| O Cego | |
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Primeira página do drama, edição de 1863 | |
| Autoria | Joaquim Manuel de Macedo |
| Enredo | |
| Gênero | Drama romântico |
| Personagens | Paulo, Maria, Daniel, mãe de Paulo, irmão de Paulo |
| Atos | 5 |
| Outras informações | |
| Data da estreia | 1849 |
| Idioma original | Português |
| País | |
O Cego é um drama romântico em cinco atos, escrito por Joaquim Manuel de Macedo e encenado em 1849.
A obra é estruturada em cinco atos, que giram em torno de Paulo, jovem que perde a visão, e do desenlace trágico de seu casamento com Maria, mulher também amada por seu próprio irmão. Assim como Cobé, é considerada pela crítica uma das peças de maior vigor dramático do autor, e ganhou renovada atenção no século XXI tanto por sua construção formal híbrida entre tragédia clássica e drama romântico quanto pela presença de Daniel, um dos primeiros personagens negros do teatro brasileiro moderno.
A peça acompanha Paulo, que perde a visão e vive na expectativa de casar-se com sua amada Maria. Central ao enredo está o fato de que o próprio irmão de Paulo também ama Maria, o que gera, ao longo dos cinco atos, uma progressão que vai do preparo da cerimônia de casamento ao sacrifício, ao ciúme e, por fim, a uma vingança movida pela paixão. Apesar de apenas o primeiro e os dois últimos atos serem centrados diretamente na figura de Paulo, todos os acontecimentos da peça se reportam, de alguma forma, à sua cegueira. A ação é acompanhada por Daniel, guia do protagonista cego, e um dos raros personagens negros do teatro romântico brasileiro da época.
Já em 1866, Machado de Assis destacava O Cego e Cobé como sendo a produção de maior vigor e originalidade dramática de Macedo, em contraste com peças posteriores como Lusbela e Luxo e Vaidade, que considerava um "regresso imprevisto" na trajetória do autor.
A pesquisadora Fernanda Verdasca Botton dedicou um estudo específico à obra em 2013, no qual argumenta que O Cego articula o subjetivismo típico do drama romântico ao destino inexorável dos heróis da tragédia clássica: enquanto a tradição grega associa a cegueira à sabedoria (como em Tirésias), Macedo inverte esse sentido, fazendo da falta de visão física de Paulo o elemento que o entrega ao destino trágico.
João Roberto Faria situa O Cego entre as primeiras peças do romantismo brasileiro a incluir um personagem negro, Daniel, guia do protagonista; observa, porém, que a peça não expressa nenhuma preocupação com o problema da escravidão, ao contrário do que Macedo faria vinte anos depois nas novelas As Vítimas-Algozes (1869), já de forte colorido abolicionista, o que Faria atribui ao fato de que, em 1849, a própria ideia de abolição ainda não estava na ordem do dia política do país. Colin M. Pierson também identifica Daniel como o primeiro personagem negro do drama brasileiro moderno, notando que, tal qual outras peças do período, O Cego não aborda a escravidão diretamente, tratando antes de um problema contemporâneo à burguesia: o casamento por conveniência.
A pesquisadora Miriam Garcia Mendes observa que a cor de Daniel funciona, na peça, apenas como indicadora de sua condição social provável, sem que o autor explore sua dimensão psicológica ou proponha qualquer crítica à ordem escravista. O próprio personagem se declara "grato e fiel eternamente" e se compara a um "cão fiel" aos pés de seu senhor, como exemplo característico da forma como boa parte da literatura brasileira de meados do século XIX idealizava a natureza passiva e submissa do escravo.