Programa Nuclear Paralelo

Programa Nuclear Paralelo
Tipo de projetoPrograma de pesquisa e desenvolvimento nuclear
Fundação1979

O Programa Nuclear Paralelo, chamado oficialmente Programa Autônomo de Tecnologia Nuclear (PATN), reuniu pesquisas brasileiras para produzir, no próprio país, tecnologias do ciclo do combustível nuclear. Começou em 1979, durante a ditadura militar brasileira, em paralelo ao acordo de cooperação nuclear com a Alemanha Ocidental. Participaram institutos civis e as três Forças Armadas.

As instalações do programa não estavam sujeitas às inspeções previstas no acordo com a Alemanha. A Marinha pesquisou o enriquecimento de urânio e a propulsão nuclear de submarinos. O Exército, a Aeronáutica e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) seguiram outras linhas. A existência do PATN tornou-se pública na década de 1980.

Integrado à estrutura nuclear nacional em 1988, o programa teve desdobramentos distintos: projetos do Exército e da Aeronáutica foram desativados no início da década seguinte, enquanto a pesquisa naval continuou.

Origem e organização

As dificuldades enfrentadas pelo acordo de 1975 com a Alemanha, sobretudo na transferência da tecnologia de enriquecimento de urânio, levaram o governo a reunir num programa nacional autônomo parte das pesquisas que institutos civis e militares brasileiros desenvolviam desde a década de 1950. A iniciativa começou em 1979 e recebeu financiamento e supervisão ligados à Presidência. A coordenação coube a uma secretaria-geral, com participação técnica das três Forças Armadas e da CNEN.

Uma exposição de motivos de 1985 definia como objetivo geral do PATN desenvolver competência nacional para o uso amplo da energia nuclear, incluindo a propulsão naval e a produção de explosivos nucleares para fins pacíficos. A Marinha buscava tecnologia para um submarino de propulsão nuclear, enquanto pesquisadores civis trabalhavam nas etapas do combustível. O Exército e a Aeronáutica conduziam projetos próprios.

As instalações vinculadas ao programa autônomo não eram abrangidas pelas inspeções internacionais aplicadas ao acordo germano-brasileiro. A pesquisa de tecnologias que poderiam ser usadas em armas convivia com os objetivos declarados de propulsão naval e de aplicações pacíficas. Michael Barletta concluiu que o conjunto do PATN não constituiu uma campanha unificada para fabricar uma bomba, embora grupos da Aeronáutica se interessassem por explosivos nucleares.

Projetos

A Marinha dividiu seu trabalho entre o Projeto Ciclone, dedicado à ultracentrifugação do urânio, e o Projeto Remo, voltado para a propulsão de um submarino nuclear. A Marinha pesquisou o combustível em parceria com o IPEN. A linha da Marinha continuou após o fim do PATN, integrou atividades nucleares civis e deu sequência ao projeto do submarino.

O Projeto Atlântico, do Exército, pesquisou a produção de grafita nuclearmente pura para moderar reatores de urânio natural e planejou um reator pequeno capaz de produzir plutônio. A Aeronáutica conduziu o Projeto Solimões, que pesquisava o enriquecimento de urânio por laser, fontes de energia para satélites e explosivos nucleares apresentados como de uso pacífico. A CNEN ficou com o Procon, para produzir compostos de urânio, o Celeste, para estudar o reprocessamento de combustível, e o projeto Metalurgia, para preparar urânio metálico. Também realizou o controle radiométrico e ambiental das instalações.

Relatos publicados em 1990 atribuíram a uma investigação parlamentar a afirmação de que o Instituto de Estudos Avançados, ligado à Aeronáutica, teria projetado dois dispositivos de bomba atômica. A descrição de Yana Feldman, publicada pelo SIPRI, apresenta essa informação como relato da imprensa, sem afirmar que os dispositivos chegaram a ser construídos. A interpretação de que uma capacidade nuclear latente bastaria para dissuadir a Argentina também aparece em análises do período, mas não descreve, por si só, o objetivo de todos os participantes do programa.

Abertura e encerramento

A transição para o governo civil em 1985 trouxe o programa para o debate público. Em 1987, o presidente José Sarney anunciou que o Brasil havia conseguido enriquecer urânio por ultracentrifugação. No ano seguinte, a CNEN registrou a integração do PATN ao Programa Nacional de Energia Nuclear. O Congresso criou uma comissão parlamentar mista de inquérito em 1990 para investigar o que a resolução chamou de "Programa Autônomo de Energia Nuclear".

Fernando Collor de Mello coloca cal sobre um poço de testes na Serra do Cachimbo
Fernando Collor de Mello durante a cerimônia de fechamento do poço de testes na Serra do Cachimbo, em 1990.

Em setembro de 1990, Collor visitou a Serra do Cachimbo e fechou simbolicamente o poço preparado pela Aeronáutica para testes de explosivos nucleares. O programa da Marinha continuou a desenvolver o combustível e a propulsão naval.

José Goldemberg, secretário da Ciência e Tecnologia no governo Collor, avaliou que o trabalho do Exército ainda era rudimentar em 1990. Para ele, o da Aeronáutica, embora mais avançado, não ia além do que se esperaria de um estudante de mestrado nos Estados Unidos.

Ver também

Notas

  1. ↑ Essas inspeções fazem parte das salvaguardas nucleares: os países declaram materiais e instalações, e os inspetores verificam se são usados para os fins pacíficos previstos. Agência Internacional de Energia Atômica.
  2. ↑ Num reator, a grafita pode desacelerar os nêutrons produzidos pela fissão. Para funcionar bem, precisa conter poucas impurezas que absorvam esses nêutrons. Agência Internacional de Energia Atômica.
  3. ↑ Reprocessar combustível nuclear usado significa separar por meios químicos materiais ainda aproveitáveis daqueles que precisam ser tratados como resíduos. Agência Internacional de Energia Atômica.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 Leite, Alixandro Werneck; Assis, Jonathan de Araujo de; Côrrea, Fernanda das Graças (2016). «Propulsão nuclear» (PDF). Mapeamento da base industrial de defesa. Brasília: ABDI/Ipea. pp. 264–266. ISBN 978-85-6132-341-7
  2. 1 2 David, Eduardo Giacomin de (2024). Os átomos e os quartéis: a temática nuclear no pensamento militar brasileiro (1985–2000) (PDF) (Dissertação). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. pp. 69–73. Cópia arquivada (PDF) em 25 de março de 2025
  3. 1 2 3 4 «Cronologia da energia nuclear no Brasil». Biblioteca Digital Memória da CNEN. Consultado em 29 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 9 de maio de 2026
  4. 1 2 3 Patti, Carlo (15 de novembro de 2012). «Origins and Evolution of the Brazilian Nuclear Program (1947–2011)». Wilson Center. Consultado em 29 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 16 de janeiro de 2026
  5. ↑ Maria Regina Soares de Lima. «Acordo Nuclear Brasil-Alemanha». Atlas Histórico do Brasil, Fundação Getulio Vargas. Consultado em 29 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 18 de outubro de 2026
  6. 1 2 3 4 Barletta, Michael (1997). «The Military Nuclear Program in Brazil» (PDF). Center for International Security and Arms Control, Stanford University. Consultado em 29 de outubro de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 21 de setembro de 2026
  7. 1 2 Feldman, Yana. «Countries and issues of nuclear strategic concern: Brazil». Stockholm International Peace Research Institute. Arquivado do original em 3 de julho de 2010
  8. ↑ Martins Filho, João Roberto (2011). «O projeto do submarino nuclear brasileiro». Contexto Internacional. 33 (2): 277–314. Cópia arquivada em 1 de dezembro de 2022
  9. ↑ «IPEN 70 anos: em 1979, estrutura muda, e nasce o IPEN». Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares. Consultado em 29 de outubro de 2026
  10. ↑ «Resolução n.º 1, de 1990-CN». Câmara dos Deputados. 19 de abril de 1990. Consultado em 29 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 22 de setembro de 2021
  11. ↑ Sá, Andrea de (2015). «Brazil's Nuclear Submarine Program: A Historical Perspective». The Nonproliferation Review. 22 (1): 10–11. doi:10.1080/10736700.2015.1070044

Leitura adicional

Ligações externas