Criptônio | 116 | 0,018 | 0,046 |
| Tetracloreto de carbono, CCl4 | 250 | 0,009 | 0,017 |
Para avaliar a aplicabilidade de uma descrição clássica ao movimento translacional das partículas, compara-se o comprimento de onda térmico de de Broglie,
às escalas de comprimento do sistema. Aqui, é a constante de Planck reduzida, é a massa de uma partícula, é a constante de Boltzmann e é a temperatura absoluta. Os valores da tabela vão de cerca de 0,009 a 0,33 nm.
Se é a densidade numérica, isto é, o número de partículas por unidade de volume, uma estimativa da separação média é . Para partículas de massa , isso equivale a , em que é a densidade de massa. O critério
favorece a aproximação clássica para o movimento translacional, mas não elimina todos os efeitos quânticos internos às moléculas ou às suas ligações.
Um modelo de alta resolução da estrutura líquida pode exigir considerações quânticas mesmo quando as moléculas estão bem localizadas em relação à distância entre elas. Um exemplo é a ligação de hidrogênio em líquidos como a água, em que a pequena massa do próton torna relevantes efeitos como movimento de ponto zero e tunelamento quântico.
Para processos dinâmicos, também é necessário comparar a energia característica das excitações com . Para uma frequência , a condição pode ser escrita, usando o período , como
A 300 K, o lado direito vale aproximadamente s. Esse critério ajuda a delimitar os processos para os quais uma aproximação clássica é adequada.
Em temperaturas muito baixas, o comportamento macroscópico de certos líquidos pode se afastar da mecânica clássica. Hidrogênio e hélio são exemplos. Devido à baixa temperatura e à pequena massa das partículas, esses líquidos podem ter comprimentos de onda térmicos de de Broglie comparáveis à distância média entre partículas.
Em líquidos reais, a resposta mecânica apresenta dispersão e dissipação. Os módulos que relacionam tensão e deformação podem depender da frequência. Com o aumento da frequência, o módulo volumétrico efetivo pode passar de um limite de baixa frequência, , a um limite de alta frequência, . Em líquidos comuns, processos de relaxamento envolvidos nessa transição podem ocorrer nas faixas de GHz a THz, às vezes chamadas de hipersom.
Em baixas frequências, um líquido normal não sustenta ondas de cisalhamento propagantes de longo comprimento de onda, e o limite de frequência zero do módulo de cisalhamento é 0. Em frequências suficientemente altas, porém, a resposta de cisalhamento também pode adquirir caráter elástico.
Na teoria da resposta linear, a dependência temporal da resposta do sistema a uma perturbação está relacionada à dependência em frequência de suas funções de resposta. Quando um líquido formador de vidro é sobre-resfriado em direção à transição vítrea, seu tempo de relaxamento estrutural cresce intensamente, produzindo comportamento viscoelástico.

A ausência de ordem de longo alcance nos líquidos corresponde à ausência dos picos estreitos de difração característicos de cristais na difração de raios X e na difração de nêutrons. Em condições isotrópicas, o padrão de difração apresenta simetria circular. Na direção radial, a intensidade varia suavemente. Essas medidas permitem estudar o fator de estrutura estático . No espalhamento elástico, o módulo do vetor de espalhamento é
em que é o comprimento de onda da radiação ou dos nêutrons e é o ângulo entre o feixe incidente e o espalhado. As oscilações de expressam a ordem de curto alcance do líquido, isto é, as correlações entre uma partícula e as camadas de vizinhos ao seu redor.
Para um líquido homogêneo e isotrópico formado por um único tipo de partícula, uma representação equivalente dessas correlações é a função distribuição radial , relacionada à transformada de Fourier de . Ela exprime a probabilidade relativa de encontrar outra partícula a uma distância . Se é o número médio de partículas em uma casca esférica de raio e pequena espessura , e é a densidade numérica, pode-se escrever aproximadamente

A pressão de vapor de uma substância pura é a pressão de seu vapor em equilíbrio com o líquido, a uma dada temperatura. A temperatura de ebulição de equilíbrio corresponde àquela em que essa pressão de vapor iguala a pressão externa. Por isso, o ponto de ebulição varia com a pressão externa.
A uma temperatura abaixo do ponto de ebulição, uma substância no estado líquido pode evaporar até alcançar equilíbrio com o processo inverso, a condensação do vapor, em um sistema fechado. Esse equilíbrio líquido-vapor exige que ainda reste líquido: uma quantidade pequena pode evaporar por completo antes de saturar o espaço disponível. Quando as duas fases coexistem em equilíbrio, vaporização e condensação ocorrem à mesma taxa. Em um sistema aberto, a remoção contínua do vapor permite que a evaporação prossiga. Um líquido pode permanecer temporariamente acima de seu ponto de ebulição correspondente à pressão considerada em estado de superaquecimento, quando faltam sítios adequados para a nucleação de bolhas.
Abaixo do ponto de congelamento de equilíbrio, um líquido tende a cristalizar, salvo quando ocorre sobre-resfriamento ou quando a substância forma um sólido amorfo. No ponto de fusão ou congelamento, sob uma dada pressão, as fases sólida e líquida podem coexistir em equilíbrio. Para a transição oposta, do sólido para o líquido, ver fusão.
Se um líquido formador de vidro for resfriado sem cristalizar, pode atravessar a transição vítrea e formar um estado amorfo. O vidro resultante é um estado não cristalino fora de equilíbrio que apresenta comportamento sólido em escalas de tempo suficientemente curtas e pode relaxar estruturalmente em escalas maiores. Por isso, não é adequado tratá-lo simplesmente como um líquido em equilíbrio de viscosidade muito elevada.
A curva de coexistência líquido-vapor de um diagrama de fase termina no ponto crítico. Acima da temperatura crítica, uma substância não pode ser transformada em um líquido separado de uma fase gasosa apenas por compressão. Sob temperatura e pressão acima dos valores críticos, desaparece a fronteira de primeira ordem entre líquido e gás e a substância forma um fluido supercrítico.
Para uma substância pura com ponto triplo sólido-líquido-vapor, a fase líquida macroscópica não é estável em equilíbrio abaixo da pressão desse ponto. Para a água, essa pressão é de cerca de 611 Pa. Abaixo desse valor, a fase de equilíbrio pode ser sólida ou gasosa, conforme a temperatura, e as duas podem coexistir sobre a curva de sublimação. Água líquida exposta subitamente a baixa pressão pode sofrer evaporação ou ebulição rápida e resfriamento evaporativo, que pode levar ao congelamento de parte da amostra. O comportamento depende da pressão, da temperatura e das trocas de calor do sistema.
Líquidos podem formar soluções com gases, sólidos e outros líquidos.
Dois líquidos são chamados completamente miscíveis quando podem formar uma única fase líquida em qualquer proporção, sob as condições de temperatura e pressão consideradas. Quando a solubilidade mútua é limitada, são parcialmente miscíveis e podem formar duas fases em certas proporções. O termo imiscíveis é usado quando essa solubilidade é muito pequena. Água e etanol, por exemplo, são miscíveis, enquanto água e gasolina são imiscíveis em condições usuais.
Em alguns casos, uma mistura de líquidos normalmente imiscíveis pode ser estabilizada na forma de emulsão, na qual um líquido fica disperso no outro em gotículas microscópicas. Em geral, isso exige a presença de um tensioativo ou outro agente estabilizante. A maionese é um exemplo de emulsão de óleo e água estabilizada, entre outros componentes, pela lecitina presente na gema de ovo.
Os líquidos são usados como lubrificantes porque podem formar uma camada fluida entre superfícies sólidas em movimento relativo. Lubrificantes como óleos são escolhidos por características de viscosidade e escoamento adequadas à temperatura de operação do componente. Óleos são usados em motores, caixas de engrenagens, trabalho de metais e sistemas hidráulicos.
Muitos líquidos são usados como solventes para dissolver outros líquidos ou sólidos. Soluções são empregadas em tintas, selantes e adesivos. Nafta e acetona são usadas com frequência na indústria para remover óleo, graxa e alcatrão de peças e máquinas. Os fluidos corporais têm componentes dissolvidos em água, mas nem todos são simples soluções. O sangue, por exemplo, contém células e plaquetas suspensas no plasma.
Tensioativos são comuns em sabões e detergentes. Solventes como álcool são usados como antimicrobianos. Eles também estão presentes em cosméticos, tintas de escrita e lasers de corante. Na indústria alimentícia, solventes são empregados em processos como a extração de óleo vegetal.
Líquidos tendem a apresentar condutividade térmica maior que a dos gases, e sua capacidade de escoar permite transportar calor para longe de componentes mecânicos. O calor pode ser retirado ao conduzir o líquido por um trocador de calor, como um radiador, ou por evaporação. Água ou fluidos à base de glicol são usados para impedir o superaquecimento de motores. Entre os fluidos de refrigeração empregados em reatores nucleares estão a água e metais líquidos, como sódio ou bismuto. Filmes de propelente líquido são usados para resfriar câmaras de empuxo de foguetes. Na usinagem, água e óleos removem o excesso de calor gerado. Durante a transpiração, a evaporação retira calor do corpo. Em sistemas de climatização, líquidos como a água transferem calor de uma região para outra.
Líquidos são usados com frequência na culinária por sua capacidade de transferir calor por condução e convecção. Em recipientes aquecidos, diferenças de densidade provocadas pela temperatura podem estabelecer correntes de convecção que redistribuem energia pelo líquido.
Durante uma mudança de fase de uma substância pura a pressão constante, a temperatura permanece constante enquanto coexistem as duas fases em equilíbrio. Na vaporização, o calor fornecido corresponde ao calor latente de vaporização. Na condensação, a mesma quantidade de energia por unidade de massa é liberada no processo inverso. Essa transferência de calor é empregada em processos como o cozimento a vapor.
Como componentes de uma mistura podem apresentar volatilidades diferentes, líquidos ou misturas condensáveis podem ser separados por destilação. O processo combina vaporização e condensação, podendo empregar alterações de temperatura e pressão. A destilação é usada na produção de bebidas alcoólicas, em refinarias de petróleo e na destilação criogênica de componentes do ar após sua liquefação.
Sistemas hidráulicos utilizam fluidos confinados para transmitir potência, com transmissão de pressão baseada no princípio de Pascal. Bombas hidráulicas transferem trabalho mecânico ao fluido, enquanto dispositivos como rodas de água fazem a conversão oposta, extraindo trabalho do movimento da água. Óleos são impulsionados por bombas hidráulicas e atuam sobre cilindros hidráulicos. Sistemas hidráulicos são empregados em freios automotivos, transmissões, máquinas pesadas e sistemas de controle de aeronaves. Prensas hidráulicas são usadas em reparos e manufatura para levantar, prensar, fixar e conformar materiais.
Metais líquidos têm propriedades úteis em sensores e atuadores, em especial sua condutividade elétrica e baixa compressibilidade. Como podem sofrer grandes deformações mantendo continuidade elétrica, foram propostos para uso em robôs moles e dispositivos vestíveis. O gálio é um candidato a essas aplicações porque tem ponto de fusão próximo de 30 °C, apresenta baixa toxicidade em sua forma metálica e possui baixa volatilidade.
Líquidos são empregados em alguns instrumentos de medição. Um termômetro pode usar a dilatação térmica de líquidos, como o mercúrio, junto com sua capacidade de escoamento, para indicar a temperatura. Um manômetro usa uma coluna de líquido para determinar diferenças de pressão.
A superfície livre de um líquido em rotação uniforme em torno de um eixo vertical assume, sob condições ideais, a forma de um paraboloide de revolução e pode ser usada como espelho de um telescópio. Esses instrumentos são chamados telescópios de espelho líquido. Eles podem ser construídos a custos menores que telescópios convencionais de abertura semelhante, mas, quando dependem da gravidade para formar o espelho, apontam apenas para a direção vertical, como telescópios zenitais. O mercúrio foi uma escolha comum para o líquido refletor.
Métodos para prever propriedades de líquidos podem ser organizados pela escala de descrição, isto é, pelas escalas de comprimento e de tempo em que se aplicam.
Correlações empíricas são expressões matemáticas simples destinadas a aproximar propriedades de um líquido em uma faixa de condições experimentais, como diferentes temperaturas e pressões. Elas são obtidas por ajuste de formas funcionais a dados experimentais. A dependência da viscosidade com a temperatura de certos líquidos, por exemplo, pode ser aproximada pela função , em que é a temperatura absoluta e e são constantes de ajuste. Essas correlações permitem estimativas rápidas de propriedades físicas, mas exigem dados experimentais adequados e não podem ser extrapoladas com segurança muito além da faixa ajustada.
Potenciais termodinâmicos são funções que caracterizam o estado de equilíbrio de uma substância. Um exemplo é a energia livre de Gibbs , função da pressão e da temperatura para uma quantidade de matéria e composição fixas. Quando o potencial adequado é conhecido como função completa de suas variáveis naturais, outras propriedades de equilíbrio podem ser obtidas por derivadas e relações termodinâmicas. Assim, uma única representação de um potencial pode substituir correlações independentes para muitas propriedades. Diferentes medidas experimentais, como densidade, capacidade térmica e pressão de vapor, podem entrar no mesmo ajuste de uma equação de estado.
Teorias hidrodinâmicas descrevem líquidos por campos macroscópicos que variam no espaço e no tempo, como densidade, velocidade, pressão e temperatura. Esses campos obedecem a leis de conservação escritas como equações diferenciais parciais. As equações de Navier-Stokes governam o balanço de quantidade de movimento de um fluido viscoso newtoniano. Em problemas compressíveis ou com transferência de calor, elas são resolvidas junto com a equação de continuidade, uma equação de energia e relações constitutivas ou termodinâmicas. Existem muitos métodos para resolver numericamente esses sistemas.
Métodos mesoscópicos operam em escalas de comprimento e tempo situadas entre os níveis molecular e macroscópico. Por isso, combinam elementos da dinâmica de partículas e da hidrodinâmica contínua.
Um exemplo é o método de Boltzmann em rede, que modela um fluido como populações de partículas fictícias que se propagam em uma rede discreta e sofrem etapas de colisão. O método tem relação conceitual com a equação de transporte de Boltzmann, mas as partículas e colisões do modelo não correspondem necessariamente a moléculas e colisões moleculares reais. Trata-se de uma descrição de granulação grossa que costuma operar em escalas maiores que as da dinâmica molecular.
Outros métodos de simulação com partículas exigem distinções quanto à escala que representam. A hidrodinâmica de partículas suavizadas discretiza equações do contínuo por meio de partículas de cálculo, que não correspondem a moléculas individuais. A dinâmica de partículas dissipativas e a dinâmica de colisão multipartícula utilizam partículas de modelos mesoscópicos para reproduzir propriedades hidrodinâmicas e flutuações do fluido.
Métodos microscópicos de simulação trabalham diretamente com as equações de movimento, clássicas ou quânticas, das partículas constituintes.
A dinâmica molecular clássica simula líquidos a partir das leis de movimento de Newton. Pela segunda lei de Newton, , as trajetórias das partículas podem ser calculadas numericamente e usadas para estimar propriedades macroscópicas do líquido, como densidade ou viscosidade. A dinâmica molecular clássica exige um modelo para as interações interatômicas ou intermoleculares. Esses modelos podem ser parametrizados a partir de dados experimentais, cálculos quânticos ou uma combinação dos dois.
Métodos de dinâmica molecular ab initio calculam as forças a partir de uma descrição eletrônica baseada em mecânica quântica, em vez de usar um campo de força clássico previamente parametrizado. Na formulação usual, o movimento dos núcleos ainda é calculado pelas leis da mecânica clássica. A inclusão de efeitos quânticos nucleares exige uma extensão do método. Na prática, esses cálculos empregam aproximações numéricas e eletrônicas e têm custo computacional muito maior que a dinâmica molecular clássica, em especial para sistemas grandes e longas escalas de tempo.