Samitas

Os samitas ou Banu Same (em árabe: بنو سهم), foram um clã árabe dos coraixitas de Meca, descendente de Same ibne Anre, bisneto de Cabe ibne Luai. Constituíam um dos dez principais ramos dos coraixitas e, desde a reorganização de Meca atribuída a Cuçai ibne Quilabe, integravam os Coraixe Albitá, isto é, os grupos estabelecidos nas proximidades da Caaba. Durante a época pré-islâmica, figuravam entre os clãs economicamente prósperos e politicamente influentes da cidade, dedicavam-se ao comércio e exerciam funções ligadas à administração do santuário mecano, incluindo a arbitragem de disputas e a custódia dos bens consagrados aos ídolos. Possuíam residências, poços e um bairro próprio nas imediações da Caaba, cuja passagem para o santuário ficou conhecida como Porta dos Banu Same. Nas disputas políticas entre os coraixitas, aliaram-se aos abedadaritas contra os abedemanafitas e integraram a coalizão dos alafitas, permanecendo posteriormente à margem do Hilfe Alfudul.

No início da pregação de Maomé, grande parte dos samitas esteve entre seus opositores em Meca. Seu chefe, Alás ibne Uail, destacou-se entre os adversários do islã, e outros membros do clã participaram das iniciativas coraixitas destinadas a impedir a difusão da nova religião. Apesar disso, os samitas também estiveram representados entre os primeiros muçulmanos. Cunais ibne Hudaifa converteu-se ainda nos primeiros anos da pregação, e integrantes do clã participaram das migrações para a Abissínia. A maioria continuou a apoiar a oposição aos muçulmanos até a Conquista de Meca, em 630, após a qual o clã aderiu ao islã e seus membros passaram a participar das campanhas do nascente Estado muçulmano.

O samita de maior projeção nos primórdios do islã foi Anre ibne Alás, que se converteu pouco antes da conquista de Meca e recebeu de Maomé o comando da Expedição de Date Assalacil e posteriormente o governo de Omã. Sob os primeiros califas, os samitas participaram das conquistas muçulmanas, destacando-se particularmente na conquista muçulmana do Egito sob Anre, que, ao fundar Fostate, estabeleceu membros de seu clã nas proximidades da mesquita central da cidade. Embora parte dos samitas permanecesse no Hejaz, outros se estabeleceram no Egito, na Síria e em outras regiões do califado. Durante a Primeira Guerra Civil Islâmica, apoiaram os adversários de Ali ibne Abi Talibe na Batalha de Sifim e posteriormente mantiveram vínculos com os omíadas. Além de Anre, o clã produziu numerosos companheiros de Maomé, militares, transmissores, historiadores e juristas nos primeiros séculos do islã.

História

Origens e período pré-islâmico

Os samitas eram um clã da tribo árabe dos coraixitas de Meca. O clã recebeu seu nome de Same ibne Anre, cuja genealogia era Same ibne Anre ibne Huçaice ibne Cabe ibne Luai ibne Galibe ibne Fir. Seu nome original seria Zaíde, e sua descendência teria prosseguido por meio de seus dois filhos, Sade e Suaide. Os samitas constituíam um dos dez principais ramos dos coraixitas. Até a época de Cuçai ibne Quilabe, quando ocorreu a primeira concentração dos coraixitas no território do harame de Meca, viviam, como os demais ramos da tribo, dispersos em tendas fora da cidade. Com a reorganização promovida por Cuçai, passaram a integrar os chamados Coraixe Albitá, os ramos coraixitas instalados nas proximidades da Caaba. Os samitas possuíam propriedades e estruturas de importância na cidade. Albaladuri menciona uma residência denominada Dar Alajala, pertencente a Saíde ibne Sade, neto de Same, como uma das construções importantes de Meca, embora rejeite a alegação dos samitas de que ela teria sido edificada antes da Dar Anadua. Os poços de Ganre e Maranrame, também chamado Ranrame, escavados pelo clã, forneciam água aos habitantes da cidade e aos peregrinos. A passagem que conduzia do bairro dos samitas à Caaba tornou-se conhecida como Porta dos Banu Same; a primeira porta propriamente dita nesse local foi construída pelo califa abássida Almançor. O lugar, que a tradição identificava como um dos pontos da Mesquita Sagrada onde Maomé mais frequentemente realizava suas orações, recebeu posteriormente um dos minaretes do complexo. Uma parte considerável do antigo bairro dos samitas foi incorporada à Mesquita Sagrada durante a ampliação realizada no reinado de Almançor.

Na época pré-islâmica, os samitas exerciam funções relacionadas à administração de Meca e da Caaba. Alharite ibne Caice, membro do clã, era responsável pela hucuma (hūkūma), isto é, a arbitragem de disputas, e pelos amwāl al-muḥajjara, os bens consagrados aos ídolos e cuja custódia constituía uma das funções associadas ao santuário. Como outros ramos coraixitas, os samitas dedicavam-se intensamente ao comércio e incluíam numerosos membros da aristocracia mecana. Sua prosperidade econômica foi acompanhada pelo crescimento demográfico do clã, que teria alcançado dimensão comparável à dos abedemanafitas. Nos primeiros anos do islã, contudo, uma epidemia teria causado a morte de parcela considerável de seus integrantes. Uma tradição afirma ainda que, depois do estabelecimento dos coraixitas em Meca, os ucaixitas (Banu Ucaixe), um ramo dos samitas, foram o primeiro grupo a provocar desordens no interior do harame e que sofreram diversas calamidades depois de levarem sua rebelião longe demais. Na disputa pelas magistraturas de Meca surgida algum tempo depois de Cuçai, os samitas apoiaram os abedadaritas contra os descendentes de Abede Manafe e aderiram à coalizão dos alafitas, também denominada Hilfe Lacate Adame. Os dois grupos chegaram a preparar-se para um confronto armado, evitado pelo acordo que repartiu as funções entre as facções coraixitas. Os samitas conservaram posteriormente sua vinculação à coalizão e não participaram do Hilfe Alfudul. Entre os responsáveis pelos atos de injustiça cuja ocorrência teria motivado a formação desse último pacto figuravam três membros dos samitas: Alás ibne Uail, Hudaifa ibne Caice e Nubai ibne Alhajaje. Em outra disputa interna dos coraixitas, contudo, os samitas se opuseram à tentativa de Harbe ibne Omaia, pai de Abu Sufiane ibne Harbe, de expulsar injustamente os aditas de Meca e apoiaram Abede Almotalibe, avô de Maomé. Quando os coraixitas reconstruíram a Caaba em 605, os samitas participaram das obras e, juntamente com os jumaítas, aditas e os descendentes de Amir ibne Luai, ficaram responsáveis pela reconstrução da parte posterior da fachada ocidental do edifício.

Período islâmico

Como ocorreu com outros ramos dos coraixitas, uma parte considerável dos samitas reagiu à pregação de Maomé. Num poema atribuído a Abu Talibe, os samitas são mencionados juntamente com os maquezumitas entre os clãs que mais se destacavam pela hostilidade ao islã e ao profeta. Quando os coraixitas dividiram entre seus integrantes as principais vias de acesso a Meca para impedir que os peregrinos que chegavam à cidade entrassem em contato com Maomé, Nubai ibne Alhajaje e seu irmão Munabi figuraram entre os dezessete homens encarregados da tarefa; ambos também participaram da reunião realizada na Dar Anadua contra Maomé. Durante o período mecano, o chefe dos samitas era Alás ibne Uail, que havia comandado o clã em diversos conflitos da época pré-islâmica, incluindo as Guerras Sacrílegas, e se tornou um dos adversários mais destacados do islã. A tradição exegética relaciona Alás e Alharite ibne Caice à revelação do versículo 43 da sura al-Furqan, em razão de suas zombarias contra Maomé. Outra tradição associa a sura at-Takathur à rivalidade entre os samitas e os abedemanafitas na ostentação da quantidade de riquezas, filhos e parentes. Abedalá ibne Azibara, outro samita que somente aderiu ao islã depois da Conquista de Meca, também compôs, antes de sua conversão, poemas contra Maomé e a nova religião. Apesar da oposição de grande parte do clã, houve entre os samitas conversões desde os primeiros anos da pregação. Quatorze membros do grupo, incluindo seus aliados, participaram das migrações para a Abissínia. Entre os primeiros convertidos encontrava-se Cunais ibne Hudaifa, que aderiu ao islã sob a influência de Abu Becre em data bastante antiga, antes de Maomé começar a reunir seus seguidores na Casa de Alarcame. Seus irmãos Abedalá e Caice também aderiram ao islã. Hixame ibne Alás, depois de receber a notícia da Hégira enquanto se encontrava na Abissínia, regressou a Meca, onde foi aprisionado por seu pai e por outros dirigentes samitas, conseguindo migrar para Medina somente em 7 A.H. (629). No dia seguinte à Batalha de Uude, durante a Expedição de Hâmera Alaçade, Maomé designou Salite e Anumane, filhos do samita Sufiane ibne Calide, como batedores encarregados de observar o exército coraixita. A maioria dos samitas, porém, continuou apoiando a luta contra os muçulmanos até a conquista de Meca. Depois da tomada da cidade, aderiram ao islã como os demais clãs coraixitas e participaram de diversas campanhas, especialmente da expedição contra Taife. Após a Batalha de Hunaine, Maomé incluiu alguns integrantes dos samitas entre os al-mu'allafa qulubuhum, aos quais foram concedidas parcelas dos despojos com o objetivo de consolidar sua adesão à nova ordem.

Alguns anos antes da conquista de Meca, Anre ibne Alás também havia aderido ao islã. As fontes divergem quanto à data de sua conversão, mas o relato considerado mais verossímil a situa em 629 ou 630, pouco antes da Conquista de Meca por Maomé em 630. Segundo essa versão, converteu-se juntamente com os coraixitas Calide ibne Alualide e Otomão ibne Tala. De acordo com o próprio testemunho de Anre, transmitido por seu descendente de quarta geração Anre ibne Xuaibe, sua conversão ocorreu no Reino de Axum na presença do Negus, e ele encontrou Maomé em Medina depois do regresso deste da Batalha de Caibar, em 628. Segundo um relato citado pelo historiador Ibne Açaquir, Anre condicionou sua conversão ao perdão de seus pecados anteriores e à concessão de um "papel ativo nos assuntos" da comunidade. Em outubro de 629, Maomé encarregou Anre de comandar a Expedição de Date Assalacil, provavelmente realizada no norte do Hejaz, missão que lhe oferecia também a perspectiva de obter despojos de guerra. O objetivo da expedição não é claro, embora o historiador Fred M. Donner conjecture que se destinasse a dispersar uma concentração de grupos tribais hostis, possivelmente apoiados pelo Império Bizantino. Segundo Ibne Hixame, Anre reuniu os árabes nômades da região para guerrear contra a Síria bizantina. Entre os grupos visados pela expedição estavam os cudaaítas em geral e os balitas em particular. A avó paterna de Anre pertencia aos Bali, circunstância que pode ter contribuído para sua escolha como comandante, pois Maomé o instruiu a recrutar membros dessa tribo e de outros grupos cudaaítas, entre eles os alcainitas e os udraítas. Depois da expedição, uma delegação dos Bali aderiu ao islã. Anre reforçou posteriormente seus vínculos com a tribo ao casar-se com uma mulher Bali, com quem teve seu filho Maomé.

Maomé nomeou Anre governador de Omã, função na qual permaneceu até receber a notícia da morte do profeta, em 632. Anre havia sido pessoalmente escolhido por Maomé para entregar uma carta aos reis de Omã, os irmãos julândidas Abede e Jaifar, convidando-os a aderir ao islã, e foi acompanhado na missão por Saíde ibne Auce Alançari. Segundo Albaladuri, ao enviá-los a Soar, Maomé determinou que, caso os habitantes de Omã aceitassem a mensagem islâmica e se submetessem a Deus e a seu profeta, Anre exerceria o comando, enquanto seu companheiro conduziria as orações, devendo ambos propagar o islã e ensinar o Alcorão e as instituições estabelecidas pelo profeta. A morte de Maomé levou diversas tribos árabes a rejeitarem a autoridade do recém-formado Estado muçulmano sediado em Medina, desencadeando as Guerras da Apostasia. O sucessor de Maomé, o califa Abu Becre (r. 632–634), encarregou Anre de submeter os grupos cudaaítas que haviam se rebelado, entre os quais estavam ramos dos Bali estabelecidos no Hejaz. As campanhas de Anre, apoiadas pelo comandante Xurabil ibne Haçana, conseguiram restabelecer a autoridade de Medina até a fronteira setentrional com a Síria. A partir do califado de Abu Becre, os samitas participaram das primeiras conquistas muçulmanas. Integrantes do clã acompanharam Anre ibne Alás na conquista muçulmana do Egito. Quando fundou Fostate, Anre instalou os samitas nas proximidades da mesquita central da nova cidade e estabeleceu bens de waqf em benefício deles. Uma parcela significativa dos samitas permaneceu no Hejaz, enquanto outros integrantes migraram para diferentes regiões do califado, sobretudo para a Síria. Na Batalha de Sifim, os samitas estiveram entre os grupos que se posicionaram contra Ali ibne Abi Talibe e posteriormente continuaram a apoiar os omíadas. Os samitas conservaram reputação por seus conhecimentos acerca da Caaba e das práticas relacionadas à peregrinação e, depois do advento do islã, passaram a ser mencionados sobretudo no contexto mais amplo dos coraixitas. Entre os membros mais conhecidos do clã estiveram Anre ibne Alás, conquistador do Egito; Hixame ibne Alás, um dos primeiros muçulmanos e morto na Batalha de Ajenadaim; Abedalá ibne Anre; Abedalá ibne Hudaifa, que levou uma carta de Maomé ao xá sassânida; Cunais ibne Hudaifa, participante da Batalha de Badre; Abu Caice ibne Alharite, que participou das campanhas de Maomé desde Uude e morreu na Batalha de Iamama; Saíde ibne Alharite, morto na Batalha do Jarmuque; e, em períodos posteriores, estudiosos como Iáia ibne Otomão, especialista na história e nos transmissores do Egito, o tradicionalista e historiador Hâmeza ibne Iúçufe e o jurista Abede Alhaque ibne Maomé.

Referências

  1. 1 2 3 Küçükaşcı 2009, p. 323.
  2. ↑ Küçükaşcı 2009, pp. 323–324.
  3. ↑ Ibne Isaque 1955, p. 116.
  4. ↑ Ibne Sade 2013, p. 307.
  5. ↑ Ibne Isaque 1955, pp. 147–148.
  6. 1 2 Küçükaşcı 2009, p. 324.
  7. ↑ Wensinck 1960, p. 451.
  8. 1 2 Lecker 1989, p. 27.
  9. ↑ Lecker 1989, pp. 27, 33.
  10. ↑ Donner 1981, p. 67.
  11. ↑ Donner 1981, pp. 65, 101–102.
  12. ↑ Donner 1981, p. 102.
  13. 1 2 3 Donner 1981, p. 104.
  14. ↑ Lecker 1989, p. 28.
  15. ↑ Lecker 1989, p. 28, nota 34.
  16. ↑ Lecker 1989, pp. 27–28.
  17. ↑ al-Rawas 1990.
  18. ↑ Donner 1981, pp. 104–105.
  19. ↑ Donner 1981, p. 111.