O Forasteiro

 Nota: Para o livro de Zane Grey, veja Riders of the Purple Sage. Para outros significados, veja Foreigner.
O Forasteiro
Capa da 2ª edição em livro
Autor(es)Joaquim Manoel de Macedo
IdiomaPortuguês
País Brasil
GéneroRomance histórico
EditoraA Marmota (folhetim); B. L. Garnier (livro)
Lançamento1855 (folhetim); 1856 (livro)

O Forasteiro é um romance histórico de Joaquim Manuel de Macedo, publicado originalmente em folhetins no jornal A Marmota, a partir de 4 de fevereiro de 1855, e depois em livro, em duas edições sucessivas. Segundo o próprio Macedo relata no prefácio, trata-se de sua primeira composição romanesca, escrita por volta de 1838-1839, quando tinha apenas dezoito anos, mas só publicada quinze anos depois.

Ambientado em Itaboraí, terra natal do autor, no ano de 1743, o romance narra a história de Leonel, um jovem enjeitado de origem desconhecida, e de seu amor por Branca, sobrinha e pupila do fazendeiro Rafael, que a destina em casamento a Jorge, filho do usurário Cláudio Góes.

Enredo

A ação se inicia em 24 de junho de 1743, dia da festa de São João Batista, quando dois lavradores, Anselmo e seu sobrinho André, encontram na estrada perto de Itaboraí um velho misterioso e encapuzado, de barba e cabelos brancos, que se identifica apenas como "o Forasteiro". O velho demonstra conhecimento extraordinário sobre a vida de todos os moradores da região, inclusive sobre Branca, sobrinha e pupila do fazendeiro Rafael, prometida em casamento a Jorge, filho do usurário Cláudio Góes, apesar de o povo desconfiar que o coração da moça pertença a outro homem. O Forasteiro também elogia longamente as virtudes de Leonel, um jovem enjeitado (órfão de origem desconhecida) conhecido por toda a região por sua generosidade com os pobres, e prediz que, ao contrário do esperado, vinte cavaleiros (e não dezoito) participarão do tradicional jogo das cavalhadas realizado à tarde.

A predição se confirma: no meio da festa, dois cavaleiros desconhecidos se apresentam inesperadamente para disputar as cavalhadas, e um deles, vestido de negro e com o rosto oculto por viseira, encanta a multidão com sua destreza, oferecendo a Branca uma das argolinhas de ouro que conquista na disputa, para espanto geral e ciúmes mal disfarçado de Jorge. À noite, durante um baile de máscaras oferecido por Rafael, o mesmo cavaleiro reaparece disfarçado de índio, provocando alvoroço entre os convidados, até revelar-se secretamente a Iveta, filha da india Cyriaca (ama de leite de Branca) e irmã de criação do próprio desconhecido, que o casamento entre Branca e Jorge já está tratado entre as famílias. A notícia devasta tanto Iveta, que ama secretamente Jorge, quanto Branca, que não deseja o casamento. Ao se retirar, o misterioso cavaleiro é interceptado pelo próprio Forasteiro, que demonstra já conhecer sua identidade e trata-o com afeição quase paternal, driblando sistematicamente as tentativas de Rafael e dos demais personagens de descobrir quem ele realmente é. O restante da trama acompanha os desdobramentos desse triângulo amoroso e do mistério que envolve tanto a identidade de Leonel quanto a do próprio Forasteiro, cuja generosidade misteriosa e origem desconhecida movem boa parte da ação.

Análise

A pesquisadora Paula Maciel Barbosa, em tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo, recupera uma observação da fortuna crítica sobre a datação de O Forasteiro: se for verdade que o romance, publicado apenas em 1855, já estava pronto desde 1838, como alegou o próprio Macedo, ele seria cronologicamente o primeiro romance brasileiro e, sendo "um tecido de assaltos e tropelias", o gênero teria começado no Brasil pela exploração literária da violência na zona rural, e não pela pintura de costumes urbanos que consagraria Macedo poucos anos depois com A Moreninha.

Já em 1863, o crítico austríaco Ferdinand Wolf, em sua história da literatura brasileira, classificava O Forasteiro como um romance "sério", nele identificando um traço característico não apenas da obra de Macedo, mas dos romancistas brasileiros em geral: o gosto pelo mistério, fazendo de um estrangeiro, de um desconhecido, de um homem mascarado ou de uma criança enjeitada, como o próprio Leonel, um dos principais recursos da ação, tendência que Wolf atribuía à herança cultural portuguesa e espanhola. O próprio enredo de O Forasteiro, organizado em torno da identidade oculta de um enjeitado (Leonel) e de um velho misterioso e generoso (o Forasteiro) que parece saber de tudo e proteger o herói como uma sombra, é citado como um dos primeiros exemplos, na obra de Macedo, desse mecanismo de "jogo de máscaras" que o autor viria a repetir, de forma ainda mais elaborada, em romances posteriores como O Moço Loiro.

Referências

  1. ↑ Bibliografia de Joaquim Manuel de Macedo
  2. ↑ «O forasteiro». Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos (NUPILL/UFSC). Consultado em 27 de julho de 2026
  3. 1 2 Macedo, Joaquim Manuel de. «O forasteiro: romance brasileiro (Tomo I)» (PDF). 2ª ed. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, [1856?]; digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (USP). Consultado em 27 de julho de 2026
  4. ↑ CANDIDO, Antonio. "Os Ultramarinos". In: Vários Escritos. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre Azul, 2004. p. 99 apud BARBOSA, Paula Maciel. O idílio degradado: um estudo do romance Til, de José de Alencar. Tese (Doutorado em Letras) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em: https://www.academia.edu/80537422/. Acesso em: 27 de julho de 2026.
  5. ↑ WOLF, Ferdinand. Le Brésil littéraire: histoire de la littérature brésilienne. Berlim: Ascher, 1863. p. 236 apud PEDRON, Olivo. O Moço Loiro: narrativa e personagens. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1978. p. 10.