Salmane Reis

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Salmane Reis
Nascimento
Morte
NacionalidadeOtomano
Ocupação

Salmane Reis ou Salmão Reis (em turco otomano: سلمان رئیس; romaniz.: Selmân Reis; m. 1528), erroneamente identificado como Soleimão (em turco otomano: سليمان; romaniz.: Süleymân) por João de Barros, foi um corsário, navegador e comandante naval otomano que atuou no Mar Vermelho e no oceano Índico durante as primeiras décadas do século XVI. De origem incerta, é descrito pelas fontes portuguesas como turco natural de Mitilene, em Lesbos, enquanto a tradição otomana afirma que cresceu entre os levendes do Argel otomano. Inicialmente serviu ao Sultanato Mameluco do Cairo na luta contra a expansão portuguesa, participando de operações na Índia, em Gidá e no Iêmem, antes de passar ao serviço do Império Otomano após a conquista do Egito por Selim I. Como comandante naval, Salmane participou da defesa de Gidá contra uma frota portuguesa em 1517 e tornou-se um dos principais defensores de uma política otomana ativa no oceano Índico.

Em relatório apresentado ao governo em 1525, descreveu as posições portuguesas na região, avaliou as forças navais disponíveis e sustentou que a segurança das rotas comerciais entre o Egito, o Mar Vermelho e a Índia dependia da expulsão dos portugueses de suas principais bases. Posteriormente retornou ao Iêmem, onde participou das disputas pelo controle de Zabide, Taiz e Adem e estendeu a presença otomana sobre grande parte da região. A crescente influência de Salmane no Iêmem provocou uma disputa com Cairadim Bei, formalmente nomeado serdar da região. Em 1528, enquanto Salmane continuava as operações contra os portugueses, Cairadim aliou-se a parte dos levendes e ordenou sua morte. Apesar do fim violento, sua atuação contribuiu para o estabelecimento da presença naval otomana no Mar Vermelho e para a formulação de uma política destinada a conter a expansão portuguesa no oceano Índico.

Vida

As primeiras décadas da vida de Salmane Reis são pouco conhecidas. Segundo fontes portuguesas, era turco e natural de Mitilene, em Lesbos, sendo, portanto, conterrâneo e contemporâneo de Cairedim Barba-Ruiva. Enquanto as fontes otomanas afirmam que cresceu entre os levendes no Argel otomano, adquiriu experiência náutica e participou de numerosos combates no Mediterrâneo como corsário, há também informações de que trabalhou durante algum tempo como carpinteiro naval. Em data incerta, Salmane entrou ao serviço do Sultanato Mameluco do Cairo, aparentemente no contexto da cooperação naval entre otomanos e mamelucos contra a expansão portuguesa no oceano Índico, documentada entre 1507 e 1514. Quando o sultão Muzafar II (r. 1511–1526) de Guzarate, na Índia, e o sultão taírida Amir ibne Abede Aluaabe, do Iêmem, solicitaram ao sultão mameluco do Cairo Cançu Algauri (r. 1501–1516) auxílio contra a ameaça portuguesa, Salmane participou dos preparativos navais mamelucos. Em 917 A.H. (1511), foi nomeado capitão de uma frota de cinquenta galés preparada em Suez, enquanto Mirocém foi designado comandante e governador de Gidá. Ao chegar à cidade, a frota precisou deixar ali parte de suas provisões e munições, levando Salmane e Mirocém, com o auxílio do xarife Baracate II (r. 1497–1525) de Meca, a construir rapidamente uma fortaleza.

No verão de 1515, Algauri ordenou uma nova expedição contra os portugueses no oceano Índico. Tratava-se da segunda grande tentativa mameluca de intervir militarmente na região, depois da expedição de 914 A.H. (1508–1509), e Salmane e Mirocém receberam conjuntamente o comando da frota, que partiu no final de 921 A.H. (1515) em resposta aos apelos de Muzafar II. Os dois comandantes levaram artilharia, armas de fogo, provisões e munições. Ao chegarem ao porto de Diu, aliaram-se a Muzafar numa tentativa de expulsar os portugueses da região, mas não conseguiram tomar Goa, que havia sido fortificada e guarnecida com soldados e artilharia. A frota retornou então ao Iêmem e estabeleceu-se na ilha do Camarão, onde os dois comandantes construíram outra fortificação para armazenar a artilharia e as munições mais pesadas. Segundo Soucek, embora o objetivo inicial fosse combater os portugueses no oceano Índico, a expedição acabou concentrando suas atividades na construção de uma posição fortificada no Camarão, próximo ao estreito de Babelmândebe, destinada a impedir incursões portuguesas no Mar Vermelho, e nas operações militares realizadas no Iêmem. Diante da escassez de provisões e da recusa de Amir em prestar o auxílio solicitado, passaram a obter mantimentos mediante ataques ao litoral iemenita. Com o apoio dos zaiditas, inimigos do sultão, Mirocém conquistou Zabide em 19 de Jumada Alula de 922 A.H. (20 de junho de 1516). Cerca de um mês depois, ele e Salmane prepararam uma frota de 22 galés e duas barcas para atacar Adem.

A frota chegou a Adem em 3 de Rajabe de 922 A.H. (2 de agosto de 1516). Salmane desembarcou e instalou seu acampamento nas proximidades da fortaleza. Apropriou-se das mercadorias de um navio pertencente ao sultão Amir que deixava o porto com destino à Índia e enviou embarcações, tripulações e material a Muzafar, informando-lhe da conquista do Iêmem e da intenção de organizar posteriormente uma campanha destinada a expulsar os portugueses das costas indianas. Salmane e Mirocém instalaram-se junto à fortaleza de Sira e bombardearam as defesas de Adem, mas a resistência conduzida por Murjane Alamiri, governador da cidade, impediu sua conquista. Salmane foi ferido em três lugares durante uma surtida dos defensores, e muitos de seus homens morreram num segundo confronto. Quando Abalmaleque ibne Abede Aluabe, irmão de Amir, chegou de Taiz com um exército de socorro, o cerco foi levantado. Salmane e Mirocém partiram em 11 de Rajabe (10 de agosto); Salmane passou sucessivamente por Zeilá, Moca, Mutaina, Camarão e Luaia, antes de regressar a Gidá. Após a morte de Mirocém e a conquista do Egito pelos otomanos, Salmane foi convocado ao Cairo pelo sultão Selim I. Enquanto se preparava para partir, recebeu em 21 de Rabi Alaual de 923 A.H. (13 de abril de 1517) a notícia da aproximação de uma frota portuguesa e, a pedido da população, permaneceu temporariamente em Gidá. A situação é confirmada por uma carta do próprio Salmane a Selim, datada de 25 de Rabi Alaual (17 de abril), na qual informou que não poderia abandonar seu posto para comparecer diante do sultão porque uma frota portuguesa se aproximava e seus homens se preparavam para enfrentá-la. Uma nota marginal acrescentada no dia seguinte registrou que o ataque havia sido repelido, mas que Salmane ainda não podia deixar a cidade diante da possibilidade de uma nova investida.

Em 26 de Rabi Alaual (18 de abril), uma frota portuguesa composta por trinta barcas e galés atacou a cidade. Embora quatro embarcações de Salmane tenham sido inicialmente incendiadas, ele defendeu a fortaleza e o porto e impediu o desembarque português. Com algumas galés, contra-atacou a frota inimiga e afundou duas ou três embarcações mediante fogo de artilharia. A defesa de Gidá foi posteriormente considerada uma demonstração da capacidade defensiva de uma frota mediterrânica de galés diante de navios oceânicos. Salmane seguiu posteriormente para Suez e Cairo, onde foi recebido por Selim I em 10 de Xabã de 923 A.H. (28 de agosto de 1517). Segundo Marino Sanuto, teria sido encarcerado no Cairo pelo governador Cair Bei e posteriormente enviado acorrentado, em fevereiro de 1518, ao encontro de Selim em Damasco, possivelmente em consequência das acusações de maus-tratos à população. Em 27 de Rabi Atani de 924 A.H. (8 de maio de 1518), durante uma reunião do divã em Marje Dabique, o sultão ordenou que fosse levado a Istambul. Sabe-se que Salmane se encontrava na capital em 1519 e se comprometeu a preparar uma frota de trinta galés e várias barcas para enfrentar a ameaça portuguesa no Mar Vermelho. Posteriormente perdoado, regressou de Istambul a Suez, que se tornou a base daquilo que viria a ser a frota otomana do oceano Índico; segundo Soucek, Salmane pode ter sido seu primeiro comandante.

Campanhas no Iêmem

Em 929 A.H. (1523), Salmane foi recebido pelo governador otomano do Egito, Haine Amade Paxá, a quem apresentou detalhadamente seus conhecimentos sobre o Iêmem. Recebeu então instruções para regressar à região juntamente com o novo governador de Gidá, Rumi Huceine Bei. Após os preparativos em Suez e a incorporação de levendes à sua força, dirigiu-se a Gidá, onde embarcou artilharia, pólvora e outros materiais, e seguiu para o litoral iemenita. Ao constatar que os portugueses haviam ocupado Camarão, atacou a ilha com algumas embarcações, matou a maior parte dos ocupantes e ali estabeleceu seus levendes. Salmane e Huceine exigiram então a submissão de Caramani Iscandar Bei, governante de Zabide. Embora Iscandar se mostrasse disposto a aceitar, seus soldados se opuseram. Salmane solicitou auxílio aos xeques de Iafi e Mara e ao xarife Izaldim, governante de Jizã, e marchou contra Zabide. Derrotou as forças de Iscandar, sitiou a fortaleza e destruiu suas portas e partes das defesas. Iscandar acabou solicitando salvo-conduto e entregando a fortaleza. Depois de novos confrontos, Salmane tomou Zabide e, em Rajabe de 930 A.H. (maio de 1524), entregou-a a Huceine.

Em 1525, ao saber que o grão-vizir Pargale Ibraim Paxá se encontrava no Cairo, Salmane regressou ao Egito e lhe apresentou suas opiniões sobre a situação no Iêmem. Em relatório datado de 10 de Xabã de 931 A.H. (2 de junho de 1525), destacou a importância das rotas do comércio marítimo com a Índia e sustentou que, para garantir sua segurança, seria necessário recuperar as fortalezas que haviam caído em poder dos portugueses. Informou que a frota otomana estacionada em Gidá possuía seis galés bastardas, oito galés, três galeotas e uma embarcação menor, armadas no total com 298 canhões, e considerava possível expulsar os portugueses da região caso fossem fornecidas tripulações suficientes. No mesmo documento, enumerou entre as possessões portuguesas Ormuz, Diu, Goa, Calecute, Cochim, Ceilão e Sumatra, além de fornecer informações sobre Zabide, Taiz, Saná e Adem e salientar a importância de Suaquém, Zeilá e das terras da Abissínia. A Encyclopaedia of Islam caracteriza esse memorando como uma expressão particularmente eloquente dos esforços de Salmane para despertar a atenção de Istambul para a ameaça portuguesa e para as possibilidades estratégicas do oceano Índico. Nele, defendia o fortalecimento da frota otomana no Mar Vermelho, descrevia os principais portos da Península Arábica e do oceano Índico e avaliava a força portuguesa nessas águas e as possibilidades de um ataque otomano destinado a expulsá-la.

Ibraim Paxá manteve Huceine no cargo e enviou Salmane novamente ao Iêmem com novas ordens. Pouco depois, Huceine adoeceu e morreu, deixando como sucessor Mustafá Bei. Salmane, que também pretendia assumir o governo, retornou ao grão-vizir e afirmou que, se recebesse tropas e autoridade suficientes, poderia conquistar todo o Iêmem e eliminar a presença portuguesa. Ibraim reuniu quatro mil levendes turcos no Egito, colocou-os sob o comando de Cairadim Bei como serdar e confiou a Salmane o comando da frota e dos assuntos navais. Depois de concluir os preparativos, Salmane chegou a Gidá entre 21 e 30 de junho de 1526. Ali confiscou a metade das receitas da cidade pertencente ao xarife Abu Numai Maomé II (r. 1525–1583) de Meca. Cronistas do período relatam que os levendes também se apropriaram de bens dos comerciantes e participaram de saques juntamente com grupos árabes, contribuindo para uma grande escassez que ficou conhecida como fome de Salmane.

Salmane e Cairadim seguiram posteriormente para Meca à frente de milhares de levendes e soldados armados com mosquetes e realizaram a peregrinação. Depois de regressarem a Gidá, onde efetuaram reparos nas embarcações, partiram para o Iêmem. Salmane recusou-se a reconhecer a autoridade de Mustafá Bei em Zabide, argumentando que Cairadim havia sido nomeado governador do Iêmem e que Mustafá não possuía autoridade. Após derrotá-lo, tomou Zabide, nomeou seu próprio homem Emir Iunus para administrá-la e conquistou Taiz. Em seguida, marchou contra os zaiditas e derrotou Ibne Hâmeza, que posteriormente conseguiu tomar Zabide e saquear os bens de Salmane. Com o auxílio das tribos de Iafi e Mara, Salmane recuperou a cidade. No final de 933 A.H. (setembro de 1527), Salmane avançou contra Adem, onde Mustafá Bei havia procurado refúgio. Derrotou-o e mandou sua cabeça para Zabide, onde foi exposta publicamente em 1 de Moarrão de 934 A.H. (27 de setembro de 1527). Dessa maneira, Salmane conseguiu impor seu domínio sobre Adem e sobre grande parte do Iêmem. No mesmo ano, dirigiu-se à ilha do Camarão com cerca de dois mil soldados rumes (anatolianos) e promoveu a recuperação da ilha.

Morte e legado

Em 1528, Salmane continuava combatendo os portugueses e teria capturado ou afundado sete de suas embarcações. Sua conduta violenta, contudo, provocou forte descontentamento entre a população e agravou suas relações com Cairadim Bei. Embora este tivesse sido formalmente nomeado serdar do Iêmem, permanecera encarregado da guarda das embarcações enquanto Salmane assumira o comando das tropas e conduzira pessoalmente as campanhas terrestres. Incomodado com essa situação, Cairadim aliou-se aos levendes e mandou matar Salmane no final de 934 A.H. (agosto–setembro de 1528). Outra tradição situa sua morte em 935 A.H. Depois da execução, Cairadim enviou Sinane Capitão a Zabide para confiscar os bens de Salmane. Seu sobrinho Mustafá Bairame e seu protegido Coja Safar, contudo, reagiram e posteriormente eliminaram Cairadim. A carreira de Salmane tem recebido interpretações divergentes na historiografia. Alguns historiadores o consideram defensor de uma política otomana destinada a assumir papel predominante na proteção do oceano Índico e das rotas comerciais e de peregrinação do mundo islâmico ameaçadas pela expansão portuguesa. Outros salientam, em sentido contrário, a oposição que encontrou, sua prisão no Cairo apesar de ter contribuído para salvar Gidá de um ataque português e o apoio limitado que recebeu para concretizar seus projetos.

Para Soucek, essas circunstâncias podem indicar que o governo otomano atribuía então prioridade relativamente baixa à base e à frota de Suez, política que contrastava com os esforços de Salmane para chamar a atenção de Istambul para os desafios representados pelos portugueses e para as possibilidades de atuação no oceano Índico. Salmane desempenhou, apesar dessas limitações, papel destacado no estabelecimento da presença otomana no Mar Vermelho e na resistência à expansão portuguesa. Além de sua atuação militar, seus relatórios ao governo otomano contribuíram para chamar a atenção de Istambul para a importância estratégica das rotas do oceano Índico e para a necessidade de uma política naval destinada a enfrentar a presença portuguesa na região. Seu memorando de 1525 constitui um dos principais testemunhos dessa concepção estratégica, ao defender o fortalecimento da frota do Mar Vermelho e examinar as posições portuguesas e as possibilidades de ação otomana contra elas.

Referências

  1. ↑ Machado 1979, p. 286.
  2. ↑ Castanheda 1979, p. 1024.
  3. ↑ Barros 1946, p. 9.
  4. 1 2 3 4 Soucek 1997, p. 135.
  5. 1 2 3 4 Bostan 2009, p. 444.
  6. ↑ Bostan 2009, pp. 444–445.
  7. ↑ Soucek 1997, pp. 135–136.
  8. 1 2 3 4 Bostan 2009, p. 445.
  9. 1 2 3 4 Soucek 1997, p. 136.
  10. ↑ Bostan 2009, pp. 445–446.
  11. 1 2 Bostan 2009, p. 446.

Bibliografia